Oposicionismo religioso

Livres dos Fardos Religiosos

 

Diz o ditado que “os opostos se atraem”. Mas, no campo religioso, isso não é verdade. Ser contra os princípios religiosos de uma igreja ou religião poderá fazer com que sejamos repelidos por muitos.

 

Para mim, oposicionismo religioso é a prática de opor-se a certas crenças, doutrinas e práticas religiosas. É fazer oposição, ser do contra.

 

O oposicionismo, muitas vezes, é necessário. Afinal, não podemos concordar com tudo. Mas ele pode ser positivo ou negativo.

 

 

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Descrição: Oposicionismo. Data: maio/2014. Autor: Maralvestos. Licença CC BY-SA.

 

No oposicionismo positivo, a pessoa discorda de outras formas de pensar e agir, mas critica tudo com palavras construtivas, descentes e respeitosas, baseadas em estudos mais profundos, estimulando o amor ao próximo, a tolerância e a união das pessoas que possuem ideias diferentes. Esse é o caminho correto.

 

No oposicionismo negativo, por outro lado, a pessoa discorda de outras formas de pensar e agir, mas critica tudo com palavras destrutivas, vilipendiosas e injuriosas, baseadas, muitas vezes, em pensamentos preconcebidos, fazendo brotar o ódio, a intolerância, a discriminação, a segregação e a perseguição. Esse não é o caminho correto.

 

Diferentes formas de pensar e agir

Oposicionismo positivo

Críticas com palavras construtivas, descentes e respeitosas, baseadas em estudos mais profundos

Amor

Tolerância

União

Oposicionismo negativo

Críticas com palavras destrutivas, vilipendiosas e injuriosas, baseadas, muitas vezes, em ideias preconcebidas

Ódio

Intolerância

Discriminação, segregação, perseguição

Descrição: Oposicionismo positivo e negativo. Data: maio/2014. Autor: Maralvestos. Licença CC BY-SA.

 

Exemplo de oposicionismo positivo sobre templos: “Eu acredito que fomos libertos dos templos construídos por mãos humanas. Jesus nos mostrou que ‘Deus é Espírito, e importa que os que o adoram o adorem em espírito e em verdade.’ (João 4:24, RC.) [1] ‘O Deus que fez o mundo e tudo que nele há, sendo Senhor do céu e da terra, não habita em templos feitos por mãos de homens.’ (Atos 17:24, RC.) [2] O nosso corpo é o templo do Espírito Santo de Deus. (1 Coríntios 6:19.) [3] Então, não precisamos nos preocupar com templos religiosos. Eles devem ser respeitados. Mas não precisamos ficar mais praticando nenhum ritual, nenhuma liturgia em qualquer templo. Precisamos, na verdade, deixar Deus estar presente em Espírito em nossos corações sempre.”

 

Exemplo de oposicionismo negativo sobre igrejas como templos: “Esses idiotas não entendem que Deus é Espírito, que fez todas as coisas e que não precisa de obras de construção humana como morada. Correm atrás de templos de tijolos porque seus corpos imundos não servem como morada do Espírito Santo de Deus. Então vivem escravos das igrejas materiais, que são templos da grande Babilônia.”

 

Percebeu a diferença? É claro que muitos não gostam de nenhum tipo de crítica. Gostam apenas de elogios. Mas são os oposicionistas negativos que realmente estimulam o ódio, a intolerância e coisas do gênero.

 

O oposicionismo também pode ser moderado ou radical. No moderado, a pessoa aprende a rejeitar o que acha que não é bom e guarda o que considera bom. O oposicionista moderado não vê defeito em tudo, mas apenas em alguns pontos. Doutra forma, o oposicionista radical rejeita tudo que é do outro. Vê o outro como uma pessoa totalmente repugnante, desprezível, sem Deus e coisas parecidas.

 

Algumas espécies de oposicionismo religioso.

 

Antipoliteísmo. O patriarca Abraão deu um grande passo ao abandonar a multidão de ídolos endeusados da antiga Caldéia, procurando cultuar o Deus único e invisível. (Gênesis 12.1-9; Josué 24.2.) [4] Ele e os seus descendentes se tornaram antipoliteístas. Todavia, ele e, principalmente, os seus descendentes ainda continuaram com muitas práticas religiosas que faziam parte das antigas crenças politeístas como o sacrifício de animais, o templo e muito mais coisas.

 

Antijudaísmo. Jesus foi mais longe, mostrando que muitas coisas da religião do seu povo, os judeus, podem ser deixadas para trás. Por isso, muitos seguidores de Jesus tem sido antijudaístas, mostrando que muitas práticas judaicas não são necessárias para agradar a Deus. Também, muitos atos maus dos judeus, usando o nome do Senhor, devem ser abandonados, como a vingança, por exemplo. Algumas pessoas, como eu, não concordam com tudo que os judeus fizeram no passado. Males como: abusos sexuais, pena de morte, condenação de inocentes, preconceito, discriminação, segregação, intolerância, perseguição, chauvinismo, perseguição, escravização, genocídio, infanticídio, depredação, saque, rapto de mulheres, guerras, etc., nada disso que foi praticado pelos ancestrais do povo judeu, ainda que tenha sido em nome de Deus, não podemos aprovar ou louvar. Mas isso não significa que devemos odiar esse povo. Mas infelizmente, muitos oposicionistas radicais têm tratado os judeus com palavras e atos nojentos. Muitos religiosos da Europa preferiram seguir as trilhas do antijudaísmo negativo ou antissemitismo, semeando ódio, intolerância, segregações e perseguições ao povo judeu. Hitler e o seu nazismo foram aos extremos. Ser contra práticas religiosas e comportamentos judaicos do passado não é nenhum problema, pois Jesus nos mostrou um caminho onde podemos viver bem com Deus, livres de muitas coisas que eles praticavam. Todavia, isso não significa que devemos odiá-los e tratá-los como inimigo. Não podemos agir assim. Afinal, foi por meio deles que a humanidade conseguiu sair das garras do antigo politeísmo.

 

Anticatolicismo. Se analisarmos, com bastante cuidado, o evangelho original de Jesus Cristo e a história da Igreja, podemos perceber que a cristandade se desviou da ideia original e voltou a praticar muitas coisas do judaísmo e das antigas religiões mitológicas. Assim, o catolicismo se tornou um evangelho distante da realidade pregada por Jesus. Com o desejo de viver o que Cristo realmente ensinou, muitos se tornaram anticatolicistas. Isso não é problema e é necessário se quisermos voltar ao evangelho puro. Mas muitos têm feito isso de forma errada, tratando os católicos como inimigos ou como se fosse lixos. Não! Os católicos não podem ser tratados dessa forma. Temos que fazer oposição ao catolicismo com bons modos.

 

Antiprotestantismo. Lutero, Calvino, dentre outros, foram protagonistas nos movimentos anticatolicistas, protestando contra muitas práticas e doutrinas católicas. Restauraram várias coisas, mas preservaram muitas outras. Por isso, hoje, conscientes que a Reforma Protestante não foi suficiente e vendo que muitas igrejas novas e pregadores têm criado novas doutrinas e práticas estranhas ao evangelho puro, muitos aderiram ao antiprotestantismo. Concordo com esse movimento, mas precisamos fazer isso também com boas maneiras.

 

O apóstolo Paulo, escrevendo aos cristãos cheios de contendas da igreja da cidade de Coríntios, disse: “Rogo-vos, irmãos, pelo nome de nosso Senhor Jesus Cristo, que faleis todos a mesma coisa e que não haja entre vós divisões; antes, sejais inteiramente unidos, na mesma disposição mental e no mesmo parecer.” (1 Coríntios 1:10, RA.) É claro que tudo que Paulo pediu é quase impossível. Ter o mesmo modo de pensar, estando todos unidos na mente e nas intenções é algo muito difícil, afinal, é comum, entre os seres os humanos, haver opiniões e ideias divergentes, principalmente no campo religioso. Todavia, ideias diferentes não precisam ser combustíveis para as divisões e contendas. Então, o que fazer?

 

Paulo, escrevendo aos cristãos da cidade de Colossos, aconselhou: “Acima de tudo isto, porém, esteja o amor, que é o vínculo da perfeição.” (Colossenses 3:14, RA.) E disse mais para os coríntios: “O amor é paciente, é benigno; o amor não arde em ciúmes, não se ufana, não se ensoberbece, não se conduz inconvenientemente, não procura os seus interesses, não se exaspera, não se ressente do mal; não se alegra com a injustiça, mas regozija-se com a verdade; tudo sofre, tudo crê, tudo espera, tudo suporta.” (1 Coríntios 13.4-7, RA.) E o apóstolo Pedro reforçou: “Acima de tudo, porém, tende amor intenso uns para com os outros, porque o amor cobre multidão de pecados.” (1 Pedro 4:8, RA.) 

 

Como podemos ver, o melhor é quando pensamos todos da mesma forma. Mas nem sempre isso é possível. Todavia, ter pensamento diferentes não é nenhum problema em si, desde que a pessoa aprenda a criticar o outro com bons modos, aprendendo a amar quem pensa doutra forma, sendo tolerante, tendo paciência, sem orgulho, não sendo inconveniente, não se irritando, mas suportando tudo. Dessa forma, podemos ser como uma floresta, onde cada árvore é dum jeito, mas todas estão no mesmo chão, juntas, nos embalos do mesmo vento. Assim, todos, unidos no mesmo Espírito, podemos viver juntos com nossas diferenças. Então, ser oposicionista não significa ser inimigo do outro que pensa e age de forma diferente. E ainda que o outro seja nosso inimigo declarado, devemos amá-lo. Afinal o Mestre no mandou amar a todos, até mesmo os nossos inimigos. (Mateus 5:44.) [5]

 

A Igreja tentou fazer com que todos permanecessem unidos nas mesmas doutrinas. Para isso, usou o constrangimento. A Inquisição foi a pior estratégia para fazer as pessoas ficarem unidas nas mesmas doutrinas e práticas religiosas. Não devia e nem deve ser assim. Devemos nos opor a todas as doutrinas e práticas religiosas que acreditamos ser desnecessárias e erradas. Mas temos que fazer isso usando as ferramentas do bem. Não podemos impor nossas ideias com intransigência e constrangimentos.

 

Não convém, de forma alguma, aprovar muitas coisas más que os antepassados dos judeus, a Igreja Católica e os protestantes fizeram, usando o nome de Deus. Todo mal registrado no Antigo Testamento e na história da igreja não pode ser aceito como coisas divinamente corretas. Não podemos aprovar qualquer ato nojento praticado pela igreja e por qualquer outra religião. Se aprovarmos essas coisas estaremos fazendo apologia ao crime contra a humanidade. Criticar e condenar tais atos não significa, porém, oposicionismo negativo, mas positivo. Oposicionismo negativo seria tratar judeus, católicos, protestantes, evangélicos e outros religiosos de hoje com palavras e atos vilipendiosos e injuriosos, ódio, intolerância, discriminações, segregações e perseguições. Temos que ser totalmente contra os atos maus que judeus, católicos, protestantes e outros religiosos do passado fizeram. Da mesma forma, devemos ser radicalmente contra qualquer ato dessa natureza contra qualquer povo, igreja ou religião de hoje. Ninguém pode pagar pelos erros dos outros do passado. Então, temos que amar e respeitar a todos. Agir de forma insensata, como eles agiram outrora, é perpetuar o mal no mundo. Por isso, não aceite, jamais, as atitudes más do passado dos judeus, dos católicos, dos protestantes e de qualquer outra religião. Mas vamos entrar pelo caminho da crítica construtiva e do amor. Deixemos de lado o caminho das críticas destrutivas, vilipendiosas e injuriosas, do ódio, da intolerância, da discriminação, da segregação e da perseguição.

 

Autor: Maralvestos Tovesmar. Este texto (não o site inteiro) está disponível nos termos da licença CC BY-NC-ND. Pode ser copiado e distribuído, informando o autor e o link seguinte, mas não pode ser modificado e nem comercializado. Data: 2014. Veja outras mensagens em http://livresdosfardosreligiosos.blogspot.com.br