Guerras religiosas (parte I)

Livres dos Fardos Religiosos

 

Guerras e religiões, juntas, fizeram amargas histórias. Embalados em suas crenças, muitos partiram para a luta armada com o intuito de dominar outros povos e territórios. Ainda hoje, a guerra é uma realidade. Isso porque, no fundo, suas raízes estão fundamentadas no terreno religioso. A guerra foi, antes de tudo, uma luta de caráter sagrado. As batalhas sangrentas da Antiguidade estavam intimamente ligadas à religião.

 

Guerra religiosa é a luta armada entre nações ou grupos, envolvendo a religião.

 

As diversas religiões das antigas culturas tinham seus deuses guerreiros. Veja alguns exemplos.

 

Deusas e deuses guerreiros

Religião

Divindade da guerra

Suméria

Inanna

Babilônica

Ishtar

Egípcia

Montu

Hindu

Indra e Skanda

Assíria

Assur

Grega

Ares, Atenas, Enio

Eslava

Rugievit

Celta

Ogme

Sabina (Itália central)

Quirino

Romana

Marte, Minerva, Belona

Escandinavo-germânica

Odin, Tyr

Galaico-lusitana

Bandua e Cariocecus

Chinesa

Chi You

Iorubá

Ogum

Etíope

Maher

Asteca

Huitzilopochtli

Judaica

Jeová [1]

 

Salém, o antigo nome da cidade sagrada de Jerusalém significa paz. E Jerusalém, o nome atual, quer dizer lugar de paz. [2], [3], [4] Isso mostra que um dos grandes desejos da humanidade, desde os tempos remotos, é a paz. Todavia, a busca de uma vida pacífica, até mesmo na cidade da paz, tem sido frustrada. Ao longo da história, essa cidade religiosa, muitas vezes, foi um verdadeiro palco de guerras. E muitos, em nome de Deus ou dos deuses, pelo mundo afora, partiram para a luta armada. Combate, peleja, luta, conflito, espada, morte são palavras muito comuns em alguns livros religiosos e em muitas músicas sacras.

 

 

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Descrição: Cena de uma guerra dos hebreus. Data: 1984. Autor: Jim Padgett. Fonte. Licença CC BY-SA.

Como podemos ver, nas antigas culturas, a guerra era algo sagrado. Os hebreus, também conhecidos como judeus ou israelitas, não foram diferentes. Eles deram origem ao Antigo Testamento da Bíblia Sagrada (o Tanakh do judaísmo) onde encontramos diversas guerras praticadas em nome de Jeová. [5] Para eles, Jeová era também um Deus de guerra. Moisés escreveu: “O Senhor é homem de guerra; Jeová é o seu nome”. (Êxodo 15.3 .) [6] Ele também foi chamado de “Senhor dos exércitos” mais de 200 vezes ao longo do Antigo Testamento. As palavras exército, morto, morte, arma, espada, lança, inimigo, guerra, peleja, batalha, matou, no singular ou no plural, aparecem inúmeras vezes na Bíblia. E foi com a crença em Jeová como homem de guerra, que os bélicos hebreus praticaram vários genocídios e fizeram manar muito sangue em Canaã, conhecida como a terra que mana leite e mel. [7]

 

A primeira guerra bíblica se encontra em Gênesis. Lá vemos um conflito, onde quatro reis guerrearam contra cinco, derrotando-os, saqueando os seus bens e deportando pessoas. Mas Abraão e seus homens lutaram, e os prisioneiros foram libertados, e os bens, recuperados. Então aparece um sacerdote chamado Melquisedeque, que também era rei de Salém, trazendo pão e vinho e abençoando o patriarca Abraão. (Gênesis 14.) [8]

 

Abraão, o patriarca dos hebreus, apenas procurou se defender. Não o vemos em nenhuma outra guerra. Mas os seus descendentes, os hebreus tinham sede de matar. Nas guerras que eles promoveram contra os diversos povos da região de Canaã, podemos perceber os grandes danos que causaram como: morte de homens, mulheres, moças, crianças, criancinhas de peito, velhos e animais; destruição de casas, cidades, plantações; provocação de incêndios, aprisionamento de pessoas de qualquer idade, escravização de estrangeiros, rapto de virgens, abuso sexual, imposição da sua religião e cobranças de tributos. Por onde passavam os soldados hebreus, ficava um rastro de morte, sangue e destruição. Homens, mulheres, crianças, velhos e animais mortos ou agonizando, estirados pelo chão, eram vistos como verdadeiros troféus.

 

    No tempo de Moisés, havia 603.550 homens guerreiros entre eles. (Números 2.32.) [9]

    Numa guerra civil contra a tribo de Benjamim, se apresentaram 400.000 homens treinados para a guerra. (Juízes 20:2.) [10]

    Na época do rei Saul, numa guerra contra os amonitas, havia 330.000 homens. (1 Samuel 11:8.) [11]

    No tempo de Davi, em Israel, de acordo com o livro do profeta Samuel, havia 800.000 homens que arrancavam da espada; e em Judá, 500.000. (2 Samuel 24:9.) [12]

    De forma divergente, na mesma época, de acordo com o livro de Crônicas, em Israel, havia 1.100.000 homens que arrancavam da espada; e em Judá, 470.000. (1 Crônicas 21.5.) [13]

 

Moisés, em nome de Deus, entregou para os hebreus a missão de guerrear contra os diversos povos da terra de Canaã. (Êxodo 23.23; Deuteronômio 7.1.) [14] Segundo as orientações desse líder religioso, quando eles se aproximassem de uma cidade para atacá-la, primeiro tinham que fazer uma proposta de paz. Se os moradores aceitassem a proposta e se entregassem a eles, então aqueles moradores seriam transformados em seus escravos e fariam trabalhos forçados. (Deuteronômio 20.10-11.) [15] Mas caso os moradores não se entregassem e começassem a lutar para se defenderem, então a cidade deveria ser cercada, e todos os homens tinham que ser assassinados. Porém, as mulheres, as crianças, os animais e todos os objetos de valor tinham que ser preservadas para eles. (Deuteronômio 20.12-15.) [16] Entretanto, alguns povos tinham que ser destruídos totalmente. Não podia haver nenhum acordo de paz. As suas mulheres e crianças também tinham que ser assassinadas. Esses povos eram os heteus, os amorreus, os cananeus, os perizeus, os heveus, e os jebuseus. Todos esses povos tinham que ser eliminados totalmente. (Deuteronômio 7.1-4; 20.16-17.) [17]

 

Por que muitas nações, principalmente do Ocidente e do Oriente Médio, ainda insistem em praticar guerras? Porque o passado dos hebreus, o Antigo Testamento (o Tanakh dos judeus) continua sendo a base religiosa de muitos. Aquelas páginas parecem campos minados. Estão cheias de sangue, mortes, assombros, dor...

 

Continuaremos no próximo post

 

Autor: Maralvestos Tovesmar. Este texto (não o site inteiro) está disponível nos termos da licença CC BY-NC-ND. Pode ser copiado e distribuído, informando o autor e o link seguinte, mas não pode ser modificado e nem comercializado. Data: 2014. Veja outras mensagens em http://livresdosfardosreligiosos.blogspot.com.br