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Infanticídios religiosos

Livres dos Fardos Religiosos

 

Muitos religiosos condenam o aborto. Eu também sou contra essa prática, que é uma forma de infanticídio.  Mas a maioria dos pregadores das igrejas são incoerentes, pois condenam o aborto e não se importam com os assassinatos de crianças do Antigo Testamento. Como podemos seguir o caminho do bem, uma vez que muitos sermões, livros, músicas e outras mídias têm como pano de fundo os assassinos dos velhos tempos, incluindo os infanticidas?

 

Uma cantiga de ninar portuguesa diz:

 

 

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Descrição: Madonna della Sedia. Autor: Rafhael (1483-1520). Fonte e licença domínio público

 

“Vai-te papão, vai-te embora de cima desse telhado.

Deixa dormir o menino um soninho descansado.” [1]

 

O bicho-papão, de acordo com as crenças populares, é um ser imaginário das mitologias infantis luso-brasileiras, presente também noutras partes da península Ibérica. Trata-se de um monstro assassino que come crianças. Muitos pais têm incutido essa figura fictícia na cabeça de seus filhos pequenos. [2] Mas deixando a fantasia de lado, podemos dizer que muitos seres humanos têm sido verdadeiros bichos-papões por causa da prática do infanticídio. (Ah! Se as criancinhas não fossem tão inocentes saberiam que o bicho papão, muitas vezes, é o próprio ser... Humano?)

 

O Código Penal Brasileiro de 1940 interpreta como infanticídio a morte, sob a influência do estado puerperal, do próprio filho, durante o parto ou logo depois. [3] Todavia, por extensão, já que a infância vai do nascimento até a puberdade, então podemos considerar como infanticídio o assassínio de pessoas ainda no período da infância, quando são chamadas de crianças. [4]

 

Infanticídio religioso é o assassinato de criança envolvendo questões religiosas.

 

O livro bíblico de Gênesis diz que Deus pôs Abraão à prova, pedindo para ele o seu único filho Isaque em sacrifício, no monte Moriá. Parece que Abraão sentiu as influências das religiões que tinham o costume de sacrificar seres humanos. Não ficou registrado como foi que ele ouviu a voz de Deus: se foi através de sonhos, se foi apenas um pensamento ou se foi por meio de algum mensageiro. O certo é que ele foi até o monte Moriá com a decisão de sacrificar o menino. Ele seria assassinado com um cutelo e queimado sobre a lenha. Felizmente o fato não foi consumado. Um anjo teria impedido o acontecimento trágico. (Gênesis 22.) [5] E Deus teria dito: “Agora sei que você teme a Deus, pois não me negou o seu filho, o seu único filho.” (Gênesis 22.12b, NTLH.) [6]

 

Pense bem: se Deus é onisciente, então porque ele teria que submeter Abraão a um teste rigoroso, para então concluir que ele (Abraão) temia a Deus de verdade? Aqui no mundo, precisamos aplicar testes nas pessoas para ver se elas têm condições de assumir certas funções e responsabilidades. Mas Deus não precisa disso, pois ele sabe todas as coisas. A própria Bíblia afirma isso no Salmo 139 ou 138 conforme a versão. [7] Então, esse fato na vida de Abraão é muito estranho e contraditório, dando a impressão que Deus não tinha certeza de sua fidelidade. Vemos nele uma ameaça de infanticídio terrível, com uma boa dose de fanatismo religioso.

 

No tempo de Moisés, sabendo do costume de sacrificar crianças que havia na terra de Canaã, ele ordenou em nome de Deus: “Entre ti se não achará quem faça passar pelo fogo o seu filho ou a sua filha.” (Deuteronômio 18.10a, RC.) [8] Em outras palavras: “Não ofereçam os seus filhos em sacrifício, queimando-os no altar.” (A mesma citação de acordo com a NTLH.)

 

Nem todos obedeceram aos mandamentos dados por Moisés. O rei Acaz ofereceu o próprio filho queimando-o como oferta aos ídolos, segundo o costume da religião dos cananeus. (II Reis 16.2-3.) [9] O rei Manasses também fez a mesma coisa. (II Reis 21.6.) [10] As repreensões dos profetas Jeremias e Ezequiel mostram que várias pessoas cometeram esse mal. (Jeremias 19.3-5; Ezequiel 23.37.) [11]

 

Mas os infanticídios não aconteceram apenas nos rituais religiosos. Eles foram numerosos durante os combates.

 

Os hebreus atacaram os amorreus do reino de Seom, destruíram suas cidades e apoderam-se de seus bens. (Deuteronômio 2.26-34; Números 21.21-31) [12] De forma triunfante, o texto diz: “Naquele tempo, tomamos todas as suas cidades e a cada uma destruímos com os seus homens, mulheres e crianças; não deixamos sobrevivente algum.” (Deuteronômio 2:34, RA.) [13] Nesse massacre dos amorreus, como podemos ver, não escaparam ninguém, nem mesmo as inocentes e indefesas crianças.

 

O mesmo foi feito com os amorreus do reino de Ogue, onde, além dos adultos, todas as crianças foram assassinadas. “Destruímo-las totalmente, como fizemos a Seom, rei de Hesbom, fazendo perecer, por completo, cada uma das cidades com os seus homens, suas mulheres e crianças.” (Deuteronômio 3:6, RA.) [14]

 

 

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Título: Pastorinha. Autor: Gabriel Ferrier (1847-1914).  Data: ?Reprodução: Jean-Marc Pascolo. Data: ? Fonte. Licença CC BY-SA

 

O profeta Samuel, em nome de Deus, mandou o rei Saul massacrar os amalequitas, incluindo meninos e crianças de peito, além dos animais. (1 Samuel 15.3.) [15] Até aquelas que ainda estavam sendo amamentadas foram marcadas para morrem. Se a menina da figura fosse uma amalequita, ela e o seu bichinho seriam mortos.

 

Numa guerra contra os midianitas, o povo hebreu levou prisioneiras mulheres e crianças. Moisés mandou matar as mulheres que não eram virgens e as crianças do sexo masculino, deixando para eles as mulheres virgens e as crianças do sexo feminino. (Número 31.) [16] Assim foi feito. (Imagine aquelas menininhas sendo levadas cativas, vendo os seus irmãozinhos cortados, pelo chão, mortos pelas espadas dos hebreus... É uma cena extremamente macabra. É algo assustador para estar num livro que todos dizem ser a perfeita palavra de Deus para toda a família. Precisamos muito das orientações do Espírito de Deus e não de letras e dogmas de homens que muitas vezes nos matam.)

 

Outro infanticida bíblico foi rei Saul, que mandou matar todos os habitantes da cidade de Nobe, incluindo as crianças. (I Samuel 22.19.) [17]

 

Um salmista escreveu: “Babilônia, você será destruída! Feliz aquele que fizer com você o mesmo que você fez conosco — aquele que pegar as suas crianças e esmagá-las contra as pedras!” (Salmo 137.8-9, NTLH.) [18] Dependendo da tradução é o Salmo 136.8-9. [19]) Que absurdas são essas palavras!

 

Mas não pense que os hebreus assassinaram apenas crianças estrangeiras. Eles mataram os pequeninos do seu próprio povo, como aconteceu em Jabes-Gileade, uma cidade da tribo de Manassés. [20] O povo de Israel (os hebreus) numa reunião, decidiram enviar para lá doze mil homens dos mais valentes com a seguinte ordem: “Ide e, a fio de espada, feri os moradores de Jabes-Gileade, e as mulheres, e as crianças.” (Juízes 21.10, RA.) [21] Lendo todo o contexto, descobrimos que o motivo foi dos mais absurdos. [22]

 

O Velho Testamento, como podemos ver, é uma coletânea de livros cheios de coisas estranhas, impróprios para as nossas crianças.

 

De acordo com o pensamento de muitos teólogos, todas essas matanças do Antigo Testamento, incluindo esses massacres de inocentes, foram atos de justiça de Deus. De acordo com a lei de Moisés, Deus visita a iniquidade dos pais nos filhos e nos filhos dos filhos, até à terceira e quarta geração. (Êxodo 20.5; 34.7; Deuteronômio 5.9.) [23] Isso quer dizer que ele condena os filhos, os netos, os bisnetos e os trinetos daqueles que pecaram. (Justiça estranha!) Então, esses coitadinhos, para esses teólogos, foram assassinados por causa do pecado de seus pais, avós, bisavós ou trisavôs. Mas o profeta Ezequiel, contraditoriamente, diz: “A alma que pecar, essa morrerá; o filho não levará a iniqüidade do pai, nem o pai, a iniqüidade do filho; a justiça do justo ficará sobre ele, e a perversidade do perverso cairá sobre este.” (Ezequiel 18:20, RA.) [24] E Paulo também contradiz dizendo: “Assim, cada um de nós prestará contas de si mesmo a Deus.” (Romanos 14.12.) [25]Portanto, essa idéia maluca de matar inocentes por causa de pecados de seus antepassados e essa suposta justiça de Deus em cima de crianças, tudo isso não passa de desculpas para tentar justificar os malfeitos dos hebreus e manter o dogma de que a Bíblia é a perfeita e infalível Palavra de Deus, em vez de admitir que nela encontramos princípios de Deus em meio às maldades humanas.

 

Em outras religiões e culturas antigas, também encontramos casos de infanticídio. Os antigos árabes, por exemplo, tinham vergonha de terem filhas e, por isso, praticavam o infanticídio feminino. O Alcorão diz: "Quando a algum deles é anunciado o nascimento de uma filha, o seu semblante se entristece e fica angustiado. Oculta-se do seu povo, pela má notícia que lhe foi anunciada: deixá-la-á viver, envergonhado, ou a enterrará viva? Que péssimo é o que julgam." (Surata16:58/59.). [26], [27] Felizmente, com o surgimento do islã, essa prática foi combatida.

 

Hoje, a legislação dos diversos países considera tal prática como crime. Mas mesmo assim têm aparecido algumas pessoas religiosas com essa idéia absurda.

 

No Estados Unidos, em 2007, uma mulher achava que o seu filho, com pouco mais de um ano, estava possuído pelo demônio, porque ele não dizia amém antes das refeições. Por causa disso, orientada pela sua líder religiosa, ela interrompeu a alimentação da criança, que morreu de inanição (enfraquecimento por falta de alimentação.) [28], [29]

 

No Brasil, no estado de Goiás, uma mulher religiosa tentou sacrificar a sua filha de apenas nove meses, alegando ser um pedido de Deus. Ela foi presa em fragrante depois de dar alguns golpes de tesoura na criança. [30]

 

Atos como esses são reprovados por qualquer pessoa normal. Todavia muitos judeus e cristãos acham bonito o que Abraão fez e nunca reprovaram os infanticídios cometidos, em nome de Deus, pelo povo hebreu do passado.

 

A proposta de Jesus é a vida. Nunca a morte. Ele denunciou a violência e nos ensinou como agradar a Deus com atitudes de amor, bondade e respeito ao próximo. Sobre as crianças ele disse: “Deixai os pequeninos, não os embaraceis de vir a mim, porque dos tais é o reino dos céus.” (Mateus 19.14, RA.) [31]

 

Escreveu Tertuliano: “Em nosso caso, para os cristãos, a morte foi de uma vez por todas proibida. Não podemos nem mesmo destruir o feto no útero, porque, mesmo então, o ser humano retira sangue de outras partes de seu corpo para sua subsistência. Impedir um nascimento é simplesmente uma forma mais rápida de matar um homem, não importando se mata a vida de quem já nasceu, ou põe fim a de quem está para nascer. Esse é um homem que está se formando, pois tendes o fruto já em sua semente.” (Apologia IX.) [32]

 

Temos que respeitar todas as religiões, mas não podemos aceitar nenhum elemento religioso que cause dano aos outros, inclusive aos infantis indefesos. Por isso, todas as atitudes religiosas que maltratam qualquer criança têm que ser tratadas como crime. Não podemos aceitar isso, nem mesmo na Bíblia.

 

Vão embora, bichos-papões! Deixem as nossas crianças dormirem em paz.

 

Autor: Maralvestos Tovesmar. Este texto (não o site inteiro) está disponível nos termos da licença CC BY-NC-ND. Pode ser copiado e distribuído, informando o autor e o link seguinte, mas não pode ser modificado e nem comercializado. Data: 2014. Veja outras mensagens em http://livresdosfardosreligiosos.blogspot.com.br



Genocídios religiosos

Livres dos Fardos Religiosos

 

Muitas pessoas lêem o Antigo Testamento com a esperança de encontrar palavras de paz, amor e consolo. No entanto, fica chocada, frustrada, decepcionada e confusa quando encontra certas atitudes repugnantes, praticadas em nome de Deus. Uma delas é o genocídio que os hebreus praticaram contra diversos povos da terra de Canaã. Isso tem incomodado a consciência de muitas pessoas que ousam pensar além dos dogmas impostos pelas igrejas.

 

Genocídio é qualquer ação promovida com o objetivo de eliminar grupos humanos nacionais, étnicos, religiosos ou raciais. [1], [2] Assassinar pessoas de um grupo, causar graves lesões à sua integridade física ou mental; dominá-lo com medidas que possam causar a sua destruição física total ou parcial, impedir que os seus membros tenham filhos, realizar a transferência coerciva de crianças de um grupo para outro, tudo isso, no Brasil, é considerado genocídio, de acordo com a lei nº 2.889, de 1º de outubro de 1956. [3]

 

 

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Descrição: Genocídio praticado pelos hebreus. Data: 1984. Autor: Jim Padgett. Fonte. Licença CC BY-SA.

Os hebreus acreditavam que Deus havia dado a terra de Canaã para eles. Isso está escrito na Bíblia, onde Deus teria dito a Abraão: “À tua descendência dei esta terra, desde o rio do Egito até ao grande rio Eufrates.”  (Gênesis 15:18, RA.) [4]. Até ai tudo bem. Abraão foi pra lá e não fez nenhuma maldade contra os cananeus. Mas os seus descendentes, segundo orientações de Moisés, deveriam conquistar essa terra, transformando alguns povos que se entregassem pacificamente em escravos, destruindo outros totalmente e outros, destruindo os homens e ficando com as suas riquezas, crianças e, é claro, mulheres virgens. [5]. Observe o que disse Moisés:

 

“Quando te aproximares de alguma cidade para pelejar contra ela, oferecer-lhe-ás a paz. Se a sua resposta é de paz, e te abrir as portas, todo o povo que nela se achar será sujeito a trabalhos forçados e te servirá.” (Deuteronômio 20.10-11, RA.) [6]Porém, se ela não fizer paz contigo, mas te fizer guerra, então, a sitiarás. E o SENHOR, teu Deus, a dará na tua mão; e todos os do sexo masculino que houver nela passarás a fio de espada; mas as mulheres, e as crianças, e os animais, e tudo o que houver na cidade, todo o seu despojo, tomarás para ti; e desfrutarás o despojo dos inimigos que o SENHOR, teu Deus, te deu. Assim farás a todas as cidades que estiverem mui longe de ti, que não forem das cidades destes povos.” (Deuteronômio 20.12-15, RA.) [7]Porém, das cidades destas nações que o SENHOR, teu Deus, te dá em herança, não deixarás com vida tudo o que tem fôlego. Antes, como te ordenou o SENHOR, teu Deus, destruí-las-ás totalmente: os heteus, os amorreus, os cananeus, os ferezeus, os heveus e os jebuseus.” (Deuteronômio 20.16-17, RA.) [8]Quando o SENHOR, teu Deus, te introduzir na terra a qual passas a possuir, e tiver lançado muitas nações de diante de ti, os heteus, e os girgaseus, e os amorreus, e os cananeus, e os ferezeus, e os heveus, e os jebuseus, sete nações mais numerosas e mais poderosas do que tu; e o SENHOR, teu Deus, as tiver dado diante de ti, para as ferir, totalmente as destruirás; não farás com elas aliança, nem terás piedade delas; nem contrairás matrimônio com os filhos dessas nações; não darás tuas filhas a seus filhos, nem tomarás suas filhas para teus filhos; pois elas fariam desviar teus filhos de mim, para que servissem a outros deuses; e a ira do SENHOR se acenderia contra vós outros e depressa vos destruiria.” (Deuteronômio 7.1-4, RA.) [9]

 

Como podemos ver, alguns povos tinham que ser destruídos totalmente, pois foram marcados para morrerem. De outros, eles podiam escravizar pessoas, podiam deixar para si os rebanhos, as riquezas, as mulheres virgens e, às vezes, as crianças.

 

Um dia, Moisés convocou o seu povo para atacar os midianitas. (Números 31.1-3.) [10] Doze mil homens partiram contra esse povo. Eles mataram todos os homens e levaram presas as mulheres e as crianças desse povo, além de ovelhas e cabras, o seu gado e todos os seus bens. Depois da batalha, os hebreus levaram todos os prisioneiros, os animais e tudo mais que haviam tomado dos midianitas e apresentaram tudo a Moisés. (Números 31.4-9.) [11] Para trás, restaram muitos mortos estirados pelo chão, terras sujas de sangue, brasas, fumaça, agonia, gemidos, dor...  Moisés ficou zangado, pois eles deixaram vivas todas as mulheres. Então ele ordenou: “Agora matem todos os meninos e todas as mulheres que não forem virgens. Mas deixem viver todas as meninas e as moças que forem virgens; elas pertencem a vocês.” (Números 31.17-18, NTLH.) [12] Então foram assassinadas as mulheres que não tinham mais o seu precioso hímen. E os ingênuos meninos também tiveram que ser trucidados. E assim aconteceu mais um genocídio, onde tombaram homens, mulheres e meninos inocentes. Imagine a cena forte! Mães aflitas vendo os seus meninos serem dilacerados, enquanto mais uma espada vem em sua direção... Lindas meninas chorando, vendo as suas mães morrerem transpassadas pelos golpes frios das espadas hebréias... Essas donzelas não foram mortas, mas foram levadas para satisfazerem a volúpia dos hebreus sedentos de sexo virginal.

 

O livro de Josué é um verdadeiro palco de guerras para colocar em prática diversos genocídios. Na eliminação dos amorreus, diz a Bíblia que Deus parou o Sol e a Lua quase um dia inteiro. (Josué 10.12-13.) [13] Então, houve uma grande matança. (Você acha que o Deus do nosso Universo infinito parou o giro da Terra para que o Sol e a Lua permanecessem na mesma posição, a fim de que um exército de homens sanguinários pudesse realizar uma carnificina?)

 

Quando os hebreus estavam caminhando pelo deserto, vindo do Egito, em busca da terra de Canaã, por volta do século XIII ou XV antes de Cristo, eles foram cercados pelos amalequitas, uma tribo de nômades que vagavam no sul da Palestina.  (Êxodo 17.8-16.) [14], [15] Alguns séculos depois, mais de 300 anos, no século X antes de Cristo,  o profeta Samuel, em nome de Deus, disse para o rei Saul se vingar desse povo, praticando um genocídio contra eles: “Então, disse Samuel a Saul: Enviou-me o SENHOR a ungir-te rei sobre o seu povo, sobre Israel; ouve, pois, agora a voz das palavras do SENHOR.  Assim diz o SENHOR dos Exércitos: Eu me recordei do que fez Amaleque a Israel; como se lhe opôs no caminho, quando subia do Egito. Vai, pois, agora, e fere a Amaleque, e destrói totalmente tudo o que tiver, e não lhe perdoes; porém matarás desde o homem até à mulher, desde os meninos até aos de peito, desde os bois até às ovelhas e desde os camelos até aos jumentos.” (I Samuel 15.1-3, RC.) [16] Saul fez o que ordenara o profeta. Destruiu os amalequitas. Mas Agague, o rei deles, deixou vivo, juntamente com o melhor do rebanho deles. (I Samuel 15.7-9.) [17] Por causa disso, Saul perdeu o seu reinado. (I Samuel 15.26.) [18] Samuel então assassinou o rei Agague, despedaçando-o com uma espada. (I Samuel 15.32-33.) [19] E Davi foi ungido para ser o rei no lugar de Saul. (I Samuel 16.13.) [20] Será que Deus mandou provocar um genocídio, para tirar a vida de um monte de gente inocente, incluindo bebês, por causa do erro de um bando de selvagens de outras gerações, que tentou deter os israelitas alguns séculos antes, quando eles vinham do Egito?

 

Mulher no Antigo Testamento era tratada como objeto ou mercadoria. [21] Saul ofereceu a sua filha Mical a Davi como esposa. Em troca, ele exigiu 100 prepúcios de filisteus. (Mas o que é prepúcio? É a pele que cobre a glande ou cabeça do pênis.) [22]  Esse foi o preço de sua filha. Davi achou interessante a proposta e foi com seus homens até os filisteus e mataram 200 homens e, em seguida, retirou o prepúcio deles e os levou a Saul, que deu-lhe a sua filha para ser sua mulher. Como podemos ver, pra mostrar que era “o cara”, ele não arrumou “apenas” 100, mas 200 prepúcios. (I Samuel 18.22-27). [23]  Uma chacina apenas para satisfazer os desejos bizarros de Saul e Davi. Mas por que eles promoveram uma chacina de filisteus apenas para arrumar prepúcios? Porque eles estavam carregados de xenofobia (aversão a pessoas estrangeiras.) [24] Agora imagine a cena: 200 homens mortos, estendidos ao chão, perfurados de espadas, jorrando sangue, enquanto Davi e os seus homens extraem essa pele de cobertura dos pênis desses incircuncisos. Eles não se importaram com a dor das mães, das esposas e dos filhos desses homens assassinados por causa de um capricho extravagante. O ódio que os hebreus tinham desse povo falou mais alto, e tudo isso foi feito com alegria e sentimento de poder e vitória. Até o momento, ainda não vi nenhum pregador condenar essa maldade. Afinal, como dizem, eles eram filisteus, estrangeiros, incircuncisos, pessoas de outra religião...

 

Davi especializou-se em cometer genocídios. Ele e os seus homens atacaram os gesuritas, os gersitas e os amalequitas, não deixando com vida nem homem e nem mulher. (I Samuel 27.8-9.) [25] E esse homem, Davi, ainda é tratado como herói nas revistinhas, livrinhos, DVDs e escolinhas bíblicas de nossas crianças. Desse jeito, como acabaremos com as matanças que chocam os telejornais?

 

Atos de genocídios são encontrados em vários livros do Antigo Testamento. Mas no Novo Testamento, Jesus apresentou uma nova proposta. Ele disse que tinha vindo para que todos pudessem ter vida com abundancia. “Eu vim para que tenham vida e a tenham com abundância.” (João 10.10b, RC.) [26] Ele não mandou ninguém destruir ninguém. Ele mandou os seus discípulos irem a todas as nações do mundo, não para destruí-las, mas para anunciar as suas mensagens de paz, amor, bondade, perdão, justiça, fé... (Mateus 28.19.) [27] Essa foi a missão que ele deu para os seus seguidores.

 

A cristandade, ainda nos primeiros séculos, “perdeu o fio da meada” e deixou de fazer o que Jesus ensinou. Transformou o evangelho numa organização religiosa ferrenha. [28] E resolveu praticar genocídios religiosos. Qualquer outro grupo religioso diferente foi perseguido. [29], [30] Não preciso repetir o que já disse em outras mensagens. Os cristãos da Europa saíram pelo mundo descobrindo, conquistando e colonizando novas terras. Na época das grandes navegações, do começo do século XV ao fim do século XVIII, as nações cristãs, recheadas de santuários imponentes, com religiosos rezando e falando sobre Deus, Jesus e Maria, tiveram a coragem de sair pelos quatro continentes, massacrando multidões incontáveis de povos. [31], [32] A prática de genocídios dos antigos hebreus foi copiada por eles. E a Igreja fez vista grossa diante de tantas perseguições. Centenas de genocídios aconteceram nas Américas, na África e no Pacífico. Milhões de pessoas morreram. [33], [34] Os colonos europeus trouxeram-lhes guerras, segregações, escravizações, explorações, saques, colonialismo, imperialismo, doenças, fome, mortes... Bondade, amor e paz não estavam nas bagagens dos conquistadores: eles queriam matar, roubar e destruir. Em vez de mensagens de vida, trouxeram a morte.

 

Nas Américas, havia centenas de povos nativos. [35], [36], [37] Por aqui, habitavam mais de 90 milhões de ameríndios: 40 milhões no México e nos Estados Unidos; 11 milhões na América Central; 445 mil nas ilhas do Caribe; 30 milhões na região sul-americana dos Andes e 9 milhões no resto da América do Sul. Ingleses, franceses, espanhóis e holandeses, protestantes e católicos avançaram sobre os apaches, pueblos, olmecas, maias, toltecas, astecas, zapotecas, incas, chibchas, misquitos, cunas, aruaques, caraíbas, araucanos, além de muitos outros povos, dizimando uns e aniquilando outros. [38], [39], [40]

 

 

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Descrição: Moniment Vale no pôr do sol. Cenário do faroeste. Data: 14/02/2004. Autor: Jon Sullivan. Fonte e licença DP.

Genocídio dos índios norte-americanos. No século XIX, a população dos Estados Unidos era cerca de cinco milhões de pessoas. [41], [42] Todos viviam na região da costa atlântica, no leste do país. [43] Então, o governo americano, com o pretexto de colonizar o Oeste, ocupado pelo México e por índios diversos, divulgou a idéia do “destino manifesto”, dizendo que os norte-americanos tinham sido escolhidos por Deus para ocuparem a área entre os oceanos Atlântico e Pacífico. Ofereceu terras a preços mínimos para quem fosse viver nas regiões habitadas pelos índios. A ambição, o desejo de uma vida melhor e a crença no destino, fizeram com que muitos americanos, com suas caravanas de carroças, “armados até os dentes”, seguissem em direção ao Oeste. O resultado foi uma série de guerras contra os indígenas e a guerra contra o México, manchando de vermelho o velho Oeste. [44], [45], [46], [47] Eles foram pra lá com Bíblias e balas e conquistaram tudo: terras, minerais preciosos e uma vaga nas telas de Hollywood, com aqueles bangue-bangues danados, que desperta a sede de matar em muita gente. [48], [49]. (Não vá me dizer que não ficou excitado ao ver os caras pálidas derrubando índios com suas balas assobiantes, fazendo brotar, lá no fundo, um ódio sem motivo.) Os nativos perderam suas terras. E, na "Trilha das Lágrimas", muitos índios perderam a vida... [50] Os índios do oeste americano, na verdade, não viram cavaleiros e carroças trazendo boas novas de vida, mas morte, muitas mortes trágicas... E foram inúmeros massacres e guerras acabando com aqueles povos nativos da América. [51], [52], [53]

 

Um detalhe que não podemos deixar de lado. Foi exatamente nessa época que, na Europa e principalmente nos Estados Unidos, surgiram o primeiro, o segundo e o terceiro Grande Despertar e o Movimento de Santidade entre as igrejas protestantes. Esses movimentos têm sido considerados como despertamentos e reavivamentos das igrejas. [54], [55], [56], [57] Foi nessa época que surgiu, entre as igrejas protestantes, o evangelismo de fronteira, quando pregadores itinerantes realizavam reuniões campais perto dos acampamentos dessas pessoas que ocupavam as terras dos índios. Nesses cultos ao ar livre, havia hinos, danças, sermões, orações e muita ênfase na salvação. [58], [59], [60] Mas enquanto os pregadores bradavam por salvação, os nativos eram consumidos nos bangue-bangues reais. Esses crentes norte-americanos, com as mesmas crenças dos hebreus que detonaram os cananeus, consumiram os peles-vermelhas.

 

 

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Descrição: Figura representando as matanças espanholas. Ilustração de “Brevisima Relacion De La Destruycion De Las Indias - Bartolome De Las Casas.” Cenas impróprias foram ofuscadas em respeito aos leitores.  Data: 1552. Autor: Theodor de Bry (1528–1598). Fonte e licença DP.

Genocídio dos povos nativos da América espanhola. Os cerca de 250 mil aruaques do Haiti, encontrados por Cristóvão Colombo, que aqui chegou em nome dos reis católicos da Espanha, foram violentados. Alguns anos depois, antes de 1650, eles foram extintos. (Será que Isabel e Fernando ficaram com saudades deles?) [61] Astecas, incas, maias, dentre muitos outros foram trucidados. Bartolomé de Las Casas, frade dominicano espanhol, que sempre condenou os abusos dos colonizadores contra os indígenas, escreveu: “Os espanhóis, com seus cavalos, suas espadas e lanças, começaram a praticar crueldades estranhas; entravam nas vilas, burgos e aldeias, não poupando nem as crianças e os homens velhos, nem as mulheres grávidas e as parturientes, e lhes abriam o ventre e as faziam em pedaços como se estivessem golpeando cordeiros fechados em seu redil. Faziam apostas sobre quem, de um só golpe de espada, fenderia e abriria um homem, pela metade, ou quem, mais habilmente e mais destramente, de um só golpe, lhe cortaria a cabeça, ou ainda quem abriria melhor as entranhas de um homem, de um só golpe.” [62], [63]

 

Genocídio dos índios brasileiros. No Brasil, na época do descobrimento, havia entre cinco e seis milhões de índios. Eles foram sendo dizimados pela escravização, doenças européias, perseguições e guerras. [64], [65], [66] Hoje, a população indígena está bem abaixo de 1%. [67], [68]. Muitos grupos foram extintos como: os aimorés, caetés, canindés, carijós, cariris, guaranis, potiguares, tamoios, tupinambás, tupiniquins, dentre outros. [69] Falta-nos espaço para falar dos milhares de grupos arrasados pelos colonizadores “cristãos”, que divulgaram uma religião, mas não levaram o puro evangelho.

 

Genocídio dos aborígenes australianos. Na Austrália, viviam, há milhares de anos, os aborígenes australianos. [70] Esse povo de pele negra teve a infelicidade de ver, no século XVIII, algo sinistro se aproximando sobre as águas do Pacífico. Era o capitão James Cook da Inglaterra, inaugurando a desgraça do continente austral. [71] Aqueles selvagens eram os donos daquelas terras do sul. Mas os homens “civilizados e cristãos” do norte chegaram, e aqueles negros foram dominados, segregados e reduzidos pelos brancos, súditos da rainha Vitória, mulher de rígidos “princípios religiosos e morais”. [72] Da Vitória inglesa veio a derrota aborígine. Aquele povo branco de “alma lavada no sangue de Jesus” não queria ver aquele povo de pele escura ali, para sempre. Então, criaram a política de “embranquecimento” do povo até 1970. (Até parece que eles não foram discriminados, pois podiam se casar com brancos!) O problema é que eles só podiam se casar com brancos. Isso para que a população deixasse de ser negra. Para conseguir isso, as crianças aborígines mestiças foram levadas para os orfanatos católicos e anglicanos, onde eram mantidas longe da família. A minoria restante, cerca de 2% dos australianos, em pleno século XXI, ainda pode “saborear” os horrores de um cristianismo deturpado. [73], [74]

 

Genocídio dos maoris. Até mesmo os maoris, lá na distante Nova Zelândia, não escaparam da fúria do povo europeu. Eles não viram as verdadeiras mensagens do Príncipe da Paz: eles experimentaram uma guerra diferente que o fizeram perder a vida e as terras. [75], [76]

 

Genocídio filipino. Entre 4 de fevereiro de 1899 até 1913, os Estados Unidos promovem o extermínio de mais de 10% da população das Filipinas. Foram mais de um milhão de mortos. Esse trágico acontecimento ficou conhecido como genocídio filipino. [77], [78]

 

Genocídio armênio. Entre 1915 e 1917, no Império Otomano, durante o governo dos jovens turcos, pessoas de origem armênia foram eliminadas através de incêndios, afogamentos, deportações, agentes químicos e biológicos. Foram cerca de 1,5 milhões de mortos. [79], [80]

 

Genocídio assírio. Entre 1914 e 1920, esse mesmo império promoveu a deportação e o extermínio de 500 a 750 mil assírios. [81]

 

Holodomor ou Genocídio Ucraniano. De 1932 a 1933, o povo ucraniano foi atormentado pelo regime socialista soviético, sendo submetidos a uma fome que causou o extermínio de mais de três milhões de pessoas. [82]

 

Genocídio da minoria tutsi. Em 1994, em Ruanda, aconteceu o massacre da minoria tutsi, que antes pertenciam à elite dominante. Mulheres foram estupradas e mais de 800 mil pessoas perderam a vida. Um detalhe: a maioria da população é católica e protestante. O massacre contou como apoio de líderes dessas igrejas. [83]

 

Genocídio de Darfur. A parir de 2003, o conflito ou genocídio de Darfur, oeste de Sudão tem feito milhares de vítimas. Essa região, de maioria mulçumana, não aprendeu a viver em paz.

 

Holocausto. De 1939 a 1945, o mundo assistiu o pior genocídio da historia, conhecido como o Holocausto, quando a política do ditador Adolf Hitler perseguiu, deportou e exterminou milhões de pessoas. Foram cerca de 12,5 milhões de eslavos; 5,9 milhões de judeus; 2 a 3 milhões de prisioneiros de guerra soviéticos; 1,8 a 2 milhões poloneses; 220.000 a 1,5 milhões de ciganos; 200.000 a 250.000 de pessoas com necessidades especiais; 80.000 a 200.000 maçons; 20.000 a 25.000 eslovenos; 5.000 a 15.000 homossexuais; 2.500 testemunhas de Jeová. [84] De origem católica, tendo estudado num mosteiro beneditino, afirmando ser cristão, Hitler, todavia, não fez o que Cristo realmente ensinou. Não era exatamente um católico e muito menos um cristão autêntico. Sua visão era o “cristianismo positivo”. [85], [86] Mas, na verdade, ele viveu um cristianismo negativo. Ele apoiava um movimento racista e anti-semita oriundo da igreja protestante alemã. [87], [88] Observando os evangelhos, percebemos que Jesus não apoiou a religiosidade dos judeus e nem os seus atos maus. Mas ele jamais odiou os seus compatriotas e nunca os perseguiu. Mas Hitler, ao contrário de Jesus, com o seu falso cristianismo positivo, odiou os judeus e acabou praticando contra eles e outros grupos as mesmas maldades que eles praticaram contra os cananeus do passado. Concluímos, então, que esse ditador não seguiu os bons exemplos de Cristo, mas os comportamentos repugnantes dos hebreus (judeus) do Antigo Testamento.

 

Muitos outros acontecimentos dessa natureza aconteceram no mundo envolvendo pessoas que professam alguma religião, principalmente “cristã”. [89] Mas tudo isso mostra que os frutos dessas pessoas não foram e nem são frutos de uma cristandade autêntica e verdadeira, conforme ensinou o verdadeiro Cristo da Galiléia. Nada disso está em harmonia com a mensagem de Jesus. Se você quer acreditar que o Todo-poderoso mandou os outros fazerem tudo isso, que acredite, mas lá no fundo da sua alma, algo diz que tudo isso está errado.

 

Os órgãos competentes devem procurar coibir os grupos sociais que venham causar danos aos outros e ao meio ambiente. Mas de modo geral, todos nós devemos respeitar os diversos grupos. Que os cristãos contemporâneos parem de seguir os maus exemplos dos hebreus, da Igreja medieval e dos conquistadores católicos e protestantes da Idade Moderna.  Que haja respeito entre todas as nações, etnias, religiões e raças. Jamais seremos todos iguais. Mas o amor poderá se tornar um elo entre todos. “Acima de tudo isto, porém, esteja o amor, que é o vínculo da perfeição.” (Colossenses 3:14, RA.) [90] Diga NÃO ao genocídio de qualquer natureza.

 

Autor: Maralvestos Tovesmar. Este texto (não o site inteiro) está disponível nos termos da licença CC BY-NC-ND. Pode ser copiado e distribuído, informando o autor e o link seguinte, mas não pode ser modificado e nem comercializado. Data: 2014. Veja outras mensagens em http://livresdosfardosreligiosos.blogspot.com.br



[4] Genesis 15:18, RA. Ver New King James Version.

[38] Indígenas americanos, Povos", Enciclopédia Microsoft® Encarta®. © 1993-1999 Microsoft Corporation.