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Torturas religiosas

Livres dos Fardos Religiosos

 

Lamentavelmente, a religião, muitas vezes, tem sido um fardo de dor para muitos. Segundo as velhas crenças romanas, as Fúrias, três divindades infernais, tinham a missão de torturar pessoas culpadas de algum crime. Os gregos as chamavam de Erínias. [1] Essas torturadoras foram puro mito. Mas as fúrias e as torturas religiosas têm sido mais reais do que nunca.

 

No norte da França, na cidade de Abbeville, encontra-se o Monumento La Barre com a seguinte inscrição: “Em comemoração do martírio do Chevalier de la Barre, supliciado em Abbeville, em 1 de Julho 1766, com a idade de 19 anos, por ter omitido a saudar uma procissão.” Esse jovem, Jean-François de la Barre ou Cavaleiro de La Barre como também ficou conhecido, ainda na flor da idade, sentiu os espinhos do fanatismo religioso. O monumento de bronze retrata o seu corpo estirado sob as torturas de seus algozes. Ele foi supliciado para que pudesse confessar os seus supostos crimes religiosos e também para forçá-lo a delatar outras pessoas envolvidas nas mesmas acusações de atos contra a religião católica. [2], [3], [4]

 

 

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Descrição: Detalhe do monumento la Barre inaugurado em 1907. Autor? Data da foto: 2009. Autor da foto: ArmeurH. Fonte. Licença CC BY-SA.

Torturas aqui são os suplícios ou tormentos causados a algumas pessoas para puni-las, intimidá-las, forçá-las a fazer confissões, delatar companheiros e também para coagi-las. [5] Essa desgraça, infelizmente, esteve presente em várias religiões, inclusive no cristianismo, como o caso la Barre.

 

Segundo a Bíblia, “estando, pois, os filhos de Israel no deserto, acharam um homem apanhando lenha no dia de sábado. Os que o acharam apanhando lenha o trouxeram a Moisés, e a Arão, e a toda a congregação. Meteram-no em guarda, porquanto ainda não estava declarado o que se lhe devia fazer. Então, disse o SENHOR a Moisés: Tal homem será morto; toda a congregação o apedrejará fora do arraial. Levou-o, pois, toda a congregação para fora do arraial, e o apedrejaram; e ele morreu, como o SENHOR ordenara a Moisés.” (Números 15.32-36,  RA.) [6] De acordo com a lei de Moisés, o sábado era santo, e ninguém poderia fazer absolutamente nada nesse dia. (Êxodo 20.8-11.) [7] Mas aquele homem havia transgredido esse preceito, por isso, ele foi torturado até a morte, sofrendo os impactos das pedradas arremessadas contra ele. O que você faria nesse caso. Jogaria pedras também?

 

Na lei de Moisés diz: “Se alguém ferir com bordão o seu escravo ou a sua escrava, e o ferido morrer debaixo da sua mão, será punido; porém, se ele sobreviver por um ou dois dias, não será punido, porque é dinheiro seu.” (Êxodo 21.20-21, RA.) [8] A pessoa, além de ser escrava, ainda poderia ser torturada com as pancadas de um pedaço de pau. A mesma lei declara que se alguém fizesse sexo com uma escrava desposada com um homem ainda não resgatada nem ainda posta em liberdade, ambos seriam açoitados. (Levítico 19.20) [9] Além de ser abusada sexualmente, a escrava ainda podia ser torturada com um chicote. Também diz essa lei que se alguém invocasse os mortos ou praticasse feitiçarias (em outra tradução diz que aquele que tivesse espírito de adivinho ou fosse encantador) tinha que ser torturado com pedradas até a morte. (Êxodo 22.18; Levítico 20.27.) [10] Para os hebreus (judeus) a poligamia, que é o casamento de uma pessoa com vários cônjuges, era permitida. [11], [12] Mas se um homem casasse com uma mulher e também com a mãe dela (a sogra) isso era considerado como uma imoralidade grave, e os três tinham que ser queimados vivos. (Levítico 20.14.) [13]

 

Fico pensando: será que todas essas mortes horrendas não foram muito mais graves que os atos praticados?

 

Jesus Cristo foi açoitado, coroado com uma coroa de espinhos, esbofeteado, espancado na cabeça com um caniço, cuspido, escarnecido, conduzido publicamente pela cidade, carregando uma cruz, até chegar ao monte Calvário, onde recebeu vinho com fel para beber, sendo, em seguida, crucificado entre dois ladrões. (Mateus 27.27-29-35; Marcos 15.15-25; João 19.1-18.) [14] Tudo isso por ter discordado da religião e dos atos religiosos do seu povo, os judeus.

 

Nos primeiros séculos da Igreja, muitos foram perseguidos e torturados. Em Alexandria, no Egito, um bispo chamado Filéias diz em uma carta: “Alguns, com as mãos amarradas, eram pendurados numa trave, enquanto instrumentos mecânicos puxavam seus membros em todos os sentidos; os carnífices, seguindo a ordem do juiz aplicavam no corpo todo os instrumentos de tortura, não só nas costas, como era costume fazer com os assassinos, mas também no ventre, nas pernas, nas faces. Outros, pendurados fora do pórtico, por uma só mão, sofriam a mais atroz das dores pela tensão das articulações e dos membros.” [15]

 

Num outro relato, falando sobre os mártires da Tebaida, também no Egito, lemos: “Não há palavras suficientes para falar das torturas e dores padecidas pelos mártires da Tebaida, dilacerados no corpo todo com cacos de louça até que expirassem, em lugar dos ganchos de ferro, e pelas mulheres que, amarradas ao alto por um pé e, por meio de roldanas, puxadas pela cabeça para baixo, com o corpo inteiramente nu, oferecendo aos olhares de todos o mais humilhante, cruel, desumano dos espetáculos.” [16]

 

 

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Descrição: Instrumento de tortura num castelo de Praga, na República Tcheca. Data da foto: 22 de julho de 2009. Autor da foto: Janmad. Fonte. Licença CC BY.

A partir do século IV, a coisa inverteu. Líderes cristãos resolveram perseguir, torturar e condenar quem não estava do lado deles. (Será que resolveram “dar o troco” em cima de inocentes?) A partir do século XIII, até meados do século XVIII, os tribunais da Inquisição, que foram criados pela Igreja Católica, perseguiram muitas pessoas com crenças diferentes, cientistas, filósofos e supostas bruxas. [17], [18] Em 1262, o papa Inocêncio IV autorizou o uso da tortura através da bula Ad extirpanda, confirmada pelos papas Alexandre IV em 1259 e Clemente IV em 1265. [19], [20], [21] Foram centenas de anos de terror religioso, onde as vítimas eram investigadas e interrogadas sob torturas de diversos tipos. Além do tormento psicológico, havia diversos tipos de suplícios físicos. Veja alguns tipos usados, segundo algumas fontes.

 

·         A pessoa acusada de bruxaria podia ser colocada em uma cadeira de cabeça para baixo.

·         Ela podia também ser colocada nua sob um jato fino de água, onde permanecia até quarenta horas.

·         Havia a crença de que as bruxas tinham, no seu corpo, uma marca do Diabo. Então o investigador tinha que examinar o corpo nu da vítima para achar essa suposta marca. Segunda essa crença, o local da marca seria um lugar insensível. Por isso, o investigador espetava a vítima com um instrumento pontiagudo em busca desse ponto sem sensibilidade.

·         Outro instrumento de tortura era uma cadeira cravejada de peças de madeira pontiagudas e algumas agulhas de ferro, onde o réu era assentado nu e não podia realizar nenhum movimento para não sofrer espetadas dolorosas em seu corpo.

·         Outra cadeira tinha o assento de ferro, que era aquecido com uma fogueira por baixo.

·         Havia também um cavalete feito com madeira cortante, sobre o qual era colocada a pessoa a ser interrogada. Suas mãos eram presas em dois furos, e os pés, em anéis de ferro. Com um funil, o torturador colocava água na boca da vítima e, ao mesmo tempo, tampava as narinas dele, causando o seu sufocamento.

·         Havia ainda a mesa de evisceração, onde o réu era colocado. O carrasco cortava o seu estômago com uma lâmina. Com pequenos ganchos, suas vísceras eram presas e puxadas lentamente com o auxílio de uma roda. Isso era feito até causar a morte do supliciado.

·         A vítima também podia ser torturada com o método do pêndulo. Seus braços eram amarrados com uma corda, e ela era pendurada, causando o deslocamento dos ombros.

·         Havia ainda o costume levantar o réu pendurado em uma corda, com as mãos amarradas para trás. Através de um mecanismo, ele era erguido até certa altura. Em seguida, deixava-o cair. Quando estava quase se esborrachando no chão, a corda era travada, causando um forte impacto no seu corpo.

·         Pessoas cultas podiam ter os olhos perfurados ou arrancados.

·         O acusado também podia ser colocado numa pequena cela, sem alimentação, onde não era possível mexer com os pés e as mãos. [22], [23], [24], [25], [26], [27], [28]

 

Durante o período de caça às bruxas, mulheres acusadas de bruxarias podiam ser barbaramente torturadas, inclusive com ferro em brasa. [29], [30]. Os escravos africanos, preconceituosamente, considerados por alguns como um povo sob a maldição de Cam, um dos filhos de Noé, foram submetidos a todo tipo de tortura nas mãos de muitos senhores católicos fiéis. [31] Eles também tinham diversos tipos de instrumentos com essa finalidade. [32] Nas nações ditas cristãs desse vasto mundo ocidental, muitas técnicas de torturas foram desenvolvidas para punir escravos, criminosos e vítimas das ditaduras. [33] Um horror nas mãos de pessoas que frequentavam igrejas. Coisas que jamais poderiam aprender com Jesus Cristo. 

 

Onde estava o amor pregado por Jesus Cristo? Que cristianismo é esse, onde líderes assistiam, como se fosse um espetáculo, a dor daqueles que eram perseguidos, simplesmente porque suas idéias não combinavam com os velhos dogmas impostos pelos líderes da velha Roma? Será que os gemidos de dor rasgando o ar das grandes fazendas não conseguiam abalar os corações dos ricos fazendeiros da Terra de Santa Cruz? Que pessoas foram essas que tiveram a coragem de criar inúmeros instrumentos de tortura? [34]

 

Esse crime jamais teve a aprovação de Cristo. Ele não mandou ninguém fazer isso. Mas muitos religiosos intrometidos pensaram que estavam agradando a Deus com essa malvada estupidez. E esse mal ainda ronda o século XXI. Ainda há religiões, onde a tortura ainda é utilizada.

 

Já é tempo de dar um basta definitivo em qualquer tipo de tortura. Que esses atos desumanos não encontrem mais um lugar nas páginas da nossa história. Vamos deixar a procissão passar, “se arrastando que nem cobra pelo chão”. [35] Mas que essa cobra não seja mais venenosa, a ponto de destilar o seu veneno para atormentar aqueles que não reverenciam os seus rituais. Cobras peçonhentas, Fúrias, Erínias... Não! Não tiro o meu chapéu.

 

Autor: Maralvestos Tovesmar. Este texto (não o site inteiro) está disponível nos termos da licença CC BY-NC-ND. Pode ser copiado e distribuído, informando o autor e o link seguinte, mas não pode ser modificado e nem comercializado. Data: 2014. Veja outras mensagens em http://livresdosfardosreligiosos.blogspot.com.br