Torturas religiosas

Livres dos Fardos Religiosos

 

Lamentavelmente, a religião, muitas vezes, tem sido um fardo de dor para muitos. Segundo as velhas crenças romanas, as Fúrias, três divindades infernais, tinham a missão de torturar pessoas culpadas de algum crime. Os gregos as chamavam de Erínias. [1] Essas torturadoras foram puro mito. Mas as fúrias e as torturas religiosas têm sido mais reais do que nunca.

 

No norte da França, na cidade de Abbeville, encontra-se o Monumento La Barre com a seguinte inscrição: “Em comemoração do martírio do Chevalier de la Barre, supliciado em Abbeville, em 1 de Julho 1766, com a idade de 19 anos, por ter omitido a saudar uma procissão.” Esse jovem, Jean-François de la Barre ou Cavaleiro de La Barre como também ficou conhecido, ainda na flor da idade, sentiu os espinhos do fanatismo religioso. O monumento de bronze retrata o seu corpo estirado sob as torturas de seus algozes. Ele foi supliciado para que pudesse confessar os seus supostos crimes religiosos e também para forçá-lo a delatar outras pessoas envolvidas nas mesmas acusações de atos contra a religião católica. [2], [3], [4]

 

 

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Descrição: Detalhe do monumento la Barre inaugurado em 1907. Autor? Data da foto: 2009. Autor da foto: ArmeurH. Fonte. Licença CC BY-SA.

Torturas aqui são os suplícios ou tormentos causados a algumas pessoas para puni-las, intimidá-las, forçá-las a fazer confissões, delatar companheiros e também para coagi-las. [5] Essa desgraça, infelizmente, esteve presente em várias religiões, inclusive no cristianismo, como o caso la Barre.

 

Segundo a Bíblia, “estando, pois, os filhos de Israel no deserto, acharam um homem apanhando lenha no dia de sábado. Os que o acharam apanhando lenha o trouxeram a Moisés, e a Arão, e a toda a congregação. Meteram-no em guarda, porquanto ainda não estava declarado o que se lhe devia fazer. Então, disse o SENHOR a Moisés: Tal homem será morto; toda a congregação o apedrejará fora do arraial. Levou-o, pois, toda a congregação para fora do arraial, e o apedrejaram; e ele morreu, como o SENHOR ordenara a Moisés.” (Números 15.32-36,  RA.) [6] De acordo com a lei de Moisés, o sábado era santo, e ninguém poderia fazer absolutamente nada nesse dia. (Êxodo 20.8-11.) [7] Mas aquele homem havia transgredido esse preceito, por isso, ele foi torturado até a morte, sofrendo os impactos das pedradas arremessadas contra ele. O que você faria nesse caso. Jogaria pedras também?

 

Na lei de Moisés diz: “Se alguém ferir com bordão o seu escravo ou a sua escrava, e o ferido morrer debaixo da sua mão, será punido; porém, se ele sobreviver por um ou dois dias, não será punido, porque é dinheiro seu.” (Êxodo 21.20-21, RA.) [8] A pessoa, além de ser escrava, ainda poderia ser torturada com as pancadas de um pedaço de pau. A mesma lei declara que se alguém fizesse sexo com uma escrava desposada com um homem ainda não resgatada nem ainda posta em liberdade, ambos seriam açoitados. (Levítico 19.20) [9] Além de ser abusada sexualmente, a escrava ainda podia ser torturada com um chicote. Também diz essa lei que se alguém invocasse os mortos ou praticasse feitiçarias (em outra tradução diz que aquele que tivesse espírito de adivinho ou fosse encantador) tinha que ser torturado com pedradas até a morte. (Êxodo 22.18; Levítico 20.27.) [10] Para os hebreus (judeus) a poligamia, que é o casamento de uma pessoa com vários cônjuges, era permitida. [11], [12] Mas se um homem casasse com uma mulher e também com a mãe dela (a sogra) isso era considerado como uma imoralidade grave, e os três tinham que ser queimados vivos. (Levítico 20.14.) [13]

 

Fico pensando: será que todas essas mortes horrendas não foram muito mais graves que os atos praticados?

 

Jesus Cristo foi açoitado, coroado com uma coroa de espinhos, esbofeteado, espancado na cabeça com um caniço, cuspido, escarnecido, conduzido publicamente pela cidade, carregando uma cruz, até chegar ao monte Calvário, onde recebeu vinho com fel para beber, sendo, em seguida, crucificado entre dois ladrões. (Mateus 27.27-29-35; Marcos 15.15-25; João 19.1-18.) [14] Tudo isso por ter discordado da religião e dos atos religiosos do seu povo, os judeus.

 

Nos primeiros séculos da Igreja, muitos foram perseguidos e torturados. Em Alexandria, no Egito, um bispo chamado Filéias diz em uma carta: “Alguns, com as mãos amarradas, eram pendurados numa trave, enquanto instrumentos mecânicos puxavam seus membros em todos os sentidos; os carnífices, seguindo a ordem do juiz aplicavam no corpo todo os instrumentos de tortura, não só nas costas, como era costume fazer com os assassinos, mas também no ventre, nas pernas, nas faces. Outros, pendurados fora do pórtico, por uma só mão, sofriam a mais atroz das dores pela tensão das articulações e dos membros.” [15]

 

Num outro relato, falando sobre os mártires da Tebaida, também no Egito, lemos: “Não há palavras suficientes para falar das torturas e dores padecidas pelos mártires da Tebaida, dilacerados no corpo todo com cacos de louça até que expirassem, em lugar dos ganchos de ferro, e pelas mulheres que, amarradas ao alto por um pé e, por meio de roldanas, puxadas pela cabeça para baixo, com o corpo inteiramente nu, oferecendo aos olhares de todos o mais humilhante, cruel, desumano dos espetáculos.” [16]

 

 

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Descrição: Instrumento de tortura num castelo de Praga, na República Tcheca. Data da foto: 22 de julho de 2009. Autor da foto: Janmad. Fonte. Licença CC BY.

A partir do século IV, a coisa inverteu. Líderes cristãos resolveram perseguir, torturar e condenar quem não estava do lado deles. (Será que resolveram “dar o troco” em cima de inocentes?) A partir do século XIII, até meados do século XVIII, os tribunais da Inquisição, que foram criados pela Igreja Católica, perseguiram muitas pessoas com crenças diferentes, cientistas, filósofos e supostas bruxas. [17], [18] Em 1262, o papa Inocêncio IV autorizou o uso da tortura através da bula Ad extirpanda, confirmada pelos papas Alexandre IV em 1259 e Clemente IV em 1265. [19], [20], [21] Foram centenas de anos de terror religioso, onde as vítimas eram investigadas e interrogadas sob torturas de diversos tipos. Além do tormento psicológico, havia diversos tipos de suplícios físicos. Veja alguns tipos usados, segundo algumas fontes.

 

·         A pessoa acusada de bruxaria podia ser colocada em uma cadeira de cabeça para baixo.

·         Ela podia também ser colocada nua sob um jato fino de água, onde permanecia até quarenta horas.

·         Havia a crença de que as bruxas tinham, no seu corpo, uma marca do Diabo. Então o investigador tinha que examinar o corpo nu da vítima para achar essa suposta marca. Segunda essa crença, o local da marca seria um lugar insensível. Por isso, o investigador espetava a vítima com um instrumento pontiagudo em busca desse ponto sem sensibilidade.

·         Outro instrumento de tortura era uma cadeira cravejada de peças de madeira pontiagudas e algumas agulhas de ferro, onde o réu era assentado nu e não podia realizar nenhum movimento para não sofrer espetadas dolorosas em seu corpo.

·         Outra cadeira tinha o assento de ferro, que era aquecido com uma fogueira por baixo.

·         Havia também um cavalete feito com madeira cortante, sobre o qual era colocada a pessoa a ser interrogada. Suas mãos eram presas em dois furos, e os pés, em anéis de ferro. Com um funil, o torturador colocava água na boca da vítima e, ao mesmo tempo, tampava as narinas dele, causando o seu sufocamento.

·         Havia ainda a mesa de evisceração, onde o réu era colocado. O carrasco cortava o seu estômago com uma lâmina. Com pequenos ganchos, suas vísceras eram presas e puxadas lentamente com o auxílio de uma roda. Isso era feito até causar a morte do supliciado.

·         A vítima também podia ser torturada com o método do pêndulo. Seus braços eram amarrados com uma corda, e ela era pendurada, causando o deslocamento dos ombros.

·         Havia ainda o costume levantar o réu pendurado em uma corda, com as mãos amarradas para trás. Através de um mecanismo, ele era erguido até certa altura. Em seguida, deixava-o cair. Quando estava quase se esborrachando no chão, a corda era travada, causando um forte impacto no seu corpo.

·         Pessoas cultas podiam ter os olhos perfurados ou arrancados.

·         O acusado também podia ser colocado numa pequena cela, sem alimentação, onde não era possível mexer com os pés e as mãos. [22], [23], [24], [25], [26], [27], [28]

 

Durante o período de caça às bruxas, mulheres acusadas de bruxarias podiam ser barbaramente torturadas, inclusive com ferro em brasa. [29], [30]. Os escravos africanos, preconceituosamente, considerados por alguns como um povo sob a maldição de Cam, um dos filhos de Noé, foram submetidos a todo tipo de tortura nas mãos de muitos senhores católicos fiéis. [31] Eles também tinham diversos tipos de instrumentos com essa finalidade. [32] Nas nações ditas cristãs desse vasto mundo ocidental, muitas técnicas de torturas foram desenvolvidas para punir escravos, criminosos e vítimas das ditaduras. [33] Um horror nas mãos de pessoas que frequentavam igrejas. Coisas que jamais poderiam aprender com Jesus Cristo. 

 

Onde estava o amor pregado por Jesus Cristo? Que cristianismo é esse, onde líderes assistiam, como se fosse um espetáculo, a dor daqueles que eram perseguidos, simplesmente porque suas idéias não combinavam com os velhos dogmas impostos pelos líderes da velha Roma? Será que os gemidos de dor rasgando o ar das grandes fazendas não conseguiam abalar os corações dos ricos fazendeiros da Terra de Santa Cruz? Que pessoas foram essas que tiveram a coragem de criar inúmeros instrumentos de tortura? [34]

 

Esse crime jamais teve a aprovação de Cristo. Ele não mandou ninguém fazer isso. Mas muitos religiosos intrometidos pensaram que estavam agradando a Deus com essa malvada estupidez. E esse mal ainda ronda o século XXI. Ainda há religiões, onde a tortura ainda é utilizada.

 

Já é tempo de dar um basta definitivo em qualquer tipo de tortura. Que esses atos desumanos não encontrem mais um lugar nas páginas da nossa história. Vamos deixar a procissão passar, “se arrastando que nem cobra pelo chão”. [35] Mas que essa cobra não seja mais venenosa, a ponto de destilar o seu veneno para atormentar aqueles que não reverenciam os seus rituais. Cobras peçonhentas, Fúrias, Erínias... Não! Não tiro o meu chapéu.

 

Autor: Maralvestos Tovesmar. Este texto (não o site inteiro) está disponível nos termos da licença CC BY-NC-ND. Pode ser copiado e distribuído, informando o autor e o link seguinte, mas não pode ser modificado e nem comercializado. Data: 2014. Veja outras mensagens em http://livresdosfardosreligiosos.blogspot.com.br



Vingança religiosa

Livres dos Fardos Religiosos

 

Um dia, o famoso Davi da Bíblia estava com os seus homens precisando de uma ajuda. Ele enviou alguns deles a um fazendeiro conhecido como Nabal, que estava tosquiando as suas ovelhas num lugar chamado Carmelo, para pedir algumas coisas. Nabal recusou ajudar. Então Davi ficou irado por causa da recusa e resolveu se vingar. Pediu que cada um dos seus homens pegasse a sua espada. Ele também pegou a sua espada, e foram atacar a propriedade de Nabal. Ele disse que destruiria tudo que fosse daquele homem. Não deixaria nenhum varão sobrando. (I Samuel 25.2-44.) [1] Observe como Davi foi desaforado. Devemos ajudar os outros, mas ninguém é obrigado a dar coisas para um grupo de homens como Davi e o seu bando.

 

 

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Descrição: Os hebreus, com suas espadas, se vingaram de muitos. Data: 1984. Autor: Jim Padgett. Fonte. Licença CC BY-SA.

Vingança quer dizer desforra. [2] Para os povos antigos, era a punição ou o castigo de uma pessoa ou de um povo por causa de algum mal cometido. Para muitos, era a aplicação da justiça. Todavia, podemos perceber que tudo não passava de extrema ignorância.

 

Moisés disse em nome de Deus: “Não se vingue, nem guarde ódio de alguém do seu povo, mas ame os outros como você ama a você mesmo. Eu sou o Senhor.” (Levítico 19:18, NTLH.) [3] “Se você vir o boi ou o jumento do seu inimigo andando perdido, leve-o de volta para ele. Se o jumento dele cair debaixo da carga, não o deixe ali, mas ajude o dono a pôr o animal de pé.” (Êxodo 23.4-5, NTLH.) [4] Como podemos ver, são conselhos muito bonitos, mas que não foram colocados em prática. O próprio Moisés foi mais uma vez contraditório e incoerente, permitindo a vingança por outro lado.

 

Na sua lei, foi determinado o seguinte: “Quando também alguém desfigurar o seu próximo, como ele fez, assim lhe será feito: quebradura por quebradura, olho por olho, dente por dente; como ele tiver desfigurado a algum homem, assim se lhe fará.” (Levítico 24.19-20, RC.) [5].

 

De acordo com a mesma lei de Moisés, se uma pessoa cometesse algum assassinato, o parente mais próximo da vítima, chamado de vingador do sangue, tinha o direito de vingar-se do assassino matando-o também. (Números 35.16-21.) [6] Ele mandou escolher seis cidades, onde quem tivesse matado alguém sem querer ou por engano pudesse se esconder do vingador. Ali o parente do morto não poderia cometer a vingança. (Números 35.9-15.) [7] Quando o povo conquistou a terra de Canaã sob o comando de Josué, foram escolhidas as seguintes cidades para servirem de refúgio: Quedes, Siquém, Quiriate-Arba (ou Hebrom), Bezer, Ramote e Golã. (Josué 20.7-8.) [8]

 

Disse ainda Moisés: “Deus lembra daquilo que os inimigos fizeram e espera o tempo certo para castigá-los. Deus se vingará; ele acertará contas com eles. Virá o tempo em que os inimigos cairão; o dia da desgraça deles está chegando depressa.” (Deuteronômio 32.34-35, NTLH.) [9] Moisés e o seu povo acreditavam na vingança divina. Mas eles não esperavam Deus praticar a justiça. Eles mesmos cometiam a vingança em seu nome.

 

A vingança contra os midianitas

 

Os maobitas, juntos com os midianitas, fizeram os israelitas pecarem. Quando eles estavam acampados num lugar chamado Sitim, também conhecido como Vale das Acácias, os homens prostituíram-se com as filhas dos maobitas. [10] Elas convidaram o povo para as festas em que eram feitos sacrifícios aos seus deuses. E os israelitas participaram dos seus banquetes e adoraram os seus deuses. (Números 25.1-3.) [11] Um dos israelitas levou uma mulher midianita para dentro da sua barraca na presença de Moisés e de toda a gente. (Números 25.6.) [12] Por causa desses males, Moisés disse, em nome de Deus: “Ataquem e matem os midianitas. Eles prejudicaram vocês, pois os enganaram, levando-os a adorar o ídolo de Peor, e também os enganaram no caso de Cosbi, filha do chefe midianita, que foi morta no tempo da epidemia que houve no monte Peor.” (Números 25.17-18, NTLH.) [13] “Então Moisés disse ao povo: ‘Preparem homens para a batalha, ataquem os midianitas e se vinguem deles pelo que fizeram contra Deus, o SENHOR.’” (Números 31:3, NTLH.) [14]

 

Então foram enviados doze mil homens que atacaram os midianitas. Eles mataram todos os homens daquele povo e levaram presas as mulheres e as crianças, pegaram as suas ovelhas, as cabras, o gado e todos os seus bens e incendiaram as suas cidades e os seus acampamentos. Depois, por ordem de Moisés, os meninos e as mulheres que não eram virgens também foram mortos. E as meninas e as moças virgens ficaram para eles. Além do grande número de mortos, na maioria inocentes, eles levaram deles 675 mil ovelhas e cabras,72 mil bois e vacas, 61 mil jumentos e 32 mil virgens. Foi uma vingança e tanto. (Números 31:3-35.) [15]

 

Vingança contra os amonitas e moabitas

 

Moisés disse para o povo, em nome de Deus: “Nenhum amonita ou moabita entrará na congregação do Senhor; nem ainda a sua décima geração entrará na congregação do Senhor, eternamente. Porquanto não saíram com pão e água a receber-vos no caminho, quando saíeis do Egito; e porquanto alugaram contra ti a Balaão, filho de Beor, de Petor, da Mesopotâmia, para te amaldiçoar. Porém o Senhor, teu Deus, não quis ouvir Balaão; antes, o Senhor, teu Deus, trocou em bênção a maldição, porquanto o Senhor, teu Deus, te amava. Não lhes procurarás nem paz nem bem em todos os teus dias, para sempre.” (Deuteronômio 23.3-6, RC. Grifo meu.) [16] A vingança contra os males que esses povos fizeram com os hebreus foi tão grande que eles nunca deveriam fazer coisa alguma para o bem ou proveito desses povos. Isso quer dizer que qualquer pessoa desses povos, depois de muitos anos, mesmo sendo inocentes, sentiram o veneno da vingança dos hebreus por causa de um mal que alguns de seus ancestrais tinham cometido.

 

Vingança contra os moradores de Sucote e Peniel.

 

Gideão e os seus trezentos homens estavam perseguindo os midianitas. Eles chegaram a uma cidade chamada Sucote, ao leste do rio Jordão. Gideão pediu aos homens daquela cidade comida para os seus trezentos combatentes. Eles negaram dar alimentos para aqueles guerreiros. Então, Gideão prometeu se vingar, rasgando a carne deles com os espinhos das plantas do deserto, assim que retornassem vitoriosos da perseguição dos midianitas. Chegando a Peniel, fez o mesmo pedido e receberam a mesma negação. Então, mais uma vez, prometeu vingança, dizendo que derrubaria uma torre da cidade, após retornarem da guerra. E assim aconteceu. Com espinhos das plantas do deserto castigou os setenta e sete chefes de Sucote. Derrubaram a torre de Peniel e assassinaram os homens daquela cidade. (Juízes 8.4-17.) [17]

 

Vingança contra os amalequitas

 

Quando os hebreus estavam caminhando pelo deserto, vindo do Egito, em busca da terra de Canaã, eles foram cercados pelos amalequitas, uma tribo de nômades que vagavam no sul da Palestina. (Êxodo 17.8-16.) [18], [19] Alguns séculos depois, o profeta Samuel, em nome de Deus, disse para o rei Saul: “O Senhor Deus me mandou ungir você para ser rei de Israel, o povo dele. Agora escute isto que o Senhor Todo-Poderoso diz. Ele castigará os amalequitas porque eles lutaram contra os israelitas quando estes vieram do Egito. Vá, ataque os amalequitas e destrua completamente tudo o que eles têm. Não tenha dó nem piedade. Mate todos os homens e mulheres, crianças e bebês, gado e ovelhas, camelos e jumentos.’” Assim Saul provocou uma grande matança de inocentes (I Samuel 15.1-9. O texto entre aspas é da NTLH.) [20] Será que Deus mandou provocar um genocídio, para tirar a vida de um monte de gente inocente, incluindo bebês, por causa do erro de um bando de selvagens de outras gerações, que tentou deter os israelitas alguns séculos antes, quando eles vinham do Egito?

 

Estranho essas vinganças em nome de Deus. Vacilaram Moisés, Gideão e Samuel ao promoverem vinganças extremas e ainda por cima, contra pessoas inocentes, tudo em nome do Senhor, cometendo contradições.

 

Contradizendo esses fatos, no livro dos Provérbios, lemos: “Não seja vingativo; confie em Deus, o Senhor, e ele fará justiça a você.” (Provérbios 20.22, NTLH.) [21] Todavia, não é o que vemos na história dos hebreus. Eles foram extremamente vingativos.

 

Jesus não foi a favor da vingança. Ele disse: “Vocês ouviram o que foi dito: ‘Olho por olho, dente por dente.’ Mas eu lhes digo: não se vinguem dos que fazem mal a vocês. Se alguém lhe der um tapa na cara, vire o outro lado para ele bater também. Se alguém processar você para tomar a sua túnica, deixe que leve também a capa. Se um dos soldados estrangeiros forçá-lo a carregar uma carga um quilômetro, carregue-a dois quilômetros. Se alguém lhe pedir alguma coisa, dê; e, se alguém lhe pedir emprestado, empreste. Vocês ouviram o que foi dito: ‘Ame os seus amigos e odeie os seus inimigos.’ Mas eu lhes digo: amem os seus inimigos e orem pelos que perseguem vocês, para que vocês se tornem filhos do Pai de vocês, que está no céu. Porque ele faz com que o sol brilhe sobre os bons e sobre os maus e dá chuvas tanto para os que fazem o bem como para os que fazem o mal. Se vocês amam somente aqueles que os amam, por que esperam que Deus lhes dê alguma recompensa? Até os cobradores de impostos amam as pessoas que os amam! Se vocês falam somente com os seus amigos, o que é que estão fazendo de mais? Até os pagãos fazem isso! Portanto, sejam perfeitos em amor, assim como é perfeito o Pai de vocês, que está no céu.” (Mateus 5.38-48, NTLH.) [22] “E, quando estiverem orando, perdoem os que os ofenderam, para que o Pai de vocês, que está no céu, perdoe as ofensas de vocês. Se não perdoarem os outros, o Pai de vocês, que está no céu, também não perdoará as ofensas de vocês.” (Marcos 11.25-26, NTLH.) [23]

 

Paulo, discípulo de Jesus, escreveu: “Peçam que Deus abençoe os que perseguem vocês. Sim, peçam que ele abençoe e não que amaldiçoe.” (Romanos 12:14.) [24] “Meus queridos irmãos, nunca se vinguem de ninguém; pelo contrário, deixem que seja Deus quem dê o castigo. Pois as Escrituras Sagradas dizem: ‘Eu me vingarei, eu acertarei contas com eles, diz o Senhor.’” (Romanos 12:19, NTLH.) [25] “Não deixem que o mal vença vocês, mas vençam o mal com o bem.” (Romanos 12.21, NTLH.) [26] “Não fiquem irritados uns com os outros e perdoem uns aos outros, caso alguém tenha alguma queixa contra outra pessoa. Assim como o Senhor perdoou vocês, perdoem uns aos outros.” (Colossenses 3.13, NTLH.) [27] 

 

Pedro, também discípulo de Jesus disse: “Não paguem mal com mal, nem ofensa com ofensa. Pelo contrário, paguem a ofensa com uma bênção porque, quando Deus os chamou, ele prometeu dar uma bênção a vocês.” (1 Pedro 3:9, NTLH.) [28]

 

Muitos pregadores têm esquecido os ensinos de Jesus e têm pregado mensagens, onde, indiretamente, sem nenhuma sensatez, acabam se tornando coniventes com as vinganças dos antigos hebreus. E alguns ainda promovem suas próprias vinganças.

 

Vimos noutra mensagem que, no final da Idade Média, árabes seguidores do islã capturavam e escravizavam católicos europeus. [29], [30] E o que fez o papa Nicolau V? Promoveu uma vingança. Concedeu aos reis de Espanha e Portugal plena e livre permissão de invadir, buscar, capturar e subjugar os sarracenos (árabes islamitas) e tomar os seus reinos, ducados, condados, principados e outras propriedades e reduzir suas pessoas à escravidão perpétua.” [31], [32] Os católicos europeus tinham todo direito de se defenderem dos árabes para que não fossem escravizados. Mas, como seguidores de Cristo, jamais deviam escravizar árabes como retaliação. Mas isso foi feito com a autorização do líder supremo da Igreja.

 

É comum a gente ver pessoas loucas para sentirem o sabor da vingança. Ela é como um alimento saboroso na boca, porém venenoso no estômago. No início, no momento da desforra, a pessoa se sente realizada e contente. Entretanto, depois permanece longo tempo sentido o amargo do mal cometido. Por isso, o melhor remédio é o perdão. Esqueça as maldades do Antigo Testamento e da história do cristianismo, mesmo aquelas praticadas em nome de Deus, e tome outra direção, procurando seguir os verdadeiros ensinos de Cristo. Perdoe sempre e nunca deixe de pagar o mal com o bem. No final das contas, você e todos sairão vitoriosos e felizes de verdade. Isso não é utopia. É a receita certa para acabar de vez com o fogo do ódio ardendo por dentro.

 

Autor: Maralvestos Tovesmar. Este texto (não o site inteiro) está disponível nos termos da licença CC BY-NC-ND. Pode ser copiado e distribuído, informando o autor e o link seguinte, mas não pode ser modificado e nem comercializado. Data: 2014. Veja outras mensagens em http://livresdosfardosreligiosos.blogspot.com.br