Perseguições religiosas

Livres dos Fardos Religiosos

 

Preconceitos, ódios, discriminações, vilipêndios, injúrias, profanações, chauvinismos, dentre outros males,  tudo, muitas vezes, acaba gerando perseguições.

 

Nas antigas religiões, relatos diziam que alguns deuses perseguiram outros deuses e alguns seres humanos. Os antigos gregos acreditavam que a deusa Hera perseguira as amantes de Zeus. [1] Os egípcios diziam que Seth atormentara o deus Osíris. [2] Os babilônios diziam que Marduk vencera os deuses rebeldes, depois de ir ao encalço deles.[3] Mas nem só de mito vivem as religiões. Deixando as fantasias de lado, na vida real, milhões de pessoas sofreram perseguições religiosas pelo mundo, ao longo da história, porque alguns líderes quiseram agir como se fossem deuses superpoderosos, donos da verdade.

 

 

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Descrição: Perseguido pelos fanáticos religiosos judeus, Paulo teve que fugir de Damasco, pulando o muro da cidade, pendurado em um cesto. (Atos 9.23-25.) Data: 1984. Autor: Jim Padgett. Fonte. Licença CC BY-SA.

Perseguição religiosa é o ato de atormentar, punir ou castigar pessoas por motivos religiosos. Essa imundície repugnante se alastrou por longos anos. É impossível descrever tudo aqui. Mas vamos ver alguns detalhes.

 

    Há mais de 1000 anos antes de Cristo, os hebreus, também conhecidos como judeus ou israelitas, conquistaram a terra de Canaã e perseguiram as demais religiões do lugar. Eles agiram conforme as seguintes ordens intolerantes de Moisés: “Depois de expulsarem os povos daquela terra, arrasem completamente todos os lugares onde eles adoram os seus deuses, tanto nas montanhas como nas colinas e debaixo das árvores que dão sombra. Derrubem os altares, quebrem as colunas do deus Baal, cortem os postes-ídolos e queimem todas as imagens, para que ninguém lembre mais dos deuses daqueles povos.” (Deuteronômio 12.2-3, NTLH). [4] “Mas, quando conquistarem as cidades que ficam na terra que o SENHOR, nosso Deus, está dando a vocês, matem todos os moradores. Conforme Deus mandou, acabem com todos estes povos: os heteus, os amorreus, os cananeus, os perizeus, os heveus e os jebuseus. Matem todos, para que eles não ensinem vocês a imitar as cerimônias nojentas que praticam quando adoram os seus deuses. Isso seria um pecado grave contra o SENHOR, nosso Deus. (Deuteronômio 20.16-18, NTLH.) [5] “Quando vocês estiverem morando nas cidades da terra que o SENHOR, nosso Deus, vai lhes dar, talvez vocês ouçam dizer que em certa cidade alguns homens perversos levaram os moradores a adorar deuses que vocês nunca adoraram. Aí vocês deverão examinar o caso com todo o cuidado. Se ficar provado que, de fato, foi cometido um pecado tão grave no meio do povo de Israel, então vocês deverão matar à espada todos os moradores daquela cidade. Matem também os animais e arrasem a cidade. Depois peguem todos os objetos de valor que encontrarem, amontoem na praça e queimem tudo e também a cidade, como oferta ao SENHOR, nosso Deus. Vai ficar só um montão de ruínas, e nunca mais será construída uma cidade naquele lugar. (Deuteronômio 13.12-16, NTLH.) [6] Dessa forma, a Bíblia, no Antigo Testamento, estranhamente, ensina a perseguir outras religiões.

 

    Mais tarde, eles perseguiram e assassinaram diversos profetas que tentaram repreendê-los. No século I, Jesus exclamou: “Jerusalém, Jerusalém, que matas os profetas e apedrejas os que te foram enviados!” (Mateus 23.37, RA.) [7] E Jesus também foi perseguido. Um dia, depois de pregar numa sinagoga, os judeus se levantaram, o arrastaram para fora da cidade e o levaram até o alto do monte onde a cidade estava construída, para o jogar dali abaixo. Ele, porém, conseguiu escapar. (Lucas 4.29-30.) [8] Pouco tempo depois, ele foi capturado por causa do seu evangelho. Os líderes religiosos judeus não queriam saber de uma nova religião. Ele foi condenado a morrer crucificado. Num de seus sermões, ele havia dito para os seus discípulos: “Lembrai-vos da palavra que vos disse: ‘não é o servo maior do que o seu senhor. Se a mim me perseguiram, também vos perseguirão a vós;.’” (João 15.20, RC.) [9]

 

    Ainda no primeiro século, a igreja de Jerusalém foi duramente perseguida pelos judeus e pelos romanos. (Atos 8.1.) [10]

 

Perseguições romanas

Imperadores

Época do reinado

Primeira

Nero Cláudio César Augusto Germânico

Entre os anos 54-68 [11], [12], [13], [14]

Segunda

Tito Flávio Domiciano

81-96 [15], [16]

Terceira

Marco Úlpio Nerva Trajano

98-117 [17], [18]

Quarta

Marco Aurélio Antonino

161-180 [19], [20]

Quinta

Lúcio Septimio Severo

193-211 [21], [22]

Sexta

Caio Júlio Vero Maximino

235-238 [23]

Sétima

Caio Méssio Quinto Trajano Décio

249-251 [24], [25]

Oitava

Públio Licínio Valeriano

253-260 [26], [27]

Nona

Lúcio Domício Aureliano

270-275 [28]

Décima

Caio Aurélio Valério Diocleciano

284-305 [29], [30], [31]

 

    Na segunda metade do século III, Maniqueu, fundador da religião conhecida como maniqueísmo, foi perseguido pelos sacerdotes do zoroastrismo na Pérsia e ficou no cativeiro até a sua morte. [32]

 

    Em 313, o imperdor Constantino assinou o Edito de Milão, concedendo liberdade aos cristãos e demais religiões. [33], [34] Mas apesar disso, ainda houve perseguições. [35], [36], [37]

 

    Em meados do século IV, Constâncio II, outro imperador romano, filho de Constantino, ficou do lado dos arianos e importunou os católicos. [38]

 

Até o século IV, o cristianismo era perseguido por muitos. Mas os cristãos evitavam perseguir os outros. Já sabemos que, no início do século IV, o imperador romano Constantino deu liberdade ao cristianismo, assinando o Edito de Milão. [39] Todavia, não era proibido haver outras religiões. O mesmo documento concedia liberdade para todas as religiões. Observe as palavras do Edito: Pareceu-nos justo que todos, os cristãos inclusive, gozem da liberdade de seguir o culto e a religião de sua preferência. Assim qualquer divindade que no céu mora ser-nos-á propícia a nós e a todos nossos súditos.” Em outro trecho diz: Observai outrossim, que também todos os demais terão garantia a livre e irrestrita prática de suas respectivas religiões, pois está de acordo com a estrutura estatal e com a paz vigente que asseguremos a cada cidadão a liberdade de culto segundo sua consciência e eleição; não pretendemos negar a consideração que merecem as religiões e seus adeptos. [40] Mas no ano 380, através do Edito de Tessalônica, o imperador Teodósio I fez do cristianismo a religião oficial romana. [41] Como sumos sacerdotes (Pontífices Máximos) da religião cristã, os imperadores, a partir de então, acharam que podiam impor o cristianismo usando a força. [42] Observe a intolerância religiosa estampada em um trecho do Edito de Tessalônica: “Ordenamos que de acordo com esta lei todas as gentes abracem o nome de cristãos e católicos, declarando que os dementes e insensatos que sustentam a heresia e cujas reuniões não recebem o nome de igrejas, têm de ser castigados, primeiro pela justiça divina e depois pela pena que leva inerente o não cumprimento de nosso mandato, mandato que provém da vontade de Deus.” Depois disso, Teodósio ainda expediu outros decretos de intolerância. [43], [44] Em 57 anos, os imperadores emitiram 68 decretos dessa natureza. [45] Instigada pelo Edito de Tessalônica, a religião cristã deixou de ser perseguida e passou a ser a perseguidora das outras religiões, incluindo, é claro, o arianismo. [46] Mais tarde, surgiram as igrejas protestantes, e essas também aprenderam a perseguir outras crenças.

 

        Ainda no século IV, o bispo Optato da cidade de Milevis na Numíbia, norte da África, onde o donatismo estava sendo bastante difundido, ao lado do catolicismo, defendeu a perseguição religiosa. Ele lembrou Moisés que mandara matar quem havia adorado um bezerro de ouro (Êxodo 32) e Finéias que havia assassinado um israelita que estava junto com uma mulher da religião dos moabitas. (Números 25.1-8.)  [47], [48] Até então, as perseguições religiosas do Antigo Testamento eram rejeitadas pelos homens da Igreja. Mas agora, esse bispo defendia, citando exemplos do Antigo Testamento, a perseguição dos donatistas, usando até mesmo a pena de morte. Esse bispo é o mesmo Santo Optato de Milevis. [49] 

 

    Entre os anos 1209-1229, católicos realizaram uma cruzada sangrenta contra os cristãos albigenses. [50]

 

    No ano 1231, o papa Gregório IX oficializou a Inquisição e continuou perseguindo judeus, mulçumanos e outras religiões, além de teólogos com idéias diferentes dos dogmas católicos, supostas bruxas e ainda filósofos e cientistas. [51]

 

    No início do século XV, o imperador Henrique IV da Inglaterra perseguiu o movimento religioso dos lolardos. [52]

 

    A partir do século XV, iniciou-se a conquista do continente americano pelos protestantes e católicos europeus e a derrota ferrenha das religiões ameríndias. [53], [54], [55], [56]

 

    Em 1525, na cidade Suíça de Zurique, surgiram os anabatistas. Os adeptos desse grupo religioso, por causa das suas doutrinas, foram duramente perseguidos por muitos anos por católicos e protestantes em diversas regiões como Suíça, Bélgica, Holanda, Itália, Espanha, Alemanha, França e Inglaterra. Por isso, milhares deles migraram para as Américas, principalmente Estados Unidos. [57]

 

    No ano 1532, o rei Henrique VIII rompeu relações com o papa, fundou a Igreja Anglicana e tornou-se inimigo do catolicismo. [58]

 

    De 1553 a 1558, na Inglaterra, Maria Tudor (Maria I), filha do rei Henrique VIII, resolveu se casar com o rei católico da Espanha Felipe II e abriu as portas para o catolicismo novamente. Por isso, resolveu massacrar os protestantes com uma crueldade tão grande que até recebeu o apelido de Maria Sanguinária. [59]

 

    Entre 1558 a 1603, ainda na Inglaterra, Elizabeth I, outra filha do rei Henrique VIII, resolveu restabelecer a Igreja Anglicana e assim os católicos e puritanos foram perseguidos durante o seu governo. [60]

 

    Em pleno século XX, religiões afro-brasileiras foram perseguidas no Brasil. [61]

 

Esses são alguns poucos exemplos de perseguições religiosas. Ainda hoje, em pleno século XXI, em muitos países, muitos ainda sofrem desse mal terrível. [62], [63], [64] Em diversos lugares, ainda falta a liberdade religiosa. Ainda existem pessoas que defendem a presença de uma religião oficial em detrimento das demais. [65]

 

É lamentável saber que os cristãos às vezes foram caças, e outras vezes, caçadores. Fizeram uma burrada, pois a mensagem de Jesus era para ser anunciada em todo o mundo. Não era para ser imposta com a força da lei, dos governos e das armas. Essa mesma asneira, muitos outros religiosos têm praticado, pensando que é possível mudar o mundo com a determinação ferrenha de suas crenças, preceitos e rituais.

 

Não é sem razão que Jesus disse um dia: “Bem-aventurados os que são perseguidos por causa da justiça, porque deles é o reino dos céus. Bem-aventurados sois vós, quando vos injuriarem e perseguirem e, mentindo, disserem todo mal contra vós por minha causa. Alegrai-vos e exultai, porque é grande o vosso galardão nos céus; porque assim perseguiram aos profetas que foram antes de vós.” (Mateus 5.10-12.) [66]

 

Que todos nós possamos reconhecer a liberdade religiosa de todos. E sem ressentimento, para conseguirmos colocar um ponto final nesse nojo, devemos, como o coração carregado de perdão, simplesmente seguir o que ensinou Jesus: “Amai aos vossos inimigos, e orai pelos que vos perseguem.” (Mateus 5.44.) [67]

 

Autor: Maralvestos Tovesmar. Este texto (não o site inteiro) está disponível nos termos da licença CC BY-NC-ND. Pode ser copiado e distribuído, informando o autor e o link seguinte, mas não pode ser modificado e nem comercializado. Data: 2014. Veja outras mensagens em http://livresdosfardosreligiosos.blogspot.com.br



[12] Tácito, Annales, XV.44.