Vilipêndio religioso

Livres dos Fardos Religiosos

 

Você já foi humilhado por causa da sua religião, doutrinas, rituais ou crenças? Saiba que isso tem sido muito comum no meio religioso.

 

O rei Josias de Judá confiava no Deus dos hebreus e não acreditava em outros deuses. Ele defendeu a sua fé com um vilipêndio excessivo. Saiu pelo reino afora destruindo, quebrando, esmigalhando tudo que era de outra religião. “No oitavo ano do seu reinado, quando era ainda bem moço, Josias começou a adorar o Deus do seu antepassado Davi. E quatro anos mais tarde começou a purificar a terra de Judá e a cidade de Jerusalém, destruindo os lugares pagãos de adoração, os postes-ídolos e as outras imagens de pedra e de metal. Na presença dele, foram derrubados os altares do deus Baal, e ele mesmo quebrou os altares de incenso que estavam em cima deles. Quebrou também os postes-ídolos e as outras imagens de pedra e de metal, os esmigalhou até virarem pó e espalhou o pó em cima das sepulturas das pessoas que tinham oferecido sacrifícios a esses ídolos. Depois queimou os ossos dos sacerdotes pagãos nos altares onde eles haviam oferecido sacrifícios. Assim Josias purificou Judá e Jerusalém. Ele fez a mesma coisa nas cidades das tribos de Manassés, de Efraim, de Simeão e até de Naftali e nas ruínas ao redor daquelas cidades. Ele andou por todo o país de Israel, derrubando os altares, os postes-ídolos e os outros ídolos, esmigalhando-os até virarem pó e quebrando todos os altares de incenso. Depois voltou para Jerusalém. (II Crônicas 34.3-7, RA.) [1]

 

Josias estava certo em defender a sua fé. Mas errou ao recusar a religião diferente com um desprezo excessivo, carregado de manifestações de ódio e intolerância. Será que podemos fazer o que ele fez? Não seria crime tudo que esse rei praticou contra outras crenças?

 

 

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Descrição: Jesus sendo tratado com desprezo. Data:1984. Autor: Jim Padgett. Fonte. Licença CC BY-SA.

Vilipêndio é o ato de tornar algo ou alguém desprezível, sem apreço, sem valor, inútil. [2] Vilipêndio religioso é o desprezo, a desconsideração, o tratamento desrespeitoso que uma pessoa sofre por causa dos seus elementos religiosos. Esse é mais um dos frutos do ódio religioso.

 

É natural uma pessoa deixar de lado uma religião, uma crença, uma doutrina. Mas ela deve fazer isso sem causar transtornos às outras pessoas que pensam e agem de forma diferente. Infelizmente nem sempre as pessoas agiram dessa forma.

 

Os soldados de Pilatos puseram uma coroa de espinhos na cabeça de Jesus, colocaram uma vara na sua mão direita e escarneceram dizendo: “Salve, Rei dos judeus!” Cuspiram nele e bateram na cabeça dele com a vara. (Mateus 27.29-30, RA, RC, TB.) [3] Eles tinham o direito de não crer em Jesus, mas não podiam jamais tratá-lo dessa forma.

 

Quando os profetas do deus Baal oravam em volta do altar, sem nenhuma resposta do seu deus, o profeta Elias, da religião dos hebreus, caçoou dizendo: “Clamai em altas vozes, porque ele é um deus; pode ser que esteja falando, ou que tenha alguma coisa que fazer, ou que intente alguma viagem; porventura, dorme e despertará.” (I Reis 18.27, RC.) [4] É claro que não podemos zombar de ninguém com palavras semelhantes a essas. Podemos rejeitar as crenças de certas pessoas, mas não com palavras depreciativas como fez Elias. Ele, apesar de ter sido um grande profeta, era também um ser humano pecador. E ele pecou ao agir dessa forma.

 

Diz um relato que, em 1717, no Brasil, no estado de São Paulo, no rio Paraíba do Sul, no porto de Itaguaçu, alguns homens estavam pescando com suas redes. Não estavam apanhando nada. Mas de repente, ao puxarem as redes, perceberam alguma coisa embaraçada. Era o tronco da imagem da Virgem Maria. Lançaram as redes novamente e pescaram a sua cabeça. Então, a partir desse instante, segundo relatos, houve uma pesca abundante.

 

Essa imagem recebeu o nome de Nossa Senhora Aparecida e tornou-se a padroeira do Brasil para os católicos. Muitos cultivam uma grande devoção por ela. Fazem romarias na cidade de Aparecida, realizam promessas, rezam e muitas outras coisas. Tem sido uma das maiores manifestações de religiosidade popular brasileira. [5].

 

As igrejas evangélicas e protestantes não seguem essa devoção. É o direito que elas têm. Ninguém é obrigado a cultivar as mesmas crenças e as mesmas práticas religiosas dos outros. Todavia, ninguém deve, com certas palavras e atitudes, menosprezar a religiosidade de ninguém. No entanto, certo bispo de uma determinada igreja evangélica chutou a imagem da Senhora de Aparecida. Ele tinha toda liberdade de não acreditar nela. Entretanto, jamais devia tratá-la desse jeito. Foi uma atitude desrespeitosa, que ninguém deve imitar.

 

Os católicos da Idade Média tinham todo direito de não seguir o judaísmo ou qualquer outra religião. Mas os seus líderes não podiam jamais fazer o que eles fizeram. Não podiam realizar nenhum auto de fé, levando as pessoas de outras crenças em procissões, vestidas de sambenito, proporcionando um espetáculo funesto e humilhante para o público. Nunca deviam ter zombado a ponto de permitir que o poder secular pendurasse essas pessoas nas estrapadas e que fossem queimadas vivas diante do público. Humilharam extremamente os defensores de outras crenças e doutrinas, cientistas, supostas bruxas e judeus. [6], [7], [8], [9]

 

Se uma pessoa não seguir, à risca, as tradicionais doutrinas do cristianismo, ela certamente entrará para o rol daqueles que são considerados desprezíveis e que são tratados com adjetivos vilipendiosos. Entre muitas igrejas evangélicas, ainda encontramos atitudes desdenhosas e inconvenientes. É comum ver um acusando o outro de ser carnal, servo do diabo, falso profeta e coisas parecidas. Certo pastor, se referindo sobre as mensagens divulgadas por uma religião oriental, disse: “Irmãos, fujam destas heresias demoníacas!” [10] Será que ele não podia defender suas crenças, evitando chamar aquelas mensagens de demoníacas.

 

Como podemos ver, a desconsideração excessiva da religiosidade alheia acaba causando ódio, injúrias e atos de intolerância entre os religiosos. Isso não é correto. Não somos obrigados a crer naquilo que os outros acreditam. Temos a liberdade de não querer praticar os rituais que os outros praticam. Somos livres para seguir a religião que quisermos; somos livres para expor o nosso ponto de vista e podemos tecer nossas críticas construtivas. Todavia, precisamos respeitar as diferenças religiosas dos outros. Não podemos defender a nossa religião vilipendiando as demais com certos atos e palavras. Podemos divulgar as nossas crenças sem escarnecer das outras.

 

Autor: Maralvestos Tovesmar. Este texto está disponível nos termos da licença CC BY-NC-ND. Pode ser copiado e distribuído, informando o autor e o link seguinte, mas não pode ser modificado e nem comercializado. Data: 2013. Veja outras mensagens em http://livresdosfardosreligiosos.blogspot.com.br