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Injúrias religiosas

Livres dos Fardos Religiosos

 

Uma das atitudes comuns usadas por aqueles que gostam de vilipendiar outras crenças são as injúrias.

 

Alguém escreveu dizendo que os países protestantes são os mais equilibrados financeiramente, possuem governos estáveis e são bem alfabetizados, enquanto os países católicos vivem mergulhados em diversas crises. Dinamarca, Noruega, Inglaterra, Estados Unidos foram citados como exemplo de países prósperos com a maioria da população protestante. Países africanos e latino-americanos foram mencionados como países católicos que vivem em estado de pobreza. [1], [2]

 

 

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Descrição: Riqueza e pobreza. Data: Autor: Maralvestos. Licença CC BY-SA.

Essa pessoa, preconceituosamente, com palavras implícitas, acabou chamando os católicos de pobres e ignorantes. Sabemos que isso não é verdade. Há países prósperos e bem alfabetizados, onde o catolicismo predomina. A Itália, por exemplo, em 2003, mostrou o IDH (índice de desenvolvimento Humano) na marca de 0,934, portanto elevado. A Bélgica, na mesma data, apresentou o mesmo índice com 0,945; a França com 0,938 e a Espanha com 0,928. Por outro lado, o Japão, onde predomina o budismo e o xintoísmo, apresentou o IDH de 0,943. [3] Essa pessoa ignorou que os países católicos pobres das Américas e da África foram duramente explorados por nações católicas e protestantes. Portanto, a sua condição de vida não tem nada a ver com a religião. Dizer que países católicos são pobres e ignorantes é uma injúria. Além disso, essa pessoa, com o seu preconceito, não levou em consideração que a África, segundo a fontes do início do século XXI, possuía apenas 15 % de católicos e 18% de outras igrejas cristãs. [4], [5] Portanto, sua condição econômica não tem nenhuma relação com o catolicismo e nem com qualquer outra religião. Não sou católico, mas não posso aceitar uma injúria desse tipo contra os milhões de seres humanos vítimas da pobreza.

 

Injúrias religiosas são palavras ou atos dirigidos a algumas pessoas ou religiões com o objetivo de ofendê-las, insultá-las, maltratá-las, diminuí-las, ultrajá-las ou difamá-las. É mais uma maneira que as pessoas encontram para colocar para fora o ódio de grupos religiosos diferentes. O preconceito gera ódio, e o ódio gera vilipêndios carregado de ofensas.

 

Não podemos confundir a crítica construtiva ou a reprovação de alguma coisa errada com injúria. Por exemplo: quando criticamos a Inquisição católica, a corrupção da Igreja, a matança dos hebreus no judaísmo e outros males contra a humanidade, o nosso objetivo não é ofender essas religiões, mas mostrar os erros praticados, equivocadamente, em nome de Deus. Coisas que não podemos repetir.  Não queremos, jamais, que o judaísmo, o catolicismo ou qualquer outra religião ou igreja sejam eliminados da face da terra. O que mais desejamos é que os males que qualquer grupo religioso praticou nunca mais se repitam. Todavia, muitas pessoas realmente fazem de tudo para prejudicar e não para ajudar. Nas concorrências acirradas entre religiões e igrejas, as injúrias têm sido usadas para derrubar o grupo concorrente.

 

Sempre houve muitas injúrias no meio religioso. No tempo de Jesus, por exemplo, os habitantes da Galiléia, onde, no passado, pessoas estrangeiras haviam se misturado com judeus, eram tratadas com desprezo e palavras injuriosas. [6]

 

Um dia, Filipe disse algumas coisas sobre Jesus para Natanael. Mas esse respondeu: “Pode vir alguma coisa boa de Nazaré?” (João 1.45-46. Texto entre aspas da RC.) [7] Com essas palavras, Natanael acabou difamando, como era de costume, os habitantes da Galiléia. Segundo as suas palavras, daquele lugar só podia vir coisas ruins. O messias tão esperado não poderia vir de lá. Outro dia, de forma semelhante, os principais dos sacerdotes e fariseus disseram para Nicodemos: “Examina, e verás que da Galiléia nenhum profeta surgiu.” (João 7.52, RC.) [8]

 

Quando Jesus pregava o seu evangelho, alguns judeus disseram para ele: “Não dizemos nós bem que és samaritano, e que tens demônio?” (João 8.48, RC.) [9] Ora, eles não precisavam ser seguidores de Cristo. Porém não precisavam injuriá-lo dizendo essas coisas.

 

Certo pregador protestante dizia, com vários argumentos, que o papa é a besta do Apocalipse. Essa pessoa não tem o papa como o líder máximo do cristianismo. Eu também não tenho o papa como o meu líder religioso principal. Mas, como aquela pessoa, não me atrevo a dizer essas coisas.

 

Um protestante, falando sobre o celibato, ato de renunciar ao casamento, costume dos líderes da Igreja Católica, o chamou de “doutrina de demônios". Ora, essa pessoa tem todo direito de não concordar com esse costume religioso. Eu também acho que isso não é necessário. Mas não precisamos e não podemos ofender o clero católico por isso.

 

O preconceito contra os negros no Brasil pode ser visto em algumas igrejas evangélicas. Alguns pregadores dizem, ofensivamente, que as religiões afro-brasileiras são responsáveis por algumas ações demoníacas na vida das pessoas. É verdade que existem aqueles que realizam trabalhos sujos. Todavia, a má fama costume ser aplicada a todas. Se a Igreja tem o poder sobre os demônios, então porque não os expulsa sem fazer comentários ofensivos?

 

Um pastor lamentou que certa religião ensina que todas as outras religiões são obra do diabo. Mas o mesmo pastor contra-atacou dizendo que algumas religiões realmente são obra do diabo, inclusive aquela.

 

É um absurdo ver um pastor chamar o outro de “bundão”, “cachorro morto”, “pregador de meia-pataca”, idiota, mané, filho do diabo, filho do inferno, falso profeta e outras injúrias que vemos na mídia, principalmente na Internet. Ridículo foi ver um pregador, no seu programa de televisão, chamar os seus críticos de “comedô de angu cum taioba”, ainda por cima, usado o nome de Jesus. Isso me ofendeu, pois na minha cozinha sempre tem uma lata de fubá e, no meu quintal, taioba. Por acaso quem come angu com taioba é desprezível?

Pedro escreveu: “Não tornando mal por mal, ou injúria por injúria, antes, pelo contrário, bendizendo; sabendo que para isto fostes chamados, para que, por herança, alcanceis a bênção.” (I Pedro 3.9, RC.) [10] Ofensas pra cá e ofensas pra lá só vão piorar as coisas. Por isso, as pessoas precisam aprender a não rebater o mal com outro mal.

 

Outra coisa muito comum é ver pessoas inocentes dentro de uma determinada religião sendo injuriadas por causa dos erros de alguns adeptos da mesma religião no passado. Por exemplo: alguns judeus perseguiram Jesus no primeiro século. Por causa disso, muitos perseguiram os judeus na Idade Média e Moderna. Os judeus da Europa dos tempos medievais e modernos não poderiam ser ofendidos por causa dos erros de seus antepassados. Da mesma forma, não podemos tratar mal os católicos de hoje por causa das maldades que a Igreja cometeu em outras épocas.

 

Devemos denunciar os erros de qualquer religião. No entanto, devemos fazer isso com respeito e com críticas construtivas, evitando palavras injuriosas. Devemos fazer tudo isso com o objetivo de ajudarmos uns aos outro e não com a intenção de denegrir e eliminar a religião dos outros. Vamos condenar o pecado sem apedrejar o pecador.

 

Autor: Maralvestos Tovesmar. Este texto está disponível nos termos da licença CC BY-NC-ND. Pode ser copiado e distribuído, informando o autor e o link seguinte, mas não pode ser modificado e nem comercializado. Data: 2013. Veja outras mensagens em http://livresdosfardosreligiosos.blogspot.com.br