Contendas religiosas

Livres dos Fardos Religiosos

 

Duas pessoas discutiam sobre a zebra. Um disse, num tom bem irritante: “Idiota! Ela é branca com listras negras!” Com palavras ofensivas, dando coices, o outro respondeu: “Você não sabe nada! Ela é negra com listras brancas!” Cada um, com seus argumentos desrespeitosos, tentou provar que estava certo, e que o outro estava errado. Mas nenhum dos dois ficou convencido. Nenhum deles entendeu que o animal é simplesmente alvinegro.

 

 

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Descrição: Zebra na Zâmbia. Data: 02 de agosto de 2010. Autor: Hans Hillewaert. Fonte. Licença CC BY-SA.

Contendas religiosas são os debates, as disputas, as controvérsias impetuosas sobre questões relativas à religião. Muitas vezes, elas acontecem acompanhadas de palavras ofensivas e tom de voz agressivo e podem despertar ódio, inimizades e outras coisas graves.

 

Os mistérios do Universo são infinitos. Muitas coisas podem ser desvendadas. Muitas outras jamais serão conhecidas. Cada um pode ter um pensamento, uma idéia, uma crença. O pensamento de uma pessoa pode ser diferente do pensamento de outras pessoas. Isso é natural. Porém, jamais devemos impor nossas idéias. Discutir os mistérios sobrenaturais é como debater, tentando definir qual é a cor principal da zebra.

 

Na área religiosa, quase tudo está no campo da fé. A pessoa defende aquilo que ela acredita. Mas o fato dela acreditar numa coisa, não significa que ela está certa. A Igreja Católica do passado, com veemência, acreditava que a Terra era o centro do Universo. Mas ela estava errada, mesmo com toda a sua fé. Se a Igreja errou diante de coisas materiais, imagine quantos erros diante das coisas espirituais?

 

É inútil ficar discutindo assuntos religiosos. Cada um pode expor o seu ponto de vista, pode dizer aquilo que acredita, mas ninguém deve fazer isso com intolerância, agressividade e desrespeito. Todavia, nem sempre foi assim. Vários teólogos, desde os primeiros séculos, “quebraram o pau” sobre alguns assuntos, tentando colocar cabrestos doutrinários nas pessoas.

 

Século I.      

 

·         Ebionismo. Os seguidores dessa corrente defendiam que tanto judeus como não judeus convertidos ao evangelho de Jesus deviam seguir os mandamentos e as práticas da lei de Moisés, como a circuncisão, por exemplo. Também negavam a divindade e o nascimento virginal de Jesus [1]

 

·         SubordinacionismoAntes, nos primeiros séculos do cristianismo, as pessoas acreditavam que Jesus estava subordinado a Deus e submetido à sua vontade. Ele era um enviado de Deus ao mundo. [2] No Didaquê, por exemplo, Jesus foi chamado de servo de Deus quatro vezes. [3]

 

Século II.     

 

·         Docetismo.  Essa doutrina gnóstica ensinava que o corpo de Jesus Cristo não era verdadeiro, mas uma ilusão, e que sua crucificação teria sido apenas aparente. [4], [5]

 

·         Adocionismo. Surgida no final do século II, essa doutrina ensinava que Jesus não era Deus, mas que foi adotado por Deus e se tornou um ser divino. Defendia a unidade absoluta de Deus e discordava da doutrina da Trindade. [6], [7]

 

·         Monarquianismo dinâmico. Os seguidores dessa doutrina pregava a unidade absoluta de Deus, discordando da doutrina da trindade que já começava se manifestar. [8], [9]

 

Século III.

 

·         Trinitarismo –– a doutrina da Santíssima Trindade. Os católicos afirmavam que há um só Deus, que se manifestou em três pessoas: Pai, Filho e Espírito Santo. Para esses, Jesus e o Espírito Santo são outras pessoas, mas não são outros deuses. [10]

 

·         Sabelianismo ou modalismo. Crença surgida em Roma, através do padre e teólogo Sabélio, defendia a idéia de que Deus Pai, Deus Filho e Deus Espírito Santo não são três pessoas e uma única essência, como ensinava os trinitários (defensores da doutrina da Santíssima Trindade). Para ele era apenas uma pessoa, um Deus, manifestado de três modos. Foi o início da doutrina modalista, a crença de que Deus se manifestou de três maneiras. Foi, juntamente com o trinitarismo, o estopim que acedeu inúmeras disputas teológicas dentro da história do cristianismo. [11]

 

·         Arianismo. O presbítero Ário de Alexandria considerava Cristo como uma pessoa preexistente e divina abaixo de Deus e acima dos seres humanos, de natureza intermediária entre o Pai e a humanidade. Para ele, Cristo estava subordinado ao Pai. Não era, como ensinam os trinitários (seguidores da doutrina da Santíssima Trindade) que Deus e Jesus e também o Espírito Santos são três pessoas, mas um só Deus, todos da mesma substância. Na época, Alexandre I era o patriarca de Alexandria e condenou Ário. Depois foi novamente condenado no I Concílio de Nicéia, em 325.  [12], [13]

 

Século IV.    

 

·         Fotinianismo. O bispo Fotino da cidade de Sirmium, na Península Balcânica, iniciou a divulgação de uma doutrina que não ficou conhecida exatamente como fotianismo, mas como modalismo, pois era, na verdade, uma variante da doutrina de Sabélio do século III que ele havia restabelecido. [14], [15]

 

·         Macedonianismo. Fundada pelo patriarca Macedônio I de Constantinopla, dizia que o Espírito Santo foi uma criação do Filho, e um servo do Pai e do Filho, sendo, portanto, inferior aos dois. Foi condenado no II Concílio de Constantinopla, em 381. [16], [17], [18]

 

·         Apolinarismo. O bispo Apolinário de Laodicéia, no final do século IV, ensinava que Jesus tinha um corpo humano, mas uma mente exclusivamente divina. Provocaram um cisma, mas foi condenado em 381, no sínodo de Constantinopla. Para os seus condenadores, Jesus era totalmente homem e totalmente Deus. [19], [20]

 

Século V.     

 

·         Pelagianismo. O teólogo britânico Pelágio, no início do século V, acreditava que o ser humano não herda o pecado de Adão. Era contra a doutrina do pecado original, sustentada pelo bispo Agostinho de Hipona. Para ele, a pessoa é responsável pelos seus atos. Também sustentava que a conversão depende da decisão da pessoa, não é uma operação realizada pelo Espírito Santo. [21]

 

·         Nestorianismo. O patriarca Nestório de Constantinopla, no início do século V, conseguiu ocupar o patriarcado por intermédio do imperador bizantino Teodósio II. Para Nestório, Maria era simplesmente a mãe da natureza humana de Jesus. Não era a mãe de Deus como alguns estavam dizendo. Para ele, as naturezas humana e divina de Cristo eram separadas. [22], [23]

 

·         Monofisismo ou Eutiquianismo. O monge Eutiques pregava que Jesus tinha apenas uma única natureza divina. Não tinha natureza humana. Foi condenado no Concílio de Calcedônia, em 451 e no sínodo de Constantinopla em 448, mas mesmo assim prevaleceu em algumas igrejas orientais. [24], [25]

 

·         Filioque. Em 589, no II Concilio de Toledo, a igreja de Roma acrescentou ao Credo de Nicéia a expressão “e do Filho” no penúltimo artigo, que ficou assim: “Cremos no Espírito Santo, o Senhor, a fonte da vida que procede do Pai e do filho; com o Pai e o Filho é adorado e glorificado. Ele falou pelos profetas.” Em 867, Fócio, patriarca de Constantinopla, não aceitou essa alteração no credo. Por causa disso foi deposto e excomungado pelo papa. [26], [27].

 

Século VII.

 

·         Monotelismo. O 61º patriarca Sérgio I de Constantinopla pregava que Cristo possuía duas naturezas: uma humana e a outra divina, mas com uma só vontade. Foi condenada no III Concílio de Constantinopla, em 681. [28], [29]

 

Século VIII.

 

·         Iconoclastia. Movimento político-religioso no Império Bizantino que era contra a veneração de ícones e imagens religiosas. Surgiu no início século VIII e foi até o século IX. A Igreja, carregada de ícones e imagens, naturalmente encarou esse movimento como uma heresia. [30], [31]

 

Século VIII.

 

·         Unitarismo. Essa doutrina nega o dogma da Trindade e reconhece um único Deus e, por consequência, a natureza não divina de Jesus. Para os unitaristas, Deus é único e não se manifestou em três pessoas, nem de três modos, e Jesus é um profeta, um servo de Deus. Desde o início, os unitaristas são duramente atacados. No século XVI, o teólogo e médico espanhol Miguel Serveto escreveu livros contestando a doutrina da trindade. Foi preso pelos seguidores de Calvino. Acusado de heresia, foi condenado a morrer na fogueira. [32]

 

Esses são apenas alguns exemplos. As religiões do mundo criaram e criam várias contendas sobre diversos temas como: cosmologia, criação do homem, pecado, Deus, escatologia, eclesiologia e tantos outros assuntos que já promoveram muitos desconfortos, inimizades, divisões religiosas e muita perda de tempo. No início do século XVII, por exemplo, defensores da Igreja Calvinista e do arminianismo promoveram 154 reuniões para discutirem sobre a predestinação. Imagine quantos blablablás, quantos bate-bocas, tudo cheio de exaltação!  [33]

 

Todas essas brigas doutrinárias não trouxeram nenhum benefício concreto para a humanidade. O fato de cada um ter idéias diferentes do outro não seria nenhum problema. Mas, olhando a história do cristianismo, podemos ver que a imposição dessas idéias acabou gerando conflitos, brigas, desuniões, excomunhões, prisões, deportações e execuções. Os verdadeiros ensinos de Jesus, que falam de paz, amor, bondade, perdão, justiça e união, foram desprezados. Cada um quis mostrar para o mundo que conhecia os mistérios divinos. Os líderes cristãos aprenderam a abusar da autoridade e, “com unhas e dentes”, fizeram valer suas idéias.

 

É natural que haja discordâncias sobre crenças e práticas religiosas. Não somos exatamente iguais em todas as questões religiosas. Mas quando defendemos uma idéia ou uma prática com palavras e atitudes agressivas e intolerantes, quando odiamos, discriminamos, segregamos quem pensa e age de forma diferente, então, temos uma contenda religiosa que estraga tudo. Não podemos abandonar as verdadeiras virtudes para defender doutrinas sobre os enigmas divinos. A humanidade já perdeu muito tempo tentando defender suas crenças obscuras. Pegando carona na canção “Epitáfio” da banda Titãs, digo que a cristandade podia ter amado mais, ter aceitado as pessoas como elas são, ter complicado menos, ter se importado menos com as questões doutrinárias e, ao invés de perseguir e executar tanta gente que acreditava e agia de outras maneiras. Enfim, em vez de matar, devia ter morrido de amor como Jesus. [34] O evangelho simples, carregado de amor e respeito ao próximo, não precisava der dado zebra. [35]

 

Autor: Maralvestos Tovesmar. Este texto está disponível nos termos da licença CC BY-NC-ND. Pode ser copiado e distribuído, informando o autor e o link seguinte, mas não pode ser modificado e nem comercializado. Data: 2013. Veja outras mensagens em http://livresdosfardosreligiosos.blogspot.com.br



[35] http://aulete.uol.com.br/zebra