Discriminação religiosa

Livres dos Fardos Religiosos

 

O preconceito, além de produzir ódio, também produz discriminações. E esse fruto podre também se encontra no meio religioso.

 

Numa pequena cidade do interior do Brasil, no final do século XX, o catolicismo ainda era a religião poderosa. O padre tinha ódio de outras igrejas, como nos tempos medievais. Ali havia uma pequena igreja evangélica, duramente criticada por ele. Um dia, pela primeira vez, morreu um adepto daquela igrejinha. Mas o pároco decidiu que ele não seria enterrado no cemitério da cidade. Houve um grande rebuliço. Alguns católicos resolveram colocar fogo na casinha do falecido. E o seu corpo foi enterrado fora do campo-santo. Foi preciso haver a intervenção da justiça e da polícia para que o corpo fosse exumado e sepultado no lugar devido, impedindo que houvesse a discriminação entre os defuntos de qualquer religião.

 

 

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Descrição: Discriminação. Data: outubro/2009. Autor: Maralvestos. Licença CC BY-SA.

Discriminação religiosa é o ato de estabelecer diferenças entre os adeptos de uma e de outra religião. É a distinção feita por causa da fé. A proibição do padre católico de enterrar um evangélico no cemitério local foi um exemplo de discriminação religiosa. É discriminação religiosa também qualquer atitude discriminatória influenciada pela religião.

 

De acordo com certas tradições religiosas na Índia, cada pessoa faz parte de uma casta, deixando a sociedade estratificada. Há discriminações entre elas. Uma pessoa de uma classe não tem o direito de contrair matrimônio com uma pessoa de outra classe. [1]

 

Na antiga Roma, na época da monarquia, os reis tinham poderes civis, militares e religiosos. A sociedade era dividida em classes: Os patrícios eram homens livres, considerados descendentes dos fundadores de Roma. Somente eles eram os cidadãos, com direito de voto, de exercer cargos públicos, comercializar, possuir terras conquistadas, ter propriedades e pertencer ao exército. Os clientes eram estrangeiros que moravam em Roma, vivendo sob a proteção dos patrícios. Não tinham os mesmos direitos dos patrícios, mas agiam apadrinhados por algum chefe de família da classe dominante. Os plebeus não eram escravos, mas também não eram tratados como cidadãos. Por isso, não tinham os direitos que os patrícios tinham. Inclusive, eles não podiam se casar com pessoas dessa classe superior. Por fim, os servos eram os prisioneiros de guerra ou filhos vendidos de famílias pobres ou ainda pessoas que se tornavam escravas para pagamento de dívidas. Esses, evidentemente, não possuíam nenhum direito. [2]

 

O povo hebreu, mesmo sendo um povo muito religioso, sempre discriminava as pessoas, até mesmo entre eles. Moisés deixou escrito que Deus não faz acepção de pessoas. (Deuteronômio 10.17.) [3] Mas ele entrou em contradição quando disse que as pessoas com necessidades especiais e alguns tipos de doenças não podiam apresentar as ofertas de alimento no santuário. As pessoas cegas, coxas, de nariz chato, de membros demasiadamente compridos, com o pé ou a mão quebrados, corcundas, anões, com belida (mancha esbranquiçada na córnea), com sarna, impigens ou com testículo lesado, nenhuma pessoa com alguma dessas características podia chegar perto da cortina do Lugar Santíssimo, nem se aproximar do altar, pois, segundo ele, uma pessoa com algum desses “defeitos” tornaria impuros os dois locais sagrados. (Levítico 21.16-24.) [4]

 

Os hebreus realizavam suas reuniões religiosas, chamadas de congregação do Senhor. [5] Mas nem todos podiam participar desse encontro. Moisés teria escrito o seguinte: “O quebrado de quebradura ou castrado não entrará na congregação do SENHOR. Nenhum bastardo entrará na congregação do SENHOR; nem ainda a sua décima geração entrará na congregação do SENHOR.” (Deuteronômio 23.1-2, RC.) [6] Como podemos ver, a discriminação proposta por Moisés não apenas atingia certas pessoas com certas características físicas, mas também todos os descendentes delas até a décima geração. Que coisa triste alguém ser discriminado porque é descendente de alguém com supostos “defeitos”.

 

Vimos noutra mensagem que, certa vez, quando os hebreus caminhavam pelo deserto, vindo do Egito, rumo à terra de Canaã, os moabitas e os midianitas, unidos, fizeram planos contra eles. Num lugar chamado Sitim ou Vale das Acácias, em Moabe, as mulheres do povo moabita e midianitas seduziram os hebreus, e eles tiveram relações com elas e adoraram os seus deuses. Foi uma festa religiosa com banquete, idolatria e sexo. (Números 22:4-7; 25.1-2.) [7] Por causa disso, Moisés promoveu uma guerra contra os midianitas, matando todas as pessoas, menos as mais de trinta mil virgens, que eles levaram para serem suas mulheres. (Números 31.17-18, RC). [8] Essas mulheres virgens prisioneiras de guerra viraram objetos sexuais dos hebreus. Elas e os seus descendentes não podiam participar da congregação do Senhor. Determinou Moisés: “Nenhum amonita ou moabita entrará na congregação do SENHOR; nem ainda a sua décima geração entrará na congregação do SENHOR, eternamente. Porquanto não saíram com pão e água a receber-vos no caminho, quando saíeis do Egito; e porquanto alugaram contra ti a Balaão, filho de Beor, de Petor, da Mesopotâmia, para te amaldiçoar.” (Deuteronômio 23.3-4, RC.) [9] E ele destila o seu ódio discriminatório e vingativo dizendo: “Não lhes procurarás nem paz nem bem em todos os teus dias, para sempre.” (Deuteronômio 23.6, RC.) [10] Como podemos ver, foi uma discriminação vingativa em cima de todas as gerações desse povo por causa dos erros de seus ancestrais. Na época da reforma de Neemias, o povo, após ouvir esse trecho da lei de Moisés, expulsou os estrangeiros do meio deles. (Neemias 13.1-3.) [11]

 

Moisés ainda determinou que não fossem desprezados os edomitas, que eram parentes dos hebreus e nem os egípcios, pois eles viveram no Egito por algum tempo. Então esses podiam fazer parte da congregação do Senhor? Não! Declarou Moisés, em nome de Deus: “Dos netos em diante, os descendentes dos edomitas e dos egípcios que morarem na terra de vocês poderão fazer parte do povo de Deus.” Apenas as pessoas da terceira geração desses povos estariam livres da discriminação. (Deuteronômio 23.7-8. Texto entre aspas da NTLH.) [12]

 

O preconceito sobre certas pessoas fez surgir essas leis discriminatórias, criadas em nome de Deus. O profeta Malaquias até disse para os sacerdotes, em tom de exortação e em nome do Senhor: “Por isso, também eu vos fiz desprezíveis e indignos diante de todo o povo, visto que não guardastes os meus caminhos, mas fizestes acepção de pessoas na lei.” (Malaquias 2.9, RC.) [13]

 

No final do século X a.C., dez das tribos de Israel se rebelaram contra o rei Roboão, filho e sucessor do rei Salomão, por causa dos pesados tributos, e criaram o reino de Israel, em oposição ao reino de Judá, onde permaneceram apenas duas tribos. (I Reis 12.) [14] No século VIII a.C., os assírios conquistaram o reino de Israel. Algumas pessoas foram deportadas. Nessa época, colonos estrangeiros da Mesopotâmia vieram habitar nas cidades da região, também conhecida como Samaria, e se misturaram com os remanescentes. (II Reis 17.24-41.) [15] A partir desses episódios, os hebreus do reino de Judá (judeus) passaram a discriminar os samaritanos, os hebreus misturados com estrangeiros do lado de Israel.

 

Mas Jesus resolveu acabar com todo tipo de discriminação. Ele viveu em Nazaré, na Galiléia, sendo que os galileus e o povo de Nazaré em particular eram discriminados pelos moradores da Judéia. (Mateus 2.22-24.) [16], [17] Ele convidou pessoas simples para fazerem parte do grupo dos doze, como os pescadores Pedro, André, Tiago e João. (Mateus 4.18-22.) [18] Convidou um cobrador de impostos, que era detestado por todos. (Mateus 9.9.) [19] Procurou João Batista, um homem vestido com pêlos de camelo, vivendo num deserto, para batizá-lo. (Mateus 3.1-4, 13.) [20] Lendo os quatro evangelhos, podemos ver que ele deu atenção a todos: homens e mulheres, crianças, jovens e idosos, pobres e ricos. Atendeu leprosos, cegos, paralíticos, surdos, mudos, perturbados e doentes diversos. Atendeu um centurião, um jovem e um baixinho, ambos ricos, um chefe de sinagoga, um dos principais entre os fariseus, uma mulher Cananéia, outra samaritana, outra adúltera e uma viúva com um filho morto. (Mateus 8.5-13; 19.18-21; Lucas 19.2-6; Marcos 5.22-24; João 3.1-7; Mateus 15.22-28; João 4.1-30; 8.3-11; Lucas 7.12-15.) [21] Ele esteve ao lado de pessoas pecadoras e disse que os são não precisam de médicos. (Mateus 9.10-12.) [22] Demonstrou que buscar uma ovelha perdida é melhor que ficar com noventa e nove que não se extraviaram; que há alegria no céu por um pecador que se arrepende, do que por noventa e nove justos que não necessitam de arrependimento; que ele veio buscar e salvar o que se havia perdido. (Mateus 18.12-14; Lucas 15.7; 19.10.) [23] E quando um doutor da lei o perguntou quem era o seu próximo, ele contou a parábola do bom samaritano para mostrar que qualquer pessoa é o nosso próximo. Até mesmo um samaritano, tão discriminado entre os judeus. (Lucas 10.25-37.) [24] Por isso, Paulo escreveu: “Porque para com Deus não há acepção de pessoas.” (Romanos 2.11, RA.) [25] “Nisto não há judeu nem grego; não há servo nem livre; não há macho nem fêmea; porque todos vós sois um em Cristo Jesus.” (Gálatas 3.28, RC.) [26] “... onde não há grego nem judeu, circuncisão nem incircuncisão, bárbaro, cita, servo ou livre; mas Cristo é tudo em todos.” (Colossenses 3.11, RC.) [27]

 

Com o tempo, a Igreja se esqueceu desses ensinos. Por incrível que pareça, nas nações ditas cristãs, muitas vezes, imperou todo tipo de discriminação.

 

·        No século VI, em 581, o Sínodo de Macon, no cânone 14, decidiu que os judeus não poderiam aparecer nas ruas e em locais públicos, a partir de quinta-feira na Semana Santa até o Domingo de Páscoa. [28]

 

·        No século XIII, em 1215, o IV Concílio de Latrão, no cânon 68, decidiu que os judeus e sarracenos (seguidores do islã) de ambos os sexos, em todas as províncias deviam ser distinguido dos cristãos por meio da roupa. Além disso, eles foram proibidos aparecer em público no Domingo da Paixão e nos três últimos dias da Semana Santa. Decidiu também, no cânon 69, que judeus não podiam exercer cargos públicos. [29]

 

·        Ainda no século XIII, em 1227, o Sínodo de Narbonne, no cânon 3, ordenou que os judeus usassem uma espécie de crachá sobre a roupa, no centro do peito, a fim de serem distinguidos das outras pessoas. Também proibiu que eles trabalhassem aos domingos e dias de festas cristãs, além de proibi-los de sair de suas casas durante a Semana Santa. [30]

 

·        No século XVI e XVII, em Portugal, de acordo com as Ordenações Manuelinas e Filipinas com características religiosas, judeus, ciganos, índios, mamelucos, negros, mulatos e mouros foram discriminados. Em 1514, essas pessoas foram proibidas de ocupar cargos públicos. Em 1529, foram impedidas de entrar para as ordens militares. A partir de 1600, elas não puderam participar das misericórdias (instituições de caridade). Em 1604, foram impedidas de ingressar na Universidade de Coimbra. [31], [32], [33], [34], [35]

 

·        No século XVII, na época da União Ibérica, quando Portugal e suas colônias, juntamente com a Espanha e suas colônias formaram um só reino, o rei Felipe II, no ano de 1603, através das Ordenações Filipinas, determinou que judeus e mouros usassem coisas que os identificassem entre o povo: os judeus deveriam usar carapuça ou chapéu amarelo; e os mouros, um pedaço de pano vermelho de quatro dedos no ombro direito. Quem não usasse essas marcas ou quem as usasse encoberta receberia uma multa na primeira vez e uma multa dobrada na segunda vez. [36], [37], [38]

 

·        No século XIX, em 1865, foi fundada, nos Estados Unidos, no estado do Tennessee, uma organização, a Ku Klux Klan (K.K.K.) que passou a defender a supremacia e o nacionalismo dos brancos protestantes contra católicos, negros, semitas e outros povos, usando atos de violência e terrorismo. Vestidos de túnicas brancas e mascarados, seus membros espalhavam o terror entre as minorias que eram ameaçadas com a discriminação. Extinguiu-se em 1874, mas foi ressuscitada em 1915, e teve, por incrível que pareça, milhões de membros. [39], [40]

 

·        Em 1901, foi fundada, nos Estados Unidos, uma igreja, cuja fundadora defendia o anticatolicismo, antissemitismo, antipentecostalismo, o racismo e a hostilidade aos imigrantes. [41], [42] A fundadora dessa igreja chegou escrever livros apoiando o preconceito e a K.K.K. [43] E um pastor ajudou, com suas figuras, a discriminar as minorias. [44]

 

·        Em 15 de setembro de 1963, Birmingham, Alabama, Estados Unidos, uma bomba foi colocada em uma igreja batista de afrodescendentes, matando quatro meninas e ferindo muitas outras pessoas. O local havia sendo utilizado para encontros de ativistas que lutavam contra a discriminação. [45]

 

·        Memphis, Tennessee, 4 de abril de 1968, com apenas 39 anos, o afrodescendente Martim Luther King, Prêmio Nobel da Paz, depois de tantas lutas pacíficas contra a discriminação, foi assassinado por um branco preconceituoso. [46], [47]

 

Todos esses atos discriminatórios promovidos por pessoas ligadas ao cristianismo, no fundo, no fundo, têm raízes nos preconceitos discriminatórios do Antigo Testamento. Se a Igreja realmente tivesse seguido o exemplo de Cristo, as nações cristãs seriam bem diferentes e não precisaríamos da intervenção do poder secular, que teve que decretar leis para impedir esse mal.

 

·        Em 1773, o marquês de Pombal, ministro do rei D. Jose I de Portugal, teve que acabar com as diferenças entre os judeus convertidos ao cristianismo e os demais cristãos. [48], [49], [50], [51]

·        Em 1951, o jurista e deputado federal Afonso Arinos criou uma lei proibindo a discriminação no Brasil. [52], [53]

·        Em 1964, nos Estados Unidos, o presidente Johnson teve que assinar um decreto proibindo a discriminação. [54]

·        Em 10 de dezembro de 1948, a Assembléia Geral da ONU teve que aprovar o artigo VII na Declaração Universal dos Direitos Humanos, que diz: “Todos são iguais perante a lei e têm direito, sem qualquer distinção, a igual proteção da lei. Todos têm direito a igual proteção contra qualquer discriminação que viole a presente Declaração e contra qualquer incitamento a tal discriminação.” [55]

 

Mas a esse mal ainda continua. Em alguns lugares, a distinção entre pessoas não é tão intensa como nos outros tempos, mas ainda podemos senti-la. Em muitas igrejas, pessoas famosas, ricas e de certas posições são tratadas de formas diferentes. Esse tipo de discriminação já existia desde o tempo de Tiago. Observe o que ele escreveu: “Meus irmãos, vocês que crêem no nosso glorioso Senhor Jesus Cristo, nunca tratem as pessoas de modo diferente por causa da aparência delas. Por exemplo, entra na reunião de vocês um homem com anéis de ouro e bem vestido, e entra também outro, pobre e vestindo roupas velhas. Digamos que vocês tratam melhor o que está bem vestido e dizem: ‘Este é o melhor lugar; sente-se aqui’, mas dizem ao pobre: ‘Fique de pé’ ou ‘Sente-se aí no chão, perto dos meus pés.’ Nesse caso vocês estão fazendo diferença entre vocês mesmos e estão se baseando em maus motivos para julgar o valor dos outros.” (Tiago 2.1-4, NTLH.) [56]

 

Que o direito universal de não ser discriminado se estenda a todos. Que a Igreja seja uma das principais vozes defensoras da não discriminação. Que nenhuma religião cometa mais a asneira de fazer separação entre as pessoas. Que ninguém apareça dando uma de preferido de Deus, achando que tem o direito de prejudicar os outros.

 

Lembrando a música Birmingham Sunday de Richard Fariña, interpretada por Joan Baez, digo: “apesar de tudo, os coros devem continuar cantando a liberdade... Ainda que as manhas de outono sejam frias...” [57], [58], [59]

 

Autor: Maralvestos Tovesmar. Este texto (não o site inteiro) está disponível nos termos da licença CC BY-NC-ND. Pode ser copiado e distribuído, informando o autor e o link seguinte, mas não pode ser modificado e nem comercializado. Data: 2013. Veja outras mensagens em http://livresdosfardosreligiosos.blogspot.com.br