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Pena de morte religiosa

Livres dos Fardos Religiosos

 

Muitas pessoas perderam a vida nas trilhas do fanatismo religioso. Um dos piores venenos das religiões foi a pena de morte.

 

Em Êxodo 20.13, Moisés escreveu, em nome de Deus: “Não matarás”. (RA, RC, etc.) [1] Contraditoriamente, no mesmo livro, no capítulo 32, versículo 27, ele diz, também em nome de Deus, depois de ver o povo adorando um bezerro de ouro: “Cada um ponha a sua espada sobre a sua coxa: e passai e tornai pelo arraial, de porta em porta, e mate cada um a seu irmão, e cada um a seu amigo, e cada um a seu próximo.” (RC.) [2] O líder Moisés, que deu o mandamento dizendo para não matar, deu ordens para executar muitas pessoas. Então, o certo seria não matarás, a não ser em certos casos permitidos.

 

 

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Descrição: Hebreus aplicando a pena de morte por ordem de Moisés. Data: 1984. Autor: Jim Padgett. Fonte. Licença CC BY-SA.

Pena de morte religiosa é o castigo ou punição, com a morte, de uma pessoa que praticou alguma falta ou suposta falta religiosa. Esse tipo de pena é também chamado de pena capital, pena mortal ou pena última e é encontrado na história religiosa de diversos povos como: babilônios, hindus, hebreus, assírios, gregos, romanos, etc. [3]

 

Na Babilônia, o Código de Hamurabi, de caráter religioso, previa a pena de morte para diversos casos como: falso testemunho, roubo, receptação de coisas roubadas, arrombamento, estupro, construções mal feitas, etc. [4]

 

Na Índia, o código de Manu fala de pena de morte para os que fazem falsos éditos, os que causam dissensões entre os ministros, os que matam mulheres, crianças ou brâmanes, para quem dá proteção aos ladrões, para aqueles que cometeram furtos três vezes, etc. [5], [6], [7]  

 

Na terra de Israel, de acordo com a Lei de Moisés, a pena de morte podia ser praticada para punir alguns tipos de pessoas. Aquele que cometesse determinadas faltas podia ser queimado ou apedrejado.

 

·        Para os hebreus, Jeová era o único Deus. Eles não podiam adorar outros deuses além dele. (Êxodo 20.2-3; Deuteronômio 5.7.) [8] Quem oferecesse sacrifícios a outros deuses deveria ser morto. (Êxodo 22.20.) [9] Quem adorasse outros deuses tinha que ser morto a pedradas. (Deuteronômio 13.1-11; 17.1-7.) [10]

 

·        Quem dizia blasfêmias (palavras que ofendiam a Deus) também era castigado com a pena de morte por apedrejamento.[11]

 

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Descrição: Um hebreus sendo apedrejado. Data: 1984. Autor: Jim Padgett. Fonte. Licença CC BY-SA.

 

·        Quem não guardava o sábado também podia ser morto. Moisés escreveu: “Portanto, guardareis o sábado, porque santo é para vós; aquele que o profanar certamente morrerá; porque qualquer que nele fizer alguma obra, aquela alma será extirpada do meio do seu povo.” (Êxodo 31.14, RC.) [12] Por isso, quando Jesus curara homem num sábado, os fariseus, seguidores da lei de Moisés, procuraram matá-lo. (Marcos 3.1-6.) [13]

 

·        Para os hebreus (judeus) a poligamia, que é o casamento de uma pessoa com vários cônjuges, era permitida. [14], [15] Mas se um homem casasse com uma mulher e também com a mãe dela (a sogra) isso era considerado como uma imoralidade grave, e os três tinham que ser queimados vivos.  (Levítico 20.14.)  [16]

 

·        A lei de Moisés diz: “Não adulterarás.” (Êxodo 20.14; Deuteronômio 5.18, RC; RA, etc.) [17] Adultério é o relacionamento sexual de uma pessoa casada com outra pessoa que não é a sua esposa ou marido. A pena para quem cometesse esse ato está em Levítico 20.10: “Também o homem que adulterar com a mulher de outro, havendo adulterado com a mulher do seu próximo, certamente morrerá o adúltero e a adúltera.” (RC.) [18]

 

·        Se um homem podia ter várias mulheres em casa, então, o filho de uma delas poderia cair na tentação de manter ralações sexuais com outra, dentro da mesma casa, que não fosse a sua mãe. Para evitar isso, havia pena de morte para ambos. (Levítico 20.11.) [19] Dessa forma, o harém do pai ficava protegido dos filhos. Moisés não deu detalhes sobre um possível estupro. Será que a mulher do pai estuprada pelo filho seria morta de qualquer forma?

 

·        Havia proteção para as mulheres do filho. Se um homem tivesse relações sexuais com a nora, os dois eram mortos. (Levítico 20.12.)  [20] Aqui também, Moisés não deu detalhes sobre um possível estupro. Será que a nora seria morta mesmo se fosse estuprada pelo seu sogro?

 

·        E se um homem tivesse relação sexual com outro homem?  Os dois seriam mortos também. (Levítico 20.13.) [21] Moisés não disse nada sobre o relacionamento de mulher com outra, sexualmente falando. Será que era permitido, ou ele não sabia que isso acontecia, ou naquele tempo não havia lésbicas?

 

·        E a zoofilia (sexo com animais)? Tanto o homem como a mulher e o pobre animal abusado seriam mortos. (Levítico 20.15-16; Êxodo 22.19.) [22]

 

·        Se alguém invocasse os mortos ou praticasse feitiçarias (em outra tradução diz que aquele que tivesse espírito de adivinho ou fosse encantador) também tinha que ser penalizado com morte por apedrejamento. (Êxodo 22.18; Levítico 20.27.) [23]

 

·        Os filhos teimosos, rebeldes e desobedientes que, depois de castigados, continuavam na mesma, eram levados para um ambiente público, onde os homens da sua cidade deveriam apedrejá-lo até a morte. (Deuteronômio 21.18-21.) [24]

 

·        Todos tinham a obrigação de honrar os pais. (Êxodo 20.12.) [25] O filho que batesse no pai ou na mãe não tinha perdão: seria morto. (Êxodo 21.15.) [26] Quem amaldiçoasse os pais teria o mesmo destino (Levítico 20.9.) [27]

 

·        Os hebreus podiam ter escravos. (Levítico 25.44-45; Êxodo 21.2.) [28] Mas havia regras para consegui-los. Aquele que furtasse pessoas para serem vendidas ou escravizadas, esse ladrão de seres humanos seria morto. (Êxodo 21.16.) [29]

 

·        Como vimos, Moisés proibiu matar e, contraditoriamente, mandou matar. Mas não pense que podiam sair matando aleatoriamente. Quem matasse sem a sua permissão era considerado como um assassino digno da pena de morte. (Êxodo 21.12; 14; Levítico 24.17; 21; Número 35.16-21.) [30]

 

É interessante observar outra contradição. O adultério ou relações sexuais com a mulher do próximo, tanto do pai, do tio, do filho ou de outro qualquer, a homossexualidade e o sexo com animais, tudo isso seria punido com a expulsão de acordo com Levítico 18.6-29. Mas como vimos, foi também previsto a pena de morte para as mesmas pessoas praticantes do mesmos atos.

 

Por causa de tudo isso, o profeta Jeremias escreveu: “A alma que pecar essa morrerá.” (Jeremias 18.20, RA, RC, etc.) [31] Mas Jesus não quis saber de pena de morte. Ele foi contra esse tipo de pena. Muita gente inocente estava sendo assassinada. Além disso, o que se via era culpados condenando culpados. Por isso, ele não apoiou o apedrejamento de uma mulher adúltera dizendo: “Aquele que dentre vós está sem pecado seja o primeiro que atire pedra contra ela.” Em vez de condená-la à morte, ele disse para ela: “Vai-te e não peques mais.” (João 8.3-11. Textos entre aspas da RC.). [32] Quando ele e seus discípulos iam para Samaria, os samaritanos não os receberam. Tiago e João disseram se queria que mandassem descer fogo do céu par os consumir. Ele disse que não havia vindo para destruir vidas, mas para salvá-las. (Lucas 9.51-56.) [33] Ele falou de vida o tempo todo. [34]  Veja o que ele falou: “Eu vim para que tenham vida e a tenham em abundância.” (João 10:10, RA.) [35] “Na verdade, na verdade vos digo que quem ouve a minha palavra e crê naquele que me enviou tem a vida eterna e não entrará em condenação, mas passou da morte para a vida.” (João 5.24, RC.) [36]

 

As mensagens de Jesus não agradaram aos líderes da religião dos judeus. Para eles, Jesus não estava de acordo com a lei de Moisés: ele estaria blasfemando. (Mateus 9.1-3; 26.57-66; Marcos 2.3-7; Lucas 5:21; 6.6-11; 11.53-54; 15.1-2; 20.19-26; 23.10.) [37] E, de acordo com a lei, quem blasfemava tinha que ser penalizado com a morte. (Levítico 24.16.) [38] Jesus não concordava com as práticas religiosas dos judeus e pregou o seu evangelho correndo risco de vida. Mas não se importou e não se acovardou. Ofereceu a sua vida para nos libertar dos enganos. Em vez de tirar vidas, deu vida. “Ninguém tem maior amor do que este: de dar alguém a própria vida em favor dos seus amigos.” (João 15:13, RA.) [39] Ele disse: “Eu sou o bom pastor. O bom pastor dá a vida pelas ovelhas.” (João 10:11, RA.) [40] “Dou a minha vida pelas ovelhas.” (João 10.15b, RA.) [41] Ele continuou dizendo grandes verdades sabendo da sua condenação. Por isso, ele disse para os seus discípulos: “Eis que vamos para Jerusalém, e o Filho do Homem será entregue aos príncipes dos sacerdotes e aos escribas, e condená-lo-ão à morte.” (Mateus 20.18, RC.) [42] E foi o que aconteceu. Ele foi preso e conduzido para o Sinédrio, o tribunal religioso dos judeus. [43], [44].  Ali eles chegaram à conclusão, depois de interrogá-lo, que ele era um réu de morte. (Mateus 26.66; Marcos 14.64.) [45] Então ele foi entregue para as autoridades, que o executaram de acordo com o costume dos romanos da sua época. (Lucas 24.20.) [46]

 

Paulo escreveu: “Porque o salário do pecado é a morte, mas o dom gratuito de Deus é a vida eterna, por Cristo Jesus, nosso Senhor.” (Romanos 6.23, RC.) [47] “Cristo morreu pelos nossos pecados, segundo as Escrituras.” (I Coríntios 15.3.) [48] Segundo o evangelho, a pessoa que peca pode ser perdoada. Não precisa morrer para pagar pelos seus erros. O que ela precisa é se regenerar e procurar viver uma vida sem os mesmos erros.

 

 

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Descrição: Uma xilogravura ilustrando uma execução por queima na fogueira. Autor: desconhecido. Data: século XIX Autor da reprodução: Robert Benner (mullica). Data da reprodução: 16 de agosto de 2008. Fonte. Licença CC BY.

Mas a Igreja resolver voltar à prática da pena de morte. No século V, Santo Agostinho chegou a defender esse tipo de pena. [49], Nesse mesmo século, o imperador romano Teodósio II decretou, entre outras penas, a pena de morte para os hereges que não seguiam corretamente a religião do império, a Igreja Católica. [50] No século XIII, Tomás de Aquino também se revelou a favor dessa pena. [51], [52], [53] Tirando fora os exageros dos mais exaltados, mesmo assim, foi horrível o que aconteceu, principalmente a partir do século XIII, até meados do século XVIII, quando os tribunais da Inquisição, criados pela Igreja Católica, permitiu a condenação de muitas pessoas à pena de morte na fogueira. As execuções eram realizadas pelas autoridades civis, mas tinham o apoio da Igreja. O Estado e a Igreja trabalharam juntos nessa idéia macabra. Pessoas com crenças diferentes, cientistas, filósofos, supostas bruxas e muitas outras foram condenadas. Foram centenas de anos de terror religioso. Entre os protestantes também aconteceram penas de morte semelhantes. [54], [55], [56], [57], [58], [59] Lamentavelmente, alguns ainda continuam defendendo esse mal. [60] A Enciclopédia Católica diz que “a imposição da pena de morte não é contrária aos ensinamentos da Igreja Católica.” [61] O Catecismo da Igreja Católica, Parágrafo 2267 diz: “A doutrina tradicional da Igreja, desde que não haja a mínima dúvida acerca da identidade e da responsabilidade do culpado, não exclui o recurso à pena de morte, se for esta a única solução possível para defender eficazmente vidas humanas de um injusto agressor.” [62], Foi defendida também pelo Catecismo Romano do Concílio de Trento, 3a. Parte, Capítulo VI, no. 4 [63]

 

A Europa medieval e moderna, que deveria estar cheia de vida, se encheu de mortes, sangue, fogo, lágrimas, dor, medo... Um horror... Tudo tão distante daquilo que o Mestre da Galiléia havia ensinado.

 

Abaixo a pena de morte religiosa! Chega de contradição. Se existe o mandamento para não matar, por que os líderes religiosos têm mandado executar tantas pessoas? Basta!  Se alguém precisa morrer, Cristo já morreu por todos. A sua mensagem serve para calar a voz dos acusadores e dos condenadores religiosos.

 

Autor: Maralvestos Tovesmar. Este texto (não o site inteiro) está disponível nos termos da licença CC BY-NC-ND. Pode ser copiado e distribuído, informando o autor e o link seguinte, mas não pode ser modificado e nem comercializado. Data: 2013. Veja outras mensagens em http://livresdosfardosreligiosos.blogspot.com.br