Translate, traduzir

Pretextos religiosos

Livres dos Fardos Religiosos

 

O mundo está cansado de ver e provar tantas coisas erradas feitas em nome de Deus. Muitos estão fartos de tantos males cheios de pretextos religiosos.

 

No século XIX, a população dos Estados Unidos era cerca de cinco milhões de pessoas. [1], [2] Todos viviam na região da costa atlântica, no leste do país. [3] Então, o governo americano, com o pretexto de colonizar o Oeste, ocupado pelo México e por índios diversos, divulgou a idéia do “destino manifesto”, dizendo que os norte-americanos tinham sido escolhidos por Deus para ocuparem a área entre os oceanos Atlântico e Pacífico. Ofereceu terras a preços mínimos para quem fosse viver nas regiões habitadas pelos índios. A ambição, o desejo de uma vida melhor e a crença no destino, fizeram com que muitos americanos, com suas caravanas de carroças, “armados até os dentes”, seguissem em direção ao Oeste. O resultado foi uma série de guerras contra os indígenas e a guerra contra o México, manchando de vermelho o velho Oeste. [4], [5], [6] Os nativos perderam suas terras. E, na "Trilha das Lágrimas", muitos índios perderam a vida... [7] Será que, com o evangelho puro de Jesus, tudo não poderia ter sido diferente?

 

 

image

Descrição: Os americanos conquistaram o Oeste com a idéia do Destino Manifesto, que serviu de pretexto para os massacres que fizeram. Data: maio/2013. Autor: Maralvestos. Licença CC BY-SA.

 

Pretexto é uma razão aparente ou imaginária que se alega como desculpa para realizar certas coisas. [8] Por traz dos pretextos, as pessoas costumam esconder, com astúcia, os seus verdadeiros motivos. Há muitos pretextos de caráter religioso.

 

Jesus disse: “Portanto, ide, ensinai todas as nações, batizando-as em nome do Pai, e do Filho, e do Espírito Santo; ensinando-as a guardar todas as coisas que eu vos tenho mandado.” (Mateus 28.19-20, RC.) [9] Mas na época das Grandes Navegações ou dos descobrimentos, do começo do século XV ao fim do século XVIII, quando os europeus saíram pelo mundo, descobrindo novas terras, massacrando nativos, escravizando pessoas, saqueando suas riquezas, colonizando suas terras, sem falar de outras barbaridades, líderes da igreja estavam ali, juntos, de carona, vendo tudo isso acontecer. [10], [11], [12], [13] No entanto, a maioria fingiu que não via nada disso. A igreja fez vista grossa às maldades praticadas pelos colonizadores. De certa forma, a igreja estava apoiando as explorações do mundo com o pretexto de poderem pregar o evangelho para todos os povos. Foi um pretexto fajuto. Além disso, não pregaram o evangelho, mas impuseram uma nova religião.

 

E o regime de escravidão? É claro que os religiosos criaram um pretexto para justificarem o falso direito que tinham de escravizar nossos irmãos da África. A idéia é que eles eram amaldiçoados e que precisavam trabalhar arduamente sob o regime de escravidão para se purificarem. [14] Os jesuítas, que defenderam os índios, condenaram os africanos à escravidão, sob o pretexto de que eles eram amaldiçoados. O jesuíta padre Manoel da Nóbrega, do século XVI, teria dito o seguinte: “Por serdes descendentes de Cam e terdes descoberto a vergonha de seu pai deverão os negros serem escravos dos brancos por toda a eternidade”. [15]. Isso foi baseado numa teoria nojenta, que diz que os africanos são amaldiçoados, porque são descendestes de Cam, filho de Noé. Diz uma história bíblica, que Noé, após o dilúvio, plantou uma vinha, fabricou vinho, bebeu bastante ou “encheu a cara”, como diz o brasileiro. Bêbado, tirou a roupa, e foi se deitar na sua barraca, “nuzinho da silva”, do jeito que nascera. Ele tinha três filhos: Sem, Cam e Jafé. O infeliz do Cam descobriu que ele estava nu e foi contar os outros dois irmãos. Então Sem e Jafé, pegaram uma capa e, para não verem o papai bêbado, foram de costa até ele e o cobriram. Quando ele acordou da bebedeira e soube que Cam tinha visto ele nu, o amaldiçoou dizendo que ele seria escravo de Sem e Jafé. [16]. Com essa desculpa esfarrapada e absurda, os escravos africanos sofreram pra caramba nas mãos dos piedosos frequentadores de uma igreja desviada do evangelho da liberdade. Por isso, muitos tolos andam pregando sobre maldições hereditárias.

 

Você já deve ter ouvido muitos dizerem que “texto sem contexto é pretexto para heresias”. Pois isso é a pura verdade. Há muitos pregadores expertos que, para levarem vantagens, defendem suas doutrinas e rituais citando a Bíblia. Eles conseguem enganar muitas pessoas, pois citam certos textos sem o contexto. Assim, quem não conhece a Bíblia direito acaba caindo na esparrela deles. Vamos dar um exemplo.

 

Muitos defendem a prática do dízimo para a igreja, afinal, dez por cento das rendas de cada membro é uma coisa tentadora. Mas Jesus não determinou essa prática para os seus seguidores. Aliás, com o evangelho de Jesus, as práticas da lei de Moisés ficaram para trás. O apóstolo Paulo escreveu, se referindo à lei de Moisés: “Concluímos, pois, que o homem é justificado pela fé, independentemente das obras da lei.” (Romanos 3:28, RA.) [17]. “Sabendo que o homem não é justificado pelas obras da lei, mas pela fé em Jesus Cristo, temos também crido em Jesus Cristo, para sermos justificados pela fé de Cristo e não pelas obras da lei, porquanto pelas obras da lei nenhuma carne será justificada.” (Gálatas 2:16, RC.) [18].  “Agora, porém, libertados da lei, estamos mortos para aquilo a que estávamos sujeitos, de modo que servimos em novidade de espírito e não na caducidade da letra.” (Romanos 7:6, RA.) [19]. “Mas, se sois guiados pelo Espírito, não estais sob a lei.” (Gálatas 5:18, RA.) [20]. Jesus nos libertou da religião baseada na lei Moisés. Mas muitos líderes cristãos citam Mateus 23.23 e Lucas 11.42 dizendo que Jesus ensinou que devemos dar o dízimo de tudo quanto ganhamos. Mas nesses versículos citados, Jesus não estava determinando o dízimo para a sua igreja. [21] Observando bem o contexto, podemos ver que a sua fala não era com os seus discípulos, mas com os escribas e fariseus, que viviam sob a lei. Jesus não poderia proibi-los de praticarem o que a lei exigia. Eles praticavam a religião dos judeus baseada na lei mosaica. Todavia, para os cristãos, nem Jesus Cristo e nem os seus apóstolos falaram que devemos praticar o dízimo. Citar esse texto, sem o contexto, é pretexto para justificar a permanência da lei do dízimo.

 

O mesmo acontece com o texto de Malaquias que diz: “Roubará o homem a Deus? Todavia, vós me roubais e dizeis: Em que te roubamos? Nos dízimos e nas ofertas alçadas. Com maldição sois amaldiçoados, porque me roubais a mim, vós, toda a nação. Trazei todos os dízimos à casa do tesouro, para que haja mantimento na minha casa, e depois fazei prova de mim, diz o SENHOR dos Exércitos, se eu não vos abrir as janelas do céu e não derramar sobre vós uma bênção tal, que dela vos advenha a maior abastança.” (Malaquias 3.8-10, RC.) [22] Vendo essas palavras, parece que o profeta está falando conosco. Mas ele, na verdade, estava falando com os hebreus do século VI antes de Cristo. Naquela época, o lugar do templo, onde eram guardados as ofertas, os utensílios e o dízimo estava ocupado por um amonita de nome Tobias. (Neemias 13.4-7.) [23] Os cantores e outros levitas tinham abandonado o templo, pois não estavam recebendo mais o sustento que lhes era devido em forma de dízimo. (Neemias 13.10.) [24] Nessa época, o profeta Malaquias transmitiu ao povo e especialmente aos sacerdotes de Israel algumas exortações. Malaquias disse que as pessoas estavam roubando a Deus por não entregarem o dízimo e exorta os hebreus para recolocá-lo em prática a fim de serem abençoados. (Malaquias 3.6-12.) [25] O povo ouviu o profeta. Foi feita uma reforma religiosa restabelecendo as práticas da lei de Moisés. Nessa época, foi feito um acordo, onde o povo se comprometeu a agir conforme a lei. O dízimo foi citado nesse acordo. (Neemias 10.37-38.) [26] Logo em seguida, foram nomeados homens que ficaram encarregados do depósito, onde eram guardados os dízimos e as ofertas. (Neemias 12.44.) [27] E ele foi restabelecido. (Neemias 13.12.) [28] Portanto, citar o texto do profeta Malaquias sem esse contexto histórico é um pretexto para manter a igreja debaixo desse preceito da lei de Moisés, porque é conveniente.

 

No século XX, novos movimentos milagreiros surgiram no seio da igreja, onde muitos líderes começaram a pregar milagres, usando certos artifícios. Eles estão por ai, exigindo ofertas sacrificiais em forma de dinheiro das pessoas como condição para elas alcançarem os milagres desejados. Esses líderes se mostram com o dom de poderem fazer milagres, mas para isso acontecer, as pessoas precisam se sacrificar e doar dinheiro. Muitos acreditam e fazem o que eles pedem. Alguns se dão mal. Outros conseguem a bênção, afinal, o que vale é a fé. O problema é que os milagres estão sendo vendidos de forma ardilosa. A idéia de ofertas de sacrifício mais parece um pretexto para poderem arrecadar dinheiro fácil. Esquecem-se da ordem de Jesus que disse: “Curai os enfermos, limpai os leprosos, ressuscitai os mortos, expulsai os demônios; de graça recebestes, de graça dai. (Mateus 10.8, RC. Grifo meu.) [29]

 

São alguns exemplos. Há muitas coisas assim no meio religioso. Muitas doutrinas e rituais são meros pretextos para a manutenção de certas vantagens.

 

Qualquer um pode cair numa armadilha dessas. Ninguém está totalmente vacinado contra as ciladas dos mais espertos. Muitos, inclusive, de forma ingênua, acabam imitando as ações desse tipo de pessoa, usando os mesmos argumentos que eles criaram. Então temos espertos e ingênuos agindo por ai. Estamos dizendo isso porque nem todos que praticam certas coisas são malandros. Muitos são pessoas sem malícias enganadas pelos espertos.

 

Temos que fazer o que é certo e deixar de lado o que é errado. Nenhum erro pode ser justificado por qualquer teoria, artigo de fé ou coisa parecida. Chega de pretextos religiosos que apenas dão vantagens para alguns.

 

Autor: Maralvestos Tovesmar. Este texto (não o site inteiro) está disponível nos termos da licença CC BY-NC-ND. Pode ser copiado e distribuído, informando o autor e o link seguinte, mas não pode ser modificado e nem comercializado. Data: 2013. Veja outras mensagens em http://livresdosfardosreligiosos.blogspot.com.br