Conveniências religiosas

Livres dos Fardos Religiosos

 

O rei Henrique IV da França nasceu no século XVI. Era filho da rainha Joana de Albret do pequeno reino de Navarra e foi criado no calvinismo. Tornou-se líder dos protestantes franceses, mais conhecidos como huguenotes, e lutou contra os católicos. Mas, por conveniência, casou-se com a princesa católica Margarida de Valois, irmã do rei Carlos IX da França e converteu-se ao catolicismo. Todavia, sentiu-se prisioneiro da corte francesa durante o reinado do seu cunhado Henrique III. Então, deixou a corte e colocou-se novamente diante dos protestantes huguenotes. Mas após a morte de Henrique III da França, ele ocupou o trono francês. Porém, os católicos não queriam um rei protestante. Então, mais uma vez, converteu-se ao catolicismo, claro, para ser aceito como rei. [1], [2]

 

 

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Descrição: Estátua do rei Henrique VIII da França. Data: século XIX. Autor: François-Frédéric Lemot. Data da foto: 17 de fevereiro de 2008. Autor da foto: Jastrow. Fonte. Licença CC BY.

Do protestantismo para o catolicismo, daí para o protestantismo novamente e mais uma vez de volta ao catolicismo, simplesmente por interesse. Por isso, ele disse: “Paris vale bem uma missa.” [3]

 

Conveniências religiosas são atitudes tomadas dentro das religiões simplesmente para atenderem a certos interesses. Muitas pessoas usam a religião como instrumento de manobras e, através dela, realizam coisas que oferecem vantagens pessoais ou benefícios para o seu grupo.

 

Muitas tradições religiosas sem importância e até nocivas são preservadas apenas por conveniência. Por outro lado, com o mesmo objetivo, muitos elementos religiosos têm sido alterados. Diversas inclusões, exclusões e substituições de elementos religiosos, além de muitas omissões e negligências têm acontecido por serem interessantes para algumas pessoas. Pessoas ou grupos religiosos, muitas vezes, anulam, criam ou conservam certas coisas, até mesmo erradas, simplesmente porque é vantajoso de alguma forma. O desejo de fama, a ambição de ganho e a sede de poder fizeram com que muitos cometessem alterações diversas em muitas crenças, doutrinas e rituais.

 

Inclusões religiosas por conveniência. A igreja primitiva, por exemplo, não praticava a lei do dízimo, que era uma prática da lei religiosa de Moisés. [4] Segundo escritos do Novo Testamento, com o evangelho de Jesus, as pessoas tornam-se libertas daquela lei. [5] Mas no século VI, essa prática foi incluída no seio da igreja. Mesmo diferente dos princípios estabelecidos na lei de Moisés, o dízimo, modificado pelos líderes da Igreja, foi imposto como mandamento para os cristãos. [6] Mesmo sabendo que Jesus nos libertou da religião de Moisés, que ficamos livres de praticar as obras da sua lei, conforme Romanos 7.6 e Romanos 6.14, a liderança de muitas igrejas insiste nessa prática, pois arrecadar dez por cento da renda de cada membro é muito interessante. [7] Preferem ver o povo debaixo do julgo da lei a deixar de arrecadar esse dinheiro fácil. Então, o dízimo das igrejas foi uma prática incluída no evangelho por conveniência.

 

Exclusões religiosas por conveniência. Vamos dar um exemplo. A Igreja Católica ensina, em seus catecismos, os dez mandamentos para os seus fiéis, excluindo o segundo mandamento que é: “Não farás para ti imagem de escultura, nem alguma semelhança do que há em cima nos céus, nem em baixo na terra, nem nas águas debaixo da terra.” (Êxodo 20.4; Deuteronômio 5.8.) [8], [9], [10], [11] Esse mandamento comprometeria a sua grande estrutura baseada em muitas imagens de esculturas, em torno das quais, acontecem muitas festividades, romarias e venda de produtos que trazem grandes vantagens para a organização. O segundo mandamento, que se encontra nos catecismos, é, na verdade, o terceiro mandamento. E para não ficar com apenas nove mandamentos, o décimo mandamento foi dividido em dois. A Igreja tenta dar suas explicações. [12] Todavia, a inclusão de imagens nas igrejas, que não foi idéia de Jesus nem dos apóstolos, a exclusão do mandamento contra imagens e a divisão do décimo mandamento, tudo parece obras de acordo com a conveniência.

 

Ainda falando sobre dízimo, percebemos que muitas igrejas retiraram dessa prática apenas o que é interessante: os dez por cento de tudo que as pessoas ganham. [13] Outras coisas, como a festa anual, promovida com o dízimo do povo, registrada em Deuteronômio 12. 17-19; 14.22-23, foram excluídas dos ensinos sobre dízimo pelos líderes cristãos. [14] Gastar o dízimo com uma festa dessa natureza não é interessante para muitos, por isso, ela foi deixada de lado. Como sempre, se acham livres da lei apenas até onde é interessante.

 

Substituição religiosa por conveniência. De acordo com a lei de Moisés, os hebreus tinham que separar o dízimo de todos os produtos agropecuários. O dízimo era dez por cento apenas das plantações e das criações de animais. (Levítico 27:30-32.) [15] Não encontramos dízimo de dinheiro em nenhum lugar. Mas a liderança da igreja achou mais proveitoso substituiu o dízimo agropecuário por dízimo financeiro. Não é interessante para nenhum líder religioso da cidade capitalista receber dízimo apenas de produtores agropecuários, principalmente em forma de bois, galinhas, verduras, cereais e outros produtos do campo. Em dinheiro vivo é muito mais conveniente. Por isso, o dízimo agropecuário de Moisés foi substituído pelo dízimo financeiro medieval. [16], [17]

 

Omissão religiosa por conveniência. Todos nós sabemos que os cristãos europeus saíram pelo mundo afora conquistando terras, criando colônias e impondo o trabalho escravo. A liderança principal da igreja se calou diante das atrocidades cometidas contra os escravos. Aliás, muitos líderes cristãos tinham seus próprios escravos. [18] Omitiram os mandamentos de Jesus que falam de amor, respeito, bondade, simplesmente porque os escravos eram lucrativos para eles. Por causa de certos interesses, muitos mandamentos de Cristo têm sido omitidos, negligenciados e desleixados.

 

Se um dos dez mandamentos é “não matarás”, então porque judeus e cristãos praticaram tantos morticínios. (Êxodo 20.13.) [19] Simplesmente passaram por cima desse mandamento porque, através de muitas matanças, puderam manter a sua hegemonia religiosa. Ainda hoje, muitos líderes são coniventes com tantas mortandades quando fingem não ver ou encobrem tantas barbaridades praticadas em nome de Deus, tudo por conveniência.

 

Citamos apenas alguns exemplos. Dentro das religiões, encontramos muitas coisas praticadas por meros interesses. Muitas coisas boas são deixadas de lado e muitas outras ruins são mantidas simplesmente porque trazem proveitos para certos grupos ou organizações religiosas. Existem muitas pessoas humildes, sinceras, fiéis, devotas sendo enganadas por líderes interesseiros. Líderes que nunca dizem a verdade completa para não prejudicarem seus interesses.

 

Precisamos deixar de ser hipócritas. Temos que aprender a seguir o que realmente faz bem para a humanidade e para o meio ambiente e deixar, de lado, tudo aquilo que apenas alimenta as vantagens de certas pessoas ou grupos. Temos que ser maduros e sensatos para não seguirmos coisas sem sentido verdadeiro. Sempre tem alguém tentando nos manipular para levar a melhor. Siga o caminho correto. Não fique correndo pra lá e pra cá, como Henrique VIII, procurando apenas conveniências.

 

Autor: Maralvestos Tovesmar. Este texto (não o site inteiro) está disponível nos termos da licença CC BY-NC-ND. Pode ser copiado e distribuído, informando o autor e o link seguinte, mas não pode ser modificado e nem comercializado. Data: 2013. Veja outras mensagens em http://livresdosfardosreligiosos.blogspot.com.br