Salários religiosos (parte II)

Livres dos Fardos Religiosos

 

Continuação do post anterior.

 

O salário de certos religiosos, em relação ao evangelho original, é muito estranho. Aliás, na igreja do primeiro século, nem sequer havia salário para supostos pastores locais.

 

O que nos faz crer que os pastores, nos primeiros séculos, não recebiam salários?

 

1.     As igrejas eram pequenas e se reuniam nos lares. (Atos 2.1-2; 2.46; 5.42; 12.11-12; 8.3; 10.27; 16.40; 17.5; 20.5-8; 20.20; Romanos 16.3-5; 1 Coríntios 16.19; Colossenses 4.15; Filemon 1:1-2; João 1. 10.) [1]

2.     Nas pequenas igrejas, havia vários pastores, também conhecidos na Bíblia como presbíteros, anciões ou bispos, e eles eram bem diferentes dos pastores, padres e bispos modernos. (Atos 14:23; 20:17-35; 21.17-18; Filipenses 1.1; 1 Tessalonicenses 5.12; Tito 1:5; Hebreus 13:7; Hebreus 13:17; Tiago 5:14; 1 Pedro 5:1.) [2]

3.     Não havia um conjunto de rituais complicados que dependesse de um profissional religioso qualificado atuando como sacerdote.

4.     Os cristãos eram uns pelos outros, não sendo uma carga pesada, dependendo do tempo integral de algum líder. Conforme já vimos, eles ajudavam, ensinavam, admoestavam animavam, consolavam uns aos outros. [3]

 

Conclusão: Se eram pequenas igrejas nos lares, com vários pastores, então elas não teriam condições de ficar pagando vários salários que, por sua vez, eram desnecessários, pois todos eram uns pelos outros.

 

Pequenos grupos de cristãos nos lares, com vários presbíteros nos moldes primitivos e todos vivendo uns pelos outros não precisam pagar salário para nenhum líder local.

 

Paulo evitou, como pôde, receber ajuda das igrejas. Mas tudo tem limite. Ele empregava muito tempo na obra de Deus e, algumas vezes, precisou mesmo de ajuda e não pode recusar. Por isso, ainda na carta aos coríntios, continuou dizendo o seguinte:

 

“Enquanto estive trabalhando entre vocês, fui pago por outras igrejas. Por assim dizer, eu estava roubando delas para ajudar vocês. E, durante o tempo em que estive com vocês, quando precisava de alguma coisa, não incomodava ninguém; pois os irmãos que vieram da Macedônia me trouxeram tudo o que eu precisava. O que aconteceu no passado e acontecerá no futuro é isto: eu nunca exigirei que vocês me ajudem.” (2 Coríntios 11.7-9, NTLH.) [4] Observe que ele não quis acumular ajuda. Se estava sendo ajudado por outras igrejas, então não precisava da ajuda dos coríntios naquele momento.

 

Agora veja como ele falou das suas dificuldades, do seu contentamento e como agradeceu a contribuição dos filipenses. “Na minha vida em união com o Senhor, fiquei muito alegre porque vocês mostraram de novo o cuidado que têm por mim. Não quero dizer que vocês tivessem deixado de cuidar de mim; é que não tiveram oportunidade de mostrar esse cuidado. Não estou dizendo isso por me sentir abandonado, pois aprendi a estar satisfeito com o que tenho. Sei o que é estar necessitado e sei também o que é ter mais do que é preciso. Aprendi o segredo de me sentir contente em todo lugar e em qualquer situação, quer esteja alimentado ou com fome, quer tenha muito ou tenha pouco. Com a força que Cristo me dá, posso enfrentar qualquer situação. Mesmo assim vocês fizeram bem em me ajudar nas minhas aflições. Vocês, filipenses, sabem muito bem que, quando eu saí da província da Macedônia, nos primeiros tempos em que anunciei o evangelho, a igreja de vocês foi a única que me ajudou. Vocês foram os únicos que participaram dos meus lucros e dos meus prejuízos. Em Tessalônica, mais de uma vez precisei de auxílio, e vocês o enviaram. Não é que eu só pense em receber ajuda. Pelo contrário, quero ver mais lucros acrescentados à conta de vocês. Aqui está o meu recibo de tudo o que vocês me enviaram e que foi mais do que o necessário. Tenho tudo o que preciso, especialmente agora que Epafrodito me trouxe as coisas que vocês mandaram, as quais são como um perfume suave oferecido a Deus, um sacrifício que ele aceita e que lhe agrada. E o meu Deus, de acordo com as gloriosas riquezas que ele tem para oferecer por meio de Cristo Jesus, lhes dará tudo o que vocês precisam. (Filipenses 4.10-19, NTLH.) [5]

 

Assim foi a igreja nos primeiros séculos. Todavia, esse cuidado e essa idéia de ser servo de Deus e servo da igreja foram por água abaixo.

 

·        No século III, o bispo Cipriano de Cartago falou sobre o dízimo para o sustento do clero, mas não foi apoiado. [6], [7] Mas no ano 245, segundo alguns registros antigos, houve o início do salário do bispo. Nessas alturas, eles já se sentiam como líderes acima do povo. [8]

 

·        No século IV, houve alguma manifestação favorável a favor do dízimo para o sustento do clero, mas também não foi adiante. [9], [10] No entanto, ainda nesse século, como já vimos em outras mensagens, o imperador Constantino apoiou a igreja e mandou construir templos. As reuniões cristãs dos lares foram trazidas para esses templos. As ceias feitas em família, na sala de jantar das casas, depois de encherem com idéias místicas, foram levadas para as basílicas sagradas e adquiriram nova interpretação. Aquela ceia de confraternização, que já havia se transformado numa espécie de sacrifício que apenas o sacerdote podia ministrar, depois de ser adornada com um monte de regras litúrgicas, se transformou num culto público bem diferente das reuniões dos primeiros cristãos. Solenidades usadas no tratamento do rei foram usadas para cultuar a Deus. As simples reuniões informais e calorosas dos cristãos nos lares, onde não havia rituais, viraram cultos públicos nos templos, carregados de normas e cerimônias, onde uma pitada da liturgia dos cultos judaicos se misturou com as formalidades da cultura romana dos palácios. [11], [12] Muitas doutrinas e rituais complicados foram instituídos. Agora o presbítero não era mais aquele simples homem exemplar e amadurecido, que supervisionava a igreja em casa.  Agora ele era visto como um sacerdote, cheio de ocupações litúrgicas e ritualísticas nos grandes templos. Era tratado como um oficial romano e era membro da classe privilegiada conhecida como clero. Transformara-se numa profissão de alto nível. Então o imperador Constantino criou o salário para o clero. [13],[14]

 

A Igreja teve que arrumar profissionais qualificados para:

Explicar as complicadas doutrinas que foram criadas;

Realizar uma série de rituais que foram inventados;

Administrar as igrejas-templos.

 

As igrejas nos lares não tinham despesas eclesiásticas. Mas com a sofisticação iniciada por Constantino e a profissionalização do clero, tivemos a origem do salário dos presbíteros, também chamados de bispos e agora de pastores, padres ou sacerdotes. Eles viraram funcionários sobrecarregados com os afazeres dos templos. Ficaram sem tempo para exercerem suas funções seculares. Então, como no tempo de Moisés, precisaram ser contemplados com um salário fixo. Mas com o fim do Império Romano do Ocidente no século V, a partir de então, os líderes da igreja começaram a inventar coisas para arrecadarem dinheiro a fim de bancarem as despesas dos templos e os salários dos sacerdotes. Agora, como sempre dizem os homens da igreja, tinham muitas contas para pagarem. Assim a igreja mergulhou na Idade Média inventando vários meios de arrecadação:

 

·       Restauraram o dízimo com as devidas adaptações. [15]

·       Venderam supostas relíquias. [16]

·       Confiscaram bens de pessoas que não se conformavam com os seus dogmas. [17], [18]

·       Comercializaram indulgências. [19]

·       Passaram a cobrar pela ministração dos sacramentos e das missas pelas almas. [20], [21]

·       Como vemos ainda hoje, resolveram explorar as crendices, o misticismo e a religiosidade popular.

 

A Reforma protestante foi um duro golpe nas fontes de arrecadação da igreja. Mas não adiantou muito. Lutero, Calvino, dentre outros, continuaram com seus templos e com seus funcionários eclesiásticos e, consequentemente, com as suas despesas. Então, muitas das novas igrejas que foram surgindo a partir dessa época foram criando diversas outras fontes de arrecadação. Além de continuarem explorando as crendices e os misticismos, muitos ainda resolveram vender sermões e bênçãos de maneira camuflada. (Não dá pra falar sobre todas as explorações de muitas igrejas agora. Outras mensagens tratarão desse assunto com mais profundidade.) Tudo isso começou com a necessidade de pagar o salário do clero e as despesas do templo.

 

Quando um pastor ou padre depende de seus adeptos para ganhar um bom salário, ele se torna refém do dinheiro. Por isso, muitos fazem de tudo para não ofenderem os membros que ofertam e dizimam, pois, sem eles, o salário fica comprometido. Quando um pastor vira mercenário (mercenário é aquele que trabalha por causa do ganho) ele deixa de falar verdades que possam assustar seus mantenedores.

 

É claro que nem todos que ganham salários são mercenários. Alguns realmente fazem tudo por amor à obra de Deus. Fiquei sabendo de um que ganhava pouco mais de um salário mínimo e mudou de igreja para ganhar apenas um terço do que ganhava. Conheci outro que também ganhava um salário mínimo, mas gastava todo o seu tempo de domingo a domingo, visitando os irmãos, evangelizando, dando aconselhamentos, etc. Quando falamos de mercenários, esses devem ficar de fora, pois gastam todo o seu tempo com a obra e não estão preocupados com a quantidade de dinheiro que ganham. Mas nem todos são assim.

 

 

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Descrição: Cifrões. Data: julho/2013. Autor: Maralvestos. Licença CC BY-SA.

Vi uma pessoa dizendo que sentia um chamado de Deus para ser pastor. Então ele perguntou para o pastor superior de sua igreja se ele se tornasse pastor se continuaria tendo o mesmo padrão de vida que tinha e se o salário era bom. Essa é a preocupação de muitos. Hoje em dia, o pastorado é, para alguns, uma profissão rendosa. Alguns ganham de 8 até mais de 30 salários mínimos por mês, além de casa, plano de saúde e outras regalias. Muitos acham que pastor é aquela pessoa bem vestida de terno e gravata, com bom salário, boa casa e carro do ano. Numa mesma igreja, enquanto uns ganham ninharias, outros ganham altos salários. O pior é que alguns, mesmo com altos salários, ainda gastam o seu tempo com atividades paralelas. Quantos pastores gastam o seu tempo escrevendo livros, gravando CDs, fazendo turnês, trabalhando na política e outras inúmeras coisas mais. Ganham o salário da igreja e gastam o tempo com outras atividades que lhes rendem bons lucros. Vão à igreja pregar um sermão e outro, mas ficam mesmo é fora, em suas atividades paralelas. Alguns que já descobriram que o comércio nos “pátios dos templos” é bem rendoso resolveram abrir mão do salário. Mas acabaram virando pastores-vendedores, usando a mídia da igreja para venderem produtos e serviços gospel e até seculares.

 

Por que certos pastores que não visitam ninguém e não andam evangelizando querem ganhar mais que outros só porque têm igrejas com mais membros? O mesmo sermão que um prega para cem pessoas ele não prega para mil? Se não faz mais nada além das homilias, então por que ganhar mais só porque tem mais expectadores? Por que alguns ficam famosos e querem ganhar mais por isso? Será que devem ser como os artistas seculares que, quanto mais fama, mais caro fica?

 

Muitos pregadores, principalmente os da teologia da prosperidade, para conseguirem arrancar dinheiro do povo, adoram ficar citando II Coríntios 9.6-11. [22] As palavras de Paulo nessa passagem são muito bonitas e encorajadoras. Mas o que muitos não dizem é que ele estava pedindo ajuda para os pobres da Judéia. Basta ler o contexto no capítulo 8 do mesmo livro. Sem ler esse capítulo, até parece que Paulo pedia dinheiro como eles. Mas ele não estava pedindo dinheiro para nenhum império religioso particular para gastar com um monte de coisas que não têm nada a ver com o evangelho puro e assistencial. Jesus falou um dia: “Eu afirmo a vocês que isto é verdade: quem, apenas por ser meu seguidor, der ainda que seja um copo de água fria ao menor dos meus seguidores, certamente receberá a sua recompensa.” (Mateus 10:42, NTLH.) [23] Trata-se da ajuda ao próximo. Não tem nada a ver com esses pedidos insistentes de pregadores sedentos por dinheiro. 

 

Muitos não querem sair de seus templos. Não querem pregar no meio dos lobos. Gostam dos púlpitos e da platéia encurralada que dão aplausos pra Jesus e acaba sobrando palmas pra eles. Mas também quando saem, não vale a pena, pois não levam ouro, prata e moedas de bronze, mas querem trazer tudo isso de onde andam pregando. Levam sacolas cheias de roupas finas e abusam do direito que têm de serem sustentados em suas viagens missionárias. Querem aviões próprios, carros de luxo, hotéis de primeira. Aceitar a hospedagem, a comida e a bebida que lhes é oferecido, conforme disse Jesus?! Nem pensar! Querem hotel de luxo e alimentação da melhor qualidade, afinal, como dizem, são filhos do Rei. São pregadores itinerantes, se fazendo de apóstolos. Só pregam onde há obreiros de sobra. Paulo ia para os lugares distantes, onde faltavam obreiros e ali ficava anos, trabalhando de graça. Mas esses vão apresentar seus sermões-show de mais ou menos uma hora, que não paga nem as passagens, ainda querem toda mordomia e altos cachês. Mas fazer o que? Enquanto houver crentes tietes e pastores locais tolos fazendo proselitismo com pregadores famosos, eles continuarão como aristocratas, como nobres, como burgueses, usando em vão o dinheiro do povo. Ah, se todos soubessem o custo de um sermão de certos pregadores de outras terras! Se soubessem iriam correndo para perto das pessoas mais maduras e mais experientes que sempre dão seus conselhos de graça.

 

Observando a hierarquia católica e de diversas outras igrejas, podemos ver como deve ser grande as despesas salariais com tanta gente ocupando cargos de vários níveis.

 

Podemos voltar a ser como antes, criando pequenas igrejas nos lares, sem nenhuma hierarquia, onde todos, cada um com o seu dom, possam desempenhar suas funções em prol uns dos outros, sob a supervisão de vários presbíteros que não mais precisarão receber salários, afinal eles, como antes, não ficarão sobrecarregados. Não serão como se fossem sacerdotes cuidando daquele monte de rituais e doutrinas para ocuparem todo o seu tempo. Apenas aqueles que trabalham muito, gastando a maior parte do tempo ou tendo muitos gastos, fazendo o que realmente precisa ser feito, poderão ser ajudados.

 

Chega dessa farra com o dinheiro do povo de Deus.

 

Autor: Maralvestos Tovesmar. Este texto (não o site inteiro) está disponível nos termos da licença CC BY-NC-ND. Pode ser copiado e distribuído, informando o autor e o link seguinte, mas não pode ser modificado e nem comercializado. Data: 2013. Veja outras mensagens em http://livresdosfardosreligiosos.blogspot.com.br



[7] Cyprian, Epistle 65.1; Beyond Tithing, p. 104.