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Salários religiosos (parte I)

Livres dos Fardos Religiosos

 

Por volta do século XIII antes de Cristo, Moisés tirou o povo hebreu da escravidão no Egito. Ainda no deserto, ele estabeleceu a sua lei com diversos mandamentos religiosos pesados como: holocaustos, ofertas de cereais, sacrifícios de ofertas pacíficas, sacrifícios pelos pecados dos sacerdotes, sacrifícios pelos pecados ocultos, sacrifícios pelos pecados voluntários, purificação depois do parto, exames e rituais a respeito da praga da lepra e muitas outras coisas mais, que estão descritas nos quatro primeiros livros da Bíblia, depois do livro do Gênesis. [1] Todo dia, tinha sacrifício de manhã e à tarde. (Êxodo 29:39.) [2] Examinando esses livros, podemos ver que era muito trabalho religioso, envolvendo um monte de pessoas. Quem cuidava dessas inúmeras tarefas religiosas era o pessoal da tribo dos levitas. Alguns eram sacerdotes, e os demais ocupavam cargos diversos. Para manterem todas essas pessoas realizando funções religiosas, Moisés estabeleceu o dízimo e as ofertas, que os demais judeus tinham que bancar. [3]

 

 

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Desc.: Moeda. Data: 1984.  Autor: Jim Padgett. Obra completa.  Licença CC BY-SA.

Jesus nos libertou de toda carga religiosa pagã e judaica. Ele não estabeleceu nenhum fardo pesado para os seus seguidores. Por isso, ele convidou: “Venham a mim, todos vocês que estão cansados de carregar as suas pesadas cargas, e eu lhes darei descanso. Sejam meus seguidores e aprendam comigo porque sou bondoso e tenho um coração humilde; e vocês encontrarão descanso. Os deveres que eu exijo de vocês são fáceis, e a carga que eu ponho sobre vocês é leve.” (Mateus 11.28-30, NTLH.) [4] O evangelho puro e original de Jesus, por ser uma religião simples e desprovida de rituais, não depende de pessoas especiais, ganhando salários fixos. É tão simples que, no sentido genérico, muitos preferem dizer que não é uma religião propriamente dita, como as demais religiões do mundo.

 

Quando ele enviou um grupo de discípulos numa missão, ele disse que eles deveriam pregar a chegada do reino dos céus, curar enfermos, ressuscitar mortos e expulsar demônios, tudo de graça. Eles não precisariam levar nada. Poderiam ficar hospedados nas casas dos outros, onde poderiam comer e beber o que lhes fosse oferecido, afinal, segundo ele, o trabalhador é digno do seu salário. Não poderiam cobrar pelos seus serviços, mas poderiam aceitar a ajuda dos outros. (Mateus 10.1-11; Lucas 10.1-9.) [5] Em lugar nenhum, vemos Jesus e os seus primeiros discípulos explorando os outros com a religião. Ele realizou um monte de coisas sem cobrar nada. Apenas contou com a ajuda daqueles que amavam o seu ministério. Muitos adoram citar quando ele disse que o trabalhador é digno do seu salário. Mas esse salário que ele se referiu são ajudas como: hospedagens, alimentação e quem sabe até dinheiro, mas não exatamente salário gordo no final do mês como acontece hoje em dia. Muitos não gostam da primeira parte que disse para dar de graça. Jesus, diferente de Moisés, não determinou nenhum mandamento para as pessoas bancarem o salário de profissionais religiosos. Ele sempre fala de ajuda espontânea em todos os sentidos, mas nunca encontramos uma regra estabelecida para que as pessoas banquem as mordomias de alguma pessoa que possa estar adiante de uma organização religiosa.

 

No texto seguinte, Paulo mostra que o apóstolo, aquela pessoa que vive viajando, plantando igrejas e alimentando elas com o evangelho, tem o direito de ser mantido pelas pessoas. Apóstolo seria aquela pessoa que hoje muitos chamam de missionário. Um missionário não está sempre de viagem, mas gasta todo o seu tempo com a obra de Deus e acaba não tendo tempo para trabalhar noutras coisas para conseguir o seu sustento. Há muitas pessoas assim hoje em dia. São pessoas tão dedicadas que, muitas vezes, deixam casa, esposa, irmãos, parentes ou filhos para pregarem o reino de Deus. Essas pessoas merecem muito a nossa ajuda. Como Paulo, muitos ficam dias e mais dias preparando mensagens para serem enviadas para as pessoas em diversos lugares, a fim de edificá-las. Não estou falando daqueles que escrevem livros para serem vendidos. Estou falando daqueles que preparam mensagens gratuitamente. Quem gasta o seu tempo com a obra de Deus tem o direito de receber ajuda dos outros. Por isso, Paulo disse para os coríntios:

 

“Será que eu não tenho o direito de receber comida e bebida pelo meu trabalho? Será que nas minhas viagens eu não tenho o direito de levar comigo uma esposa cristã, como fazem os outros apóstolos, os irmãos do Senhor Jesus e também Pedro? Ou será que Barnabé e eu somos os únicos que temos de trabalhar para nos sustentar? Quem já ouviu falar de algum soldado que pagou as suas próprias despesas no exército? Ou qual é o fazendeiro que não come das uvas da sua própria plantação? Ou qual é o pastor que não toma do leite do seu gado? Não pensem que eu me apóio somente nesses exemplos da vida diária, pois a lei diz a mesma coisa. Na Lei de Moisés está escrito assim: ‘Não amarre a boca do boi quando ele estiver pisando o trigo.’ Por acaso Deus está interessado nos bois? Ou foi a nosso respeito que ele disse isso? É claro que isso está escrito em nosso favor! Tanto a pessoa que planta como a que colhe fazem o seu trabalho na esperança de receber a sua parte da colheita. Se temos semeado entre vocês a semente espiritual, será demais se recebermos de vocês alguma recompensa material? Se outros têm o direito de esperar isso de vocês, será que nós não temos muito mais direito do que eles?” (1 Coríntios 9.4-12a, NTLH.) [6]

 

Paulo foi um exemplo de pregador que não explorou as pessoas. Apesar de ter o direito de ser mantido pelas igrejas em suas obras missionárias, como disse Jesus, ele preferiu renunciá-lo várias vezes. Observe a sequencia do texto anterior:

 

“No entanto, nós não temos usado esse direito. Pelo contrário, temos aguentado tudo para não atrapalhar o evangelho de Cristo. Certamente vocês sabem que os que trabalham no Templo é do Templo que recebem os seus alimentos. E sabem também que os que oferecem sacrifícios no altar recebem uma parte da carne dos animais que são sacrificados ali. Assim o Senhor mandou também que aqueles que anunciam o evangelho vivam do trabalho de anunciar o evangelho.” (Aqui ele lembrou os sacerdotes da lei de Moisés que recebiam pelo seu trabalho no templo.)

 

“Mas eu não tenho usado nenhum desses direitos, nem estou escrevendo isso agora para exigir esses direitos para mim mesmo. Eu preferiria morrer a fazer isso! E ninguém vai me tirar o orgulho que eu tenho de agir assim! Eu não tenho o direito de ficar orgulhoso por anunciar o evangelho. Afinal de contas, fazer isso é minha obrigação. Ai de mim se não anunciar o evangelho! Por isso, se eu faço o meu trabalho por minha própria vontade, então posso esperar algum pagamento. Porém, se faço como um dever, é porque é um trabalho que Deus me deu para fazer. Nesse caso, qual é o pagamento que recebo? É a satisfação de anunciar o evangelho sem cobrar nada e sem exigir os direitos que tenho como pregador do evangelho.”

 

“Sou um homem livre; não sou escravo de ninguém. Mas eu me fiz escravo de todos a fim de ganhar para Cristo o maior número possível de pessoas.” (1 Coríntios 9.12b-19, NTLH.) [7]

 

Note que ele renunciou os seus direito e agiu como um escravo. Isso é que é honestidade! Além de não explorar as pessoas, ainda renunciou o que era seu por direito. Essa é uma das partes da Bíblia que muitos fingem não enxergar. Diferente de muitos pregadores de hoje, ele certamente tinha medo que as pessoas achassem que ele estava era querendo levar vantagens. Mas ele disse mais para os coríntios:

 

“Quando anunciei a vocês a boa notícia de Deus, fiz isso completamente de graça. Eu me humilhei para engrandecer vocês. Será que houve algum mal nisso?” (2 Coríntios 11.7, NTLH.) [8]

 

 “Como é que vocês foram tratados pior do que as outras igrejas? A única diferença é que eu não exigi que vocês me ajudassem. Por favor, perdoem essa injustiça! Já estou preparado para fazer a minha terceira visita a vocês e novamente não vou exigir que vocês me ajudem. Eu quero vocês e não o dinheiro de vocês. Afinal de contas, são os pais que devem juntar dinheiro para os filhos, e não os filhos, para os pais. Vou ficar contente em gastar tudo o que tenho e até a mim mesmo para ajudá-los. Será que vocês me amarão menos só porque eu os amo tanto? Portanto, vocês vão concordar que eu não exigi nada de vocês. Porém alguém poderá dizer que os enganei e tapeei com mentiras. Por acaso explorei vocês por meio de algum mensageiro que lhes mandei? Eu pedi a Tito que fosse visitá-los e mandei com ele o outro irmão na fé. Por acaso Tito os explorou? Será que nós dois não temos agido do mesmo modo e com o mesmo espírito? Talvez vocês pensem que estamos querendo nos defender diante de vocês, mas não é isso. Falamos como Cristo nos mandaria falar, na presença de Deus. E tudo o que fazemos, queridos amigos, é para ajudar vocês. (2 Coríntios 12.13-19, NTLH.) [9]

 

Para os tessalonicenses, ele disse: “Pois vocês sabem muito bem que não usamos palavras bonitas para enganar vocês, nem procuramos tapear vocês para conseguir dinheiro. Deus é testemunha disso. Nunca procuramos elogios de ninguém, nem de vocês nem de outros.”

 

“No entanto, tínhamos o direito de exigir de vocês alguma coisa, por sermos apóstolos de Cristo. Mas, quando estivemos com vocês, nós fomos como crianças, fomos como uma mãe ao cuidar dos seus filhos. Nós os amávamos tanto, que gostaríamos de ter dado a vocês não somente a boa notícia que vem de Deus, mas até mesmo a nossa própria vida. Como nós os amávamos! Irmãos, vocês com certeza lembram de como trabalhamos e lutamos para ganhar o nosso sustento. Trabalhávamos de dia e de noite a fim de não sermos uma carga para vocês, enquanto anunciávamos a vocês a boa notícia que vem de Deus. Vocês são nossas testemunhas e Deus também de que o nosso comportamento entre vocês que creram foi limpo, correto e sem nenhuma falha. Vocês sabem que tratamos cada um como um pai trata os seus filhos.” (1 Tessalonicenses 2:6-11, NTLH) [10]

 

“Não temos recebido nada de ninguém, sem pagar; na verdade trabalhamos e nos cansamos. Trabalhamos sem parar, dia e noite, a fim de não sermos um peso para nenhum de vocês. É claro que temos o direito de receber sustento; mas não temos pedido nada a fim de que vocês seguissem o nosso exemplo.” (2 Tessalonicenses 3.8-9.) [11]

 

Em Atos 18.3, podemos ver que a profissão dele (Paulo) era fazer barracas. [12]

 

Veja o que ele disse para os presbíteros de Éfeso: “Não cobicei nem a prata, nem o ouro, nem as roupas de ninguém. Pelo contrário, vocês sabem que eu trabalhei com as minhas próprias mãos e consegui tudo o que eu e os meus companheiros de trabalho precisávamos. Em tudo tenho mostrado a vocês que é trabalhando assim que podemos ajudar os necessitados. Lembrem das palavras do Senhor Jesus: ‘É mais feliz quem dá do que quem recebe.’” (Atos 20:33-35, NTLH) [13] 

 

Com essas palavras, Paulo demonstra que os presbíteros, assim como Jesus e ele, deviam ser dados. Os dois deram exemplos. Como Paulo disse, ele não havia cobiçado nada de ninguém. Abriu mão até mesmo daquilo que era o seu direito. Assim devem ser os homens de Deus. Eles devem ajudar a igreja e não ficarem esperando que a igreja fique mantendo as suas mordomias. Para algumas pessoas que iam gastar seu tempo com a obra de evangelização, Jesus e Paulo disseram que esses eram dignos de receber ajuda. Mas os presbíteros, naquelas pequenas igrejas nos lares, não gastavam muito tempo com a obra de Deus. Se Paulo, atarefado com a obra de Jesus, fazia suas barracas, quanto mais aqueles obreiros de pequenas igrejas nos lares. Eles podiam trabalhar normalmente em suas funções. Por isso, não vemos nenhum texto falando de salário para presbíteros. Equivocadamente, alguns tentam usar 1 Timóteo 3.1-7 para justificarem o salário pastoral. [14] Mas vamos analisar melhor esse texto.

 

Primeiro, devemos lembrar que os cristãos têm o dever de fortalecer, aconselhar, servir, animar, ajudar, ensinar e admoestar uns aos outros. (Romanos 14:19; Romanos 15:14; Gálatas 5:13; Gálatas 6:2; Efésios 5:19; Colossenses 3:16; Hebreus 10.26.) [15] Por causa disso tudo, Paulo disse: “Amai-vos cordialmente uns aos outros com amor fraternal, preferindo-vos em honra uns aos outros.” (Romanos 12.10, RA.) [16] Aqui a palavra honra, do grego timê, significa respeito ou valor. Isso quer dizer que devermos tratar uns aos outros com respeito. Devemos valorizar uns aos outros, pois todos nós, como vimos, temos que viver uns pelos outros. Isso é ser igreja de verdade. Por outro lado, o ancião, também chamado de presbítero ou bispo, que é aquele indivíduo que, de acordo com 1 Timóteo 3.1-7, deve ser mais amadurecido, com apenas uma esposa, moderado, prudente, simples, hospitaleiro, com o dom de ensinar, pacífico, calmo, não bebedor, não briguento, não ganancioso, bom pai de família, com filhos bem educados, que seja respeitado por todos até mesmo por aqueles que não são cristãos e que foi confirmado como supervisor da igreja, esse merece dupla honra. [17] Por isso em 1 Timóteo 5.17, lemos: “Os presbíteros que governam bem sejam estimados por dignos de duplicada honra, principalmente os que trabalham na palavra e na doutrina.” [18] Aqui também a palavra honra vem do grego timê. No entanto, muitos, lendo o contexto, acham que Paulo está falando do salário do pastor. No contexto, no versículo seguinte, ele diz: “Porque diz a Escritura: ‘Não ligarás a boca ao boi que debulha. E: Digno é o obreiro do seu salário’.” Mas aqui, na verdade, temos uma figura de linguagem, uma símile, uma comparação. Assim como o boi que andava sobre o trigo para debulhá-lo tinha o direito de comer dele e assim como obreiro é digno de seu salário, assim os presbíteros são dignos de honra em dobro. Por que em dobro? Porque todos os cristãos já são dignos de honra, e eles, por se tratarem de pessoas mais amadurecidas, merecem muito mais honra. Eles não são chefes da igreja, mas têm uma responsabilidade maior, pois são eles quem supervisionam e orientam a todos para que tudo corra bem. Compare, por exemplo com 1 Tessalonicenses 5.12, que diz: “Irmãos, pedimos a vocês que respeitem aqueles que trabalham entre vocês, isto é, aqueles que foram escolhidos pelo Senhor para guiá-los e ensiná-los.” (NTLH.) [19]

 

Continuaremos no próximo post.

 

Autor: Maralvestos Tovesmar. Este texto (não o site inteiro) está disponível nos termos da licença CC BY-NC-ND. Pode ser copiado e distribuído, informando o autor e o link seguinte, mas não pode ser modificado e nem comercializado. Data: 2013. Veja outras mensagens em http://livresdosfardosreligiosos.blogspot.com.br