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Empreendimentos comerciais religiosos

Livres dos Fardos Religiosos

 

Tem muita gente achando que Jesus foi uma pessoa que vivia economicamente muito bem. Dizem que sua túnica era uma roupa de grife, que o jumento em que ele andou era como um bom carro da época, que tinha casa na praia, etc. [1], [2] Mas tudo não passa de um engano. Um dia, um escriba aproximou-se de dele e disse: “Mestre, aonde quer que fores, eu te seguirei.” Mas Jesus respondeu: “As raposas têm covis, e as aves do céu têm ninhos, mas o Filho do homem não tem onde reclinar a cabeça.” (Mateus 8.19-20, RC.) [3]

 

 

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Desc.: Negócios religiosos. Data: Agosto/2012. Autor: Maralvestos. Licença CC BY-SA.

Jesus não era um miserável como muitos têm ensinado, mas também não era nenhum homem detentor de muitos bens como andam pregando os defensores da teologia da prosperidade. [4], [5] Ele dedicou a sua vida, melhor dizendo, ele doou a sua vida em prol do seu evangelho. E a Igreja, no princípio, não estava preocupada com bens materiais. Era uma sociedade espiritual, que possuía bens materiais com moderação.

 

Paulo, escrevendo ao bispo Timóteo, disse que algumas pessoas acham que a piedade é fonte de lucro. Em outras palavras, ele estava dizendo que tem muita gente achando que o evangelho é um meio para ganhar dinheiro. Logo mais adiante, ele disse: “Mas os que querem ser ricos caem em tentação e em laço, e em muitas concupiscências loucas e nocivas, que submergem os homens na perdição e ruína. Porque o amor do dinheiro é a raiz de toda a espécie de males; e nessa cobiça alguns se desviaram da fé e se trespassaram a si mesmos com muitas dores.” (I Timóteo 6.3-11, RC.) [6] Infelizmente isso tem acontecido com a Igreja ao longo dos séculos. Muitos líderes do cristianismo resolveram se envolver com os negócios desta vida e acabaram ficando relaxados com a obra de Deus.

 

Na Idade Média, mais precisamente entre os séculos IX e XII, na Europa, se desenvolveu o feudalismo, um sistema social, político e econômico. A organização desse sistema era o seguinte:

 

1.     No ponto mais alto, ficavam o imperador e o papa.

2.     Depois vinham o clero (padres, bispos) e os nobres (duques, condes, viscondes, barões e outros nobres), todos isentos de impostos.

3.      Por último, na classe mais inferior, estavam os camponeses ou servos. Esses pagavam todos os impostos. [7].

 

Os proprietários das terras eram os nobres e o clero, a quem os servos prestavam juramento de fidelidade. Bispos e abades, além de serem clérigos, eram também donos de feudos (proprietários de grandes extensões de terra). Dessa forma, a Igreja, além de suas funções religiosas, também exercia a função de senhor feudal, usufruindo, juntamente com os nobres, de vários privilégios. [8], [9], [10]

 

João Calvino, um dos reformadores, no século XVI, confirmava a dupla predestinação. Muitos protestantes, após Calvino, de forma equivocada, chegaram a afirmar que o homem predestinado para a salvação é aquele que prospera economicamente. [11], [12], [13] Dessa forma, muitas igrejas protestantes e evangélicas foram contaminadas com o desejo ardente de ganhar dinheiro. Hoje muitas igrejas e diversos pastores são donos de empresas de vários tipos. Muitos pastores ocupam cargos importantes em empreendimentos comerciais ou na política.  A Igreja está perdendo tempo com os negócios desse mundo. Além disso, estão ocupando espaços da obra de Deus para promoverem os seus produtos e serviços. As igrejas estão sendo tratadas como um conjunto de clientes ou como um colégio eleitoral.

 

Uma pessoa que já fora pastor de uma determinada igreja lamentou dizendo que as reuniões de pastores dessa igreja, alguns anos atrás, continham leituras de salmos, cânticos espirituais e longas horas de oração. Mas depois passaram a ter características de reunião do conselho administrativo de mega-empresa. Os assuntos do dia passaram a ser compra e venda de imóveis ao redor do mundo, as cotações do ouro e do dólar ou os movimentos da bolsa de São Paulo e Londres.

 

Os mesmos males causados pelo capitalismo desenfreado estão se infiltrando nas igrejas. Ganâncias, consumismo, corrupções, concentração de renda... O amor ao dinheiro tem sido a causa de muitos males envolvendo os cristãos.

 

As palavras do profeta Jeremias se encaixam bem nos dias atuais: “Porque, desde o menor deles até ao maior, cada um se dá à avareza; e desde o profeta até ao sacerdote, cada um usa de falsidade. E curam a ferida da filha do meu povo levianamente, dizendo: Paz, paz; quando não há paz.” (Jeremias 6.13-14, RC.) [14]

 

Não podemos ser pessimistas. Mas também não podemos pregar um otimismo com falsidade. Não podemos dizer que está tudo bem, se na verdade não está. Essa igreja capitalista está longe do verdadeiro evangelho de Cristo. A missão da Igreja não é com as coisas materiais. O reino de Jesus não é deste mundo. (João 18:36.) [15] Não estamos aqui para ser uma instituição dirigente de várias instituições comerciais. Que cada líder cristão possa aprender isso na prática e que aprendam a colocar a igreja nos verdadeiros trilhos da fé cristã.

 

Autor: Maralvestos Tovesmar. Este texto (não o site inteiro) está disponível nos termos da licença CC BY-NC-ND. Pode ser copiado e distribuído, informando o autor e o link seguinte, mas não pode ser modificado e nem comercializado. Data: 2013. Veja outras mensagens em http://livresdosfardosreligiosos.blogspot.com.br