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Dízimo (parte III)

Livres dos Fardos Religiosos

 

Continuação do post anterior.

 

Vamos fazer um resumo da historia do dízimo e uma comparação entre o dízimo da Bíblia e o dízimo das igrejas. Depois, vamos ver se é possível colocar em prática o dizimo bíblico.

 

Resumo da história do dízimo

Tempos antigos.

O dízimo era praticado por diversos povos. [1], [2], [3], [4], [5], [6]

Cerca de 2000 anos a.C.

Abraão dá o dízimo ao sacerdote Melquisedeque. [7]

Alguns anos depois.

Jacó faz voto de dar o dízimo. [8]

Século XIII ou XV a.C.

Moisés coloca o dízimo como uma lei para sustentar os levitas, sacerdotes, peregrinos, órfãos e viúvas e para a realização de uma festa anual. [9], [10], [11], [12]

Entre o século XI e X a.C.

Surge o dízimo para os reis dos hebreus. [13]

Alguns séculos depois.

O culto a Deus cai no relaxamento, e o dízimo é abandonado. [14]

Final do século VIII ao início do século VII a.C.

O rei Ezequias de Judá faz uma reforma religiosa, e o dízimo é restabelecido. [15]

Século VI a.C.

Babilônia invade Jerusalém, e o povo é levado para o cativeiro. [16], [17], [18], [19]

Depois a Pérsia domina a Babilônia, e o povo retorna para reconstruir o templo. [20]

O povo não obedece à lei, e o dízimo deixa de ser praticado outra vez. [21], [22]

Século V a.C.

Malaquias exorta o povo de Israel e os sacerdotes, e o dízimo é citado. [23]

Neemias reconstrói as muralhas de Jerusalém e promove uma reforma religiosa, e o dízimo é novamente restabelecido juntamente com outras práticas. [24], [25], [26]

Século II a.C.

Surge a religião dos fariseus – aqueles que davam o dízimo até de condimentos.  [27], [28], [29], [30]

Século I.

Jesus repreende os escribas e os fariseus e diz que eles devem dar o dízimo, mas não impõe essa obrigação para os seus discípulos. [31], [32]

Acontece o concílio de Jerusalém, onde o dízimo não é colocado nas decisões dos apóstolos. [33]

É escrita a carta aos Hebreus. O dízimo é citado numa mensagem sobre o sacerdócio de Cristo, mas não como mandamento. [34]

Primeiros séculos.

O dízimo não é mencionado nos escritos dos chamados pais da Igreja e dos apologistas como um mandamento a ser praticado pelos cristãos. Alguns até falaram contra a sua prática. [35], [36], [37], [38], [39]

Século III.

Cipriano de Cartago tenta, sem sucesso, implantá-lo no norte da África. [40], [41]

Século IV.

Alguns se manifestam a favor do dízimo para o sustento do clero, como o bispo Agostinho de Hipona e o autor de “Constituições Apostólicas”, mas também não se concretizou. [42], [43]

Século V.

Alguns cristãos piedosos resolvem pagar o dízimo. [44]

Século VI.

No Sínodo de Tours, na região da França, em 567, o dízimo torna-se obrigatório na região. [45] E no Sínodo de Macon, também na mesma região, em 585, fica decidido que os cristãos devem pagar o dízimo sob pena de excomunhão. [46]

Século VIII.

Carlos Magno, rei dos Francos, decreta o pagamento de dízimo para o sustento da igreja [47], [48]

Século XII.

A igreja concede a alguns soberanos o direito de cobrança de parte dos dízimos. [49]

Século XVI.

Após as reformas protestantes, muitas igrejas continuam usando o dízimo medieval dos fiéis. [50]

Século XVIII.

Com a Revolução Francesa, na França, onde o dízimo Medieval teria nascido a partir do século V, a Assembléia Constituinte vota a favor do seu fim, e o rei Luis XVI teve que promulgar um decreto extinguindo o seu uso. [51]

Século XIX

Nos demais países da Europa, nos embalos na Revolução Francesa, esse imposto vai desaparecendo pouco a pouco. [52]

Mais tarde.

A Igreja Católica volta a praticar o dízimo em forma de dinheiro, e novas igrejas surgem a cada dia fazendo o mesmo

2005.

O papa Bento XVI retira a palavra "dízimos" do quinto Mandamento da Igreja.  O novo mandamento fica dessa forma: "Atender às necessidades materiais da Igreja, cada qual segundo as próprias possibilidades". [53], [54]

Desc.: Resumo da história do dízimo. Data: junho/2013. Autor: Maralvestos. Livres dos Fardos Religiosos. Licença CC BY-SA.

 

 

Comparação entre o dízimo bíblico e o dízimo medieval

Dízimo da lei de Moisés

Dízimo medieval

Era cobrado apenas dos produtores rurais em forma de produtos agropecuários. (Levítico 27.30 e 32.) [55].

É cobrado de qualquer pessoa em forma de dinheiro.

Era destinado a milhares de pessoas da tribo de Levi com diversas funções na obra de Deus. (Números 18.21-24.) [56]

Em muitas igrejas, é destinado apenas ao sustento de pastores. Muitos trabalham nas igrejas de forma voluntária sem receber nada.

Era entregue para os levitas em suas cidades. (Neemias 10.37; Números 18:21-24.) [57].

É entregue para os pastores nas igrejas.

Do dízimo que os levitas recebiam, eles tiravam dez por cento para os sacerdotes. Era o dízimo dos dízimos, que devia ser entregue no templo. (Números 18.25-32.) [58]

Isso não é feito, pois não temos levitas e nem sacerdote como no Antigo Testamento. Se fôssemos seguir o dízimo bíblico, teríamos que dar dez por cento de tudo para os porteiros, músicos, cantores, diáconos, faxineiros, etc. das igrejas de hoje. E eles, em seguida, deveriam retirar o dízimo do seu dízimo para os pastores.

Anualmente, era usado pelos próprios dizimistas numa comemoração com sua família e seus servos num lugar determinado. . (Deuteronômio 14.22-26.) [59]

As igrejas não têm feito essa comemoração anual com o dízimo.

De três em três anos, era separado para o sustento de peregrinos, órfãos e viúvas. (Deuteronômio 14.27-29 e 26.12.) [60]

As igrejas não têm usado o dízimo para socorrer os necessitados.

Descrição: Comparação entre o dízimo bíblico e o dízimo medieval. Data: junho/2013. Autor: Maralvestos. Livres dos Fardos Religiosos. Licença CC BY-SA.

 

Na verdade, estamos livres da lei de Moisés, conforme já vimos, e não temos mais a obrigação de seguir a lei do dízimo. Os mandamentos sobre ele, na Bíblia, foram feitos para o povo de Israel (os hebreus) e não para a igreja. A mensagem do profeta Malaquias, tão usada hoje em dia, não passa de uma exortação do profeta ao povo de Israel depois do cativeiro na Babilônia. A mensagem de Jesus foi uma dura crítica dirigida aos escribas e fariseus e não aos seus discípulos. Se tivéssemos que pagar dez por cento, então, teríamos que seguir o dízimo da Bíblia e não seguir um dízimo adaptado na Idade Média.

 

O dízimo bíblico era...

˜

...para os hebreus (israelitas ou judeus)

Não é

X

para a igreja

Descrição: Dízimo bíblico apenas para os hebreus. Data: junho/2013. Autor: Maralvestos. Licença CC BY-SA.

 

Veja como deveria ser e se seria possível:

 

1.     Deveríamos levar animais, frutas e cereais para a igreja em vez de dinheiro. Isso não seria possível. Onde os pastores iriam colocar esses bichos e onde colocariam tantas frutas, verduras e cereais? Não poderiam ter salva e nem gazofilácio, mas um lugar para os vegetais e os lacticínios e um cercado para os animais. A igreja ficaria numa situação difícil, pois a maioria dos fiéis não é agropecuarista.

2.     O dizimista podia comprar alguma porção do dízimo pagando o preço marcado por ele mais um quinto. Não podemos fazer isso com o dízimo de hoje. Não faz sentido comprar dinheiro com dinheiro.

3.     Os levitas deviam separar do melhor o dízimo dos dízimos para os sacerdotes. Isso também é impossível, pois não temos levitas e nem sacerdotes como no Antigo Testamento.

4.     Deveríamos, uma vez no ano, levar o dízimo para o lugar determinado por Deus para ser comido juntamente com a nossa família e servos. É outra coisa que também não podemos fazer como fizeram os hebreus. Hoje não temos lugar determinado por Deus para isso e muitos também não plantam nada e nem criam animais algum para terem o que levar. Também não temos servos.

5.     De três em três anos deveríamos separar o dízimo para sustentar peregrinos, órfãos e viúvas. Em forma de dinheiro isso dá, mas ainda não vi, até o momento, nenhuma igreja fazendo isso com o dízimo.

 

 

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Descrição: O dízimo da Bíblia era de produtos agropecuários. Se as igrejas realmente fossem seguir o dízimo bíblico, onde as elas colocariam essas coisas? Data: Agosto/2012. Autor: Maralvestos. Licença CC BY-SA.

 

Concluímos então que a prática do dízimo bíblico na atualidade não é possível e por isso não é para a igreja. Não adianta fazer adaptações. A igreja deve se sustentar com as ofertas voluntárias feitas de coração. Se isso não for suficiente é porque está havendo muito desperdício de dinheiro e muitos cristãos, na verdade, não tem amor à obra de Deus. Apesar de tudo, muitos, equivocadamente ou por conveniência, ainda insistem nessa prática.

 

 

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Descrição: Ofertas de coração: essa é a idéia de Jesus e dos apóstolos. Data: Agosto/2012. Autor: Maralvestos. Licença CC BY-SA.

 

 

Chega de hipocrisia! Precisamos para de usar textos bíblicos para defender apenas aquilo que é conveniente. Se o dízimo de Moisés não pode ser cumprido na íntegra, então ele não deve ser adaptado e não é para ser seguido pelos cristãos.

 

Continuaremos no próximo post.

 

Autor: Maralvestos Tovesmar. Este texto (não o site inteiro) está disponível nos termos da licença CC BY-NC-ND. Pode ser copiado e distribuído, informando o autor e o link seguinte, mas não pode ser modificado e nem comercializado. Data: 2013. Veja outras mensagens em http://livresdosfardosreligiosos.blogspot.com.br



[2] Dicionário Bíblico Johne D. Davis, página 164, edição de 1978

[41] Cyprian, Epistle 65.1; Beyond Tithing, p. 104.

[49] Dízimo, Encyclopaedia Britannica do Brasil Publicações Ltda

[50] Ibidem