Dízimo (parte II)

Livres dos Fardos Religiosos

 

Continuação do post anterior.

 

Apesar de ter sido uma lei, os hebreus, algumas vezes, deixaram de pagar o dízimo. Na época de Jesus, porém, os fariseus eram extremamente legalistas e pagavam, minuciosamente, os dez por cento de todas as suas plantas. Mas Jesus iniciou uma nova vida para todas as pessoas do mundo inteiro, livre das imposições da lei de Moisés. Assim surgiu um novo grupo de pessoas, que contribuíam com ofertas de amor e não com esse imposto determinado pela antiga religião mosaica. Vamos ver tudo isso com mais detalhes.

 

A reforma de Ezequias. Depois de Davi, muitos reis deixaram o culto a Deus se esfriar. O reino foi dividido em dois, e o dízimo deixou de ser praticado corretamente. Mas quando Ezequias se tornou rei de Judá, ele fez o que era reto aos olhos do Senhor. Purificou o templo e restabeleceu o culto. (2 Crônicas 29, 30-31.) [1] Nessa época, o dízimo também foi restabelecido. (2 Crônicas 31.5-6.) [2]

 

 

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Descrição: O dízimo na reforma do rei Ezequias. Data: junho/2013. Autor: Maralvestos. Licença CC BY-SA.

 

A reforma do governador Neemias e as exortações do profeta Malaquias. Com o passar do tempo, o povo de Israel foi levado cativo para a Babilônia. [3], [4], [5], [6] Algum tempo depois, a Pérsia dominou a Babilônia, e o povo foi autorizado a voltar para Canaã. Jerusalém foi reconstruída, e o templo foi restaurado. [7] Mas as coisas estavam relaxadas de novo. O lugar do templo, onde eram guardados as ofertas, os utensílios e o dízimo estava ocupado por um amonita de nome Tobias. (Neemias 13.4-7.) [8] Os cantores e outros levitas tinham abandonado o templo, pois não estavam recebendo mais o sustento que lhes era devido em forma de dízimo. (Neemias 13.10.) [9] Nessa época, o profeta Malaquias transmitiu ao povo e especialmente aos sacerdotes de Israel algumas exortações. Malaquias disse que as pessoas estavam roubando a Deus por não entregarem o dízimo e exorta os hebreus para recolocá-lo em prática a fim de serem abençoados. (Malaquias 3.6-12.) [10] O povo ouviu o profeta. Foi feita uma reforma religiosa restabelecendo as práticas da lei de Moisés. Nessa época, foi feito um acordo, onde o povo se comprometeu a agir conforme a lei. O dízimo foi citado nesse acordo. (Neemias 10.37-38.) [11] Logo em seguida, foram nomeados homens que ficaram encarregados do depósito, onde eram guardados os dízimos e as ofertas. (Neemias 12.44.) [12] E ele foi restabelecido. (Neemias 13.12.) [13] As reformas da cidade, do templo e das práticas religiosas estão descritas com bastantes detalhes nos livros de Esdras e Neemias.

 

 

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Descrição: A reforma do dízimo na época do governador Neemias e do profeta Malaquias. Data: junho/2013. Autor: Maralvestos. Licença CC BY-SA.

 

O dízimo meticuloso dos escribas e fariseus. No século II a.C., surgiu a seita dos fariseus dentro do judaísmo. [14] Esses eram extremamente legalistas. Jejuavam duas vezes por semana e davam o dízimo de tudo quanto ganhavam. (Lucas 18.10-12.) [15] Como já vimos, o dízimo era dez por cento das colheitas e dos rebanhos, destinado ao sustento dos levitas, peregrinos, órfãos e viúvas. Então eles davam o dízimo até da hortelã, do endro, do cominho e da arruda - plantas usadas como condimentos, não sendo por isso tão necessárias. Todo mundo consegue viver sem elas. Porém desprezavam o que era mais importante na lei como: o amor de Deus, a justiça, a misericórdia e a fé. Por isso, quando Jesus falou com os fariseus, que estavam debaixo da lei, ele disse “Ai de vós, escribas e fariseus, hipócritas! porque dais o dízimo da hortelã, do endro e do cominho, e tendes omitido o que há de mais importante na lei, a saber, a justiça, a misericórdia e a fé; estas coisas, porém, devíeis fazer, sem omitir aquelas.” (Mateus 23.23, RA. Ver também Lucas 11.42.) [16], [17] Como disse Jesus, os fariseus não estavam errados em dar o dízimo de tudo. O erro deles era se preocupar com o dízimo até das plantas supérfluas, deixando de lado o amor de Deus, a justiça, a misericórdia e a fé. Viviam no tempo da lei e realmente deviam obedecê-la. Mas eram extremamente legalistas e meticulosos, preocupando-se com os mínimos detalhes, enquanto desprezavam as virtudes mais importantes.

 

 

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Desc.: Hortelã (menta). Os fariseus davam o dízimo (dez por cento) de suas folhas. Data: 13/07/2011. Autor: Uwe W. Fonte. Licença CC BY-SA.

 

 

Jesus e o dízimo. Jesus não instituiu o dízimo, mas muitos líderes exigem dos cristãos a entrega de dez por cento de tudo quanto ganham. Nos versículos citados, Jesus não estava determinando o dízimo para a sua igreja. Muitos adoram frisar que Jesus disse que “estas coisas (amor de Deus, justiça, misericórdia, fé), porém, devíeis fazer, sem omitir aquelas (dar o dízimo de todas as produções). Todavia, a sua fala não foi com os seus discípulos, mas com os escribas e fariseus que estavam sob a lei. Jesus não poderia proibi-los de praticarem o que a lei exigia. Todavia, para os cristãos, nem Jesus Cristo e nem os seus apóstolos falaram que devemos praticar o dízimo. Citar esse texto, sem o contexto, é pretexto para justificar a permanência da lei do dízimo.

 

 

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Descrição: Jesus e os fariseus. Data: junho/2013. Autor: Maralvestos. Licença CC BY-SA.

 

Jesus nos libertou da religião de Moisés. Depois da sua morte e ressurreição, ficamos livres de praticar as obras da sua lei. Fomos libertos dela (Romanos 7.6.) [18] Não estamos mais debaixo da lei, e sim debaixo da graça. (Romanos 6.14.) [19] As epístolas escritas para os gálatas e para hebreus falam da superioridade do evangelho de Cristo em relação à Lei de Moisés. [20], [21] A igreja é livre para viver pela fé, praticando o evangelho sem as obras da lei.

 

 

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Descrição: Jesus nos libertou da lei de Moisés escrita nos pergaminhos, onde foi registrada a lei do dízimo para os hebreus. Data: fevereiro/2013. Autor: Maralvestos. Licença CC BY-SA.

 

Ausência de dízimo na igreja primitiva. Na igreja primitiva, vemos como os apóstolos tiveram enormes dificuldades com aqueles que queriam um evangelho misturado com práticas da Lei de Moisés. A circuncisão, uma das práticas da lei, foi tema de grandes debates. O ebionismo foi uma das ramificações do Cristianismo primitivo. Pregava que tanto judeus como gentios convertidos deveriam seguir os mandamentos da Lei. [22] Para tratar do assunto, houve até um concílio em Jerusalém, onde ficou definido que as únicas coisas necessárias em relação à lei mosaica seriam: abstenção das coisas sacrificadas aos ídolos, e do sangue, e da carne sufocada, e da prostituição. (Atos 15.29.) [23] O dízimo não foi citado. Essa lei foi apagada para os cristãos.

 

O livro Atos dos Apóstolos e as diversas cartas escritas aos cristãos de muitos lugares tratam de vários temas cristãos, mas não dizem nada sobre isso. O apóstolo Paulo falou de generosidade para com os necessitados, mas não disse nada sobre o dízimo. (1 Co 16:1-3; 2 Co 8.1-5; 9.) [24], [25]

 

A carta aos hebreus, no capítulo 7, faz uma comparação entre o sacerdócio de Melquisedeque, o sacerdócio da lei de Moisés e o sacerdócio de Cristo. [26] A palavra dízimo aparece no contexto duas vezes, mas não há nada que indica que a igreja deva entregar o dízimo. O assunto é a superioridade do sacerdócio de Cristo em relação ao sacerdócio do Antigo Testamento. O dízimo aqui foi citado apenas como parte do contexto. Não há nada explícito sobre o dever do cristão de pagar o dízimo.

 

OS HEBREUS SOB A LEI DE MOISÉS

A IGREJA PRIMITIVA SOB A GRAÇA

DÍZIMO

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Ausência do dízimo nos escritos dos chamados pais da Igreja. Nos escritos dos pais da Igreja e dos apologistas cristãos, praticamente não encontramos nada sobre ele. Eles falaram apenas acerca de ofertas. Alguns até falaram contra o dízimo.

 

·       Entre o I e o II século da era cristã, surgiu o Didaquê (Instrução dos Doze Apóstolos) falando de instrução moral, da liturgia, da disciplina e dos ofícios eclesiásticos, além de uma exortação sobre a volta de Jesus e a ressurreição dos mortos. Nele não encontramos nada a favor da prática do dízimo. [27]

·       Para Irineu (Século II) era coisa da lei que não deve ser requerido dos cristãos. (Haer. 4, 18, 2). [28], [29]

·       Hipólito, em sua obra Tradições Apostólicas do século III, em 215, deixou uma série de instruções para a Igreja, mas não disse nada sobre o dízimo. [30]

·       Orígenes (Século III) considerava o mesmo como algo ultrapassado. ((In Num. Hom. 11). [31], [32]

·       Cipriano (século III) tentou implantar essa prática em Cartago, no norte da África. Mas não foi avante. Suas idéias foram desprezadas. Esse acabou entregando os seus bens aos pobres. [33], [34]

·       No século IV, alguns se manifestaram a favor do dízimo para o sustento do clero, como o bispo Agostinho de Hipona e o autor de “Constituições Apostólicas”, mas também não se concretizou. [35], [36]

 

Século I

Século II

Século III

Século IV

Sem dízimo

Sem dízimo

Sem dízimo

Sem dízimo

 

O dízimo medieval. A partir do século V, a prática do dízimo foi resgatada, embora não exatamente como era no Antigo Testamento.

 

·       No século V, alguns cristãos piedosos pagavam o dízimo. [37]

·       No século VI, logo depois do início da Idade Média, no Sínodo de Tours, no território onde hoje é a França, em 567, o dízimo se tornou obrigatório na região. [38]

·       Logo em seguida, no Sínodo de Macon, também na mesma região, em 585, ficou decidido que os cristãos deveriam pagar o dízimo sob pena de excomunhão. [39]

·       Em 785, na Europa, Carlos Magno, o rei dos francos, através de um decreto, instituiu o dízimo como uma lei civil para o sustento da Igreja Católica. [40], [41]

·       Na época do feudalismo, ele foi utilizado também pelos senhores feudais. [42]

·       Com a Reforma protestante no século XVI, em muitos países, o dízimo continuou sendo cobrado.

 

Século V e VI

Século XVI

Séculos seguintes

Origem do dízimo medieval na Igreja Católica.

Com a Reforma protestante, muitas coisas mudaram, mas a cobrança de dízimo permaneceu.

Surgiram milhares de novas igrejas mantendo o dízimo medieval.

 

Essa prática acabou virando doutrinas de muitas igrejas protestantes e evangélicas. Todavia, o dízimo praticado nas igrejas é o dízimo medieval. Não tem nada a ver com o dízimo da Bíblia. Na Bíblia, no Antigo Testamento, buscaram apenas alguns pontos interessantes e possíveis como: a porcentagem de dez por cento, as promessas de bênçãos relacionadas ao seu pagamento, as exortações de Malaquias 3.8-12, que mesmo não sendo para a igreja, mas para o hebreus do século VI antes de Cristo, se tornou a ferramenta preferida para ameaçar psicologicamente as pessoas. [43] Do Novo Testamento, usam Mateus 23.23 e Lucas 11.42, não deixando as pessoas perceberem que Jesus, nesses versos, não falava com seus discípulos, mas com os fariseus. [44] Assim, muitas igrejas praticam o dízimo medieval, que não tem nada a ver com o dízimo de Moisés e que nunca foi determinado por Jesus.

 

Continuaremos no próximo post.

 

Autor: Maralvestos Tovesmar. Este texto (não o site inteiro) está disponível nos termos da licença CC BY-NC-ND. Pode ser copiado e distribuído, informando o autor e o link seguinte, mas não pode ser modificado e nem comercializado. Data: 2013. Veja outras mensagens em http://livresdosfardosreligiosos.blogspot.com.br



[34] Cyprian, Epistle 65.1; Beyond Tithing, p. 104.