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Cerimônia religiosa de casamento

Livres dos Fardos Religiosos

 

Muitos iniciam a vida a dois ao som da marcha nupcial, entre amigos, parentes, risos, luzes, câmeras, flores... Depois, tudo se acaba, pouco a pouco, como uma música que termina, mostrando os últimos toques tristes nas teclas de um piano, tocado por um tecladista solitário numa penumbra fria...

 

 

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Descrição: Amor conjugal. Data: junho/2013. Autor: Maralvestos. Licença CC BY-SA.

O casamento, a união de um homem e uma mulher, faz parte da história humana. Em todas as culturas, a união conjugal é a base da sociedade. Tudo tem início na família. A Bíblia trata desse tema por todos os lados.

 

O início da vida conjugal é marcado por um ritual de passagem conhecido por bodas, celebrado de várias formas, de acordo com cada cultura. Algumas dessas celebrações são ligadas à religião. Cerimônia religiosa de casamento é, pois, a reunião festiva e solene, carregada de aparatos, ostentação e formalidades que se realiza dentro de uma religião para celebrar a união de um casal.

 

O nosso propósito aqui não é criticar o casamento, mas a cerimônia matrimonial desenvolvida pela Igreja que não tem nenhuma base nos ensinamentos de Jesus e dos apóstolos. Muitos têm dado grande importância ao casamento religioso das igrejas, mas o que muitos não sabem é que a cerimônia religiosa do casamento celebrado pelo padre ou pastor não tem nenhuma base no Novo Testamento. Sendo assim, podemos dizer que o casamento legítimo é o casamento civil. Apesar do sonho inefável de toda princesa, do brilho requintado, das doces melodias que nos enlevam, das poesias cheias de ricas palavras, das flores, do perfume e dos sonhos, a cerimônia religiosa de casamento é apenas mais um fardo que os líderes das igrejas decidiram carregar, fazendo os seus seguidores se tornarem escravos de coisas que Cristo nunca mandou fazer.

 

Antes de tudo, vamos ver onde as igrejas buscaram ingredientes para suas cerimônias conjugais.

 

Casamento dos gregos e romanos. Esses povos celebravam o casamento da seguinte forma: primeiro, aconteciam as esponsais e depois, as núpcias.

 

Esponsais. Era o período do noivado, quando o pai da moça ou o seu tutor e o noivo tratavam dos assuntos referentes ao casamento, como o dote, por exemplo, que era muito usado na época. Essa era a fase preparatória. Em Roma, essa fase era tratada com muita seriedade e tinha caráter jurídico. O noivo enviava um anel de ferro sem pedra para a noiva, que era colocado no anelar da mão esquerda. Com o tempo, esse anel passou a ser de ouro. Num dia marcado, assinavam um contrato e participavam de um banquete comemorativo. [1]

 

Núpcias. As núpcias eram as cerimônias relacionadas ao casamento.

 

 

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Descrição: Alianças. Data: ? Autor: Musaromana. Fonte e licença domínio público.

Núpcias gregas. Na véspera do casamento, em sua casa, o pai da moça realizava um sacrifício às divindades Hera e Zeus, considerados como deuses do casamento, Ártemis, deusa da virgindade e Ilítia, deusa do parto. A noiva costumava oferecer os seus brinquedos à deusa Ártemis, demonstrando o fim da sua infância. Os noivos tomavam um banho especial, considerado como um ritual de purificação. [2], [3]

 

No dia do casamento, as casas dos noivos eram decoradas com ramos de oliveira e loureiro. O pai da noiva ou o seu tutor dava um banquete. A noiva colocava um véu cobrindo o rosto durante o banquete, e os dois punham uma coroa de metal ou de flores (grinalda). Nesse banquete, as pessoas ofereciam presentes. Eram comidos bolos de sésamos (gergelim). A moça era então entregue ao noivo. [4], [5], [6]

 

Ao entardecer, os noivos iam para a sua casa em um carro puxado por bois ou cavalos, acompanhados por parentes e amigos, que carregavam tochas, cantavam e dançavam, seguindo o cortejo nupcial. Os pais do noivo recebiam a noiva, dando para ela um bolo de sésamo e mel ou tâmara. Figos secos e nozes eram jogados em sua cabeça como símbolos de fecundidade e prosperidade. O novo casal, em seguida, era conduzido até o seu quarto, onde comiam uma fruta, símbolo de fecundidade. Na porta do quarto, jovens cantavam uma canção religiosa chamada de epitalâmio. Depois, os convidados saiam com gritos para espantarem os maus espíritos. [7], [8], [9]

 

Núpcias romanas. Na véspera do casamento, a noiva oferecia seus brinquedos aos deuses domésticos chamados de Lares. Vestia uma túnica branca que se estendia até os pés. Na cintura, ela colocava um cinto atado com um nó especial chamado de nodus herculeus, lembrando o deus Hércules que, segundo a lenda, teve mais de setenta filhos. Esse nó só podia ser retirado pelo marido após a cerimônia do casamento. Os seus cabelos eram separados em seis mechas presas com fitas de lã. A sua cabeça era coberta com um véu alaranjado. Por cima do véu, era colocada uma coroa de manjerona e verbena (mais tarde passou a ser de flores de laranjeira). [10], [11]

 

No dia seguinte, a casa da noiva era toda enfeitada com ramos verdes e floridos. A noiva era acompanhada por uma mulher casada, chamada de pronuba. Acontecia um banquete até o entardecer. Nesse banquete, o contrato era lido, e testemunhas assinavam. [12], [13]

 

Ao entardecer, semelhante aos gregos, havia um cortejo para levar os noivos para o novo lar. A noiva era acompanhada por três meninos. As pessoas gritavam o nome de uma divindade protetora do casamento e recitavam versos. O noivo recebia a noiva com fogo e água. Ela, com azeite e gordura animal, ungia os umbrais da porta da sua nova casa. O marido ou as pessoas carregavam a noiva para dentro da sua nova casa, para que ela não tropeçasse. O tropeço era considerado como algo negativo para a vida dela.  A pronuba, aquela mulher casada, a guiava até o quarto, a ajudava tirar as vestes e as jóias, e a colocava no leito nupcial. O noivo, então, entrava para consumar a união. Lá fora, as pessoas continuavam com a festa, e a pronuba realizava um sacrifício. [14], [15]

 

No outro dia, a noiva oferecia sacrifícios aos deuses do lar. Havia ainda outro banquete entre as duas famílias. [16]

 

Entre os romanos, havia também uma cerimônia religiosa de casamento conhecida como Confarreatio, que era celebrada pelo sumo sacerdote de Júpiter, o Flamen Dialis. Essa cerimônia exigia a presença de dez testemunhas. [17], [18]

 

Casamento dos judeus. Entre os judeus, o casamento também tinha duas partes: o desposório e a volta do noivo.

 

Desposório. A cerimônia de casamento dos judeus começava oficialmente com o desposório (noivado). Esse era o primeiro passo. Certo dia, numa reunião de pessoas que serviam como testemunhas, um compromisso de casamento era feito com uma aliança ou com um contrato que o moço dava para a moça. As pessoas davam presentes. Nesse período que durava cerca de um ano, os dois já estavam totalmente comprometidos através do acordo, mas ainda não podiam viver juntos e nem consumar o ato sexual. Nessa fase, o noivo ficava afastado da noiva preparando a sua casa. Ela ficava com os seus pais preparando o enxoval e preparando o seu corpo para o dia das bodas. Ela não sabia exatamente o dia e nem a hora exata, quando o noivo voltaria. Por isso ela tinha que ficar preparada para ser levada. Algumas amigas, chamadas de “companheiras” ou "virgens", a ajudavam nos preparativos. Auxiliada por essas amigas, ela vestia o vestido de casamento, perfumava o corpo, arrumava seus cabelos, colocava pulseiras, brincos e adornos nos cabelos. Ao aproximar-se o dia, o noivo também se reunia com seu amigos. [19]

 

A volta do noivo. O noivo, juntamente com os seus convidados, formavam um cortejo com músicas, que saia pelas ruas à noite, até a casa da noiva, que devia estar preparada. Ela era retirada da casa dos pais e, prosseguindo o cortejo, era levada para a casa do noivo ou do pai do noivo, onde, na sequência, acontecia um banquete. A volta do noivo geralmente acontecia por volta da meia noite. A noiva e as suas amigas tinham que estar com as suas lamparinas preparadas, pois o cortejo era feito com procissão de luzes. Naquele tempo, as ruas eram escuras. Ao chegar ao lugar da festa, o anfitrião oferecia trajes especiais para as pessoas. Sem essas roupas, as pessoas não podiam entrar. [20], [21]

 

Quem já leu os evangelho percebe que Jesus usou tudo isso para ilustrar a necessidade da vigilância, da fidelidade e do preparo de seus seguidores para o dia da sua volta, que ninguém sabe quando será exatamente. (Mateus 25.1-13.) [22] Mas o tema, no momento, será a cerimônia de casamento apenas.

 

O casamento é uma necessidade, e a Bíblia o aprova em toda a sua extensão. A lei de Moisés, os profetas, os livros sapienciais e poéticos, os evangelhos e as cartas de Paulo, todos falam sobre o matrimônio. Gênesis 2:24 diz: “Por isso, deixa o homem pai e mãe e se une à sua mulher, tornando-se os dois uma só carne.” (RA.) [23] Conversando com os fariseus, Jesus recordou esse texto dizendo: “Não tendes lido que, no princípio, o Criador os fez macho e fêmea e disse: ‘Portanto, deixará o homem pai e mãe e se unirá à sua mulher, e serão dois numa só carne?’ Assim não são mais dois, mas uma só carne. Portanto, o que Deus ajuntou não separe o homem.” (Mateus 19.4-6, RC.) [24] O primeiro milagre de Jesus registrado na Bíblia foi numa festa de casamento, quando ele transformou água em vinho. Aquele novo vinho, produzido através de um milagre foi considerado o melhor vinho da festa. (João 2.1-10.) [25] Dessa forma, podemos dizer que o casamento e a festa de casamento não foram reprovados por Jesus. Ele sempre esteve a favor da união conjugal e, conforme vimos, com o milagre realizado nas bodas de Caná, ele demonstrou estar de acordo com a comemoração realizada na ocasião do matrimônio. Ele não condenou os costumes judaicos sobre o casamento e até usou esses costumes como alegoria da sua união com a igreja, considerada como a sua noiva.  Mas (preste bem a atenção) ele não estabeleceu nenhuma cerimônia ou ritual de casamento para ser realizado por algum líder da igreja. Não vemos nem Jesus, nenhum apóstolo, ancião ou presbítero realizando cerimônia religiosa para unir um casal. O que vemos eram apenas conselhos sobre a vida conjugal. Mas nada sobre cerimônias.

 

·       Do século I ao século IV, as pessoas se casavam, mas os casamentos não tinham nada a ver com a igreja-templo e com o ancião, presbítero ou bispo. Aliás, nesse período, nem sequer existiam edifícios chamados de igrejas. As pessoas se reuniam nas casas. Já vimos isso em outras mensagens. [26], [27], [28], [29] Dessa forma, as comemorações de qualquer casamento era algo separado da igreja. As pessoas se casavam de acordo com as tradições locais, gregas, romanas, judaicos, etc., sem nenhuma interferência da igreja. Não havia nenhum ritual cristão referente ao casamento. Os cristãos apenas evitavam os sacrifícios aos deuses pagãos dos lares e da fertilidade. Mas as bodas eram celebradas nos lares. [30]

 

·       Do século IV ao século X. Nesse período, a cerimônia de casamento continuou nas casas, mas foi exigida a presença do sacerdote, que conduzia algumas partes com algumas fórmulas litúrgicas, registradas nos sacramentários Veronense, Gelasiano e Gregoriano. [31] A partir dessa época, os líderes da Igreja começaram a interferir nas celebrações dos casamentos, introduzindo fórmulas litúrgicas que Cristo não mandou.

 

·       Do século X ao século XVI, a cerimônia deixou de ser nas casas e passou a ser realizada na porta da igreja e continuou sendo incrementada com liturgias. [32]

 

·       Do século XVI, no Concílio de Trento, foi declarado inválido qualquer casamento realizado sem a presença do sacerdote. Aqui teve início o preconceito contra aqueles que não se casaram realizando uma cerimônia religiosa na igreja.

 

·       A partir do século XVII, de acordo com o uso generalizado do Ritual Romano, a cerimônia passou a acontecer dentro da igreja, antes da missa e tornou-se um dos sete sacramentos da Igreja. [33]. Agora, depois de virar um sacramento, todos foram obrigados a passar pela liturgia casamenteira.

 

·       A partir do século XX, na década de 60, o Concílio Vaticano II desenvolveu algumas reformas que enriqueceram ainda mais a cerimônia de casamento. [34]

 

Os ortodoxos, protestantes, evangélicos, pentecostais e neopentecostais, apesar das diversas mudanças nos costumes, nas crenças, nas doutrinas, nas liturgias, mantiveram a cerimônia do casamento dentro da igreja-templo, com a presença do ministro religioso, seguindo elementos jamais instituídos por Jesus, inventados ao longo da história da igreja, depois do século IV.

 

 

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Descrição: Noivos. Data: ? Autor: Fancy Fortune Cookies. Fonte. Licença CC BY-SA.

Hoje o casamento se tornou um momento social e religioso de extrema importância para muitos. Muitos foram dominados pela idéia de que sem a interferência da igreja não há casamento. Aqueles que vivem juntos, mesmo tendo verdadeiro amor conjugal, plena fidelidade e bons testemunhos cristãos acabam sofrendo discriminação caso não tenham passado pelo casamento religioso. As pessoas se tornaram reféns de uma cerimônia sacramental que Jesus não instituiu. Ele aprovou o casamento mas não determinou nenhuma fórmula para a sua realização. Mas as pessoas ficam obrigadas a passar por esse momento muito desejado, mas muitas vezes dominado pelo luxo, ostentação e gastança, impulsionados pela sociedade capitalista que descobriu, nessa cerimônia, uma boa fonte de lucro, enquanto a liderança da igreja fica quieta, calada, vendo a exibição de alguns e a humilhação de outros.

 

Não estamos negando o casamento, que é algo natural, necessário, aprovado por Deus, por Jesus e pela igreja. Estamos sim, criticando o ritual do casamento realizado nas igrejas, como sendo uma responsabilidade de alguma autoridade eclesiástica, exigida por Jesus. O que importa é o acordo celebrado entre as duas pessoas. As formalidades, os rituais e o luxo de um casamento eclesiástico não têm nada a ver com o evangelho original. Quando duas pessoas decidem ser marido e mulher através de uma acordo qualquer, isso é casamento. Para receber a bênção da igreja, não é necessário nada mais além das orações dos irmãos. Todos são livres para realizar ou não qualquer cerimônia de casamento. Mas devem fazer isso nas casas ou em outros lugares, sem a interferência de qualquer presbítero ou pastor, embora nada deve impedir que eles estejam presentes. Precisamos entender que o ancião, presbítero, bispo, padre ou pastor, nenhum deveria ter a obrigação de realizar esse tipo de celebração. Esses precisam valorizar o casamento e a família, orientando a todos para que vivem unidos no amor, na fidelidade, na correta criação dos filhos. Mas não podem ficar ocupando o tempo com coisas que Cristo não mandou fazer.

 

É claro que qualquer casal gostaria de celebrar esse dia com muita festa, que pode ser preparada com coisas tradicionais e com idéias novas como decorações, flores, música, banquete, etc. Todos têm o direito de celebrar as bodas de casamento onde quiserem e como puderem. Todavia, as igrejas não têm que se meter nisso. Abençoar os noivos nesse dia é o máximo que os cristãos devem fazer no sentido religioso. O resto como: templo enfeitado, vestido branco, véu, grinalda, alianças de ouro, testemunhas e outras coisas usadas nas igrejas não têm nenhuma importância cristã. Nada disso foi idéia de Jesus. A cerimônia religiosa de casamento das igrejas, na verdade, está carregada de elementos das culturas gregas e romanas.  Para os ricos, a cerimônia religiosa das igrejas é um show de ostentação fácil de ser carregado. Mas para muitos, é um fado pesado que carregam achando que estão agradando a Deus. E os líderes das igrejas, sufocados nessa tradição, não são capazes de dizer que tudo isso não tem nenhuma importância para o reino de Deus. O casamento verdadeiro não é a cerimônia na igreja, mas o dia-a-dia do casal, vivendo com base nos ensinos do Mestre.

 

 

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Descrição: Corações partidos. Data: junho/2013. Autor: Maralvestos. Licença CC BY-SA.

Muitos casamentos terminam porque foram realizados sem os verdadeiros princípios cristãos, embora tenham sido realizados dentro de uma igreja, numa cerimônia pomposa, com a presença de uma autoridade eclesiástica, onde a marcha nupcial tocou... Mas sem o amor ágape, sem a tolerância, sem o perdão, sem a paciência, sem a bondade, sem a solidariedade, resta o toque de uma canção triste, ou odienta, ou frustrante...

 

Quem quer realizar casamento religioso, que realize. Mas saiba que para Deus e para Jesus isso não importa. O que importa é a união verdadeira do casal, formando uma família dentro dos princípios do evangelho. Bom seria se todos fizessem como era no princípio, com a igreja nos lares, onde tudo era informal, longe das formalidades romanas e dos rituais judaicos.

 

A igreja precisa libertar as pessoas das tradições sem sentido e não trazer essas tradições para a igreja e incrementá-las com rituais estranhos ao evangelho verdadeiro. Os casamentos não podem acabar, mas as cerimônias tradicionais impostas pelas igrejas podem. O casamento civil é o bastante, e as bênçãos virão com as orações de todos, independentes de qualquer coisa.

 

Enquanto as pessoas se embriagam no velho vinho das tradições, o vinho novo é aquela água insípida, incolor, desprezada no canto. Mas aquela é a verdadeira água da vida que, num milagre, se torna o melhor vinho.

 

Autor: Maralvestos Tovesmar. Este texto (não o site inteiro) está disponível nos termos da licença CC BY-NC-ND. Pode ser copiado e distribuído, informando o autor e o link seguinte, mas não pode ser modificado e nem comercializado. Data: 2013. Veja outras mensagens em http://livresdosfardosreligiosos.blogspot.com.br