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Batismo (parte II)

Livres dos Fardos Religiosos

 

Continuação do post anterior.

 

O batismo era um ritual de passagem simples, rápido, descomplicado, sem formalidades. Mas muitos resolveram complicar. E ele deixou de ser um simples passar pelas águas como sinal de início de uma nova vida e se transformou num ritual carregado de elementos novos. Veja o que foi acrescentado a ele entre os séculos II e IV.

 

·       Batismo pelos mortos. Paulo diz que algumas pessoas eram batizadas em favor dos mortos de acordo com 1 Coríntios 15:29. [1] Márcion (95-165 d.C.) desenvolveu uma seita no século II, e esse tipo de batismo foi aceito por ele. [2] Ainda hoje encontramos pessoas praticando esse tipo de batismo. [3], [4] 

 

·       Jejum batismal. Sem data bem definida, talvez no início do segundo século, no Didaquê, um livro conhecido como a doutrina dos apóstolos, ficou decidido que, antes do batismo, o que batiza e o que é batizado precisam jejuar. [5] Esse costume foi mantido e foi citado por Hipólito de Roma, no século III: “Os que receberão o batismo jejuarão na véspera do sábado...” (Tradição Apostólica.) [6]

 

Sexta-feira

Sábado

Jejum

Batismo

 

·       Unção com óleo. Ainda segundo Hipólito, o bispo preparava dois óleos: o óleo de ação de graças e o óleo do exorcismo. Na hora do batismo, um diácono ficava à esquerda do presbítero com o óleo do exorcismo, e outro, à direita, com o óleo de ação de graças. Antes do batismo, o batizando era ungido com o óleo do exorcismo. Quando saia da água, era ungido com o óleo de ação de graças. [7], [8] Ainda hoje, há duas unções com óleo durante a cerimônia batismal no catolicismo.

 

Antes:

Batismo

Depois:

Unção com o óleo de exorcismo

Unção com o óleo de ação de graças

 

·       Exorcismo. Os batizandos passavam por rituais de exorcismos alguns dias antes do batismo e também alguns momentos antes dele. Hipólito, também em Tradição Apostólica, escreveu: “Sejam impostas as mãos diariamente sobre eles a partir do momento em que foram separados e sejam, ao mesmo tempo, exorcizados. Aproximando-se o dia do batismo, o bispo exorcizará cada um deles, para saber se é puro.” “...o bispo exorcizará todos os espíritos impuros, para que fujam e não retornem mais. Terminando o exorcismo, soprar-lhe-á em suas faces.” O sacerdote devia ordenar a cada um dos catecúmenos que renunciasse a Satanás. Os que renunciavam deviam ser ungidos com o óleo do exorcismo, consagrado pelo bispo. Observe o que Hipólito escreveu: “Tomará também outro óleo que exorcizará e será denominado de óleo de exorcismo. Então o diácono trará o óleo de exorcismo e ficará à esquerda do presbítero; outro diácono pegará o óleo de ação de graças e ficará à direita do presbítero. Acolhendo cada um dos que recebem o batismo, manda renunciar, dizendo: ‘Renuncia a ti, Satanás, a todo teu serviço e a todas as tuas obras.’ Terminada a renúncia de cada um, ungirá com o óleo de exorcismo, dizendo-lhe: ‘Afaste-se de ti todo espírito impuro.’” A prática desse ritual de exorcismo ainda se encontra em algumas igrejas. [9]

 

·       Água corrente. Hipólito disse: “Deve ser água corrente, na fonte ou caindo do alto, exceto em caso de necessidade; se a dificuldade persistir ou se tratar de caso de urgência, deve-se usar a água que encontrar.” (Tradição Apostólica.) [10]

 

 

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Descrição: Pequenas cachoeiras. Essa seria a fonte de água ideal para o batismo descrito por Hipólito. Data: 24 de maio de 2008. Autor: Danny Steaven. Fonte. Licença CC BY.

 

·       Crianças, homens e mulheres. Segundo Hipólito, no mesmo livro, as crianças tinham que ser batizadas primeiro, depois os homens e, por último, as mulheres. [11]

 

Crianças

Homens

Mulheres

 

·       Mulheres com cabelos soltos. As mulheres tinham que batizar com os cabelos soltos. [12]

 

·       Ausência de adornos e outros objetos estranhos. As mulheres não podiam estar com nenhum adorno de ouro ou prata. Ninguém podia descer às águas portando objetos estranhos. [13] 

 

·       Batizandos nus. Segundo Hipólito, os batizandos ficavam nus. “Os batizandos se despirão e serão batizados.” Depois do ritual de exorcismo, a pessoa era entregue nu ao bispo ou ao presbítero que estava na água batizando. Após o batismo, cada um deveria enxugar e vestir a roupa. [14] Imagine se essa tradição tivesse sido preservada. 

 

·       Vestes brancas. Mas o nudismo batismal não prevaleceu, e criaram vestes especiais para os batizandos. Geralmente eram túnicas brancas. Esse costume existia também em outras religiões como as religiões mistéricas. [15] Muitas vezes, as pessoas batizadas usavam roupas brancas alguns dias após o batismo. [16] É claro que a Bíblia fala de vestes brancas no sentido espiritual. Nenhum batizando do Novo Testamento é mostrado com roupas dessa natureza. Mas, por ser um símbolo de pureza, o costume de usar túnicas brancas no momento do batismo foi preservado em muitas igrejas.

 

 

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Descrição: Batismo.  Data: 1984. Autor: Jim Padgett. Fonte. Licença CC BY-SA.

 

 

·       Catecumenato. Decidiram também, por volta do século II e se intensificou depois do século III, que as pessoas precisavam passar por um período de preparação primeiro, chamado de catecumenato.  Hipólito de Roma registrou que esse período de preparação podia atingir até três anos.[17] Nos Atos dos Apóstolos, podemos ver que as pessoas eram batizadas assim que aceitavam o evangelho. Mas foi inventado esse período de preparação que ainda é comum em muitas igrejas.

 

·       Profissão de fé. Segundo Hipólito, aquele que batizava perguntava ao catecúmeno se ele cria no Pai, no Filho e no Espírito Santo, incluindo um resumo das crenças básicas relatadas no credo. [18] A profissão de fé virou um costume em diversas igrejas. Alguns têm várias perguntas referentes às doutrinas da denominação, exigindo que a pessoa a ser batizada concorde com uma série de dogmas como o pagamento de dízimo, por exemplo. A conversão, muitas vezes, fica em segundo plano. Quem ministra o rito batismal quer ver a pessoa se submetendo às doutrinas pregadas pela organização que está promovendo o batismo. Jesus não deixou nenhuma profissão de fé. A decisão de uma pessoa seguir a vida cristã já é a sua declaração de fé.

 

·       Imersão tripla. Naquela época, era comum batizar a pessoa imergindo-a na água três vezes. Segundo Hipólito, aquele que batizava perguntava ao catecúmeno se ele cria no Pai, no Filho e no Espírito Santo, mergulhando-o na água depois de cada resposta afirmativa. [19] Tertuliano, no século II, registrou: “Posto isto, estamos imersos três vezes, fazendo uma promessa um pouco mais amplo do que o Senhor nomeou no Evangelho” (De Corona, 3) [20] A obra Constituições Apostólicas também fala sobre isso. [21] Esse costume ainda existe em algumas igrejas como na Igreja Ortodoxa.

 

 

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Descrição: Imersão tripla. 1. Pai; 2. Filho; 3. Espírito Santo. Data: junho/2013. Autor: Maralvestos. Licença CC BY-SA.

 

 

·       Ingestão de água, leite e mel, além do pão e do vinho. Algumas pessoas, depois de batizadas, tomavam leite e mel. Hipólito declarou que, depois do batismo, os neobatizados recebiam o pão, a água, o leite com o mel e o vinho. Tertuliano confirma isso. (De Corona, 3.) [22] Dar leite e mel ao recém nascido fazia parte de um ritual romano pagão. [23] Esse costume também acabou.

 

·       Coroa de ramos. Em algumas igrejas, eles usavam coroas de ramos. [24] Outro costume que sumiu.

 

·        Ficar sem banho por uma semana depois do batismo. Tertuliano disse se referindo ao batismo: “... nós nos contemos do banho diário durante uma semana inteira.” (De Corona, 3.) [25] Esse costume estranho e cheio de misticismo felizmente foi abolido.  

 

·        Crisma (confirmação). O escritor e apologista Tertuliano disse: ”Depois do batismo de salvação, recebemos imediatamente o Santo Crisma, conforme os antigos costumes.” [26] E o bispo Cipriano de Cartago, no século III exprimiu: “Os batizados serão conduzidos aos Bispos, a fim de, por sua oração e imposição das mãos, receberem o Espírito Santo, e pelo selo do Senhor, serem perfeitos.” [27], [28] Hipólito também falou sobre isso. [29] Esse ritual então passou a ser chamado de sacramento da crisma ou confirmação. Esse costume ficou preservado em algumas igrejas.

 

·       Batistérios. Desde o século IV, a partir do imperador romano Constantino I, locais próprios para o batismo, conhecidos como batistérios, começaram a ser construídos. O batistério de São João em Toscana, na Itália, com suas portas de bronze, com decorações em alto-relevo, com teto revestido de mosaicos de artistas famosos, é um exemplo. [30] O batistério de Latrão em Roma é o mais antigo, construído no tempo de Constantino. [31]

 

 

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Descrição: Batistério de Florença, Itália. Data: 13 outubro de 2005.  Autor: Georges Jansoone. Fonte. Licença CC BY-SA.

 

·       Sinal da cruz. Tertuliano escreveu: "Em todas as nossas viagens e movimentos, em todas as nossas chegadas e saídas, ao nos calçarmos, no banho, à mesa, acendendo nossas velas, ao nos deitamos, ao nos sentarmos, seja o que for que nos ocupa, marcamos nossas frontes com o sinal da cruz".(De Corona, 3) [32] Então, é claro, o batismo não podia ficar de fora. Hipólito fala de um ritual com o sinal da cruz ainda na véspera do batismo: “Após marcá-los na fronte, nos ouvidos e narinas com o sinal da cruz, ele ordenará que se levantem.” (Tradição Apostólica.) [33] Por isso, em algumas igrejas, o sinal da cruz está presente na hora do batismo.

 

·       Mulher menstruada. Segundo Hipólito, se uma mulher estivesse menstruada, seria posta à parte e receberia o batismo outro dia. (Tradição Apostólica.) [34]

 

·       Padrinhos. Nessa época, também se tornou costume indicar padrinhos para acompanharem cada batizando. [35], [36], [37] As igrejas Católica, Ortodoxa, Anglicana e outras reformadas ainda preservam esse costume. Inventaram também a necessidade de um padrinho ou madrinha para o crismando.

 

·       Sal. Criaram também o costume de colocar sal nos lábios da batizando. Esse rito não é mais obrigatório para os católicos. [38]

 

·       Vela. Arrumaram também uma vela, que os pais da criança passaram a levar para casa como símbolo de Cristo, a luz do mundo. Esse costume existia também em outras religiões como as religiões mistéricas. [39]

 

·       Rito do Éfeta. É o rito onde o celebrante toca os ouvidos e a boca da criança. Esse rito também não é mais obrigatório. [40]


Há ainda muitas outras fórmulas a serem seguida no ritual do batismo, incluindo cânticos, orações, leituras, etc.

 

Como podemos ver, o simples e rápido ritual do batismo apresentado no Novo Testamento se transformara num ritual carregado de detalhes e formalidades, dificultando ainda mais a obra de evangelização. Toda essa carga litúrgica batismal se tornou mais um pesado fardo para a cristandade carregar.

 

Continuaremos no próximo post.

 

Autor: Maralvestos Tovesmar. Este texto (não o site inteiro) está disponível nos termos da licença CC BY-NC-ND. Pode ser copiado e distribuído, informando o autor e o link seguinte, mas não pode ser modificado e nem comercializado. Data: 2013. Veja outras mensagens em http://livresdosfardosreligiosos.blogspot.com.br