Liturgia do culto público (parte VII)

Continuação do post anterior.

 

Livres dos Fardos Religiosos.

 

Sabendo que muitas coisas não estavam nos trilhos, alguns homens da Igreja resolveram fazer uma revolução, mexendo nas doutrinas e na liturgia. O culto público, a missa, foi um dos alvos dos protestantes.

 

·      No século XVI, Martinho Lutero, Ulrico Zuínglio, João Calvino, Henrique VIII, Thomas Cranmer e John Knox promoveram a Reforma protestante. [1].

 

·       Na região da Alemanha, Lutero rejeitou a doutrina da transubstanciação, que diz que o pão e o vinho, após serem consagrados, por meio da oração, se transformam no próprio corpo e sangue de Jesus. No lugar, ele colocou a doutrina da consubstanciação, afirmando que Jesus apenas se torna presente nessas substâncias. [2]. Essa doutrina acabou preservando a idéia de adoração do pão consagrado. Todavia, ele deu maior importância ao sermão, acima da Eucaristia, gerando outro problema que será mostrado numa mensagem separada.

 

Consubstanciação

No pão e...

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...no vinho,

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...após a consagração, se tornam presentes:

a carne e o sangue de Cristo

Descrição: Consubstanciação. Data: maio/2013. Autor: Maralvestos. Licença CC BY-SA.

 

Ele fundou a Igreja Luterana e passou a celebrar a missa na linguagem do povo, deixando o latim de lado. (Até então, o latim era a língua oficial da cristandade). [3], [4]. E ela, a “missa luterana”, foi chamada de Serviço Divino. [5]. A sua reforma litúrgica não foi, todavia, tão significativa. Ele mesmo disse: “Nunca foi nossa intenção eliminar completamente o culto litúrgico a Deus, mas purificar o que já está em uso dos vínculos que o corrompem...” [6]. Os encontros simples, mas edificantes, nos moldes da igreja do primeiro século, esses não foram restaurados. O Templo, o púlpito, o pastor com roupas diferentes e uma série de outras coisas continuaram como elementos da liturgia luterana. Um culto luterano é mais ou menos assim:

 

 

·        Liturgia de abertura. Acolhida, cântico de entrada, saudação, confissão de pecados, Kyrie Eleison, Glória in excelsis (louvor) e oração do dia.

 

·        Liturgia da palavra. Leituras bíblicas (Lecionário), cânticos intermediários, sermão, confissão de fé, oração de intercessão, avisos, benção, envio e hino.

 

·        Liturgia da eucaristia. Preparo da mesa e ofertório, oração do ofertório, Oração Eucarística, Pai-Nosso, gesto da paz, fração, Cordeiro de Deus, comunhão e oração pós-comunhão.

 

·        Liturgia de despedida.  Avisos comunitários, benção, envio e hino. [7], [8].

 

 

·       No território da Suíça, João Calvino rejeitou as idéias de Lutero e Ulrico, afirmando que, na ceia, ocorria a presença de Jesus, não nos elementos, mas espiritualmente, uma idéia denominada de presença espiritual. Esse também não mudou muita coisa. Como Lutero e Ulrico, deu grande importância ao sermão, mantendo, todavia, o mesmo espírito litúrgico. [9].

 

Presença espiritual

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No pão e...

...Jesus Cristo se torna presente espiritualmente no momento da celebração da ceia.

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...no vinho...

Descrição: Presença espiritual. Data: maio/2013. Autor: Maralvestos. Licença CC BY-SA.

 

·       Ainda na Suíça, Ulrico Zuínglio considerou o pão e o vinho simplesmente como símbolos do corpo e sangue de Jesus, doutrina conhecida como memorialismo. Ele rejeitou a idéia de que Cristo está no pão e no vinho (consubstanciação) e também que o vinho e o pão se transformam no corpo e no sangue de Jesus (transubstanciação). [10]. A Eucaristia deixou de ser o centro do culto e passou a ser ministrada trimestralmente. Criou a mesa da comunhão no lugar da mesa do altar, e a ministração do pão e do vinho foi chamada de Ceia do Senhor ou Santa Ceia, assim como era chamada no princípio. [11]. Mas em termos de liturgia, ele trilhou o mesmo caminho de Lutero, dando ênfase ao sermão, mas mantendo um clima litúrgico longe dos encontros informais de confraternização da igreja primitiva do primeiro século. [12].

 

Memorialismo

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O pão...

...representa o corpo de Jesus que sofreu por causa do seu evangelho.

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O vinho...

...representa o sangue de Jesus que foi derramado também pelo mesmo motivo.

Descrição: Memorialismo. Data: maio/2013. Autor: Maralvestos. Licença CC BY-SA.

 

·       Na Inglaterra, a Igreja Anglicana, fundada pelo rei Henrique VIII e pelo arcebispo Thomas Cranmer, ficou dividida entre as diversas doutrinas sobre a Eucaristia. [13], [14]. Mas o clima litúrgico romano continuou. Inspirada nos velhos livros de liturgia, nas trilhas dos velhos ritos, Cranmer criou o seu próprio guia litúrgico, o Livro de Oração Comum. Esse foi reformado diversas vezes (1549, 1552, 1559, 1604, 1662, 1689, etc.). [15]. Mas mesmo assim, os anglicanos não conseguiram sair dos embaraços inventados pelos homens. Observe o quadro.

 

 

·        Ritos Iniciais. Acolhida. Saudação. Coleta pela Pureza. Gloria in Excelsis. Kyrie. Confissão. Absolvição. Coleta do Dia (oração).

 

·        Liturgia da Palavra. Leituras. Sermão. Profissão de Fé (Credo Niceno-Constantinopolitano). Oração dos Fiéis (Intercessões).

 

·        Liturgia da Eucaristia. Ofertório.  Saudação da Paz.  Oração Eucarística. Pai Nosso.  Fração do Pão.  Agnus Dei. Comunhão do Celebrante. Comunhão dos presentes. Coleta Pós Comunhão.

 

·        Ritos Finais. Glória in Excelsis. Bênção. Despedida. [16], [17].

 

 

·       Na Escócia, John Knox, fundou a Igreja Presbiteriana, seguindo as idéias de Calvino. [18]. Ele não quis seguir a liturgia do Livro de Oração Comum. Queria algo novo. Então criou um novo livro litúrgico: o Livro de Ordem Comum. [19].  Mas os emaranhados litúrgicos que Jesus não inventou, embora reformados, estavam lá. Veja, mais ou menos, como é um culto presbiteriano.

 

 

·        Ritos Iniciais. Acolhida. Soar dos sinos. Saudação Inicial. Prelúdio. Intróito. Canto de Entrada e Processional. Saudação Trinitária e Voto. Sentenças Bíblicas. Responso. Oração Introdutória. Penitência. Chamada à Penitência. Responso Kyrie Eleison. Confissão pública de pecados. Confissão individual silenciosa. Canto Penitencial. Absolvição. Canto de redenção Glória a Deus nas alturas. Avisos comunitários e Saudação aos visitantes.

 

·        Liturgia da Palavra. Oração do dia. Primeira Leitura. Leitura Responsiva. Responso – Gloria Patri. Sequência. Segunda Leitura. Aclamação do Evangelho (Coro). Leitura do Evangelho. Oração por iluminação. Sermão. Hino do Dia. Confissão de Fé Credo Niceno. Litania de Pentecostes.

 

·        Liturgia dos Sacramentos. Liturgia Eucarística. A Saudação da Paz. Convite à Ação de Graças. Ofertório, Preparação da Mesa e Processional dos Presbíteros. Consagração Diaconal das Ofertas. Convite à Mesa do Senhor. A Grande Oração de Ação de Graças. Diálogo e Sursum Corda. Prefácio. Eucarístico. Sanctus. Anamnese. A Instituição, a Fração do Pão e a Consagração do Cálice. A Epíclese. O Mistério da Fé. A Oração do Senhor (Pai Nosso). Doxologia Final e Amém. A Comunhão do Pão e do Cálice. Canto Eucarístico (Coro). Ação de Graças pela Comunhão.

 

·        Ritos Finais. Canto de Envio. Oração de Envio. A Bênção. Poslúdio e Recessional. [20].

 

 

·       Entre 1545-1563, no Concílio de Trento, a Igreja Católica, abalada com a Reforma protestante, resolveu fazer uma revisão de suas missas. As variantes litúrgicas foram quase todas abolidas. Um novo livro contendo as instruções sobre a celebração da missa foi criado para uniformizar o Rito Romano. Esse ficou conhecido como Missal Romano. [21], [22]. A missa, a partir de então, ficou conhecida como Missa Tridentina. Algumas características da missa tridentina são: os celebrantes de costa para o povo e o uso do latim. [23].


 

Nesse concílio, a doutrina da transubstanciação foi reforçada. (Seção XIII, 876, 877), [24].Também foram tomadas algumas decisões rígidas carregadas de misticismo e superstição como, por exemplo: “Se alguém negar que no Santíssimo Sacramento da Eucaristia está contido verdadeira, real e substancialmente o corpo e sangue juntamente com a alma e divindade de Nosso Senhor Jesus Cristo, e por conseguinte o Cristo todo, e disser que somente está nele como sinal, figura ou virtude — seja excomungado.” (Seção XIII, 883.) De 884 a 893, encontramos outras excomunhões sobre a Eucaristia. [25].

 

 

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Descrição: Missal Romano. Data da foto: 13 de setembro de 2009.  Autor da foto: JoJan. Fonte. Licença CC BY.

 

·      Em 1570, o Missal Romano foi publicado pelo papa Pio V. [26]. Depois ainda houve alguns ajustes durante o reinado dos papas Clemente VIII (1604), Urbano VIII (1634), Leão XIII (1884) e Pio X (1908). [27].

 

·      Ainda no século XVI, a adoração do Santíssimo Sacramento ganhou mais força. Em Milão, no norte da Itália, surgiu a Devoção das Quarenta Horas, quando as pessoas fazem orações contínuas durante 40 horas diante do Santíssimo Sacramento exposto. Os capuchinhos e os jesuítas propagaram essa devoção por outros lugares.  [28], [29].

 

·      Entre os século XVI e XVII, na Inglaterra, os puritanos era um grupo de pessoas insatisfeitas com a Igreja Anglicana, que demonstrava estar contaminada pelo catolicismo medieval. Então, alguns se separaram dela, enquanto outros permaneceram lutando por uma reforma. [30], [31]. Entre diversas contendas litúrgicas e seguindo as doutrinas de João Calvino, também mexeram nos cultos públicos, eliminando as vestes litúrgicas, os ornamentos e outras coisas. Eles supervalorizaram o sermão e inventaram uma longa oração pastoral depois dele, que durava mais de hora. Exigiam que tudo fosse feito conforme a Palavra de Deus. [32]. Mas o tom litúrgico que Jesus não mandou continuou o mesmo.

 

 

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Descrição: Oração puritana. Data: maio/2013. Autor: Maralvestos. Licença CC BY-SA.

 

·      Ainda no século XVI, o clérigo Robert Browne, um puritano separatista da Igreja Anglicana, fundou a Igreja Congregacional. Tanto essa Igreja como a idéia de sistema de governo congregacional se espalharam pelo mundo. [33], [34]. Apesar dessa novidade, a liturgia do culto público continuou. [35].

 

·      No século XVII, em Paris, na França, surgiu a prática da adoração perpétua do Santíssimo Sacramento, com a fundação de uma ordem religiosa com esse objetivo. [36], [37]. Essas devoções se alastraram nos séculos seguintes, aumentando a crença de que Jesus está presente na hóstia consagrada, dando à missa grande importância ao longo dos séculos. [38].

 

Como podemos ver, aconteceram algumas mudanças importantes, todavia, não foi uma volta ao evangelho original. As diversas igrejas protestantes continuaram com resquícios da liturgia romana.

 

Devemos respeitar o direito que cada um tem de seguir o seu caminho litúrgico de acordo com as suas crenças. Não podemos, jamais, perseguir ou discriminar nenhum católico, ortodoxo, anglicano ou protestante por causa dos seus cultos públicos. Mas não podemos deixar de esclarecer para as pessoas que Jesus não tem nada a ver com toda essa carga litúrgica colocada sobre a humanidade. Cada um tem o direito de carregar o que quiser, mas todos precisam saber que Jesus não impôs nada disso que muitos estão fazendo. E todos, tanto as pessoas, como as diversas igrejas institucionalizadas podem livremente mudar tudo isso.

 

Continuaremos no próximo post.

 

Autor: Maralvestos Tovesmar. Este texto (não o site inteiro) está disponível nos termos da licença CC BY-NC-ND. Pode ser copiado e distribuído, informando o autor e o link seguinte, mas não pode ser modificado e nem comercializado. Data: 2013. Veja outras mensagens em http://livresdosfardosreligiosos.blogspot.com.br