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Liturgia do culto público (parte V)

Continuação do post anterior.

 

Livres dos Fardos Religiosos.

 

Com o apoio do imperador romano, as missas ganharam muito brilho. E o culto com pão e vinho ficou bastante ornamentado. Mas a Igreja não se acomodou e foi inventando mais coisas, enquanto o evangelho original, lamentavelmente, foi ficando cada vez mais distante.

 

 

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Descrição: Pão e vinho da celebração litúrgica. Data: 10 de janeiro de 2010. Autor: Velopilger. Fonte e obra completa. Licença DP.

 

·       Entre os séculos IV e V, em diversas localidades, foram surgindo novas idéias com o objetivo de dar mais brilho às cerimônias. Dessa forma, a partir da idéia básica, surgiram diversas formas de celebrar o culto público.

 

·       Liturgia de São Tiago, também conhecida como Liturgia de Jerusalém. [1], [2]. Essa obra, de origem incerta, foi atribuída a Tiago Menor, irmão de Jesus. Mas nada prova que realmente ele preparou essa liturgia. Por isso, algumas pessoas consideram a sua autoria duvidosa. [3], [4], [5]. Enquanto alguns defendem dizendo que é uma obra do século I, a maioria das autoridades no assunto diz que é do século IV. O Credo de Nicéia, que é do século IV, por exemplo, se encontra nela. [6]. E o manuscrito mais antigo sobre ela é do século IX. [7].

 

·       Liturgia Clementina. Na obra Constituições Apostólicas, no livro VIII, encontramos a descrição de uma liturgia, incluindo a citação da Liturgia de Tiago. [8], [9], [10]. Clemente I foi um dos bispos de Roma na virada do século I e início do século II. [11]. Essa obra do século IV, denominada de Constituições Apostólicas, foi falsamente atribuída a ele. [12], [13].

 

·       Liturgia de São Marcos. [14], [15]. Essa, como a de Tiago e Clemente, também é de origem e data duvidosas. O único manuscrito existente sobre ela é provavelmente do século XII. [16]. A presença do Credo Niceno-Constantinopolitano, que é do século IV, demonstra que ela possa ser dessa época. [17]

 

·       Liturgia de São Cirilo. [18]. A liturgia de São Marcos, traduzida na língua copta, foi atribuída ao patriarca Cirilo de Alexandria. [19]. Dessa forma, a liturgia de Cirilo é a mesma, supostamente, atribuída a Marcos.

 

·       Liturgia de São Gregório, o Teólogo (patriarca Gregório de Nazianzo). [20].

 

·       Liturgia de São Basílio. [21]. O bispo, teólogo e Doutor da Igreja Basílio de Cesaréia fez uma reforma de alguma das liturgias existentes, criando uma nova liturgia. [22], [23], [24].

 

·       Liturgia de São João Crisóstomo. [25]. O teólogo João Crisóstomo, patriarca de Constantinopla, resumindo a liturgia de Basílio, também preparou a sua liturgia. Essa é usada quase todos os dias na Igreja Ortodoxa. [26].

 

·       Liturgia de Santo Ambrósio. Alguns afirmam que liturgia no Ocidente foi ordenada pelo bispo Ambrósio de Milão, Itália, e por outros escritores. [27], [28]. No livro “De Sacramentis”, atribuído a ele, se encontra detalhes da missa da época. Mas alguns acreditam que esse livro foi falsamente considerado como uma obra de sua autoria. [29]. De qualquer forma, o autor demonstra o mesmo misticismo da transubstanciação: “Mas este pão é pão antes das palavras sacramentais; depois de se dar a consagração, o pão muda-se na Carne de Cristo.” (De Sacramentis “Acerca dos Sacramentos”, Livro Quarto, IV, 14.) [30].

 

·       Liturgia de Addai e Mari. [31], [32]. Sem uma data bem definida, essa liturgia é tradicionalmente atribuída a Santo Addai, discípulo do apóstolo São Tomé, e a Mari, discípulo de São Addai, na Mesopotâmia. [33], [34].

 

·       Liturgia de são Germânio. [35]. Na Gália, atual França, desenvolveu-se uma liturgia própria, descrita por São Germano de Paris, no século VI. [36].

 

 

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Descrição: Liturgia de São Tiago. Data: 10 de janeiro de 2010. Autor: Velopilger. Obra completa e licença Domínio Público.

 

·       A partir do século IV, a liturgia romana, como as demais, começa sofrer modificações. Na Apologia de Justino, nas Tradições Apostólicas de Hipólito e na obra Constituições Apostólicas, supostamente de Clemente, como vimos anteriormente, temos a primitiva liturgia do rito romano. O Sacramentário Veronense ou Leonino, atribuído, indevidamente, ao papa Leão I (440-461) e o Sacramentário Gelasiano do papa Gelásio I (492-496) mostram as mudanças que ocorreram depois desse século. [37], [38], [39].

 

·       No fim do século IV ao início do século V, em toda a Igreja, quatro famílias litúrgicas ou quatro formas de celebrar uma missa estavam formadas. [40], [41]. Desde a segunda metade do século II, os bispos das diversas cidades próximas às principais regiões metropolitanas se reuniam em assembléias, conhecidas como concílios e sínodos. Essas assembléias eram dirigidas pelo bispo da metrópole regional. [42]. Dessa forma, os bispos das três principais metrópoles, Antioquia (Síria), Alexandria (Egito) e a cidade de Roma, ganharam autoridade sobre os demais bispos e foram, mais tarde, chamados de patriarcas. [43], [44] Em cada uma dessas três cidades e também na Galícia, atual França, se desenvolveu um rito litúrgico baseado nas liturgias anteriormente mencionadas.  A Galícia, mesmo não sendo sede de um patriarcado, mas pertencente ao patriarcado de Roma, desenvolveu um rito próprio, independente do Rito Romano. Durante a Idade Média, ao longo dos séculos, a missa foi ganhando novos elementos, e os quatro ritos principais deram origem a outros ritos parecidos, mas com algumas diferenças. Alguns já se encontram extintos. [45], [46], [47], [48]. Observe a lista dos mais conhecidos.

 

 

Ritos Litúrgicos Ocidentais ou Latinos

 

1.   O Rito Litúrgico Romano. [49]. Esse, o mais usado na Igreja Católica, deu origem aos seguintes ritos:

·       Rito de Aquiléia, na região italiana com o mesmo nome. [50].

·       Rito de Braga ou Bracarense, em Braga, Portugal. [51].

·       Rito de Sarum, nas Ilhas Britânicas. [52].

·       Rito de Durham, na cidade de Durham, Inglaterra. [53].

·       Rito do Santo Sepulcro ou Rito Carmelita, usado nas ordens religiosas Cônegos Regrantes de Santo Sepulcro, Hospitalários, Templários, Carmelitas e as outras ordens fundadas dentro do Patriarcado Latino de Jerusalém. [54]

 

2.   O Rito Litúrgico Galicano, na Gália, atual França. [55]. Esse deu origem aos ritos a seguir:

·       Rito Celta nas Ilhas Britânicas. [56].

·       Rito Africano do Norte na região de Cartago. [57].

·       Rito Mocárabe ou Hispânico na Península Ibérica. [58].

·       Rito Ambrosiano ou Milanês em Milão, no norte da Itália. [59].

 

Ritos Litúrgicos Orientais

 

3.   O Rito Litúrgico Alexandrino. [60]. Esse foi baseado nas Liturgias de Marcos e Cirilo de Alexandria. [61]. Desse surgiu os seguintes ritos:

·       Rito Copta, no Egito. [62].

·       Rito Etíope ou Abissínio, na Etiópia. [63].

 

4.   O Rito Litúrgico Antioquino. [64]. Esse foi criado seguindo as idéias das Liturgias de Tiago e Basílio. [65]. Deu origem aos seguintes ritos:

·       Rito Sírio ou Siríaco do leste ou Rito Caldeu ou Caldaíno. [66]. Esse, usado pelos nestorianos, recebeu influências da liturgia de Addai e Mari.[67].

·       Rito Sírio ou Siríaco do Oeste. [68].

·       Rito Malankara, no sul da índia. [69].

·       Rito Armênio, usado pela Igreja da Armênia. [70].

·       Rito Maronita, usado na Igreja Maronita. [71].

·       Rito Bizantino ou Constantinopolitano ou Grego, em Constantinopla, atual Istambul. Além das liturgias de Tiago e Basílio, recebeu o toque final de João Crisóstomo.[72]. Esse é o rito principal da Igreja Ortodoxa. [73].

 

 

No quadro mostrado, você pode observar as inúmeras formas de celebração da liturgia do culto público. É bom lembrar que todo esse emaranhado litúrgico não foi determinado por Jesus, embora o nome de Cristo esteja inserido por todos os lados.

 

Observe, no mapa, onde surgiram os principais ritos, que deram origem às diversas formas de celebração da liturgia do culto público (missa ou divina liturgia).

 

 

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Amarelo: ritos romanos; Rosa: ritos Galicanos; Azul claro: ritos alexandrinos; Vermelho: ritos antioquinos.

 

01. Rito de Aquiléia; 02. Rito de Braga ou Bracarense; 03. Rito de Sarum ; 04. Rito de Durham; 05. Rito do Santo Sepulcro ou Rito Carmelita; 06. Rito Galicano 07. Rito Celta; 08. Rito Africano do Norte; 09. Rito Mocárabe ou Hispânico; 10. Rito Ambrosiano ou Milanês. 11. Rito Alexandrino; 12. Rito Copta; 13. Rito Etíope ou Abissínio; 14. Rito Antioquino; 15. Rito Sírio ou Siríaco do leste ou Rito Caldeu ou Caldaíno; 16. Rito Sírio ou Siríaco do Oeste; 17. Rito Malankara; 18 Rito Armênio; 19. Rito Maronita; 20. Rito Bizantino ou Constantinopolitano ou Grego.

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Descrição: Mapa dos ritos litúrgicos. Data: maio/2013. Autor: Maralvestos. Licença CC BY-SA.

 

 

Na Igreja Ortodoxa, a missa é chamada de Divina Liturgia. [74]. Veja como ela é, de acordo com o rito bizantino, conforme a Liturgia de João Crisóstomo. As liturgias de outras igrejas orientais possuem outras variações.

 

 

Primeira Parte: Ritos Iniciais

 

1. Preparação do Sacerdote. Orações diante da Porta Santa; hinos penitenciais; oração diante do ícone de Cristo; oração diante do ícone da Maria, considerada a mãe de Deus; oração diante da Porta Santa novamente; paramentação (colocação da túnica, estola, cinto, punhos direito e esquerdo, hipogonátion e casula, cada um rezando uma oração própria); lavagem das mãos, também com uma oração própria.

 

2. A Proskomídia (Preparação dos Santos Dons).  O Cordeiro; o vinho e a água; as partículas de comemoração; oração do incenso; cobrindo os Santos Dons; oração da Proskomidia; Apólissis. Cada parte com uma oração própria e gestos simbólicos.

 

 Segunda Parte: Liturgia dos Catecúmenos

 

1.     Ritos Iniciais. Incensação; Salmo 51; orações diante do altar.

 

2.     Prelúdio.  Grande Súplica da Paz; Oração da Primeira Antífona; Primeira Antífona; Primeira Pequena Súplica; Oração da Segunda Antífona; Segunda Antífona; Segunda Pequena Súplica; Oração da Terceira Antífona; Terceira Antífona.

 

3.       Pequena Entrada.  Procissão com o Evangeliário; canto de entrada (Issodikon); Tropários; hino a Santa Mãe de Deus.

 

4.     Liturgia da Palavra. Oração do hino Trisagion; bênção da cátedra; Prokimenon; Epístola; Aleluia (Aclamação ao Evangelho); oração antes do Evangelho; Evangelho; Homilia.

 

5.     Preces por toda a Igreja. Grande e Insistente Súplica, 

 

 Terceira Parte: Liturgia dos Fiéis 

 

1.       Orações pelos Fiéis.  Primeira Súplica; Oração Coleta; Segunda Súplica; Oração Coleta.

2.       A Grande Entrada (Transladação das Oferendas).  Hino dos Querubins; Oração Preparatória do Sacerdote.

3.       Rito dos Santos Dons. Procissão; súplica; Oração Coleta.

4.       Abraço da Paz.  Convite à Paz,

5.       Símbolo da Fé (Credo Niceno-Constantinopolitano).

6.       Anáfora. (Oblação do Sacrifício). Diálogo de Introdução, 

7.       Ação de Graças. Prefácio; Hino Angélico; Narrativa da Ceia; Anamnesis; Epíclese.

8.       Preces de Intercessão pelos Santos. Comemoração especial à Santíssima Virgem; conclusão da Anáfora.

9.     Preparação para a Comunhão. Grande Súplica; Oração Coleta; Oração Dominical - O Pai-Nosso; oração sobre os fiéis; outra oração; Elevação, Fração do Pão.

10.   Ritos de Comunhão. Kinonikon (Canto da Comunhão); comunhão do sacerdote; comunhão dos fiéis; canto pós-comunhão; trasladação das Santas Espécies.

11.   Ação de Graças.  Pequena Súplica Exortativa; Oração de Ação de Graças,

12.   Ritos Finais. Oração fora do santuário; consumação das Santas Espécies; Bênção Final, Despedida.

13.   Distribuição do Antídoron.  [75], [76], [77], [78], [79]

 

 

Uma missa, de acordo com o rito romano, parece menos complexa, em relação à missa ortodoxa ou divina liturgia, mas também é bastante complexa. Veja como ela é celebrada.

 

 

·        Preparação. Primeiro o celebrante se veste com os paramentos (roupas litúrgicas). Coloca o amito, a alva, o cíngulo, a estola, a casula, etc., cada uma rezando uma oração própria. Cada época do ano tem as cores certas para a casula e a estola. Depois começa o culto conhecido como missa, dividido da seguinte maneira:

 

·        Ritos iniciais. As pessoas, de pé, saúdam a entrada do celebrante. Depois a missa inicia com o Sinal da Cruz; saudação; ato penitencial; Kyrie; Glória; oração do dia.

 

·        Liturgia da palavra. Leituras do Antigo e do Novo Testamento; aclamação ao evangelho; o evangelho; homilia (sermão); credo ou profissão de fé; oração dos fiéis.

 

·        Liturgia eucarística

 

·        Ofertório. Preparação do altar; entrada do pão e do vinho; recolhimento de ofertas; apresentação do pão e do vinho a Deus pelo sacerdote; lavagem das mãos; oração.

 

·        Prefácio. Texto do prefácio; ação de graças; sanctus.

 

·        Oração eucarística. Oração (cânon ou anáfora); Post Sanctus ou Vere Sanctus; Consagração; Anamnesia; Oblação; intercessões; Doxologia final.

 

·        Rito da comunhão. Pai-nosso; oração pela paz; Agnus Dei; comunhão; limpeza dos objetos utilizados; oração.

 

·        Ritos finais. Avisos; oração; benção final. [80], [81], [82].

 

 

·       No século VI, o papa Gregório I, conhecido como Gregório Magno, promoveu uma reforma mais completa e marcante da liturgia do rito romano que já vinha sofrendo modificações. [83], [84], [85], [86]. Ele estabeleceu intróitos, o Kyrie eleison, o Gloria in excelsis, as coletas, o tema da epístola e do Evangelho, as orações para as oblações, o prefácio comum e o cânon até o Agnus Dei, exatamente como é hoje. [87], [88]. A missa do tipo gregoriano sofreu poucas variações nos séculos seguintes, permanecendo praticamente a mesma coisa durante cerca de mil anos. [89]. Essas mudanças ficaram registradas no Sacramentário Gregoriano. [90].


Tudo isso deve ser respeitado. Ninguém pode impedir a realização dessas reuniões litúrgicas, que são um direito de todos. Qualquer um tem o direito de seguir tudo isso por livre e espontânea vontade. Mas ninguém pode negar, nem os fiéis e nem os dirigentes das igrejas, que tudo é uma tarefa muito complicada. Como podemos ver, toda essa estrutura complexa faz com que os cultos públicos sejam realmente um sacrifício. Mas nada disso foi criado por Jesus, além daquela simples ceia. Sendo assim, as pessoas também podem se libertar de tudo isso.

 

Continuaremos no próximo post.

 

Autor: Maralvestos Tovesmar. Este texto (não o site inteiro) está disponível nos termos da licença CC BY-NC-ND. Pode ser copiado e distribuído, informando o autor e o link seguinte, mas não pode ser modificado e nem comercializado. Data: 2013. Veja outras mensagens em http://livresdosfardosreligiosos.blogspot.com.br