Liturgia do culto público (parte IV)

Continuação do post anterior.

 

Livres dos Fardos Religiosos.

 

Nem Jesus e nem os apóstolos ensinaram aquelas crenças e práticas surgidas no século II, dizendo que o pão e o vinho, após serem consagrados, se transformam no corpo e no sangue do Mestre. Tampouco disseram que o corpo e o sangue de Jesus se tornam presentes nesses elementos. Também não disseram, em lugar algum, que apenas o bispo, na qualidade de sacerdote, poderia ministrar a ceia como se fosse um sacrifício para Deus. Tudo isso foi invenção dos chamados pais da Igreja do grupo conhecido como católicos, que não pararam por ai e adornaram o culto do pão e do vinho com muito mais coisas.

 

 

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Sem querer, de forma alguma, desrespeitar a liturgia do culto público, podemos afirmar que ela não foi criada por Jesus e nem pelos apóstolos, mas pelos denominados pais da Igreja do século II.

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Descrição: Liturgia. Data: maio/2013. Autor: Maralvestos. Licença CC BY-SA.

 

No século III, o pão e o vinho da Eucaristia já eram considerados coisas extremamente sagradas e, nessa época, surgiram algumas expressões litúrgicas conhecidas.

 

·        Em 215, o teólogo Hipólito de Roma, em sua obra “Tradição Apostólica”, ensinou um monte de formalidades, incluindo a Oração Eucarística com oferecimento do pão e do vinho (Ofertório), invocação do Espírito Santo (Epíclese) e uma oração conclusiva (Doxologia). Ensinou também o Sinal da Cruz, o uso da luz, expressões como: "o Senhor esteja convosco", "corações ao alto", etc. Tudo isso foi incluído na liturgia do culto. Ele também demonstrou misticismo e superstição em relação ao pão e ao vinho dizendo: “Todos devem se esforçar para não permitir que o infiel prove a eucaristia, nem um rato ou outro animal; deve-se cuidar para que dela não caia uma migalha e se perca, pois ela é o Corpo de Cristo que deve ser comido pelos fiéis e não pode ser negligenciado. Consagrado o cálice em nome de Deus, que recebestes como a imagem do Sangue de Cristo, não queirais derramá-lo.” [1]

 

·        Ainda no início desse século, o teólogo Tertuliano disse que sentia dores sempre que o vinho ou um pedaço de pão, acidentalmente, caiam no chão. (De Corona 3.), [2].

 

·        Nessa época, Orígenes também tinha essa crença. Para ele, nenhuma partícula do pão sagrado podia cair no chão. Ele disse: Desejo admoestar-vos com exemplos da vossa religião. Vós que estais acostumados a participar nos divinos mistérios, quando recebeis o corpo do Senhor, reverente e minuciosamente cuidais que nenhuma partícula caia ao chão e que nada do dom consagrado se perca. Porque vos considerais culpados, e com razão, se qualquer parte dele se perdesse por negligência. Mas se observais tal cuidado em guardar o seu corpo, e apropriadamente, como é que pensais que descuidar a Palavra de Deus seja um crime menos grave que descuidar o seu corpo?” (In Exodum, hom. 13,3.), [3], [4].

 

 

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Descrição: Nenhuma partícula do pão sagrado podia se perder. Data: maio/2013. Autor: Maralvestos. Licença CC BY-SA.

 

·        Também nesse século, Cipriano tratou a Eucaristia como um sacrifício. Na Epístola 62, falando sobre a Eucaristia, dentre diversos outros argumentos, ele disse: “Somente faz verdadeiramente as vezes de Cristo aquele sacerdote que imita aquilo que Cristo fez, oferecendo então um sacrifício verdadeiro e pleno na Igreja a Deus Pai se começa a oferecê-lo segundo o que vê ter sido oferecido pelo próprio Cristo.” [5], [6].

 

No Antigo Testamento, os judeus ofereciam pão para Deus. (Êxodo 25.30.) [7] Ofereciam também libações de vinho. (Levítico 23.13.) [8] Ofereciam ainda um cordeiro para um sacrifício a fim de apagar os seus pecados. (Levítico 5.) [9] Agora, depois de alguns séculos, a visão dos bispos havia mudado. O pão e o vinho, que eram apenas elementos para nos fazer recordar de Jesus Cristo, foram judaizados, se transformando em ofertas semelhantes às ofertas judaicas. Os judeus ofereciam cordeiro para tirar seus pecados. Jesus é o cordeiro de Deus que tira o pecado do mundo (João 1.36.) [10] Segundo a crença, como já foi dito, o pão e o vinho se transformavam literalmente no corpo e no sangue de Jesus na hora da consagração. Então, seguindo esse raciocínio, os dois elementos da ceia seriam uma oferta de sacrifício para Deus. Por causa disso, a mesa, onde o pão e o vinho eram colocados, passou a ser considerada como um altar, onde a vítima, Jesus, misticamente incorporado no pão, era oferecida para Deus. E a missa foi então considerada como um sacrifício. [11], [12].

 

·        Nessa mesma época, o bispo romano Sixto II (257-259) colocado na lista dos papas, foi o primeiro a determinar que a missa (Eucaristia) fosse celebrada sobre um altar. [13].

 

 

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Descrição: Altar barroco na igreja de São Cirilo, na região da Alsácia, no Baixo Reno, na França. Data: século XVIII. Data da foto: 2011. Autor da foto: Rh-67. Fonte. Licença CC BY-SA.

 

·        Ainda nesse século, o bispo romano Felix I (269-274) também colocado na lista dos papas, decretou que a missa devia ser celebrada nos túmulos dos mártires. Nos altares, passaram a ser colocadas relíquias daqueles que tinham sido martirizados. [14]. Além do culto do pão e do vinho, passaram a cultuar os defuntos também, dando início à antropolatria (culto de seres humanos considerados divinos).

 

·      No século IV, a liturgia do culto público recebeu alguns ingredientes que serviram para consagrá-la de vez. Eles tinham os sacerdotes, o pão, o vinho e o altar. Faltavam os templos. E eles surgiram.

 

·       Nesse século, como já vimos em outras mensagens, o imperador Constantino apoiou a igreja, assinando o Edito de Milão. [15]. Então Constantino mandou construir igrejas-templos semelhantes às basílicas, que eram edifícios públicos romanos, onde funcionavam os tribunais e se reuniam mercadores e banqueiros. [16]. Nesses templos, também foram construídos altares. [17]. Túmulos de alguns falecidos famosos que já eram reverenciados e velhos templos da antiga religião romana chamada mitraísmo foram transformados em edifícios religiosos com aparência de basílica. [18], [19], [20]. (Tudo isso foi explicado com detalhes, na mensagem sobre templos.) [21].

 

·       Ainda no século IV, solenidades usadas no tratamento das autoridades romanas foram usadas para cultuar a Deus. As simples reuniões informais dos cristãos nos lares viraram cultos públicos nos templos, carregados de normas e cerimônias, onde a ceia de Jesus, embaraçada na liturgia dos cultos judaicos, se misturou com as formalidades da cultura romana dos palácios. [22].

 

Por que as missas e os cultos estão carregados de fórmulas e cerimônias que nem sequer são encontradas na liturgia judaica? Onde tiraram tudo isso? Da corte romana.

 

 

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Desc.: Pintura de um altar. Observe como a pompa e as formalidades afastaram as pessoas da realidade das encontros cristãos primitivos. Autor: David Stangel. Data: 1644. Reprodução: Wolfgang Sauber. Data: 04/11/2011. Obra completa... Licença CC BY-SA.

 

Entre as autoridades romanas, tudo era cheio de regras e cerimônias. Como sempre acontece nas convenções sociais, havia um monte de formalidades que tinham que ser cumpridas nas diversas situações. Veja alguns exemplos de elementos das cerimônias romanas, que foram introduzidos na missa.

 

·       Quando um imperador romano aparecia em público, uma procissão com luzes e um recipiente com incenso o acompanhava. Essa cena foi copiada. Da mesma forma, quando o clero entrava em cena, pessoas com velas acesas e incenso o acompanhavam. [23].

 

·       Os oficiais romanos tinham suas roupas especiais. O clero também passou a vestir roupas diferentes inspiradas nas roupas das autoridades romanas. [24].

 

·       Os mesmos gestos de respeito aos oficiais romanos foram atribuídos aos membros do clero. [25]. Quando um oficial romano se aproximava, as pessoas o recebiam de pé e assim ficavam em sinal de reverencia até que ele se assentasse em sua cadeira. Esse mesmo costume foi adotado. No templo, a congregação ficava de pé, aguardando a entrada e o assento do padre. [26]  Esse costume ainda pode ser visto por ai.

 

·       O Kyrie, aquela canção de louvor no inicio da missa, também foi inspirado da cerimônia da corte romana. [27].

 

·       As duas velas sobre o altar também têm a mesma origem. [28].

 

 

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Descrição: As vela do altar. Data: maio/2013. Autor: Maralvestos. Licença CC BY-SA.

 

·       Ainda no século IV, tornou-se uma obrigação assistir às missas nos domingos e dias santos. Esse costume acabou virando um dos mandamentos da Igreja. [29]. Uma obrigação que Jesus e os apóstolos jamais impuseram aos cristãos.

 

·       Ainda no século IV, os teólogos reforçaram as crenças místicas sobre o pão e o vinho, valorizando ainda mais a missa, que já era um culto público bastante requintado. O patriarca Cirilo de Jerusalém, por exemplo, registrou: "Estamos completamente persuadidos de que o que parece pão, embora seja pão pelo gosto, é o Corpo de Cristo; e aquilo que parece vinho, não é vinho, embora o gosto seja de vinho, mas é o Sangue de Cristo" (Catech. myst., xxii, 9, cf. id., iv, 6). [30].

 

·        Também nesse século, aconteceu o Concílio de Laodicéia, onde a Festa do Ágape foi proibida de ser realizada nos templos. (Cânone 28.) [31]. Entre os séculos VI e VIII ela sumiu completamente da Igreja. [32]

 

·        Ainda nessa ocasião, o culto, onde era celebrada a Eucaristia, que havia recebido diversas denominações, foi chamado de missa pelo o bispo Ambrósio de Milão. A partir de então, essa denominação se tornou a mais usada. [33].

 

Século I.

A ceia é celebrada nas reuniões de confraternização, nas casas dos primeiros cristãos, tudo na informalidade e com muita descontração.

Século II.

A ceia vira Eucaristia e passa a ser celebrada no domingo, pela manhã, carregada de misticismo e certas formalidades.

Século III.

Ela passa a ser vista como um sacrifício, e os bispos, como sacerdotes e, por isso, o pão e o vinho passam ser consagrados num altar.

Século IV.

Essa nova celebração no domingo é levada para os templos e ganha uma nova roupagem retirada das cerimônias da corte romana. As festas do ágape foram proibidas, e o novo culto, agora chamado de missa, transforma-se num mandamento imposto pela Igreja.

Descrição: Resumo da história da liturgia do culto público até o século IV. Data: maio/2013. Autor: Maralvestos. Licença CC BY-SA.

 

E foi assim que aquela ceia deixou de ser um momento de confraternização familiar com dois elementos que deveriam apenas nos recordar de Cristo. Agora se transformara num momento místico, romanizado, judaizado, baseado em interpretações literais das frases ditas por Jesus, com figuras de linguagem, onde ele declarou que o pão era o seu corpo, e o vinho era o seu sangue. (Mateus 26.26-28, Marcos 14.22-24, Lucas 22.19-20.) [34] Não entenderam que Jesus nos libertou dos templos e dos rituais do Antigo Testamento e que ele mesmo, simbolicamente falando, é o sumo sacerdote, o pão, o vinho e o cordeiro. Ele é tudo. E tudo isso não é oferta nossa para Deus, mas uma oferta de Deus para nós. “Deus, que fez o mundo e tudo o que nele existe, é o Senhor do céu e da terra e não mora em templos feitos por seres humanos. E também não precisa que façam nada por ele, pois é ele mesmo quem dá a todos vida, respiração e tudo mais.” (Atos 17.24-25, NTLH.) [35] Hoje não precisamos de rituais com ofertas e sacrifícios. Muitos dizem que a missa surgiu com Jesus naquela ceia com os seus discípulos. Ali, na verdade, foi feito apenas uma refeição fraterna, mas aquela ceia foi desviada, ornada, deturpada, desfigurada, e não tem mais o seu verdadeiro sentido original.

 

Continuaremos no próximo post.

 

Autor: Maralvestos Tovesmar. Este texto (não o site inteiro) está disponível nos termos da licença CC BY-NC-ND. Pode ser copiado e distribuído, informando o autor e o link seguinte, mas não pode ser modificado e nem comercializado. Data: 2013. Veja outras mensagens em http://livresdosfardosreligiosos.blogspot.com.br