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Liturgia do culto público (parte II)

Continuação do post anterior.

 

Livres dos Fardos Religiosos.

 

Continuando com a história da liturgia do culto público, vamos ver o que os seguidores de Jesus fizeram após a sua morte. Será que eles celebravam missas. Será que havia cultos como os cultos protestantes, evangélicos e neopentecostais da atualidade? Tinham correntes e campanhas para quebra de maldições, descarrego, busca de prosperidade, etc.?

 

·      Depois da morte de Jesus, que realmente foi inevitável, seus apóstolos fundaram diversas igrejas que se reuniam basicamente nos lares. (Atos 2.1-2; 2.46; 5.42; 12.11-12; 20.5-8; 20.20; Romanos 16.3-5; 1 Coríntios 16.19; Colossenses 4.15; Filemon 1:1-2.) [1] Eram pequenos núcleos de confraternização, onde havia:

 

 

·       Leitura das cartas apostólicas. (1 Timóteo 4:13, 1 Tessalonicenses 5:27, Colossenses 4:16.) [2]

·       Oração. (Atos 12.12.) [3]

·       Ensinos e exortações. (Atos 5.42; Colossenses 3.16a.) [4]

·       Salmos, hinos e canções espirituais. (Colossenses 3.16b, Efésios 5.19.) [5]

·       Recolhimento de ajuda para os pobres. (1 Coríntios 16:2.) [6]

·       Refeições. (Atos 2. 46.) [7]

·       Nessas refeições, havia o pão e o vinho, símbolos do corpo e do sangue de Jesus. (Atos 20.7; Coríntios 10:16-21.) [8]

 

 

Mas esses encontros, nos lares, não eram reuniões cheias de formalidades como os cultos das igrejas modernas. Em pequenos grupos, viviam uns pelos outros sem nenhum culto solene, compartilhando a vida cristã, tudo de maneira informal. Suas reuniões eram simples e contavam com a participação de todos. Não eram ambientes litúrgicos, onde as pessoas ficavam passivas, ouvindo um pregador ensinando, exortando, animando e realizando rituais o tempo inteiro, como acontece nas missas e nos cultos protestantes e evangélicos. Paulo deu diversos conselhos para que sempre houvesse um ambiente fraterno e participativo. Eles tinham a liberdade para instruírem (ensinarem), aconselharem (admoestarem) uns aos outros. Também podiam animar uns aos outros com salmos, hinos e canções espirituais. Observe as palavras dele:

 

·       “Portanto, meus irmãos, o que é que deve ser feito? Quando vocês se reúnem na igreja, um irmão tem um hino para cantar; outro, alguma coisa para ensinar; outro, uma revelação de Deus; outro, uma mensagem em línguas estranhas; e ainda outro, a interpretação dessa mensagem. Que tudo seja feito para o crescimento espiritual da igreja.” (1 Coríntios 14:26, NTLH.) [9]   

·       “Ensinem e instruam uns aos outros com toda a sabedoria. Cantem salmos, hinos e canções espirituais; louvem a Deus, com gratidão no coração.” (Colossenses 3.16b, NTLH.) [10]

·       “Animem uns aos outros com salmos, hinos e canções espirituais. Cantem, de todo o coração, hinos e salmos ao Senhor.” (Efésios 5:19, NTLH.) [11]

·        “Portanto, animem e ajudem uns aos outros, como vocês têm feito até agora.” (1 Tessalonicenses 5:11, NTLH.) [12]

·       “Pedimos a vocês, irmãos, que aconselhem com firmeza os preguiçosos, dêem coragem aos tímidos, ajudem os fracos na fé e tenham paciência com todos. Tomem cuidado para que ninguém pague o mal com o mal. Pelo contrário, procurem em todas as ocasiões fazer o bem uns aos outros e também aos que não são irmãos na fé.” (1 Tessalonicenses 5:14-15, NTLH.) [13]

 

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Desc.: A igreja numa casa. Data: 1984. Autor: Jim Padgett. Fonte. Licença CC BY-SA.

 

Como podemos ver, as suas reuniões não eram cultos cansativos, monótonos e formais. Não havia fórmulas litúrgicas para a celebração de um culto público, não tinham objetos sagrados, sacerdotes, roupas especiais, datas específicas, elementos simbólicos e rituais diversos. Eles apenas se preocupavam em viver aquilo que Jesus havia ensinado: amor ao próximo, a solidariedade, a bondade, o perdão, a fé, a comunhão... Era um novo estilo de vida, totalmente livre das velhas tradições. Não era um culto dirigido por um pastor ou padre, mas uma reunião dirigida pelo Espírito Santo de Deus.

 

 

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Descrição: Núcleo de confraternização. Data: maio/2013. Autor: Maralvestos. Licença CC BY-SA.

 

Como já foi dito noutra mensagem, os apóstolos escolheram algumas pessoas idosas e idôneas para ajudá-los a resolver as questões difíceis da igreja. [14], [15], [16]. Por causa da idade, elas eram chamadas de presbíteros, do grego presbyteros. Esse termo significa mais velhos. Por isso eram também chamadas de anciões.[17]. Eles também ajudavam os apóstolos a supervisionarem as igrejas. Por isso eles foram chamados também de bispos, do grego apískopos, significando supervisores. [18]. Eles não dominavam as igrejas locais, não eram figuras mais importantes das reuniões e não realizavam nenhuma liturgia como se fossem sacerdotes. Você não encontra, no Novo Testamento, nenhuma reunião dirigida por um pastor ou padre na qualidade de sacerdote. Eles, não apenas um, como já vimos em outra mensagem, estavam ali, não para fazer longos sermões ou dominar o povo, mas para supervisionar o bom funcionamento de todo esse processo mútuo. Eles foram também tratados como pastores. Eles observam o funcionamento das igrejas, procurando evitar o que não era devido, assim como os pastores observam as ovelhas impedindo que elas se desviem ou sofram ataques de feras. [19]. Por isso Paulo disse para os presbíteros de Éfeso:

 

“Cuidem de vocês mesmos e de todo o rebanho que o Espírito Santo entregou aos seus cuidados, como pastores da Igreja de Deus, que ele comprou por meio do sangue do seu próprio Filho. Pois eu sei que, depois que eu for, aparecerão lobos ferozes no meio de vocês e eles não terão pena do rebanho. E chegará o tempo em que alguns de vocês contarão mentiras, procurando levar os irmãos para o seu lado. Portanto, fiquem vigiando e lembrem que durante três anos, de dia e de noite, eu, chorando, não parei de ensinar cada um de vocês.” (Atos 20.28-31, NTLH.) [20]

 

Na igreja primitiva do Novo Testamento,

não havia um pastor sobre o povo dirigindo a liturgia de um culto público.

 

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Havia diversos presbíteros entre o povo, e todos, juntamente com eles, participavam das reuniões de confraternização.

 

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Descrição: Os encontros de confraternização da igreja primitiva. Data: maio/2013. Autor: Maralvestos. Licença CC BY-SA.

 

Você deve estar pensando que tudo isso que foi dito sobre os primeiros cristãos é pura utopia e que nada disso é possível. Na verdade, dentro do sistema atual, carregado de etiquetas religiosas, essas coisas realmente não podem ser feitas. Nos encontros realizados nos templos, cheios de formalidades, e com centenas de pessoas juntas, tudo se torna difícil. Mas eles se encontravam em pequenos grupos, nos lares, sem cerimônias. Hoje muitas pessoas acham que a vida cristã se resume na liturgia do culto público. Fora dos cultos, a maioria das pessoas não consegue ensinar, aconselhar ou animar ninguém. E se alguém consegue ensinar e, principalmente, exortar, então a maioria fica com raiva. Sabe por quê?  Por que as pessoas não são mais humildes. Por causa do orgulho, acham que um conselho ou uma exortação é uma afronta. A maioria gosta é de gente que apenas elogia, exalta, promete bênçãos. Mas o orgulho não está apenas do lado de quem ouve conselhos e exortações. Muitas vezes, quem exorta e aconselha também está carregado de soberba e acaba fazendo tudo com grosserias e humilhações. Então, as pessoas estão precisando de humildade para ensinar, aconselhar e exortar e para ser ensinado, aconselhado e exortado por qualquer um.

 

 

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Descrição: Exortação e orgulho. Data: maio/2013. Autor: Maralvestos. Licença CC BY-SA.

 

É muito bom seguir esse conselho de Paulo:

 

·     “Meus irmãos, se alguém for apanhado em alguma falta, vocês que são espirituais devem ajudar essa pessoa a se corrigir. Mas façam isso com humildade e tenham cuidado para que vocês não sejam tentados também.” (Gálatas 6:1, NTLH.) [21]

·       “Sejam sempre humildes, bem educados e pacientes, suportando uns aos outros com amor.” (Efésios 4:2, NTLH.) [22]

·       “Vocês são o povo de Deus. Ele os amou e os escolheu para serem dele. Portanto, vistam-se de misericórdia, de bondade, de humildade, de delicadeza e de paciência.” (Colossenses 3:12, NTLH.) [23]

·       ”Sejam obedientes uns aos outros, pelo respeito que têm por Cristo.” (Efésios 5:21, NTLH.) [24]

 

 

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Descrição: Exortar, aconselhar, admoestar, corrigir e ensinar uns aos outros. Data: março/2013. Autor: Maralvestos. Licença CC BY-SA.

 

Resumindo: Tudo isso é possível nos encontros nos lares, em pequenos grupos, sem formalidades, onde todos, com humildade, ao invés de ficarem falando o que não devem, procurarem seguir esses conselhos. Essa é a congregação ou reunião, despida de toda liturgia judaica, que as pessoas não deviam abandonar segundo Hebreus 10.25, mas que infelizmente a igreja abandonou. [25]

 

Como já esclarecemos em outra mensagem, algumas dessas reuniões eram as Festas do Amor ou Festas do Ágape, onde havia refeições de confraternização, imitando aquela ceia que Jesus realizara com os seus discípulos.[26], [27]. Isso acontecia à noite, no início do primeiro dia da semana. (Atos 20:7.) [28], [29]. Para os judeus, o dia começava no pôr-do-sol. [30]. Então, o início do primeiro dia da semana, o domingo, na verdade, era à tarde de sábado. Então, para ficar mais claro, o Ágape acontecia no sábado, depois do pôr-do-sol. Nas casas, eles oravam e faziam refeições juntos. Era uma ceia ou jantar. Entre os alimentos, estavam o pão e certamente o vinho, indicados por Jesus para servirem de recordação dele. (Atos 2.42, 46 e 12.11-12.) [31]

 

 

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Desc.: Festa do Ágape. Data: 1984. Autor: Jim Padgett. Fonte. Licença CC BY-SA.

 

Mas nem tudo era fores. Essa participação mútua às vezes virava uma confusão, onde uns falavam ao mesmo tempo que os outros. Por isso, Paulo deu alguns conselhos para os coríntios, que tinham reuniões confusas. Veja o que ele disse: “Se algum de vocês falar em línguas estranhas, então que apenas dois ou três falem, um depois do outro, e que alguém interprete o que está sendo dito. Mas, se não houver ninguém que possa interpretar, então fiquem calados e falem somente consigo mesmos e com Deus. No caso de dois ou três receberem a mensagem de Deus, estes devem falar, e os outros que pensem bem no que eles estão dizendo. Se uma outra pessoa que estiver ali sentada receber a mensagem de Deus, quem estiver falando deve se calar. Vocês todos podem anunciar a mensagem de Deus, um de cada vez, para que todos aprendam e fiquem animados. Quem fala deve controlar o dom de anunciar a mensagem de Deus, pois Deus não quer que nós vivamos em desordem e sim em paz.” (1 Coríntios 14.27-33a, NTLH.) [32]

 

 

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Desc.: Um encontro da igreja primitiva no lar. Data: 1984. Autor: Jim Padgett. Fonte. Licença CC BY-SA.

 

Os coríntios, bagunçados como sempre, tiveram que ser repreendidos para que houvesse ordem durante as refeições de confraternização, nas Festas do Ágape. A ceia que eles tomavam, nessas festas, era uma profanação do evangelho, que fala de união, amor, cuidado com o pobre...  Mas entre eles, havia brigas. Os mais abastados comiam sem esperar os outros. Alguns ficavam bêbados. E os pobres eram envergonhados. Estavam fora dos princípios do evangelho de Jesus. Suas festas estavam virando festas mundanas, perdendo as características cristãs. (1 Coríntios 11.17-34.) [33] A ceia não era para ser um momento carregado de liturgia, mas precisava ter ordem, educação, respeito. Afinal era uma refeição de irmãos em Cristo, onde havia o pão e o vinho como recordação da obra de Jesus. Judas, o provável irmão de Jesus, fala sobre pessoas falsas infiltradas nessas festas, pervertendo o evangelho. (Judas 1.3-16.) [34] Por isso, Paulo disse mais para os coríntios: “Mas, agora, vos escrevo que não vos associeis com alguém que, dizendo-se irmão, for impuro, ou avarento, ou idólatra, ou maldizente, ou beberrão, ou roubador; com esse tal, nem ainda comais.” (1 Coríntios 5:11, RA.) [35] “Portanto, quer comais, quer bebais ou façais outra coisa qualquer, fazei tudo para a glória de Deus.” (1 Coríntios 10:31, RA.) [36] Paulo não estabeleceu regras litúrgicas. Apenas deu algumas sugestões para que as participações diversas não fossem tudo ao mesmo tempo e para que as refeições fossem feitas com ordem e respeito, evitando aquelas coisas inconvenientes para os cristãos.

 

Se era assim, então por que tudo hoje é diferente? Onde surgiu o que muitas igrejas estão vivendo hoje, em 2013?

 

Continuaremos no próximo post.

 

Autor: Maralvestos Tovesmar. Este texto (não o site inteiro) está disponível nos termos da licença CC BY-NC-ND. Pode ser copiado e distribuído, informando o autor e o link seguinte, mas não pode ser modificado e nem comercializado. Data: 2013. Veja outras mensagens em http://livresdosfardosreligiosos.blogspot.com.br