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Templos (parte IX)

Continuação do post anterior.

 

Livres dos Fardos Religiosos.

 

Se Jesus não mandou ninguém construir nenhum templo e se os primeiros cristãos não tinham esse tipo de construção, então por que eles surgiram? Por que existem tantas igrejas-templos por todos os cantos do mundo se aquela onda revolucionária cristã se desenvolveu nos primeiros séculos sem nenhum santuário. Por que a cristandade, que deveria ser diferente das diversas religiões antigas, acabou construindo edifícios sagrados como elas? Vamos ver como isso aconteceu.

 

Entre os séculos II e III, os cristãos começaram a venerar os seus irmãos mortos, uma prática muito comum em muitas religiões antigas. Ossos e objetos pessoais dos mortos começaram a ser guardados como relíquias, virando objetos sagrados. Os túmulos dos mártires eram considerados locais sagrados. [1], [2] Nessa mesma época, o pão e o vinho da ceia passaram a ser tratados como elementos místicos dignos de veneração, virando uma espécie de sacrifício. [3] Por causa disso, os bispos passaram a ser tratados como sacerdotes. [4] Só faltavam os templos, que não demoraram surgir.

 

 

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Descrição: Ossos de alguns mortos eram guardados como relíquias. Data: abril/2013. Autor: Maralvestos. Licença CC BY-SA.

 

Antes do cristianismo, a religião predominante no Império Romano, ultrapassando as suas fronteiras, nos primeiros séculos, era o mitraísmo. [5], [6] No final do século III, essa religião era encontrada desde as ilhas britânicas até o oeste da China. [7], [8] Nessa religião, as pessoas frequentavam templos sombrios chamados de Mitraeum (Mithraeum ou mitreu). Esses templos ficavam sob o solo, em cavernas ou debaixo dos edifícios. [9], [10] Em Roma, havia centenas de templos dedicados ao deus Mitra. Em todo o Império e além das suas fronteiras, muitos outros foram construídos. [11]

 

 

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Descrição: Mithraeum no andar mais baixo da Basílica de São Clemente, em Roma.  Data da foto: 21/06/2011. Autor: Ice Boy Tell. Fonte. Licença CC BY-SA.

 

No início do século IV, no ano 313, como já foi dito noutras mensagens, o imperador romano Constantino deu liberdade ao cristianismo, proclamando o Edito de Milão. [12]. Imitando o antigo mitraísmo, ele ordenou construir no bairro nobre de Roma, conhecido como Vaticanus, um templo, onde mais tarde, sobre os mesmos alicerces, foi construída a Basílica de São Pedro.[13]. Segundo algumas pessoas, nesse mesmo lugar, antes havia um templo de Mitra. [14]. A partir dessa época, muitos templos dedicados a Mitras foram transformados em criptas de igrejas cristãs, como, por exemplo, a Basílica de São Clemente em Roma. [15], [16]. Em vários locais, onde havia templos mitraicos, igrejas foram construídas como a Catedral de São Paulo em Londres e a Catedral de Canterbury. [17]. O mitraísmo se acabou, mas a idéia de se reunir em templos com características mitraicas continuou. Templos sombrios com altar, imagens e decorações religiosas continuaram sendo construídos dentro da religião cristã.

 

Também, influenciado pela sua mãe, a imperatriz Helena, em Jerusalém, Constantino mandou edificar a Basílica do Santo Sepulcro (destruída em 1009) e a Basílica da Natividade em Belém. [18], [19], [20]. Enfim, ele construiu nove igrejas em Roma e muitas outras em diversos outros lugares. [21].

 

 

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Descrição: Basílica de São Clemente em Roma, que fica acima de um Mithraeum do segundo século. Data da foto: outubro/2008. Autor: MarkusMark Fonte e licença DP.

 

Construir santuários em cima de tumbas era um costume pagão que afetou a cabeça dos cristãos daquela época. [22]. Por isso, muitas outras igrejas foram construídas em cima de antigas tumbas, que já eram consideradas como locais sagrados, onde jaziam corpos de santos venerados por muitos. As supostas tumbas de são Pedro, são Paulo e de Jesus foram alguns desses locais. [23]. De acordo com a tradição, onde foi construída a Basílica de São Pedro seria o local do seu sepultamento. [24], [25], [26].

 

Constantino também deu o Palácio de Latrão de presente ao papa Melquíades, que foi transformado na Igreja de São João de Latrão. [27]

 

 

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Descrição: Igreja do Santo Sepulcro em Jerusalém. Data da foto: 08 de agosto de 2008. Autor: Utilisater: Djampa.  Fonte. Licença CC BY-SA.

 

Os templos idealizados por Constantino tinham também características semelhantes às basílicas romanas. [28] Basílicas eram prédios públicos, onde funcionavam os tribunais e se reuniam mercadores, banqueiros, etc. [29], [30] Não é por acaso que algumas igrejas são chamadas de basílicas. Como eram os prédios dos magistrados e oficiais romanos, assim eram as igrejas: com uma plataforma alta, acessada por uma escadaria de vários degraus. Ali em cima, os padres ministravam os seus rituais. Havia um altar, uma mesa ou arca coberta por uma tampa. No altar, ficavam as relíquias referentes aos mortos venerados, o cálice e o pão da Eucaristia. Separando o povo do clero, havia uma grade. Em frente ao altar, havia uma cadeira para o bispo, conhecida como cátedra. Essa cadeira era um trono e era a maior e mais elegante dentro do edifício. Era uma cópia da cadeira do juiz da basílica romana. Por isso, o bispo, ao falar daquele lugar, era considerada uma autoridade eclesiástica digna de respeito. Anciões e diáconos se assentavam dos lados. [31], [32] Ainda hoje, em muitas igrejas, a cadeira do padre, do pastor ou bispo costuma ser maior. As catedrais de hoje é o templo, onde se encontra o trono (ou cátedra) do bispo da diocese. [33]

 

 

 

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Descrição: Interior da Basílica de são Clemente em Roma, Itália. Data: construída no século IV. Destruída pelos normandos no século XI e reconstruída logo em seguida.  Reprodução: Sixtus. Data: Março/2006. Fonte. Licença CC BY-SA.  

 

As pompas e as cerimônias, muitos comuns no corte imperial de Constantino, foram trazidas para o templo. Os clérigos deixaram de lado as suas roupas simples e passaram a usar roupas especiais como os oficiais romanos. [34] Gestos de respeito prestados aos oficiais romanos foram também copiados para serem usados diante do clero. [35]  A entrada do clero no templo tornou-se um momento de muitas formalidades como era na corte imperial. Quando os magistrados romanos, com seus trajes especiais, entravam na sala da Corte, os presentes se colocavam de pé e cantavam. Da mesma forma, adotou-se esse costume na igreja. Quando o clérigo entrava vestido como um magistrado romano no templo, acompanhado por uma procissão iluminada por velas, as pessoas ficavam de pé, cantavam e aguardavam ele se assentar primeiro em seu trono para então se assentarem também. [36] Esse costume ainda está enraizado em muitas igrejas. Daquele trono (cátedra) e mais tarde do púlpito, os líderes da igreja falavam e falam ao povo, num gesto de superioridade e grandeza. [37] De lá de cima, eles tentam lavar os nossos pés, mas não permitem que o povo de baixo lave os seus. Afinal eles se consideram infalíveis. Muitas coisas retiradas do velho mitraísmo, do moiseísmo (lei de Moisés) e dos palácios de Roma serviram para desfigurar o verdadeiro evangelho. Foi o fim de um cristianismo simples, feito de pessoas comuns. Apesar, quem sabe, das boas intenções de Constantino, a principal ala da igreja encontrou o caminho do “sucesso” e do fracasso. Essas mazelas contaminaram os homens de Deus, e eles viraram homens de Roma. E essas coisas ainda estão encravadas em nossas comunidades cristãs e estão escravizando muita gente dentro de um cristianismo de meras formalidades.

 

 

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Descrição: Uma cadeira de bispo. Data: 23 de maio de 2009. Autor: Hans A. Rosbach. Fonte. Licença CC BY-SA.

 

Na antiga religião romana, havia a crença em vários deuses. [38] Como no Egito, na Grécia e em muitos outros lugares, entre os romanos, cada deus tinha seus templos. [39], [40], [41] De forma semelhante, a igreja passou a cultuar os seus mortos, que acabaram virando, para muitos, uma espécie de semideuses. E para cada um foi construído um templo. Por causa dessa herança herdada das tradições pagãs antigas, temos igrejas desse e daquele santo por toda parte.

 

E foi assim que surgiram os templos do cristianismo. Eles viraram uma tradição extremamente enraizada na cabeça das pessoas. E continuaram sendo construídos por todos os lados com toda sofisticação possível

 

Continuaremos no próximo post.

 

Autor: Maralvestos Tovesmar. Este texto (não o site inteiro) está disponível nos termos da licença CC BY-NC-ND. Pode ser copiado e distribuído, informando o autor e o link seguinte, mas não pode ser modificado e nem comercializado. Data: 2013. Veja outras mensagens em http://livresdosfardosreligiosos.blogspot.com.br