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Sacerdote (parte II)

Continuação do post anterior

 

Livres dos Fardos Religiosos

 

Vimos, anteriormente, que todos nós somos sacerdotes juntamente com Jesus, independentes de quaisquer atos mágicos. Trata-se de um sacerdócio espiritual diferente de qualquer obra sacerdotal desse mundo. Mas será que a cristandade se contentou com isso? Infelizmente não. Vamos ver o que aconteceu.

 

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Descrição: Refeição entre os primeiros cristãos. Data: 1984. Autor: Jim Padgett. Fonte. Licença CC BY-SA.

 

·      No primeiro século, os anciões (também chamados de bispos ou presbíteros) eram apenas uma comissão de idosos com a capacidade de poder ajudar as igrejas nas questões difíceis. [1] Os cristãos, juntos, nas casas, se reuniam, celebravam a festa do Ágape, incluindo o pão e o vinho indicados por Jesus como memoriais de sua morte por causa do seu evangelho. [2] (Atos 2:42; 2.46; 20.7.) [3]

 

·      No início do século II, o pão e o vinho da ceia deixaram de ser simples memoriais do corpo e do sangue de Jesus e foram considerados como o próprio corpo e o sangue de Jesus. A interpretação literal das palavras de Jesus fez com que a ceia fosse visto como um ato mágico realizado pelo bispo, fazendo o pão e o vinho se transformarem na carne e no sangue de Jesus, refazendo, dessa forma, o sacrifício de Jesus. Então, o bispo começou a ganhar destaque e começou a ser tratado como sacerdote. E a ceia começou a ser mistificada e virou uma espécie de sacrifício com o nome de Eucaristia. [4] O patriarca Inácio, em Antioquia, na região da Síria, disse que “o bispo preside no lugar de Deus.” (Epístola aos Magnésios 6.1) [5] Numa outra epístola, supostamente dele, disse para não fazer nada sem os bispos, que são sacerdotes. (Epístolas espúrias de Santo Inácio de Antioquia, capítulo 3.) [6] E mais: "... a Eucaristia é a carne de Nosso Salvador Jesus Cristo, a que padeceu por nossos pecados, e que o Pai, em sua bondade, ressuscitou." [7] (Epístola aos Esmirnenses, capítulo 7.)

 

·      Ainda nesse século, o filósofo e teólogo Justino, em Roma, ensinou o seguinte se referindo ao pão e ao vinho da santa ceia: “De fato, não tomamos essas coisas como pão comum ou bebida ordinária, mas da maneira como Jesus Cristo, nosso Salvador, feito carne por força do Verbo de Deus, teve carne e sangue por nossa salvação, assim nos ensinou que, por virtude da oração ao Verbo que procede de Deus, o alimento sobre o qual foi dita a ação de graças - alimento com o qual, por transformação, se nutrem nosso sangue e nossa carne - é a carne e o sangue daquele mesmo Jesus encarnado. Foi isso que os Apóstolos nas Memórias por eles escritas, que se chamam Evangelhos, nos transmitiram que assim foi mandado a eles, quando Jesus, tomando o pão e dando graças, disse: ‘Fazei isto em memória de mim, este é o meu corpo.’ E igualmente, tomando o cálice e dando graças, disse: ‘Este é o meu sangue’, e só participou isso a eles.” – (Justino, I Apologia, Cap. 66.) [8] Para ele, a consagração do pão e do vinho que, segundo a crença, os transformavam no corpo e no sangue de Jesus era um sacrifício agradável a Deus. “Assim são os sacrifícios oferecidos a Ele, em todo lugar, por nós os gentios, que são o pão da Eucaristia e igualmente a taça da Eucaristia, que Ele falou naquele tempo; e Ele diz que nós glorificamos Seu nome, enquanto vocês O profanam." (Diálogo com Trifão, 41.) [9] "Deus tem, portanto, anunciado que todos os sacrifícios oferecidos em Seu Nome, por Jesus Cristo, que está na Eucaristia do Pão e do Cálice, que são oferecidos por nós cristãos em toda parte do mundo, são agradáveis a Ele." (Diálogo com Trifão, Cap. 117) [10], [11]

 

·      Ainda no século II, o bispo Irineu, em Lyon, na região da França, ensinava que o vinho e o pão se transformavam no sangue e no corpo de Jesus. "Assim então, se a taça misturada e o pão fabricado recebem a Palavra de Deus e tornam-se Eucaristia, que é dizer, o Sangue e Corpo de Cristo...” (Cinco Livros. Desmascarando e Refutando a Falsidade) [12] Ele também considerou a Eucaristia (Santa Ceia) como um sacrifício (oblação). (Fragmentos dos Escritos Perdidos de Irineu de Lyon, 37.) [13] Se a ceia (a Eucaristia) era um sacrifício (oblação) então o bispo que devia celebrá-la passou a ser considerado como um sacerdote. Afinal, nas outras religiões, incluindo a religião dos judeus, quem oferecia sacrifícios era o sacerdote.

 

·      Entre o final do século II e o início do século III, o apologista e teólogo Tertuliano, em Cartago, no Norte da África, chamou o bispo de sumo sacerdote acima dos presbíteros e diáconos. (No Batismo 17.) [14] Ele escreveu se referindo ao bispo como um sacerdote mediador entre Deus e as pessoas: “Durante a morte e o sepultamento de um fiel, este fora beneficiado com a oração do sacerdote da Igreja”. (De anima 51; PR) [15], [16]

 

·      No início do século III, o bispo Hipólito, em Roma, também tratou o bispo como um sacerdote. Na oração de consagração dos bispos ele disse: “Pai, que conheces os corações, permita a este teu servo que escolheste para o episcopado, apascentar o teu rebanho santo, desempenhando o primado do sacerdócio de forma irrepreensível perante ti, servindo-te noite e dia. Concede-lhe tornar propícia a tua imagem, incessantemente, oferecendo os sacrifícios da tua Santa Igreja e, com um espírito de superior sacerdócio, possuir o dom de perdoar os pecados conforme a tua ordem, distribuir os cargos [eclesiásticos] segundo o teu preceito, desatar quaisquer laços conforme o poder que deste aos apóstolos e ser do teu agrado, pela mansidão e pureza de coração, para que te ofereça um perfume agradável, por teu Filho, Jesus Cristo, pelo qual te damos glória, poder e honra, ao Pai, ao Filho e com o Espírito Santo na Santa Igreja, agora e pelos séculos dos séculos. Amém". Na sequência, ele fala do sacrifício com pão e vinho. (Tradição Apostólica. Grifo meu.) [17] Como vimos, no Antigo Testamento, o sumo sacerdote oferecia sacrifícios e buscava o perdão dos pecados das pessoas. Agora o bispo, como superior sacerdote, na visão de Hipólito, devia oferecer os sacrifícios da Igreja, usando pão e vinho, e devia também buscar o perdão dos pecados das pessoas.

 

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Desc.: Liturgia. Data: julho/2012. Autor: Maralvestos. Licença CC BY-SA.

 

 

·      Ainda no século III, o bispo Cipriano, também em Cartago, buscou práticas do Velho Testamento, incluindo sacerdotes, altares e sacrifícios. Ele também chamava o bispo de sacerdote. [18] Ele disse ainda: "Exorto-vos, irmãos caríssimos, que cada um de vós confesse o seu pecado, enquanto o pecador viver ainda neste mundo, ou seja, enquanto sua confissão puder ser aceita, enquanto a satisfação e o perdão outorgados pelos sacerdotes puderem ser agradáveis a Deus" (De Lapsi 28; Epistolae 16,2.) [19] "O padre que imita o que Cristo fez, verdadeiramente toma o lugar de Cristo, e oferece lá na Igreja um sacrifício perfeito e verdadeiro ao Deus e Pai." (Para os Efésios.) [20]

 

Assim nasceram os sacramentos da Eucaristia e da Reconciliação ou Penitência, conhecido também como confissão, e o cargo e o título de sacerdote. Juntamente com a Eucaristia surgiu também a missa.

 

A partir dessa época, contrariando o evangelho original, a idéia de considerar o bispo como um sacerdote se tornou comum nas diversas literaturas cristãs. O sacrifício da missa usando pão e vinho e a ministração do perdão dos pecados fizeram do bispo um sacerdote eclesiástico, uma figura de grande respeito, como os sacerdotes das diversas religiões antigas, tornando-se algo de grande importância para a cristandade. Os bispos e os presbíteros deixaram de ser apenas supervisores no meio do povo tendo Cristo como o único mediador e se transformaram em novos mediadores, acima do povo.

 

·      No século IV, um documento dizia: “O Bispo, eis o ministro da Palavra, o guardião do conhecimento, o mediador entre Deus e você em várias partes de sua adoração divina… Ele é seu soberano e governante… Ele está em segundo lugar depois de Deus, seu deus terreal, que tem o direito de ser honrado por tua pessoa.” (Constituições Apostólicas, Livro II, XXVI.) [21]

 

Como podemos ver, nessa época, o sacerdócio já era algo extremamente sublime. Como já vimos noutra mensagem, foi criado um corpo sacerdotal extenso, formando uma grande hierarquia de sacerdotes, distanciando Deus e Jesus das pessoas, deixando os cristãos dependentes de um monte de coisas que Jesus não mandou. [22] Além de voltar à prática do antigo sacerdócio, ainda complicaram mais, aumentando os degraus hierárquicos.

 

PAI (DEUS)

 

Jesus Cristo

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Papa

Arcebispos

Bispos

Presbíteros

Diáconos

Demais cristãos

 

Descrição: O sacerdócio extenso da Igreja. Data: abril/2013. Autor: Maralvestos. Licença CC BY-SA.

·      No IV Concílio de Latrão, em 1215, foi decidido que todo cristão deve confessar a um sacerdote pelo menos uma vez por ano. (Cânone 21.) [23]

 

·      No século XVI, no Concílio de Trento, ficou decidido: “O sacrifício e o sacerdócio de tal modo estão unidos por determinação de Deus, que tanto um como outro se encontram em cada lei. Como, pois, no Novo Testamento, a Igreja Católica recebeu, por instituição do Senhor, o santo e visível sacrifício da Eucaristia, devemos também confessar que nele há um novo sacerdócio visível e exterior [cân. l], para o qual o antigo se transferiu (Heb 7, 12 ss). Este sacerdócio, como mostram as Sagradas Escrituras, como ensinou sempre a Tradição da Igreja Católica, foi instituído por nosso Salvador [cân. 3], o qual deu aos Apóstolos e seus sucessores no sacerdócio o poder de consagrar, de oferecer e de ministrar o seu Corpo e Sangue, bem como de perdoar e reter os pecados [cân. l].” (Concílio Ecumênico de Trento, Sessão XXIII, 957.) [24] E mais: “Se alguém disser que no Novo Testamento não há sacerdócio visível e externo, ou que não há poder algum de consagrar e oferecer o verdadeiro Corpo e Sangue do Senhor, bem como de perdoar e reter os pecados, mas há apenas um simples ministério de pregar o Evangelho, ou que aqueles que não pregam não são absolutamente sacerdotes – seja excomungado.” (Concílio Ecumênico de Trento, Sessão XXIII, 961, cânone 1.) [25]

 

Continuaremos no próximo post.

 

Autor: Maralvestos Tovesmar. Este texto (não o site inteiro) está disponível nos termos da licença CC BY-NC-ND. Pode ser copiado e distribuído, informando o autor e o link seguinte, mas não pode ser modificado e nem comercializado. Data: 2013. Veja outras mensagens em http://livresdosfardosreligiosos.blogspot.com.br



[18] Cristianismo Pagão. Frank A. Viola, pp. 70 e 71.

[25] Ibidem