Refeições religiosas (Eucaristia, Ceia do Senhor, parte I)

Livres dos Fardos Religiosos

 

Vamos falar um pouco sobre diversas refeições religiosas, procurando dar um destaque para a Eucaristia ou Ceia do Senhor. Há muitas curiosidades interessantes sobre isso. Vamos mostrar um pouco para você entender o verdadeiro sentido da ceia celebrada por Jesus.

 

O líder dos hebreus, conhecido como Moisés, deixou escrito para o seu povo: “Todos os anos, juntem uma décima parte de todas as colheitas e levem até o lugar que o SENHOR, nosso Deus, tiver escolhido para nele ser adorado. Ali, na presença do SENHOR, nosso Deus, comam aquela décima parte dos cereais, do vinho e do azeite e também a primeira cria das vacas e das ovelhas. Façam isso para aprender a temer a Deus para sempre. Mas, se o lugar de adoração ficar muito longe, e for impossível levar até lá a décima parte das colheitas com que Deus os abençoou, então façam isto: vendam aquela parte das colheitas, levem o dinheiro até o lugar de adoração que o SENHOR tiver escolhido e ali comprem tudo o que quiserem comer: carne de vaca ou de carneiro, vinho, cerveja ou qualquer outra coisa que desejarem. E ali, na presença do SENHOR, nosso Deus, vocês e as suas famílias comam essas coisas e se divirtam à vontade.” (Deuteronômio 14.22-26, NTLH.) [1].

 

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Desc.: Agradecendo a Deus pelo alimento. Data: 1984. Autor: Jim Padgett. Fonte. Licença CC BY-SA.

 

Não vamos falar sobre o dízimo agora, mas apenas para lembrar, ele era usado para sustentar a tribo dos levitas, que fora separada para realizar a obra de Deus no tabernáculo e, posteriormente, no templo. (Números 18.21-24.) [2]. Os levitas tiravam dez por cento de tudo que recebiam do povo e davam para os sacerdotes. Era o dízimo dos dízimos. (Números 18.25-32.) [3]. De três em três anos, o dízimo era recolhido para alimentar, além dos levitas, peregrinos, órfãos e viúvas. (Deuteronômio 14.27-29; 26.12.) [4]. Vamos falar disso com mais detalhes em outra mensagem própria. Agora, porém, queremos mostrar que o dízimo era destinado também a uma festa anual com carnes e bebidas. É interessante como muitas igrejas praticam o dízimo indevidamente hoje, seguindo apenas o que interessam. Essa festa anual, por exemplo, até hoje não vi ninguém praticar.  A festa anual do dizimista, onde havia uma farta refeição religiosa, não interessa aos cobradores do dízimo moderno.  

 

Refeição religiosa é qualquer ingestão de alimentos dentro do contexto religioso, como essa que mostramos no livro do Deuteronômio.

 

Esse tipo de refeição é encontrado em diversas religiões, desde os tempos mais antigos. Geralmente eram festas de confraternização, de caráter familiar. Jesus adotou essa idéia, como veremos a seguir.

 

Banquetes religiosos familiares. Banquetes familiares de caráter religioso sempre foram muito comuns.

 

·       A Caristia. No dia 22 de fevereiro, todos os anos, os romanos realizavam a festa da Caristia, que era uma ceia (jantar) realizada nas casas. Além dos comes e bebes, também havia oferecimento de comida e incenso aos Lares, os deuses domésticos romanos. Era também uma festa de confraternização. [5].

 

·       As festas familiares semitas. Desde a Antiguidade, os povos semitas tinham o costume de realizar uma festa em família, onde todos comiam juntos. Cada família de agricultores comemorava a festa de primícias, onde as pessoas comiam pão sem fermento e grãos de trigo torrado, enquanto cada família de pastores festejava imolando o primogênito de seus rebanhos. [6].

 

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Desc.: Ceia. Data: Julho/2012. Autor: Maralvestos. Licença CC BY-SA.

 

·       A Páscoa dos israelitas. Quando os hebreus (israelitas ou judeus) saíram do Egito, na última noite, eles comeram carne de cabrito ou carneiro com pão sem fermento e ervas amargas, de acordo com as orientações de Moisés. Foi uma refeição religiosa. Para se lembrarem desse dia em que eles foram libertos do Egito, eles sempre comemoraram a Páscoa com uma ceia, em suas casas, de acordo com as ordens dadas por Moisés. (Êxodo 12.), [7], [8]. As casas do povo hebreu geralmente tinham um cenáculo (sala de jantar na nossa linguagem) onde eles ceavam reunidos em família e faziam reuniões religiosas. (Atos 1.12-14, 20.7-8), [9], [10]. A Páscoa era um jantar comemorativo e especial, com algumas características das antigas festas semíticas. Era realizada da seguinte forma:

 

1.     O chefe de família abençoava o vinho e servia o primeiro cálice dele para todos.

2.     Depois ele lavava as mãos em uma bacia com água e enxugavam-nas numa toalha.

3.     Na sequencia, oferecia ervas amargas para todos comerem.

4.     Depois era servido o segundo cálice de vinho.

5.     Na continuação, recitavam a primeira parte do Halel (Salmos 112 e 114.) [11].

6.     Logo depois, todos lavavam as mãos.

7.     Em seguida, era servido pão sem fermento com ervas amargas molhadas em um molho.

8.     Depois era oferecido o terceiro cálice com vinho.

9.     Finalmente era servido o quarto cálice.

10. Por último, era cantada a segunda parte do Halel (Salmos 114-118), [12], [13], [14], [15].

 

·       A ceia de Jesus. Jesus não reprovou o costume de realizar refeições familiares de confraternização. Ele, formando uma família espiritual com os seus discípulos, na noite da Páscoa, aproveitou para promover uma ceia com novos significados, lembrando a libertação do pecado e das velhas crenças religiosas, sendo uma nova aliança, um novo testamento, uma nova família, uma nova comemoração. (Mateus 26.17-30; Marcos 14.12-26; Lucas 22.7-20; 1 Coríntios 11.23-34.) [16].

 

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Desc.: Cena de uma reunião da igreja primitiva. Data: 1984. Autor: Jim Padgett. Fonte. Licença CC BY-SA.

 

·       O Ágape. Depois da morte de Jesus, seus discípulos se reuniam nos lares, onde viviam uns pelos outros, sem nenhum culto solene.  Algumas dessas reuniões eram as Festas do Amor ou Festa do Ágape, que eram refeições de confraternização, imitando aquela ceia que Jesus realizara com os seus discípulos. Entre os alimentos, estavam o pão e certamente o vinho, indicados por Jesus para servirem de recordação dele. (Atos 2.42, 46; 12.11-12.), [17], [18], [19]. A comemoração com esses dois elementos dentro da Festa do Ágape era chamada de Ceia do Senhor, Mesa do Senhor, Corpo do Senhor, Fração do Pão e Partir do Pão. [20], [21]. Não ingeriam um simples pedacinho de pão e um dedal de vinho e nem tinham certas regras cerimoniais. Era uma ceia ou jantar, refeição festiva de verdade. Porém, esses elementos, sempre presentes, serviam para lembrá-los de Jesus. Também era recolhida ajuda para os pobres. (1 Coríntios 16:2.) [22]. Em Atos 2.46 diz que eles partiam o pão e participavam das refeições com alegria e humildade. [23].

 

Essa festa familiar tinha características da festa da Páscoa judaica e da festa da Caristia romana. Ma essas eram anuais, enquanto o Ágape era semanal. Ela acontecia à noite, no início do primeiro dia da semana. (Atos 20:7), [24], [25]. Para os judeus, o dia começava no pôr-do-sol. [26]. Então, o início do primeiro dia da semana, o domingo, na verdade, era à tarde de sábado. Então, para ficar mais claro, o Ágape acontecia todos os sábados, depois do pôr-do-sol.

 

·       A Eucaristia.  Mas nem tudo era fores nas Festas do Ágape. Os coríntios, bagunçados como sempre, tiveram que ser repreendidos para que houvesse ordem nessas refeições. A ceia que eles tomavam era uma profanação do evangelho, que fala de união, amor, cuidado com o pobre...  Mas entre eles, havia brigas. Os mais abastados comiam sem esperar os outros. Alguns ficavam bêbados. E os pobres eram envergonhados. Estavam fora dos princípios do evangelho de Jesus. (I Coríntios 11.17-34.) [27]. Judas, o provável irmão de Jesus, fala sobre pessoas falsas infiltradas nessas festas, pervertendo o evangelho. (Judas 1.3-16.) [28]. A ceia precisava ter ordem, educação, respeito. Afinal era uma refeição de irmãos em Cristo, onde havia o pão e o vinho como recordação da obra de Jesus.

 

A partir do século II, vários religiosos influentes, dentre eles, o patriarca Inácio de Antioquia, o filósofo e teólogo Justino e o bispo Irineu de Lyon, começaram a mistificar os elementos da ceia. Para eles, o pão e o vinho, depois de consagrados, literalmente, se transformavam no corpo e no sangue de Jesus (transubstanciação) ou, segundo o entendimento de alguns, o corpo e o sangue de Jesus se tornavam presentes junto ao pão e ao vinho (consubstanciação). [29], [30], [31].

 

Jesus dissera que o pão é o seu corpo, e o vinho, o seu sangue. Ele dissera ser o pão vivo descido do céu e quem come dele ganha a vida eterna. O pão que ele se referira era a sua carne. Dissera ainda que quem não come a sua carne e não bebe o seu sangue não terá vida. Mas quem come a sua carne e bebe o seu sangue terá a vida eterna, será ressuscitado no último dia e permanecerá nele. Falara ainda que a sua carne verdadeiramente é comida, e que o seu sangue verdadeiramente é bebida. (Marcos 14.22-24; João 6:50-58.) [32]. Essas palavras ditas no sentido figurado foram interpretadas literalmente. Dessa forma, comer a carne e beber o sangue de Jesus seria, segundo o entendimento deles, comer o pão e beber o vinho transformados no corpo e no sangue de Jesus.

 

Ainda no século II, diante de todas essas crenças e diante das confusões do Ágape, alguns bispos e teólogos imaginaram que o pão e o vinho precisavam de uma reunião solene, ministrada pelo bispo. Então houve a separação do pão e do vinho das Festas do Ágape. [33], [34]. A celebração com pão e vinho passou a ser realizada na manhã de domingo e passou a ser chamada, dentre outros nomes, de Eucaristia, que em grego significa ação de graças. [35].  E a Festa do Ágape, agora sem a Eucaristia, permanecia à noite de sábado, que para eles era o início do primeiro dia da semana. A igreja considerou a Eucaristia como o Santíssimo Sacramento, e a sua distribuição como Santa Comunhão. [36], [37], [38], [39].

 

Mais tarde, a Eucaristia deixou de ser semanal e passou a ser praticada diariamente. O bispo Cipriano de Cartago, no século III, comparou a Eucaristia com o pão nosso de cada dia do “Pai Nosso” dizendo: "Posto que Cristo disse que aquele que comer deste pão viveria eternamente, é evidente que possuem a vida quem toca o corpo de Cristo e recebem a Eucaristia. Temamos, pois, comprometer nossa saúde se nos separarmos do corpo de Cristo. Assim, pois, pedimos o pão de cada dia, quer dizer, a Eucaristia diária, como prenda cotidiana de nossa perseverança na vida de Cristo." (S. Cipriano, Da oração dominical, 18), [40], [41].

 

·       A Ceia do Senhor ou Santa Ceia. No século XVI, Martinho Lutero, João Calvino, dentre outros, promoveram a Reforma protestante. [42]. Lutero rejeitou a doutrina da transubstanciação que diz que o pão e o vinho, após serem consagrados por meio de oração, se transformam no próprio corpo e sangue de Jesus. No lugar, ele colocou a doutrina da consubstanciação, afirmando que Jesus apenas se torna presente nessas substâncias. [43]. Em 1519, na Suíça, Ulrico Zuínglio considerou o pão e o vinho simplesmente como símbolos do corpo e sangue de Jesus, doutrina conhecida como memorialismo. Ele rejeitou a idéia de que Cristo está no pão e no vinho (consubstanciação) e também que o vinho e o pão se transformam no corpo e no sangue de Jesus (transubstanciação). [44]. Criou a mesa da comunhão no lugar da mesa do altar, e a ministração do pão e do vinho foi chamada de Ceia do Senhor ou Santa Ceia como na igreja primitiva do século I. [45].

 

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Descrição: A última Ceia. Data: século XIX. Autor: Gustave Doré. Fonte e licença DP.

 

Mateus, Marcos, Lucas e Paulo falam sobre a última ceia de Jesus com os seus discípulos. (Mateus 26.17-30; Marcos 14.12-26: Lucas 22.7-20; 1 Co 11.23-34.) [46]. Do três evangelistas, apenas Lucas registrou a frase de Jesus: “Fazei isso em memória de mim.” depois que ele partiu o pão e deu aos seus discípulos. (Lucas 22:19, RC.) Paulo registrou mais detalhes dizendo: “Porque eu recebi do Senhor o que também vos entreguei: que o Senhor Jesus, na noite em que foi traído, tomou o pão; e, tendo dado graças, o partiu e disse: Isto é o meu corpo, que é dado por vós; fazei isto em memória de mim. Por semelhante modo, depois de haver ceado, tomou também o cálice, dizendo: Este cálice é a nova aliança no meu sangue; fazei isto, todas as vezes que o beberdes, em memória de mim. (I Coríntios 11.23-25, RA. Grifo meu) [47].

 

Por causa da frase: “Fazei isso” a Igreja, como vimos, acabou criando o ritual da ceia que virou o ritual da Eucaristia com algumas influências pagãs. Será que realmente Jesus mandou praticar esse ritual com pão e vinho? Vamos pensar melhor! Fazer o que em memória dele? Pegar o pão, dar graças, lembrando do corpo dele ali representado, que morreu por ter anunciado uma mensagem diferente para o mundo. Pegar o vinho, que é símbolo do seu sangue, e se lembrar da sua morte sangrenta por causa do seu evangelho. Todas as vezes que formos comer pão e beber vinho, devemos nos lembrar dele. Ele apenas pediu isso.

 

Isso acontecia nas ceias ou jantares dos primeiros cristãos em suas casas. Depois, por causa do misticismo e da superstição, esses elementos acabaram virando um ritual separado. Mais tarde, ele foi levado pra os templos. E os cristãos acabaram se esquecendo de Jesus ao ingerirem pão e vinho em suas casas e em outros lugares fora dos templos. E foi assim que aqueles dois elementos simbólicos da última ceia perderam seu verdadeiro sentido. Muitas igrejas protestantes e evangélicas, apesar de tantas reformas, ainda continuam praticando a ceia como um ritual cansativo, cheio de cerimônias contaminadas de misticismo. Tanto a Ceia dos protestantes como a Eucaristia católica deixaram de ser um banquete familiar informal para se transformarem num culto público nos templos, carregado de formalidades.

 

Continuaremos no próximo post

 

Autor: Maralvestos Tovesmar. Este texto (não o site inteiro) está disponível nos termos da licença CC BY-NC-ND. Pode ser copiado e distribuído, informando o autor e o link seguinte, mas não pode ser modificado e nem comercializado. Data: 2013. Veja outras mensagens em http://livresdosfardosreligiosos.blogspot.com.br



[33] Cristianismo Pagão. Frank A. Viola, p. 112.

[44] Ibidem