Translate, traduzir

Liderança religiosa suprema (parte II)

Continuação do post anterior.

 

Livres dos Fardos Religiosos.

 

Resumo histórico sobre a origem do papado. Se ainda não leu a parte I, leia-a primeiro para entender melhor.

 

·      No ano 800, o papa Leão III coroou Carlos Magno, confirmando-o como o imperador do reino dos francos, demonstrando o seu poder religioso sobre o poder político.[1].

 

·      Muitos dizem que, no século IX, o papa Nicolau I resolveu usar coroa como se fosse um rei. [2], [3]. Na verdade, a igreja, sempre influenciada pela cultura romana, não deixou de considerar o papa como uma espécie de rei cristão com trono, cajado, coroa e digno de muita reverência. Mas a coroa papal surgiu pouco a pouco. Primeiro uma tiara, que depois ganhou uma coroa, depois duas e por fim, três coroas, uma sobre a outra. [4], [5]. Depois, entre o século XII e o ano de 1963, os papas foram coroados como reis da Igreja. Mas Paulo VI, o último coroado, fez o que é melhor: vendeu a coroa e doou o dinheiro para os pobres. [6]. Os papas seguintes não quiseram mais ser coroados. João Paulo I criou outra cerimônia no lugar da coroação.[7].

 

clip_image002[4]

Descrição: Papa Pio II, na biblioteca da catedral de Siena. Data: 1502-1507.  Autor: Pinturicchio (1454–1513). Autor do foto: O projeto de Yorck: 10000 Meisterwerke der Malerei DVD-ROM, 2002. ISBN 3936122202 . Distribuído por Direct Media Publishing GmbH.  Fonte e licença DP.

 

·      No século X, o papa João XII coroou Oto I como o imperador do Sacro Império Romano-Germânico. [8]. Novamente, como nos tempos do Império Romano, a Igreja estava tentando impor uma espécie de regime teocrático, onde dois chefes, um político e outro religioso, juntos, pudessem comandar o povo. Por outro lado, estava impedindo que Império Romano do Oriente se expandisse novamente para o Ocidente, cuja capital era Constantinopla, a sede do patriarcado rival. Por acaso queria transformar a Igreja em um reino desse mundo?

 

·      No século XI, em 1054, a velha rivalidade entre o papa e o patriarca de Constantinopla causou o Grande Cisma do Oriente, selando a separação definitiva entre a igreja do Oriente (que recebeu o nome de Ortodoxa) e a igreja do Ocidente (que continuou a ser chamada de Católica). Na ocasião, o papa Leão IX e o patriarca Miguel Cerulário contenderam sobre a natureza do Espírito Santo. Mas a briga, na verdade, desde a criação do patriarcado de Constantinopla, era a supremacia do papa. A Igreja Oriental ainda estava subordinada ao imperador romano do Oriente. E o papa, com a queda do Império Romano do Ocidente, já era cabeça única da Igreja ocidental e desejava ver toda a Igreja livre de interferências imperiais. Em outras palavras: Roma queria ser a única cabeça da Igreja, sem reis e patriarcas causando intervenções. [9], [10].

 

·      Nesse mesmo século, surgiu o Dictatus Papae, um documento papal com diversas cláusulas, que alguns atribuem ao papa Gregório VII.  Observe o tom ditatorial de algumas cláusulas desse documento:

 

·       Cláusula 2. “Que só o Pontífice Romano seja dito legitimamente universal.”

·       Cláusula 8. “Que só ele possa levar as insígnias imperiais.”

·       Cláusula 9. “Que todos os príncipes devem beijar os pés do Papa.”

·       Cláusula 10. “Que o seu nome deve ser recitado em toda igreja.”

·       Cláusula 11. “Que este nome é único no mundo.”

·       Cláusula 12. “Que lhe seja lícito depor os imperadores.”

·       Cláusula 19. “Que não seja julgado por nada.”

·       Cláusula 22. “Que a Igreja Romana nunca errou e não errará nunca, segundo testemunho das Escrituras.” [11], [12].

 

·      Em 1204, aconteceu a IV Cruzada católica, provocando a morte de muitos, o saque de Constantinopla e a implantação do Império Latino na região daquele patriarcado, que mais tarde foi restabelecido. Essa cruzada, sob a direção do papa Inocêncio III, tinha como objetivo reconquistar a Terra Santa, mas foi desviada para Constantinopla, aumentando ainda mais a rivalidade entre as duas igrejas. [13], [14]. Será que podemos dizer que Inocêncio foi inocente sobre o ataque a Constantinopla?

 

image

Descrição: A tomada de Constantinopla pelos cruzados. Data: 1840.  Autor:  Eugène Delacroix (1798–1863). Autor do foto: O projeto de Yorck: 10000 Meisterwerke der Malerei DVD-ROM, 2002. ISBN 3936122202 . Distribuído por Direct Media Publishing GmbH.  Fonte e licença DP.

 

·      No século XIX, em 1870, no Concílio Vaticano I, foi decretada a infalibilidade papal –– o dogma que afirma que o papa, por causa da graça divina, não comete enganos, não falha, está protegido de possíveis erros em questões de fé e moral e pode estabelecer elementos religiosos que não podem ser questionados. Por isso qualquer doutrina declarada como dogma pelo papa torna-se uma verdade absoluta, definitiva, imutável, infalível e inquestionável. [15], [16]. Será que realmente existe algum ser humano que não erra e que possa ser cabeça infalível da igreja?

 

Vários fatores contribuíram para que o patriarca de Roma se tornasse o líder máximo da Igreja.

 

1.     Roma era a capital do império e, por isso, se tornou também a capital religiosa, principalmente depois que o imperador Constantino declarou ser o Sumo Pontífice do cristianismo. [17], [18], [19].

 

2.     O mitraísmo, a religião que predominou em todo o Império Romano, antes da oficialização do cristianismo, tinha seu líder máximo sediado em Roma. Era chamado de Pater Patrum (Pai dos Pais). O sétimo grau de iniciação dessa religião era o grau de Padre (Pai). O líder máximo era o pai dos pais. [20]. O título de papa, a junção das primeiras sílabas de Pater Patrum, e o título de padre do catolicismo não são meras coincidências.

 

3.     A possível presença de Pedro em Roma e a conveniente interpretação de Mateus 16:16-19 certamente foram os ingredientes que completaram essas influências. [21]

 

Seja lá qual foi o motivo, o patriarca ou bispo dessa cidade ganhou o primeiro lugar entre os demais bispos, apesar da contradição explicita com Mateus 20.20-27, onde Jesus declara que entre seus discípulos ninguém dominaria sobre os outros. [22]. Por causa disso, o catolicismo sempre viu as outras igrejas como heréticas e jamais aceitou repartir o bolo eclesiástico com o patriarca constantinopolitano.

 

Defensores da idéia de que Pedro foi o primeiro líder máximo da Igreja citam a  sua primeira carta, onde ele diz: “A vossa co-eleita em Babilônia vos saúda, como também meu filho Marcos.” (1 Pedro 5.13, RC.) [23]. Segundo interpretações de alguns, Babilônia aqui é Roma. Naquela época, a verdadeira Babilônia não existia mais e era comum chamar Roma por esse nome, como no Apocalipse. [24], [25]. Todavia, mesmo sendo ele bispo de Roma, não quer dizer que tenha exercido autoridade sobre toda igreja. Entre os primeiros cristãos, não vemos nenhum dos apóstolos sendo tratado como líder máximo da igreja. Na mesma carta, antes citada, Pedro diz aos irmãos das igrejas nas províncias do Ponto, Galácia, Capadócia, Ásia e Bitínia: “Aos presbíteros que estão entre vós, admoesto eu, que sou também presbítero com eles, e testemunha das aflições de Cristo, e participante da glória que se há de revelar.” (1 Pedro 5:1, RC. Grifo meu.) [26]. Observe que Pedro não fala como um presbítero sobre os demais. Mas um presbítero com os demais. A igreja oriental admite que, segundo tradições, Pedro fundou o patriarcado de Antioquia e, depois de sete anos, foi para Roma. [27]. Nesses locais, ele atuou como apóstolo e presbítero e não exatamente como papa.

 

Observe o fato a seguir e analise se Pedro era considerado superior.

 

Na cidade de Antioquia, na Síria, Pedro, Barnabé e outros irmãos judeus comiam com os não judeus. Mas quando chegaram por lá alguns homens judeus mandados por Tiago, eles não quiseram mais tomar refeições com os não-judeus. Por isso Paulo chamou a atenção de Pedro na presença de todos. Pedro era judeu, mas por causa do evangelho não vivia mais como judeu. Mas ali, com hipocrisia, diante dos judeus, ele estava vivendo como um judeu, evitando contato com os não-judeus. (Gálatas 2.11-14.) [28].

 

Se Pedro era papa, então por que ele foi repreendido por Paulo? Esse acontecimento não demonstra que Pedro não era superior?

 

No entanto, como vimos, a idéia de líder máximo vingou no Ocidente. Nesse negócio fora dos princípios do verdadeiro evangelho de Cristo, muita coisa suja aconteceu. A sede de poder junto ao trono papal causou, do século III ao século XV, mais de trinta disputas e o assassinato de diversos papas como: João VIII,  Estevão VI, Leão V, João X, Bento VI, João XIV, Celestino V, etc. [29]. Naquela época, os papas nãos eram escolhidos como hoje. Assim uns mataram outros para ocuparem o lugar tão cobiçado. A corrupção, a imoralidade, os desvios sexuais, a intolerância, como veremos em outras mensagens, foram coisas muito comuns na história do papado. São tantas coisas horríveis que são difíceis de dizer e acreditar, mas estão nas páginas da história.

 

Após a Reforma protestante, no século XVI, as demais igrejas que surgiram naturalmente recusaram a autoridade do papa. Mas a idéia de líder máximo não acabou. Lutero fundou a Igreja Luterana e se tornou uma espécie de papa dela. [30].A Igreja Anglicana, que foi criada na Inglaterra pelo rei Henrique VIII, se desligou do papa, mas esse rei virou seu líder máximo, juntamente com o arcebispo de Cantuária. [31], [32].  Outros sistemas de governo eclesiásticos foram criados. [33]. E, a partir de então, diversas outras igrejas surgiram, seguindo um ou outro sistema. Mas na prática, o que vemos, são milhares de igrejas, cada uma com o seu “papa”, embora usem outros termos. Em muitas igrejas com sistema de governo presbiteriano, ou congregacional, ou misto, na realidade, costuma ter algum líder supremo, de alguma forma. Já vi igreja, dita congregacional, cujo presidente era um verdadeiro manda-chuva imponente, arrogante.

 

Muitos vivem criticando a figura do papa no topo da hierarquia católica. Mas apesar de não terem o papa como cabeça maior, têm outro, com outro título, que também é líder supremo. Alguns chefes de igreja são chamados de presidentes, outros de apóstolos, outros de bispos, outros de missionários, mas todos são lideres supremos de organizações religiosas. Esses criticam o primado do papa, mas primam também pela liderança de sua igreja.

 

Muitos querem governar a igreja. Uns querem ser cabeças locais, outros, regionais, nacionais e até internacionais. Por todos os lados, encontramos pessoas atuando como se fosse um presidente eclesiástico, comandando os cristãos com uma série de coisas. Será que devia ser assim mesmo? Não! Não está certo. Os anciãos da igreja foram transformados em gerentes de organizações eclesiásticas. E isso não foi uma boa idéia. A igreja não pode ser uma espécie de monstro com múltiplas cabeças.

 

Como já vimos também noutra mensagem e não podemos jamais esquecer, a igreja é como um corpo, e Jesus Cristo é a única cabeça desse corpo. (Colossenses 1.24; Efésios 1:22; 3:10, 21; 4.15; 5:23-32; Colossenses 1:18, 24) [34]. Mas o patriarca romano acabou ocupando o lugar que não lhe pertencia. E a Reforma protestante, em vez de resolver esse problema, acabou arrumando mais cabeças humanas para a sofrida igreja.

 

Apenas nas mitologias, encontramos seres com várias cabeças. Na mitologia grega, Hidra de Lerna era uma serpente gigante com sete ou mais cabeças; Cérbero, era um cão de três cabeças e cauda de serpente; Hecatônquiros (Coto, Giges e Briareu), eram gigantes de cem mãos e cinquenta cabeças. [35], [36], [37].  Na mitologia chinesa, encontramos Jiu Tou Niao, uma ave de nove cabeças. [38]. Nas visões do Apocalipse, temos, como símbolo, um dragão vermelho, uma besta saindo do mar e um monstro vermelho, cada um com sete cabeças. (Apocalipse 12:3; 13.1; 17.3.) [39].

 

 

clip_image006[4]

Descrição: Cérbero, o cão de três cabeças de Hades, criado usando a ferramenta Sculpt no Blender 2.43, por Giuseppe Canino (“RenderDemon”). Data: ? Autor: Giuseppe Canino. Fonte. Licença CC BY-SA.

 

Desculpe-me os fanáticos, nas a igreja virou uma espécie de monstro, que acabou aterrorizando muitas pessoas. Me refiro ao proselitismo desleal, desonesto, sem ética e enganador usado por muitos, sem generalizar. Na luta desenfreada pela conquista de prosélitos, diversas novas igrejas, ao lado da velha Igreja, partiram para uma concorrência estranha. Assim, muitas cabeças humanas lutaram querendo comandar o corpo de Cristo.

 

Não existe corpo com duas ou mais cabeça.  A igreja não pode ser um monstro fantástico. Ela é uma realidade sob a direção do Mestre Jesus. Ele não está fisicamente aqui, mas através do Espírito Santo de Deus, suas palavras estão sempre acesas dentro daqueles que resolveram segui-lo como Mestre e Senhor de suas vidas. (João 14:26; Atos 1:8.) [40]. Essa igreja, que não é uma organização religiosa, mas o conjunto de todos os seguidores dos ensinos de Jesus Cristo, independentes de qualquer lugar, é comparada a um corpo, e pode ter apenas um ou uma cabeça: Jesus Cristo.

 

Como pudemos ver, a idéia do líder máximo sobre a Igreja não veio de Cristo, mas dos homens. Colocar toda essa estrutura religiosa em cima de uma única pessoa, tomando como base o pequeno texto implícito ou obscuro de Mateus 18.18-19 e deixando de lado o texto explícito ou claro de Mateus 20.20-27 não foi uma atitude correta. [41], [42].

 

image

 

Jesus Cristo

image

A igreja

Desc.: Um só corpo, uma só cabeça. Data: março/2013. Autor: Maralvestos. Derivada da obra de Abujoy. Licença CC BY-SA.

 

As pessoas precisam entender que a igreja como organização precisa de um líder superior. Não é errado existir denominações eclesiásticas tendo alguém como líder máximo. Nos assuntos terrenos isso muitas vezes é necessário. Todavia, esse líder é o cabeça apenas da organização. Não é chefe da igreja de Cristo. A pessoa entra para uma organização e se submete ao seu líder se quiser. Mas para andar com Deus e ser de Cristo ela não depende de nada disso. Precisamos pregar o evangelho independente dessas coisas. O evangelho de Jesus é mudança de vida, é conversão, é abandono do pecado. Não tem nada a ver com qualquer igreja institucionalizada. Igrejas desse tipo são apenas opções. Não são necessidades. Por isso, estamos defendendo o evangelho como ele deve ser: todos servos uns dos outros, tendo Cristo como único cabeça.

 

 “Cristo reina sobre todos os governos celestiais, autoridades, forças e poderes. Ele tem um título que está acima de todos os títulos das autoridades que existem neste mundo e no mundo que há de vir. Deus colocou todas as coisas debaixo da autoridade de Cristo e deu Cristo à Igreja como o único Senhor de tudo. A Igreja é o corpo de Cristo; ela completa Cristo, o qual completa todas as coisas em todos os lugares.” (Efésios 1.21-23, NTLLH.) [43].

 

Você é líder de uma igreja institucionalizada? Está acima das pessoas? Saiba que você é autoridade suprema apenas dentro do seu reino religioso. Não manda nada na igreja de Cristo. Nessa, com organização ou sem organização, as pessoas que se converteram de seus maus caminhos são simplesmente servos uns dos outros, cada um com o seu dom. Na verdadeira igreja de Cristo, os cargos, os títulos e os paramentos não têm nenhum valor. Estamos todos no mesmo nível. Apenas temos dons diferentes.  

 

Estamos mostrando para você um evangelho sem nenhum chefe religioso humano, onde ninguém deste mundo vai dominar sobre você. Eu e ninguém mais mandaremos em você. Estou aqui apenas para ajudar. Se vai querer entrar para uma organização religiosa ou se vai querer continuar naquela que já faz parte, ou se vai querer ser totalmente livre como eu, isso é você quem decide. A minha missão é mostrar para você as verdades do evangelho da liberdade.

 

Se decidir seguir o caminho da liberdade, saiba de uma coisa: você será livre, mas não poderá jamais desrespeitar qualquer líder religioso com palavras e atitudes inconvenientes. Não faça coisas como, por exemplo, dizer que o papa é a besta do Apocalipse, que aquele líder é servo do Diabo. Conquiste a sua liberdade sem ultrapassar os limites da verdade e do respeito ao próximo. Isso o impedirá de se tornar escravo do fanatismo.

 

Escolha agora o seu caminho: o Oriente, o Ocidente, o Norte, o Sul ou o simplesmente o alto, onde tudo é bem diferente da cultura greco-romana.

 

Autor: Maralvestos Tovesmar. Este texto está disponível nos termos da licença CC BY-NC-ND. Pode ser copiado e distribuído, informando o autor e o link seguinte, mas não pode ser modificado e nem comercializado. Data: 2013. Veja outras mensagens em http://livresdosfardosreligiosos.blogspot.com.br