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Liderança religiosa suprema (parte I)

Livres dos Fardos Religiosos

 

Na antiguidade, em muitas nações, a forma de governo era a teocracia, onde um rei, considerado representante dos deuses ou de Deus, exercia autoridade terrena e religiosa ao mesmo tempo. Na antiga Roma, por exemplo, como já vimos em outra mensagem, na época da monarquia, os reis tinham poderes executivos, judiciais, militares, civis e religiosos. [1], [2]. Eles eram, pois, líderes supremos.

 

 

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Descrição: Fórum Romano. Da esquerda em primeiro plano: os três pilares do Templo de Vespasiano e Tito, o Arco de Septímio Severo, o Templo de Saturno. Cento do poder político e religioso. Data: 27 de fevereiro de 2010. Autor da foto: Robert Lowe.  Fonte. Licença CC BY.

 

Liderança religiosa suprema é o líder religioso que está acima de tudo e de todos, como os reis da antiga monarquia romana.

 

Jesus, como já foi dito em outras mensagens, não criou um reino teocrático. Ele disse: “O meu reino não é deste mundo.” (João 18.36, RC, RA, NTLH.) [3]. Outra vez disse para os seus discípulos: “Como vocês sabem, os governadores dos povos pagãos têm autoridade sobre eles e mandam neles. Mas entre vocês não pode ser assim. Pelo contrário, quem quiser ser importante, que sirva os outros, e quem quiser ser o primeiro, que seja o escravo de todos.” (Marcos 10.35-44, NTLH.) [4].

 

Conforme ensinou Jesus, entre os primeiros cristãos, todos eram iguais, servos uns dos outros. Não vemos ninguém exercendo autoridade dominadora sobre os outros. Os apóstolos e os presbíteros não eram líderes acima do povo, mas servos. Eles não dominavam, mas serviam às pessoas. Eles ajudavam as igrejas a caminharem nos caminhos de Deus. Era mais ou menos o que estou fazendo pelas pessoas hoje. Não estou dominando a vida de ninguém. Apenas estou oferecendo a minha ajuda de graça. Foi isso que eles fizeram e que todos devem fazer: servir uns aos outros, cada um com o seu dom ou com a sua capacidade.

 

 

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Descrição: Somos sacerdotes uns dos outros. Não devemos dominar, mas servir uns aos outros. Data: março/2013. Autor: Maralvestos. Licença CC BY-SA.

 

Mas, passo a passo, ao longo dos anos, uma hierarquia foi se formando nos moldes da hierarquia política romana, até gerar um líder máximo. Veja um resumo do que aconteceu, relembrando alguns pontos que já vimos na mensagem sobre a hierarquia da igreja:

 

·      Primeiro, os apóstolos escolheram pessoas idosas e idôneas para formarem uma comissão de anciãos. (Atos 14:23; Tito 1:5.) [5]. Essas pessoas não eram cabeças de nenhuma igreja local ou regional, ou mundial como alguns andam ensinando. Eram apenas pessoas mais velhas que tinham certas características especiais e a capacidade de ajudar a igreja a andar no caminho certo. Não eram dominadores ou chefes da igreja, mas servos que tinham idade e maturidade para atuarem como conselheiros das igrejas nos lares.

 

·      Algum tempo depois, alguns começaram a se sentir maiores. No início do século II, conforme vemos na Epístola aos Filadelfos, no capítulo III, do patriarca Inácio de Antioquia, surgiram os bispos acima dos presbíteros. Disse Inácio: ”... um é o Bispo, junto com seu presbitério e diáconos”. [6], [7]. Observando outros escritos de Inácio, podemos ver que os presbíteros já eram tratados como chefes da igreja e que os bispos já eram vistos como chefes dos presbíteros.

 

Bispos

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Presbíteros

Diáconos

Demais cristãos

 

·      Depois, na segunda metade do século II, recapitulando o que já foi dito na mensagem sobre hierarquia, em três importantes cidades do Império Romano: Antioquia na Síria, Alexandria no Egito e Roma, alguns bispos, tidos como sucessores dos apóstolos, começaram a exercer domínio sobre as igrejas de uma grande região, formando uma triarquia eclesiástica (governo de três bispos). Esses bispos, mais tarde, passaram a ser chamados de patriarcas. [8], [9]. Roma, como capital do império, era considerada a capital religiosa também. Alguns bispos, em seus escritos, demonstraram isso. Agora, os bispos também já tinham chefes para mandarem neles. E o patriarca de Roma, a capital, já começava a ser visto como o chefe de toda Igreja. A Igreja estava ficando igual aos reinos deste mundo. Melhor dizendo, igual ao Império Romano.

 

 

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Descrição: Mapa da triarquia eclesiástica. Data: março/2013. Autor: Maralvestos. Derivada da obra de Angelus. Licença CC BY-SA.

 

Patriarcas de Roma, Antioquia e Alexandria

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Bispos

Presbíteros

Diáconos

Demais cristãos

Descrição: Hierarquia da igreja a partir da segunda metade do século II. Data: março/2013. Autor: Maralvestos. Licença CC BY-SA.

 

·      No fim do século II, Irineu, bispo de Lyon, região da França, disse que Pedro e Paulo foram os fundadores da igreja de Roma. Ele falou da necessidade de cada igreja concordar com o bispo de Roma por causa da sua autoridade preeminente. Na sequencia, ele mostrou uma lista sucessória do patriarcado de Roma: Lino, Anacleto, Clemente, Evaristo, Alexandre, Xisto, Telésforo, Higino, Pio, Aniceto, Sotero e Eleutério. Esses seriam, até então, os legítimos sucessores de Pedro. (Contra as Heresias Livro III, 2-3.) [10]. Esses nomes se encontram na lista dos papas. [11].

 

·      O bispo Clemente de Alexandria (150-215) disse, se referindo a Pedro: “o eleito, o escolhido, o primeiro entre os discípulos, o único pelo qual, além de si mesmo, o Senhor pagou tributo” (Quis dives salvetur XXI, 4.) [12].

 

·      No século III, o bispo Cipriano de Cartago citou Mateus 16.18-19, onde lemos a conversa de Jesus com Pedro: “Pois também eu te digo que tu és Pedro e sobre esta pedra edificarei a minha igreja, e as portas do inferno não prevalecerão contra ela. E eu te darei as chaves do Reino dos céus, e tudo o que ligares na terra será ligado nos céus, e tudo o que desligares na terra será desligado nos céus.” (RC.) [13].E disse mais: “É verdade que os demais [Apóstolos] eram o mesmo que Pedro, mas o primado é conferido a Pedro para que fosse evidente que há uma só Igreja e uma só cátedra. Todos são pastores, mas é anunciado um só rebanho, que deve ser apascentado por todos os Apóstolos em unânime harmonia.” (Tratado I, Sobre a Unidade da Igreja, 4.2 e 9) [14]. E mais:  "A cátedra de Roma é a cátedra de Pedro, a Igreja principal, de onde se origina a unidade sacerdotal" (Cipriano, +258, Epístola 55,14). [15].

 

·      Ainda no século III, segundo algumas pessoas, o bispo romano Estevão I, considerado um dos papas, também usou Mateus 16:18-19 para defender a supremacia do bispo romano, considerando que lá era a antiga sede do bispado de Pedro. [16]. Como Cipriano e Estevão, a Igreja Católica ainda usa esse texto para justificar o primado de Pedro.

 

·      No início do século IV, em 313, o imperador romano Constantino I apoiou o cristianismo, assinando o Edito de Milão. [17]. Ele se tornou uma espécie de líder máximo da Igreja, usando o título de Sumo Pontífice ou Pontifex Maximus, o título do sumo sacerdote da antiga religião romana pagã. [18], [19], [20]. Roma era a capital do império e acabou se tornando também a capital religiosa. E o imperador, como nos velhos tempos da monarquia romana, se tornou líder político e religioso.

 

 

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Descrição: Mosaicos bizantino retratando o imperador Constantino I, o primeiro sumo pontífice da Igreja. Data: 1000. Autor do foto: O projeto de Yorck: 10000 Meisterwerke der Malerei DVD-ROM, 2002. ISBN 3936122202 . Distribuído por Direct Media Publishing GmbH.  Fonte e licença DP.

 

Constantino I

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Patriarcas de Roma, Antioquia e Alexandria

Bispos

Presbíteros

Diáconos

Demais cristãos

Descrição: Hierarquia da igreja a partir do século IV. Data: março/2013.Autor: Maralvestos. Licença CC BY-SA.

 

·      O Cânon XXXIX do I Concílio de Nicéia realizado em 325, dentre outras palavras, disse que “a primazia do Bispo de Roma cabe sobre todos” e que “o que ocupa a sede de Roma é a cabeça e o príncipe de todos os Patriarcas, pois que é o primeiro, como foi Pedro, a quem foi dado o poder sobre todos os príncipes cristãos, sobre todos os povos, sendo o Vigário de Cristo Nosso Senhor sobre todos os povos e sobre toda a Igreja Católica.” (Texto destacado traduzido por José Fernandes Vidal.) [21].

 

·      Em 330, Constantino reconstruiu a antiga cidade grega de Bizâncio, transformando-a na nova capital do império e chamando-a de Nova Roma. [22]. A antiga cidade de Roma deixava de ser a capital política. Sem o imperador, com o título de Sumo Pontífice, ela corria o risco de deixar de ser a capital religiosa também.

 

·      Mas no século IV, em 343, o sínodo de Sárdica reconheceu o bispo de Roma como instância suprema. [23]. Seria alguma manobra para impedir o enfraquecimento de Roma?

 

·      Em 367 o historiador Optato de Milevi alegou: "Na cidade de Roma, quem por primeiro se sentou na cátedra episcopal foi o Apóstolo Pedro, ele que era a cabeça de toda a Igreja, (...) Os apóstolos nada decidiam sem estar em comunhão com esta única cátedra (...) Recorde a origem desta cátedra, todos que reivindicam o nome da Santa Igreja Católica..." (O Cisma Donatista 2:2). [24], [25].

 

·      Nesse mesmo século, Dâmaso I, colocado na lista dos papas, defendeu a superioridade do bispo de Roma. [26]. O imperador romano Graciano, por meio de um decreto, em 378, deu para ele a suprema autoridade judiciária sobre os bispos do Ocidente. [27].

 

·      Em 381, no I Concílio de Constantinopla, a nova capital romana criada por Constantino também se tornou mais um patriarcado. O cânon III desse concílio diz: "O Bispo de Constantinopla, no entanto, deve ter a prerrogativa de honra após o Bispo de Roma, pois Constantinopla é a nova Roma.” [28], [29]. A partir daí, a igreja passou a ter quatro cabeças. O patriarca de Roma era considerado o cabeça principal, enquanto o patriarcado de Constantinopla assumia o segundo lugar. Esse foi o estopim que acedeu a rivalidade histórica entre as igrejas do Ocidente e do Oriente. Roma era a antiga capital, sendo por isso o principal patriarcado. Constantinopla, a nova capital política, a Nova Roma, agora com um novo patriarcado, já em segundo lugar, corria o risco de se tornar a capital religiosa.

 

·      No final do século IV, o título de Papa, que às vezes era atribuído aos diversos bispos como forma de veneração desde o século III, passou a ser usado exclusivamente pelo bispo (patriarca) de Roma. [30], [31].

 

·      Em 401, segundo informações de alguns autores, Inocêncio I, bispo de Roma, também incluído no rol dos papas, considerou ser o representante de toda igreja e exigia que todas as controvérsias fossem levadas a ele. [32], [33].

 

·      No século V, o Império Romano do Ocidente ficou bastante enfraquecido. A capital do império, como vimos, tinha sido transferida para Constantinopla em 330 por Constantino. [34]. E houve uma constante invasão dos povos bárbaros. [35].

 

·      Em meados do século V, o imperador romano Valentiniano III promulgou o Edito de Supremacia Papal, confirmando o papa como suprema autoridade da Igreja. [36]. O documento diz:  Visto que a primazia da Sé Apostólica fundamenta-se sobre o mérito de São Pedro, que é o primeiro entre os bispos - pela majestade da cidade de Roma e, finalmente, pela autoridade de um sacro concílio - ninguém, sem imperdoável ousadia, pode atentar contra a autoridade de tal Sé. A paz será assegurada às igrejas se todas reconhecerem seu governador.” (Tradução: Carlos Martins Nabeto.) [37]. Será que o imperador queria fortalecer o lado ocidental dando mais poder ao patriarca romano?

 

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Descrição.: Papa Leão I, também conhecido como Leão Magno (440-461). Um dos líderes máximos da Igreja Católica do século V. Data: século XIX. Autor: Max Bentele (1825–1893 ). Foto: Andreas Praefcke. Data: Maio/2009.  Fonte e licença DP.

 

·      Ainda na primeira metade do século V, Leão I (441-641) segundo a opinião de algumas pessoas, tornou-se o primeiro papa no modelo atual. [38]. Ele defendeu a superioridade de Roma dizendo: “Pedro foi o único escolhido entre todo mundo para ser a cabeça de todos os povos chamados, de todos os apóstolos e de todos os padres da Igreja.” (Sermão 4,2). [39]. Foi esse patriarca romano que foi o primeiro a ser contemplado com o documento de supremacia papal promulgado pelo seu contemporâneo o imperador Valentiniano III. Os que a Igreja considera como papa de São Pedro até Leão foram, na verdade, apenas patriarcas de Roma, ao lado dos patriarcas de Alexandria, Antioquia e Constantinopla. Todavia, como podemos ver, era o único patriarca do lado ocidental, dividindo o poder com o imperador romano.

 

·      Em 451, no Concílio de Calcedônia, Jerusalém se tornou o quinto patriarcado com jurisdição sob três províncias eclesiásticas e cerca de sessenta dioceses, reduzindo o domínio do patriarcado de Antioquia e formando uma pentarquia eclesiástica (governo de cinco patriarcas). Agora tinha cinco cabeças, mas a briga se concentrava entre as duas de sempre. [40], [41].

 

·      Ainda nesse século, em 476, a invasão dos povos bárbaros acabou com Império Romano do lado ocidental, e o papa tornou-se a autoridade máxima do Ocidente, agora independente do Império Romano. [42], [43], [44] [45]. Sem as interferências do imperador romano, que era considerado o Sumo Pontífice, o patriarca de Roma, que na época era o papa Simplício, naturalmente seria visto como uma espécie de novo rei teocrático do Ocidente. [46]. A partir de então, com o documento de supremacia papal e com a queda do império, ele se tornaria de fato a única autoridade suprema da igreja ocidental.

 

·      No final do século V, o papa Gelásio I (492-496) afirmava a supremacia papal romana, inclusive sobre os governos seculares. Ele disse que o bispado de Roma tinha o direito de julgar os outros bispados, mas não podia ser julgado por nenhum ser humano. [47].  Ele foi chamado de Vigário de Cristo. [48]. Vigário quer dizer representante.

 

·      No século VI, o papa Gregório I, em diversas epístolas, defendeu a superioridade do bispo de Roma. [49]. Alguns afirmam que foi ele quem, pela primeira vez, assumiu o título de Sumo Pontífice (Pontifex Maximus) título antes pertencente ao imperador romano como chefe religioso, lembrando o chefe dos antigos sacerdotes pagãos romanos e que acabou sendo aplicado a todos os papas posteriores. [50]. Agora, após a queda do império, ele tinha liberdade para usar o mesmo título antes usado pelo imperador.

 

Patriarca de Roma como novo Sumo Pontífice

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Patriarcas de Constantinopla, Antioquia, Alexandria e Jerusalém

Bispos

Presbíteros

Diáconos

Demais cristãos

Descrição: Hierarquia da igreja a partir do século V. Data: março/2013.Autor: Maralvestos. Licença CC BY-SA.

 

·      Ainda nesse século, o patriarca João IV (João Faster)  de Constantinopla chamou a si mesmo de Patriarca Ecumênico. [51], [52]. Em outras palavras, ele considerou ser o patriarca de todo o mundo.

 

·      Então o papa Gregório I rebateu chamando a si mesmo de Servus Dei servorum (Servo dos servos de Deus). [53].

 

·      No século VII, com a expansão do islã sobre o Oriente, os patriarcados de Alexandria, Jerusalém e Antioquia desapareceram e ficaram o de Constantinopla e o de Roma que continuaram disputando o domínio da igreja. [54].

 

·      No século VIII, surgiu o costume de beijar os pés do papa, reverenciando-o como o vigário (representante) de Cristo. [55]

 

Continuaremos no próximo post.

 

Autor: Maralvestos Tovesmar. Este texto está disponível nos termos da licença CC BY-NC-ND. Pode ser copiado e distribuído, informando o autor e o link seguinte, mas não pode ser modificado e nem comercializado. Data: 2013. Veja outras mensagens em http://livresdosfardosreligiosos.blogspot.com.br



[18] http://penelope.uchicago.edu/Thayer/E/Roman/Texts/secondary/SMIGRA*/Pontifex.html

[19] http://www.newadvent.org/cathen/12260a.htm#V