Igrejas institucionalizadas

Livres dos Fardos Religiosos.

 

Alguém disse: “Vamos à Igreja?” Resposta: “Como eu posso ir à igreja, se ela é o corpo de Cristo, e se eu sou um membro desse corpo? Então, igreja sou eu, somos todos nós que seguimos os ensinos de Cristo. Assim sendo, como eu posso ir a mim mesmo?” Réplica: “Eu estou falando do templo. Eu estou lhe convidando para irmos à casa do Senhor.” Tréplica: “Mas o problema que eu sou o templo do Senhor, onde habita o Espírito de Deus. Como eu posso ir para o templo que sou eu? Como posso ir a mim mesmo?” Explicando com a voz meio alterada: “Arre! Estou falando para irmos ao templo da minha igreja, a Igreja Pentecostal Aeiou, do pastor João de Fogo!” Concluindo: “Ah! Sim. Agora entendi.”

 

 

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Desc.: Vamos à igreja? Data: Maio/2012. Autor: Maralvestos. Licença CC BY-SA.

Para quem está acostumado com o sistema religioso, o convite não trás nenhuma confusão. Mas para quem está mais familiarizado com o evangelho original, fica difícil entender o convite para ir a uma igreja.

 

A igreja é o corpo de Cristo, e cada cristão é um membro desse corpo. (Colossenses 1:24; Romanos 12:4-5; 1 Coríntios 12.12-13; 1 Coríntios 12:27; Efésios 5.30.) [1]. Por outro lado, nosso corpo é o templo do Espírito de Deus. (1 Coríntios 3:16; 1 Coríntios 6:19; João 14:23; Efésios 2.20-22; 1 Pedro 2.5.) [2]. Sendo assim, nós somos igreja, nós somos o templo do Senhor. Mas com o passar dos séculos, o termo igreja passou a significar uma organização religiosa e também o templo onde as pessoas se reúnem. Então temos, fora do sentido bíblico, as igrejas institucionalizadas.

 

Podemos dizer que igreja institucionalizada é o conjunto de todos aqueles que se encontram ligados a uma organização religiosa rotulada de cristã. São milhares de instituições jurídicas que usam o nome de Cristo, formando igrejas celulares e templárias. Algumas são pequenas organizações locais. Outras são organizações regionais, nacionais e até internacionais.

 

Vimos, na mensagem sobre organizações religiosas, que vários teólogos, ainda nos primeiros séculos, começaram a criar doutrinas variadas. Por causa disso, por todos os lados, surgiram grupos com pensamentos e costumes diferentes uns dos outros como: ebionitas, nicolaítas, gnósticos, docetas, marcionitas, modalistas, maniqueístas, novacianos, arianos e católicos, dentre outros. Dentre esses diversos grupos, o dos católicos era o mais forte. A partir da segunda metade do século II, alguns bispos do grupo dos católicos de três importantes cidades do Império Romano se tornaram superiores aos demais. Essas cidades eram: Antioquia (Síria), Alexandria (Egito) e Roma. Os bispos dessas cidades foram chamados de patriarcas. [3], [4], [5]. Quem obedecia ao que eles diziam eram considerado católico. Os outros grupos eram tratados como hereges. Vimos também, que no início do século IV, em 313, o imperador romano Constantino apoiou o cristianismo, mais precisamente os católicos, assinando o Edito de Milão. [6], [7]. No fim desse século, em 380, através do Edito de Tessalônica, o imperador Teodósio I fez do grupo dos católicos a religião oficial do império. [8]. Esse grupo, que já era o mais forte, ficou ainda mais fortalecido com o apoio do Império Romano. Nessa mesma época, foram criados os patriarcados de Constantinopla e de Jerusalém, enquanto o bispado de Roma se fortalecia, até virar a sede mundial do catolicismo. [9], [10], [11], [12], [13]. Assim surgiu a primeira igreja institucionalizada (a primeira organização ligada ao cristianismo).

 

Em 1054, rivalidades entre o patriarca de Constantinopla e o papa em Roma acabaram provocando um cisma, fazendo surgir outra grande organização religiosa: a Igreja Ortodoxa, que não pôde ser vencida pela fúria romana. [14], [15], [16].

 

No século XVI, aconteceu a Reforma, e muitos puderam se livrar do domínio de Roma. Surgiram a Igreja Luterana, a Igreja Anglicana, a Presbiteriana, os anabatistas dentre outras. [17], [18], [19], [20], [21].

 

Já vimos também que, entre os séculos XVIII e XIX, surgiu um movimento entre os protestantes, chamado pelos historiadores de o Grande Despertar. Esse movimento afetou a Europa e a América do Norte, influenciando as igrejas Presbiteriana, Congregacional, Reformada Holandesa, Reformada Alemã, Batista e Metodista. [22]. Por outro lado, fez surgir novas igrejas como: Igrejas de Cristo, Igreja Cristã (Discípulos de Cristo), Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias (apelidada de Mórmons), Igreja Adventista do Sétimo Dia, Igreja Cristã Evangélica no Canadá, dentre outras. [23].

 

 

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Desc.: Logomarca apenas para ilustrar.  Não temos nenhuma igreja com esse nome. Caso exista alguma com essa designação é mera coincidência. Data: Junho/2012. Autor: Maralvestos. Licença CC BY-SA.

 

Vimos ainda que, no século XVIX, surgiu entre as igrejas americanas, ainda na época do Grande Despertar, o movimento de santidade. Novas idéias e novas crenças fizeram surgir novas igrejas como: Igreja de Deus, Igreja do Nazareno, Igreja Wesleyana, Igreja Metodista Livre, Igreja de Cristo (Santidade) e muitas outras. [24]. Todos esses movimentos provocaram grandes mudanças, principalmente nos Estados Unidos. E a partir do início do século XX, por volta de 1906, o movimento de santidade fez surgir o movimento pentecostal. Novas igrejas foram criadas como: Igreja Assembléia de Deus, Igreja Deus é Amor, Igreja Cristã no Brasil, Igreja do Evangelho Quadrangular, Igreja Unida, Igreja de Nova Vida e muitas outras. Em meados do século XX, o pentecostalismo foi evoluindo, e vieram mais dois movimentos: o carismático e o neopentecostal. E novas igrejas foram criadas com idéias audaciosas. [25], [26], [27], [28], [29].

 

Foi assim que o mundo se encheu de igrejas institucionalizadas ou jurídicas, formando um complexo sistema religioso dentro do cristianismo, tornando-se um emaranhado de crenças, doutrinas, rituais e costumes, ostentando uma placa religiosa em cada canto.

 

Não podemos dizer que os membros de uma denominação cristã não sejam verdadeiros cristãos. Apesar de estarem presos a uma organização, muitos são cristãos de verdade e fazem parte da verdadeira igreja de Jesus. Mas é bom lembrar que tornar-se membro de uma denominação religiosa não é a mesma coisa que tornar-se cristão.

 

Esse tipo de igreja, por causa da dominação que exerce sobre os seus adeptos, por causa dos escândalos, das corrupções, das explorações, dos charlatanismos, das mentiras, das artimanhas e tantos outros males, muitas vezes perde a boa reputação. É claro que Jesus e os apóstolos jamais se referiram a esse tipo de igreja.

 

A igreja institucionalizada pode ser classificada como: templária, locais, regionais, nacionais e internacionais institucionalizada e ainda celulares institucionalizada.

 

 

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Desc.: Igreja de San Fernando de Torrero. Data: construída em 1799. Reprodução: Escarlati. Data: 08/04/2007. Fonte. Licença CC BY-SA.

Igrejas templárias.  Igrejas templárias são os edifícios ou templos das denominações religiosas denominadas de cristãs, onde pessoas se reúnem para celebrarem cultos religiosos carregados de rituais, liturgias e costumes. São, dependendo da importância, chamadas de capelas, paróquias, igrejas, catedrais ou basílicas.

 

Já vimos que, no início do século IV, o imperador romano Constantino deu liberdade ao cristianismo, assinando o Edito de Milão. [30]. Mas não foi só isso que ele fez.  Imitando o antigo mitraísmo, ele ordenou construir no bairro nobre de Roma, conhecido como Vaticanus, um templo, onde mais tarde, sobre os mesmos alicerces, foi construída a Basílica de São Pedro.[31]. Segundo algumas pessoas, nesse mesmo lugar, antes havia um templo de Mitra, uma divindade solar pagã, muito cultuada antes do cristianismo. [32]. A partir dessa época, muitos templos dedicados a Mitras foram transformados em criptas de igrejas cristãs, como, por exemplo, a Basílica de São Clemente em Roma. [33], [34]. Em vários locais, onde havia templos mitraicos, igrejas foram construídas como a Catedral de São Paulo em Londres e a Catedral de Canterbury. [35]. O mitraísmo se acabou, mas a idéia de se reunir em templos com características mitraicas continuou. Templos sombrios com altar, imagens e decorações religiosas continuaram sendo construídos por todos os lados.

 

Também, influenciado pela sua mãe, a imperatriz Helena, em Jerusalém, Constantino mandou edificar a Basílica do Santo Sepulcro (destruída em 1009) e a Basílica da Natividade em Belém. [36], [37], [38]. Enfim, ele construiu nove igrejas em Roma e muitas outras em diversos outros lugares. [39].

 

Construir santuários em cima de tumbas era um costume pagão que afetou a cabeça dos cristãos católicos. [40]. Por isso, muitas outras igrejas foram construídas em cima de antigas tumbas, que já eram consideradas como locais sagrados, onde jaziam corpos de santos venerados por muitos. As supostas tumbas de são Pedro, são Paulo e de Jesus foram alguns desses locais. [41]. De acordo com a tradição, onde foi construída a Basílica de São Pedro seria o local do seu sepultamento. [42], [43], [44].

 

Esse costume de construir edifícios sagrados chamados de igreja continuou ao longo dos séculos. Depois da Reforma, igrejas protestantes e evangélicas seguiram o mesmo caminho, construindo igrejas em diversos estilos. Apesar de eliminarem alguns elementos do catolicismo, continuaram mergulhados na mesma idéia de um templo místico, recheado de cerimônias, rituais e liturgias, rebuscado de elementos distantes daquilo que Jesus realmente ensinou.

 

É bom lembrar que a palavra igreja, no Novo Testamento, não tem nada a ver com esse tipo de igreja.

 

O fato de uma pessoa frequentar um templo cristão não faz dela um cristão de verdade, embora não podemos negar que, dentro dos templos, existem verdadeiros cristãos. Todavia, são cristãos prisioneiros de rituais desnecessários, encurralados dentro de quatro paredes.

 

Igrejas locais institucionalizadas. Essas são os grupos que se reúnem em uma igreja templária de alguma igreja institucionalizada, debaixo da liderança de um pastor, presbítero ou padre.

 

Igrejas regionais, nacionais e internacionais institucionalizadas. Classificamos dessa forma, todas as pessoas de uma região, país ou de todo mundo que vivem dentro de uma igreja organizada, debaixo de uma hierarquia de líderes. Os líderes locais ficam debaixo da liderança regional. Os líderes regionais ficam sob a liderança de um líder nacional. E os nacionais, debaixo das ordens de um cabeça universal, como o papa, por exemplo.

 

Igrejas celulares institucionalizadas. Classificamos como igrejas celulares institucionalizadas ou institucionais as reuniões de pequenos grupos, geralmente nos lares, mas que continuam ligados a uma denominação religiosa. Geralmente são também igrejas templárias e litúrgicas. São, na verdade, células de uma igreja institucionalizada. São uma versão das igrejas nos lares debaixo dos laços de uma organização eclesiástica. Estão sendo utilizada como um meio de fazer novos adeptos para muitas igrejas. Seus líderes estão debaixo de uma hierarquia, que alguns preferem chamar de cobertura espiritual. Esse não é um modelo de igreja livre de verdade, pois está presa ao sistema religioso. Exemplos: igreja celular, G12, M12, visão celular, etc. Lamentavelmente, elas são apenas uma extensão do velho sistema que aprisiona as pessoas.

 

As pessoas que não praticam o que Cristo ensinou, mesmo estando filiadas a uma denominação dita cristã, não fazem parte do seu corpo. Por isso, Jesus disse: “Nem todo o que me diz: Senhor, Senhor! entrará no reino dos céus, mas aquele que faz a vontade de meu Pai, que está nos céus.” (Mateus 7:21.) [45]. Portanto, não se iluda com esse tipo de igreja. O que você realmente precisa é seguir o que Cristo ensinou. E é isso que estamos fazendo aqui. Não estamos lhe convidando para se tornar membro de nenhuma igreja desse tipo. Queremos que se torne igreja onde está, apenas aprendendo a trilhar o caminho que Cristo ensinou.

 

Muitos estão dizendo que para uma pessoa se tornar cristã, ela precisa fazer parte de uma denominação cristã. Dessa forma, acabam fazendo proselitismo para as suas instituições religiosas. Mas para ser cristã, a pessoa não precisa disso. Imagine uma pessoa que aceita as mensagens de Jesus num país ou num lugar distante, onde não existe nenhuma organização cristã e nenhum templo. Será que ela deixe de ser parte do corpo de Cristo? Nada disso! Cada pessoa que aceita o evangelho de Jesus Cristo, independente de qualquer organização religiosa ou templo, tem a vida eterna e torna-se uma célula viva ligada ao seu corpo, a igreja. A igreja organizada é apenas mais uma opção, não uma obrigação. Ela pode ajudar ou atrapalhar.

 

Aqueles que seguem o evangelho de Cristo, mas estão fora das igrejas institucionalizadas e não vão aos templos, muitas vezes são tratados como desviados, perdidos. Mas tudo é puro preconceito. Se a pessoa não deixar o que Cristo ensinou, ela jamais estará afastada da verdadeira igreja de Cristo, que não é uma organização e nem um edifício qualquer. A pessoa poderá estar numa organização, fora dela, com uma multidão ou sozinho no meio da selva, ou perdido numa ilha deserta que, de qualquer forma, será parte da igreja universal de Jesus Cristo.

 

 

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Desc.: Livres. Data: Agosto/2012. Autor: Maralvestos. Licença CC BY-SA.

A igreja de Jesus não é uma teocracia, nem uma religião estatal, nem uma organização, tampouco uma denominação com marca registrada. Não é um templo, nem uma instituição com cargos diversos, líderes autoritários, vestindo roupas diferentes. Não é uma hierarquia de líderes que decidem muitas coisas e impõem tudo ao povo à força, através de leis, preceitos, dogmas e credos. Não é um órgão para arrecadar dinheiro, nem uma empresa para fazer cadastros, vender produtos e serviços, explorando o povo com negócios de vários tipos. Não é lugar de corrupções, nepotismos, extorsões e coisas parecidas. Não é um lugar para trabalhar e ganhar altos salários. Não é um templo onde se realiza rituais diversos, sacrifícios, cultos a várias entidades, festas judaicas e pagãs. Não é lugar de usos e costumes impostos como tipo de cabelo, roupas, alimentação, forma de cumprimento. Não é um ambiente carregado de bordões e palavras mágicas. Não é uma religião para buscar adeptos através de proselitismo de todos os tipos, com todas as artimanhas possíveis. NÃO! A igreja de Jesus é o conjunto de todas as pessoas que resolveram deixar o mau caminho e resolveram seguir os verdadeiros ensinos de Jesus, procurando mudar seu estilo de vida, deixando o pecado de lado e praticando o bem. É um povo livre, que tem como cabeça apenas Jesus e Deus, onde um ajuda o outro com orações e tudo mais que for possível; onde um corrige, exorta, ensina o outro; onde todos são livres, cada um com o seu dom espiritual, se encontrando em qualquer lugar, sem formalidade, sem ritualismos, sem cerimônias, anunciando, com palavras e, principalmente, com exemplos práticos, tudo que Jesus ensinou, denunciando toda maldade humana como guerras, preconceitos, mentiras, hipocrisias, injustiças, avareza, inveja, orgulho, ódio, intolerância e tantos outros males e, por outro lado, encorajando as pessoas a serem solidarias, bondosas, verdadeiras, amorosas, respeitosas, humildes, amigas, per doadoras, e outras virtudes. Tudo isso com fé, acreditando (confiando) nas palavras de Jesus.

 

Faça parte da verdadeira igreja livre: a igreja que não é nenhuma instituição desse mundo, mas o reino espiritual de Deus, que deve ser implantado em seu coração.

 

Autor: Maralvestos Tovesmar. Este texto (não o site inteiro) está disponível nos termos da licença CC BY-NC-ND. Pode ser copiado e distribuído, informando o autor e o link seguinte, mas não pode ser modificado e nem comercializado. Data: 2013. Veja outras mensagens em http://livresdosfardosreligiosos.blogspot.com.br



[40] Cristianismo Pagão. Frank A. Viola, p. 48