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Diáconos III

Continuação do post anterior.

Livres dos Fardos Religiosos

 

 

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Descrição: O amor de muitos se esfriará I. Data: março/2013. Autor: Maralvestos. Licença CC BY-SA.

 

 

Pena que a Igreja tem conservado tantas tradições inúteis e tem deixado essa, que é tão importante, de lado. A assistência ainda existe, mas hoje ela é bem mais acanhada e não tem sido um dos pontos culminantes das reuniões cristãs. O tempo passou, e o diaconato perdeu a sua verdadeira essência, virando o grau mais baixo da hierarquia eclesiástica. Os diáconos viraram clérigos inferiores aos presbíteros, como veremos na mensagem sobre hierarquia. Até o século IV, ele teve as características primitivas. Mas a partir do século V, eles foram se transformando em meros auxiliares de serviços litúrgicos, sob a autoridade dos sacerdotes. [1]. Com a institucionalização da igreja, com a construção de templos e a criação de cerimônias religiosas diversas, eles assumiram muitos outros serviços que não deveriam ser tarefas de diáconos. Apesar das reformas do Concílio Vaticano II, eles não voltaram a ser exatamente como eram. Eles deixaram de concentrar suas atividades na área de assistência social e viraram ajudantes do bispo ou do presbítero, ajudando na celebração das missas, na distribuição da comunhão, na realização do sacramento do batismo, do matrimônio e das cerimônias fúnebres, dentre outras atividades, além dos serviços assistenciais, agora bem mais tímidos. [2].

 

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Descrição: O amor de muitos se esfriará II. Data: março/2013. Autor: Maralvestos. Licença CC BY-SA.

 

A Reforma dos protestantes também não mudou praticamente nada nessa área. O que vemos em muitas igrejas protestantes e evangélicas são diáconos bem longe daquilo que deveriam ser. Veja o que muitos fazem: distribuem ceias, recebem pessoas na porta da igreja, procurando acomodá-las nos bancos, cuidam de estacionamentos, levam água para o pregador, cuidam da disciplina, zelam pelo patrimônio, recolhem ofertas, ajudam nos complicados rituais do batismo e muito mais coisas. [3].  Se não existissem templos, essas pessoas talvez nunca tivessem deixado de ser o que eram na igreja primitiva.

 

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Descrição: Igreja sem amor. Data: março/2013. Autor: Maralvestos. Licença CC BY-SA.

 

Não adianta nada tantos templos reluzentes, rebuscados, espaçosos, cheios de rituais, com tantos cânticos ecoantes, tantas palavras bonitas... Mas sem amor. Jesus disse que por causa da multiplicação da iniquidade, o amor de muitos se esfriaria. (Mateus 24:12.) [4]. Isso aconteceu. Na igreja fria, sem amor ao próximo, carregada de hipocrisia, os diáconos perderam o seu verdadeiro lugar.  Precisamos voltar ao primeiro amor. Todos esses serviços nas igrejas-templos lembram os serviços no templo judaico. Hoje nós somos templos e somos servos uns dos outros. E os diáconos precisam ser servos exclusivos na área assistencial.

 

 

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Descrição: Obras da lei e obras de amor. Data: Agosto/2012. Autor: Maralvestos. Licença CC BY-SA.

 

 

Martinho Lutero enfatizou que a salvação é pela fé e não pelas obras. [5]. Por causa dessa doutrina, muitos acham que serão salvos apenas tendo fé em Jesus. Na verdade, a salvação é pela fé, sem a obras da lei de Moisés. (Romanos 3:28; Gálatas 2:16; Romanos 3.20.) [6]. “Concluímos, pois, que o homem é justificado pela fé, sem as obras da lei.” Paulo disse isso para aqueles que queriam colocar práticas judaicas da lei de Moisés para os cristãos cumprirem. Note bem: ele não estava falando de obras de amor ao próximo. As obras de solidariedade são necessárias sim. Por isso Tiago escreveu: “Portanto, comete pecado a pessoa que sabe fazer o bem e não faz.” (Tiago 4:17, NTLH.) [7]. Como vimos nas palavras de Jesus sobre o dia do juízo, muitos perderão a salvação por causa do pecado da omissão. Nesse sentido, Tiago alerta ainda mais: “Quando Deus julgar, não terá misericórdia das pessoas que não tiveram misericórdia dos outros. Mas as pessoas que tiveram misericórdia dos outros não serão condenadas no Dia do Juízo Final.” (Tiago 2.13, NTLH.) [8].


 

 

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Descrição: Fé e obras de amor. Data: Agosto/2012. Autor: Maralvestos. Licença CC BY-SA.

 

 

E continua: “Meus irmãos, que adianta alguém dizer que tem fé se ela não vier acompanhada de ações? Será que essa fé pode salvá-lo? Por exemplo, pode haver irmãos ou irmãs que precisam de roupa e que não têm nada para comer. Se vocês não lhes dão o que eles precisam para viver, não adianta nada dizer: ‘Que Deus os abençoe! Vistam agasalhos e comam bem.’ Portanto, a fé é assim: se não vier acompanhada de ações, é coisa morta. Mas alguém poderá dizer: ‘Você tem fé, e eu tenho ações.’ E eu respondo: ‘Então me mostre como é possível ter fé sem que ela seja acompanhada de ações. Eu vou lhe mostrar a minha fé por meio das minhas ações.’ Você crê que há somente um Deus? Ótimo! Os demônios também crêem e tremem de medo.” (Tiago 2.14-19, NTLH.) [9].

 

 

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Descrição: Não mais a pobreza é um convite para cconciencia social. Data: 02/04/2001. Autor: Pablo Romero Ibáñez. Fonte e licença DP.

 

Não posso dizer que as igrejas não fazem nada na área assistencial. Somente a Igreja Católica, com mais de 16.000 dispensários em todo o mundo, milhares de hospitais, leprosários, asilos, orfanatos, etc., além de milhões de dólares gastos com vítimas de catástrofes e outros males, além de muitos outros projetos financiados prova que não está de braços cruzados. [10], [11]. Por outro lado, igrejas protestantes e evangélicas também têm feito o mesmo. Mas digo que ainda é muito pouco. Precisamos denunciar a ganância, as gastanças, os desperdícios, as vaidades, tudo que consome milhares de recursos humanos, materiais e financeiros, enquanto milhões ainda se encontram morrendo de fome, sem roupa, sem teto, sem educação...

 

 

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Descrição: A pobreza e as favelas em Kathmandu no Nepal. Data: 30/03/2012. Autor: Peter van der Sluijs. Fonte. Licença CC BY-SA.

 

 

Para que a igreja seja viva nessa área novamente, precisamos nos organizar em torno das obras de misericórdia. A igreja precisa de homens que possam administrar a ajuda aos famintos, desabrigados, sem roupas, doentes, nas enchentes, sob e sobre barrancos ameaçadores, sem água, sem educação, etc. Não podemos mais ver igrejas abarrotadas de gente dizendo Senhor, Senhor sem fazer o que Jesus mandou. Chega de cantores e pregadores que engordam suas contas bancárias com shows de músicas e retóricas, tentando alimentar as pessoas com canções e sermões hipócritas, enquanto muitos morrem nas garras da inanição, diante da farra eclesial dos fariseus modernos. Enquanto muitos fazem campanhas neopentecostais em busca de carro do ano ou carro importado, multidões não têm o dinheiro da condução. Enquanto alguns querem roupas de grife e calçados de marca top para irem aos cultos, muitos estão praticamente nus e descalços. Enquanto muitos querem mansões e hospedagem em hotel cinco estrelas, muitos têm apenas barracos, viadutos, marquises ou folhas de papelão. Enquanto muitos tremem de emoção diante da euforia dos cultos modernos, outros tremem de frio. Enquanto o povo molha, suado de tanto pular nos louvores e nos shows gospel, pessoas estão molhando no orvalho e na chuva.

 

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Descrição: Criança desnutrida na Somália. Data: 12/07/2011. Autor: DFID - UK Department for International Development. Fonte. Licença CC BY.

 

Não queremos calar os cantores nem os pregadores. Queremos que eles mudem a direção dos holofotes. Que aprendam a pregar temas verdadeiramente cristãos. Que preguem e cantem canções que mostrem a dor dos pobres, incentivando o povo a ajudar o próximo. Não somos do mundo. Mas como disseram Michael Jackson e Lionel Richie, na música feita para o projeto “USA for Africa”: We are the world.” “Nós somos o mundo. “Há pessoas morrendo. E é tempo de emprestar uma mão para a vida. Esse é o maior presente de todos. Nós não podemos continuar, fingindo todos os dias.”

 

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Descrição: Homem procurando alimento numa lata de lixo. Data: 11/08/2006. Autor: zorilla from London. Fonte. Licença CC BY.

 

 

Numa segunda-feira de manhã, um homem faminto, maltrapilho revirava o lixo de um hotel de luxo, colhendo os restos das iguarias desperdiçadas no congresso de pastores e obreiros do final de semana. Os religiosos comeram além da necessidade e tiveram a “gentileza” de deixar muita babujem nas mesas que agora estão nas mãos de mais um “lázaro” que, marginalizado, tem que contentar-se com os refugos.

 

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Descrição: Mulher procurando o seu sustento numa lata de lixo. S. Francisco, Califórnia, EUA. Data: 18/09/2006. Autor: Folini. Fonte. Licença CC BY-SA.

 

Oh Deus! Que saudade dos velhos tempos, quando tínhamos diáconos de verdade! Mas ainda é possível tê-los de volta.

Vamos ressuscitar aquela verdadeira idéia divina dos apóstolos. Chega de hipocrisia, de igrejas palcos, onde tudo acontece, enquanto pessoas morrem como Lázaro, doentes, na miséria, conseguindo apenas... migalhas.

Precisamos apoiar as pessoas e os projetos que visam ajudar o próximo. Precisamos escolher diáconos e diaconisas dentro do modelo original, para que tomem iniciativas nesse sentido. Há muitos projetos humanitários por ai, e cada núcleo de confraternização deve atuar, ajudando as pessoas carentes do seu grupo e os carentes de fora. O objetivo é socorrer quem realmente sofre privado de coisas realmente necessárias.

Chega de meras liturgias. Não podemos continuar, todos os dias, fingindo que somos cristãos.

Autor: Maralvestos Tovesmar. Este texto (não o site inteiro) está disponível nos termos da licença CC BY-NC-ND. Pode ser copiado e distribuído, informando o autor e o link seguinte, mas não pode ser modificado e nem comercializado. Data: 2013. Veja outras mensagens em http://livresdosfardosreligiosos.blogspot.com.br