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Preceitos religiosos

Livres dos Fardos Religiosos.

 

A Bíblia relata que Deus apareceu a Abraão quando ele tinha noventa e nove anos e deu para ele o seguinte mandamento:

 

 

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Desc.: Uma cena de circuncisão, Stuttgart, Stiftskirche. Data: 1495. Foto: Andreas Praefcke. Data: abril/2011. Fonte.  Licença CC BY.

“–– Você, Abraão, cumprirá o meu acordo, você e os seus descendentes, para sempre. Pelo acordo que estou fazendo com você e com os seus descendentes, todos os homens entre vocês deverão ser circuncidados. A circuncisão servirá como sinal do acordo que há entre mim e vocês. De hoje em diante vocês circundarão todos os meninos oito dias depois de nascidos e também os escravos que nascerem nas casas de vocês e os que forem comprados de estrangeiros. Tanto uns como outros deverão ser circuncidados, sem falta. Esse será o sinal que vai ficar nos seus corpos para mostrar que o meu acordo com vocês é para sempre. Quem não for circuncidado não poderá morar no meio de vocês, pois não respeitou o meu acordo.” [1].

 

Segundo esse relato do livro do Gênesis, Deus pediu que Abraão praticasse a circuncisão, que seria a retirada do prepúcio (pele da cabeça do pênis) seu e de todos os seus descendentes e escravos.

 

Como foi que Abraão ouviu de Deus esse mandamento estranho? Será que ele estava delirando, ou em estado de êxtase, ou sonhando, ou impressionado? Não sabemos e nem podemos julgar. Mas foi um preceito bastante bizarro, estranho.

 

Preceitos religiosos são regras, normas, prescrições, mandamentos de caráter religioso, como no caso de Abraão. [2]. Além da circuncisão (corte do prepúcio, a pele da cabeça do pênis, também conhecida como glande), encontramos vários preceitos curiosos entre as religiões como, por exemplo:

 

·       Ter hora marcada para certas atividades;

·       Praticar sexo apenas com a finalidade de procriar;

·       Realizar sacrifício de animais;

·       Fazer uma peregrinação a algum lugar sagrado, etc.

 

A preocupação dos líderes religiosos sempre foi criar mandamentos para que, através deles, as pessoas pudessem agradar a Deus. Alguns têm um bom sentido como: “não matar”, “não roubar”. Essas atitudes prejudicam os outros. Mas nem todos os preceitos apontam para atitudes realmente significativas, necessárias, coerentes, lógicas, sensatas. Por exemplo: o mandamento religioso que diz para a mulher nunca cortar os cabelos não faz sentido, pois cortar os cabelos não vai prejudicar ninguém e nunca cortá-los é o que realmente vai causar transtornos.

 

Na lei de Moisés, além dos Dez Mandamentos, encontramos centenas de preceitos. Dizem que ao todo são mais de 600 preceitos. No século XII, o rabino e filósofo judeu Maimônides elaborou uma lista de 613 preceitos da lei de Moisés. [3], [4], [5]. Isso quer dizer que não era fácil seguir a religião mosaica.

 

Na antiga Grécia, o filósofo Sócrates criou o conceito de Ética. A Ética procura analisar os preceitos morais para ver se eles realmente nos conduzem ao bem ou ao mal. [6], [7].  Através dela, podemos perceber que muitos preceitos são meras leis religiosas, que acabam nos escravizando e nos conduzindo para o mal e não para o bem. Ética e moral não são a mesma coisa. Nem todos os preceitos morais são mandamentos éticos. Pessoas de qualquer religião, igreja ou sistema filosófico sabem o que devem e o que não devem fazer. Muitos fazem o que não devem porque agem sem pensar, sem refletir, deixando de seguir o que está no íntimo da sua alma para seguir os seus instintos e meros preceitos morais.

 

Jesus usou a Ética. Ele não se preocupou com normas religiosas. Ele foi coerente e apontou para nós o que realmente é certo ou errado. Por exemplo: a lei de Moisés proibia, sob pena de morte, que as pessoas realizassem qualquer tarefa no dia de sábado. “Lembra-te do dia do sábado, para o santificar. Seis dias trabalharás e farás toda a tua obra, mas o sétimo dia é o sábado do SENHOR, teu Deus; não farás nenhuma obra, nem tu, nem o teu filho, nem a tua filha, nem o teu servo, nem a tua serva, nem o teu animal, nem o teu estrangeiro que está dentro das tuas portas. (Êxodo 20.8-10, RC.) [8]. “Seis dias se fará obra, porém o sétimo dia é o sábado do descanso, santo ao SENHOR; qualquer que no dia do sábado fizer obra, certamente morrerá.” (Êxodo 31.15, RC.) [9]. Mas Jesus, mesmo sendo dia de sábado, curou pessoas doentes. (Lucas 14.1-6; Mateus 129-13.) [10]. Demonstrou, com isso, violando um preceito rígido da lei de Moisés, que a prática da justiça, da bondade, do amor, da solidariedade é mais importante.

 

Ele foi diferente de muitos líderes religiosos. Ele não trouxe mandamentos relacionados com práticas religiosas absurdas e sem sentido, conservadas na tradição dos povos; não nos deu preceitos baseados em crendices; não nos deu normas relacionadas com nenhum sistema religioso; não forneceu nenhuma regra rígida para realizarmos rituais. Os seus mandamentos são relacionados com o nosso comportamento diante de Deus e diante das pessoas, sem aparatos religiosos. Nos evangelhos, observando os seus ensinos e os seus comportamentos, podemos ver que ele ensinou que devemos deixar de fazer tudo o que é mau e que devemos procurar fazer tudo o que é realmente bom.

 

Algumas coisas más que não devemos praticar: desrespeito, maldade, injustiça, egoísmo, ambição, avareza, luxúria, orgulho, inimizade, assassinatos, guerras, roubos, ódio, preconceito, discriminação, etc.

 

Algumas coisas boas que devemos praticar: amor, respeito, bondade, misericórdia, solidariedade, justiça, altruísmo, generosidade, simplicidade, humildade, amizade, perdão, reconciliação, etc.

 

Essas coisas podem estar escritas no papel, mas antes de tudo elas estão escritas em nosso coração. São princípios éticos. São a vontade de Deus dentro de nós. Mas muitos preceitos religiosos são meras leis dos homens escritas nos papéis.

 

Jesus disse que ainda tinha muita coisa para dizer, mas que seria demais para os seus discípulos naquele tempo. Porém, quando viesse o Espírito da Verdade, ele os guiaria em toda a verdade. “Ainda tenho muitas coisas para lhes dizer, mas vocês não poderiam suportar isso agora. Porém, quando o Espírito da verdade vier, ele ensinará toda a verdade a vocês. O Espírito não falará por si mesmo, mas dirá tudo o que ouviu e anunciará a vocês as coisas que estão para acontecer.” (João 16.12-13, NTLH.) [11]. Hoje, aquele que se libertou da religiosidade consegue entender o que realmente é certo ou errado. O Espírito de Deus, de uma forma inexplicável, nos mostra o que devemos e o que não devemos fazer.

 

Amar a Deus é obedecer aos seus mandamentos. E os seus mandamentos não são difíceis de obedecer. (I João 5.3). [12]. Ninguém precisa ficar debaixo de uma série de normas impostas pelos sistemas religiosos. Temos que seguir o que Cristo ensinou. Estamos mortos com ele quanto aos rudimentos do mundo. Não precisamos de ordenanças, como se vivêssemos no mundo, tais como: Não toques, não proves, não manuseies. (Colossenses 2.20-21). [13]. O evangelho de Jesus não é uma coletânea de mandamentos sem sentido e absurdos: são ensinos baseados no bom senso e na ética.

 

Os primeiros cristãos viveram uma vida cristã mais voltada para os ensinos de Cristo, sem aparatos religiosos. Mas aos poucos, o cristianismo foi tornando-se um sistema religioso. Surgiram preceitos instituídos pelos líderes mais influentes. Hoje, muitos se consideram cristãos cumprindo um monte de regulamentos que nada têm a ver com o verdadeiro evangelho.

 

·       No ano 49 ou 50 da era cristã, acontece o primeiro concílio cristão, o Concílio de Jerusalém, para resolver a seguinte polêmica: se os diversos povos ao se converterem ao cristianismo teriam que seguir algumas das práticas da Lei de Moisés, como a circuncisão, por exemplo. A decisão foi não impor mais encargo algum, senão estas coisas necessárias: Não comer carne de nenhum animal que tenha sido ofertado em sacrifício aos ídolos; não comer o sangue e a carne de nenhum animal que tenha sido estrangulado e não praticar a prostituição. (Atos 15.) [14].

 

·       Entre o I e o II século da era cristã, surge o Didaquê (Instrução dos Doze Apóstolos) falando de instrução moral, da liturgia, da disciplina e dos ofícios eclesiásticos, além de uma exortação sobre a volta de Jesus e a ressurreição dos mortos. Nele encontramos a imposição de jejuns. [15], [16].

 

·       No século III, Calisto I teria adotado o jejum das quatro têmporas numa semana de cada estação do ano. [17], [18].

 

·       No início do século IV, o Concílio de Elvira, na Espanha, ordena o celibato para os clérigos, medida oficializada posteriormente para toda a igreja. [19].  O cânon 33 do Concílio de Elvira diz: "Determinou-se unanimemente estabelecer a proibição de que os bispos, os sacerdotes e os diáconos, isto é, todos os clérigos constituídos no ministério, se abstenham de esposas, e não gerem filhos: e, aquele, quem for que seja, que o tenha feito seja declarado decaído da honra da clericatura" (Mansi, T. 3, col 11). [20].

 

·       Nesse mesmo século, surgiu a obrigação de assistir à missa aos domingos e dias santos, receber os sacramentos e de se abster de casamento em determinadas épocas do ano. [21].

 

·       No século IV, o Concílio de Nicéia, no Cânon v, demonstrou que a Quaresma, um período de jejum e penitência, já existia como um preceito da Igreja. [22]. O jejum e a abstinência de carne foram mais tarde transformados em mandamentos da igreja, embora restringidos apenas à Quarta-feira de Cinzas e à Sexta-feira Santa. O Cânon 1251 do Código de Direito Canônico diz: “A abstinência de carne, ou de algum outro alimento como determinado pela Conferência Episcopal, deve ser observado em todas as sextas-feiras, a menos que uma solenidade deve cair em uma sexta-feira. Jejum e abstinência devem ser observadas na Quarta Feira de Cinzas e Sexta-feira Santa.[23].

 

·      No século VI, as doações voluntárias com fins caritativos praticadas nos primórdios do cristianismo são transformadas em dízimo em forma de dinheiro. A prática do dízimo passa a ser um mandamento da igreja. [24]. Mais tarde esse mandamento foi modificado pela Igreja Católica ficando assim definido: “Atender às necessidades materiais da Igreja, cada qual segundo as próprias possibilidades.” [25]. Mas a maioria dos evangélicos ainda continuou praticando o dízimo como um preceito.

 

·       No século XII, em 1123 o Primeiro Concílio de Latrão proíbe sacerdotes , diáconos , subdiáconos e monges de se casarem ou terem concubinas. [26].

 

·       No início do século XIII, em 1215, o IV Concílio de Latrão estabelece o quincálogo, contendo os cinco mandamentos da igreja, que diz que todo cristão é obrigado a praticar a confissão e a páscoa anuais, guardar domingos e dias santos, ir à missa nesses dias, jejuar e abster-se de carnes em dias determinados pela igreja e pagar dízimos. [27]. A partir de então, durante a quaresma, os padres tiveram que visitar as regiões mais afastadas, onde não havia a presença do clero, para ministrar a confissão e a comunhão exigidas pela igreja. Essas visitas são chamadas de desobrigas. [28], [29].

 

·       Depois da reforma no século XV, muitas igrejas novas aparecem com novos preceitos meramente humanos como, por exemplo:

 

·       Mulheres não cortarem os cabelos;

·       Homens terem que cortar os cabelos bem curtos e não poderem usar bigode e costeletas;

·       Mulheres não poderem fazer uso de maquiagem, nem se adornarem com jóias e bijuterias;

·       Mulheres terem que usar saias compridas. (Alguns exigem que sejam a partir dos tornozelos.)

 

Há muitos outros preceitos meramente humanos e sem sentido nas igrejas. Muitos acabaram virando tradição. Mesmo estando fora dos ensinos de Cristo, existem por ai, entre as diversas igrejas institucionalizadas. Muitas pessoas gostam de se exibir, tentando mostrar para os outros que são santas porque praticam certos preceitos e acabam praticando santimônias, que são modos ou aparências de santo. São as exterioridades, os sinais exteriores que as pessoas costumam mostrar, procurando causar uma boa impressão ou uma atraente fachada religiosa. Há também muita hipocrisia. Alguns proíbem as mulheres de usar roupas coloridas, adereços (adornos) alegando que são vaidades. Mas eles mesmos estão carregados de orgulho e ostentação, vestidos com seus finos paletós e gravatas, achando que são melhores por causa disso.

 

Toda pessoa é livre para criar uma organização religiosa com certas normas. Também toda pessoa é livre para ser ou não membro dessa ou daquela organização religiosa ou não ser membro de nenhuma delas. Caso ela se torne membro de alguma, ela terá que se submeter aos seus regulamentos. Todavia, para Deus esses regulamentos não têm sentido. A pessoa pode ser de Deus independente de qualquer norma religiosa imposta por seres humanos.

 

Não queremos desmoralizar nenhum preceito religioso existente. Apenas queremos dizer que podemos ser cristãos independentes de qualquer lei religiosa humana. Nada é, na sua essência, bom ou ruim. Para uma coisa ser boa ou ruim, ela depende do propósito, do tempo, do lugar ou da pessoa, da medida e do modo como ela é feita. Por isso, não estamos impondo nenhum preceito para as pessoas. Cada um deve usar o bom senso antes de realizar qualquer coisa. Devemos, pois, deixar de fazer tudo aquilo que causa danos a nós, aos outros e ao meio ambiente; e devemos fazer tudo o que é bom para nós, para os outros e para o meio ambiente. Precisa haver uma harmonia entre essas três partes. Uma coisa pode ser boa para mim e ruim para os outros. Nesse caso não devo praticar o que pretendo. Pode ser bom para mim e para os outros, mas se não for bom para o meio ambiente, então, não devo praticar o que desejo. Tudo isso não tem nada a ver com nenhuma organização religiosa. Devemos fazer as coisas certas, não por causa de uma religião, mas para o nosso próprio bem. Por isso não temos nenhuma lista de normas religiosas. Cada pessoa tem a responsabilidade de administrar a sua vida, procurando agir sempre com bom senso.

 

Não se esqueça dessas palavras de Jesus: “Os deveres que eu exijo de vocês são fáceis, e a carga que eu ponho sobre vocês é leve.” (Mateus 11:30, NTLH.) [30]. “Fostes comprados por bom preço; não vos façais servos dos homens.”  (1 Coríntios 7:23, RC.) [31]  Liberte-se dos meros preceitos dos homens que não têm nada a ver com a ética.

 

Autor: Maralvestos Tovesmar. Este texto (não o site inteiro) está disponível nos termos da licença CC BY-NC-ND. Pode ser copiado e distribuído, informando o autor e o link seguinte, mas não pode ser modificado e nem comercializado. Data: 2013. Veja outras mensagens em http://livresdosfardosreligiosos.blogspot.com.br



[1] Gênesis 17.1-14. Os versículos 9 a 14 estão na NTLH. Ver New King James Version