Organizações religiosas

Livres dos Fardos Religiosos.

 

Na vida secular, as pessoas veneram artistas e seu time de futebol, livremente ou através de fãs clubes e torcidas organizadas. Mas quando se trata do evangelho, muitos insistem em dizer que é preciso estar dentro de uma organização religiosa chamada de Igreja. Os supostos donos da verdade não querem ver seguidores livres. E assim, nas ruas, no rádio, na televisão, na Internet, por todos os lados, usando todos os recursos possíveis, disputam a conquista de adeptos para encherem seus currais eclesiásticos de ovelhas doentes que, na maioria das vezes, continuam ou ficam ainda mais doentes.

 

As pessoas estão acreditando que estão em comunhão umas com as outras só porque estão juntas numa mesma denominação, com o mesmo pastor, no mesmo endereço, celebrando juntos a mesma liturgia. Entretanto, a maioria está reunida, mas desunida.  Secularmente, as pessoas falam sobre as novelas, os artistas, os reality shows, a política, a economia... No entanto, a maioria daqueles que se dizem cristãos, ao invés de compartilharem o evangelho uns com as outros, no dia a dia, em qualquer lugar, gastam o tempo falando mal uns dos outros, conversam coisas desagradáveis, não ensinam, não exortam, não aceitam críticas, não gostam de serem aconselhados, não ajudam os outros e fazem um monte de coisas estranhas ao evangelho. Depois vão para a igreja e fingem estar em comunhão uns com os outros. Acham que são um só corpo e um só coração, têm Deus e salvação apenas porque fazem parte de uma só Organização religiosa chamada de igreja ou comunidade, ou church.

 

 

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Desc.: Cúpula da Basílica de São Pedro. Data: Janeiro/2006. Autor: MarkusMark. Fonte. Licença CC BY-SA. 

Organização religiosa é uma associação ou instituição ligada aos assuntos religiosos. Pode também ser chamada de sistema religioso, religião ou igreja institucionalizada, religião ou igreja jurídica.

 

No passado, não havia esse tipo de organização. Muitos líderes criaram teocracias para dominarem as pessoas. Com o fim de muitos estados teocráticos, muitos líderes resolveram criar organizações religiosas que pudessem estar presentes em vários lugares.

 

Jesus Cristo não fundou um estado teocrático e nenhuma organização cristã. Lendo os evangelhos, podemos perceber que ele disse para as pessoas deixarem os seus erros, mudarem de vida, praticarem a fé, o amor, a justiça, a bondade, a paz e outras virtudes e deixarem de lado tudo que é mal e que possa causar danos. Ele não criou um sistema religioso. Simplesmente propôs uma nova maneira de viver em liberdade com Deus.

 

Muitos pregadores dizem, equivocadamente, que o evangelho de Cristo não é uma religião. Na verdade ele é uma religião sim, porque procura ligar o ser humano em Deus. A palavra religião, tradução da palavra latina religio, derivou-se de outra palavra latina, religare, que quer dizer religar ou ligar novamente. As mensagens de Jesus ajudam o ser humano se aproximar de Deus. Então o seu evangelho pode ser chamado de religião. Mas o que muitos estão tentando dizer, e eu concordo, é que ele não é uma organização ou instituição religiosa. Vamos dar um passeio na história.

 

·       Discípulos. Esse é o termo bíblico mais usado no Novo Testamento para descrever quem age de acordo com o que Cristo ensinou. Aparece cerca de 230 vezes e indica aquele que recebe e segue as orientações do Mestre. [1]. Várias vezes ele disse para as pessoas: “Segue-me”. [2]. Com esse convite, ele não estava dizendo apenas para sair andando com ele, mas para viver de acordo com os seus ensinamentos de justiça, perdão, amor, solidariedade, etc. Em lugar nenhum, ele convidou as pessoas para fazerem parte de uma instituição religiosa. Ele tinha apenas o evangelho. Não era cabeça de nenhum sistema religioso, mas o mestre de uma mensagem totalmente nova.

 

·       Igreja. Essa é a palavra usada no Novo Testamento para indicar os grupos de discípulos de Jesus. Podemos dizer que o coletivo de discípulos de Cristo é igreja. Sendo assim, dois ou mais discípulos = igreja, não importa quantos, onde e quando. Em nenhum lugar, das mais de setenta vezes em que aparece no Novo Testamento, essa palavra tem o significado de igreja como uma instituição. O termo igreja vem da palavra grega enkklesía e do latim ecclesia e significa, simplesmente, do ponto de vista cristão, um grupo de seguidores dos ensinos de Jesus. [3], [4]. Qualquer outro significado surgiu com o tempo e não tem nada a ver com a idéia original. Portanto, você é igreja, a partir do momento em que passa a fazer parte do grupo de pessoas do mundo inteiro que seguem o que Cristo ensinou, estando dentro ou fora das instituições. A igreja organizada passa ser apenas uma opção, não uma obrigação.

 

·       Nazarenos. Para os judeus, os seguidores de Jesus era uma nova seita. Então eles foram chamados de nazarenos, lembrando que Jesus era de Nazaré. [5], [6]. É claro que nazareno era um termo meio pejorativo. Também não tinha nada a ver com organização religiosa.

 

·       Cristãos. Em Antioquia, os discípulos de Jesus, pela primeira vez, foram chamados de cristãos. [7]. Todos os que criam em Jesus, a partir de então, passaram a ser chamados com esse nome. Mais uma palavra que não tem nada a ver com uma denominação religiosa organizada. Foi, e ainda é, apenas um adjetivo para indicar quem segue os ensinos de Jesus Cristo.

 

·       Católicos. Com o tempo, vários teólogos começaram a criar doutrinas variadas. Por todos os lados, surgiram grupos com pensamentos e costumes diferentes uns dos outros. Por exemplo:

 

·       Ainda no século I, os ebionitas defendiam a idéia de que tanto judeus como não judeus convertidos ao evangelho de Jesus deviam seguir os mandamentos e as práticas da lei de Moisés, como a circuncisão, por exemplo. [8]. Os defensores do subordinacionismo sustentavam a doutrina que afirmava que Jesus estava subordinado a Deus e submetido à sua vontade. Ele era um enviado de Deus ao mundo. [9]. Os nicolaítas comiam alimentos sacrificados aos ídolos e se entregavam às carnalidades. [10]. Os seguidores do gnosticismo pregavam uma filosofia religiosa carregada de sincretismo, contendo elementos da astrologia, dos mistérios da religião grega, do zoroastrismo, do hermetismo, do judaísmo e do cristianismo.[11]. Adeptos do ofitismo pregavam a crença de que Jeová era um deus mal e que a serpente do Éden, que teria tentado Eva, seria inimiga desse deus do mal. Por isso, eles a reverenciavam. [12].

 

·       No século II, os montanistas anunciavam o fim do mundo ainda naqueles dias. Defendiam práticas ascéticas como celibato e jejum e uma rígida disciplina moral. [13]. Os docetistas ensinavam que o corpo de Jesus Cristo não era verdadeiro, mas uma ilusão, e que sua crucificação teria sido apenas aparente. [14], [15]. Os marcionitas ensinavam que o Deus do Antigo Testamento era um deus inferior e mal, diferente do Pai revelado por Jesus, que é superior e bom. Por isso, rejeitaram o Antigo Testamento, aceitando apenas o Evangelho de Lucas e as cartas de Paulo. Defendiam o batismo pelos mortos e uma vida de puro ascetismo para libertar-se do poder do mundo. [16], [17]. Os cainitas veneravam Caim. [18], [19]. Os seguidores do adocionismo ensinavam que Jesus não era Deus, mas que foi adotado por Deus e se tornou um ser divino. Defendiam a unidade absoluta de Deus e discordavam da doutrina da Trindade. [20], [21]. E os que pregavam o monarquianismo dinâmico sustentavam a unidade absoluta de Deus, discordando da doutrina da Trindade que já começava se manifestar. [22], [23]. Além desses grupos, ainda existiram, nessa época, outros menos expressivos como: os seguidores de Basílides, os peráticos, os frígios, os encratistas e os hematistas. [24].

 

·       No século III, os modalistas diziam que Deus Pai, Deus Filho e Deus Espírito Santo não eram três pessoas e uma única essência, como ensinavam os trinitários (defensores da doutrina da Santíssima Trindade). Para ele era apenas uma pessoa, um Deus, manifestado de três modos. [25]. Os maniqueístas eram um novo tipo de gnosticismo, sincretizando elementos do zoroastrismo, do hinduísmo, do budismo, do judaísmo e do cristianismo. Pregavam o dualismo entre o bem e o mal e a necessidade da libertação através da gnose (conhecimento). Foi difundido desde a Índia até o norte da África. [26], [27]. Os seguidores do novacianismo diziam que quem cometia pecado depois de ter sido batizado, não merecia mais o perdão. Defendiam uma rígida moral como os montanistas. Procuravam rebatizar as pessoas batizadas pelo clero romano. [28], [29], [30], [31]. E a turma do arianismo considerava Cristo como uma divindade menor de natureza intermediária entre o Pai e a humanidade e que estava subordinado ao Pai. [32], [33].

 

Como podemos ver, a cristandade ficou toda dividida com grupos isolados por todos os lados, do Oriente à Europa, incluindo o norte da África. Mas em toda essa grande região, havia um grupo maior, que era considerado por ele mesmo como o mais ortodoxo e defensor da doutrina pura de Cristo. Estando ele presente em todos os lugares, e não isolados como os demais, então foram chamados de católicos, isto é, universais. Isso dava a idéia de um cristianismo amplo ou abrangente, e não isolado como uma seita. Então, para diferenciarem os supostos cristãos verdadeiros espalhados por todos os lados dos cristãos falsos e dos supostamente falsos, foi criada a expressão igreja católica. [34]. Essa palavra católica, do grego katholikos, significa universal. Isso tinha um grande significado. Primeiro que a igreja de Cristo não era uma teocracia ou uma nação como o reino de Israel, mas o reino de Deus para todo o mundo, incluindo todas as línguas, tribos e nações. Segundo que não era grupos isolados de seitas. Quem não era do grupo dos católicos era considerado um herege, judeu ou pagão. [35].

 

 

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Descrição: Os primeiros adjetivos ligados ao cristianismo. Data: Fevereiro/2013. Autor: Maralvestos. Licença CC BY-SA.

 

 

Vários escritores usaram essa expressão para identificar esse grupo. Inácio, bispo de Antioquia, no final do século I, relatou o seguinte: “Onde quer que se apresente o bispo, ali esteja também a comunidade, assim como a presença de Cristo Jesus nos assegura a presença da igreja católica” (Aos Esmirnenses 8,2.) [36]. Clemente de Alexandria, no século II, mostrou como as pessoas podiam distinguir a verdadeira igreja no meio de tantas divergências doutrinárias em nome de Jesus: “Não só pela essência, mas também pela opinião, pelo princípio pela excelência, só há uma igreja antiga e é a igreja católica. Das heresias, umas se chamam pelo nome de um homem, como as que são chamadas por Valentino, Marcião e Basílides; outras, pelo lugar donde vieram, como os Peráticos; outras do povo, como a heresia dos Frígios; outras, de alguma operação, como os Encratistas; outras, de seus próprios ensinos, como os Docetas e Hematistas“. (Stromata VII, 17.). [37].

 

Preste a atenção: os termos discípulos, igreja, nazarenos, cristãos e católicos, evidentemente, não eram nomes de nenhuma organização religiosa baseada nos ensinos de Jesus Cristo. Eram apenas adjetivos ou cognomes para indicar os seguidores do Mestre. Mas pouco a pouco, assim como o nome cristão tinha perdido o seu sentido, da mesma forma, o nome católico também perdeu o sentido original. Depois da segunda metade do século II, muitos que julgavam ser católicos, na verdade estavam bem longe daquilo que Jesus realmente havia ensinado. Se esse grupo não tivesse se desviado também, poderíamos dizer que o catolicismo é o grupo representante do verdadeiro evangelho. Mas como se desviou intensamente, o nome católico se transformou num mero substantivo próprio de um grupo e não tem mais o sentido que tinha no princípio. Hoje, quando uma pessoa se diz cristã ou católica, nada disso significa coisa alguma em termos de evangelho original. São meras denominações religiosas.

 

Não estou dizendo isso para ofender nenhum católico. Qualquer um tem a plena liberdade de ser dessa igreja histórica. Você, que é católico, pode continuar aqui sem nenhum problema. Você não tem culpa disso. Você tem o direito de conhecer as verdades escondidas nas páginas da história eclesiástica. Apenas quero mostrar quão diferentes foram os ensinos originais de Jesus em relação a tantas coisas que se vêem por ai. Não podemos dizer que não existem verdadeiros cristãos no seio da Igreja Católica. Não posso julgá-los. Certamente existem muitas pessoas bem melhores do que eu por lá. É Deus quem julgará com justiça cada um, segundo as suas obras e segundo o seu entendimento. Apenas estou tentando dizer que muitas coisas que são ensinadas e praticadas nas diversas igrejas não foram determinadas por Jesus. Deus certamente entenderá a nossa ignorância, as nossas limitações, o nosso temor de deixar certas crenças e costumes, “mas Deus, não tendo em conta os tempos da ignorância, anuncia agora a todos os homens, em todo lugar, que se arrependam.” (Atos 17.30.) [38].

 

A partir da segunda metade do século II, alguns bispos do grupo dos católicos de três importantes cidades do Império Romano se tornaram superiores aos demais. Essas cidades eram: Antioquia (Síria), Alexandria (Egito) e Roma. Os bispos dessas cidades foram chamados de patriarcas. [39], [40], [41]. Quem obedecia ao que eles diziam eram considerado católico. Os outros grupos eram tratados como hereges. Mas o problema é que esses, que se diziam católicos, a partir dessa época, também já tinham se desviado do verdadeiro evangelho de Jesus e também já mereciam o título de herege. Mas eles tinham influência sobre os demais bispos. Nos concílios ou sínodos presididos por eles, o que era considerado heresia era condenado. O que era considerado verdadeiro, mesmo não sendo, tinha que ser aceito por todos. [42]. Foi assim que muitas heresias foram se infiltrando na igreja, afastando os cristãos do evangelho original de Jesus. Isso aconteceu porque eles já estavam bem organizados. A partir dessa época, podemos dizer que já nascia uma organização religiosa com o nome de Igreja Católica. O termo católica deixava de ser um mero adjetivo para se tornar um substantivo próprio.

 

 

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Desc.: Mapa do Império Romano e da primeira organização religiosa a usar o nome de Cristo, a Igreja Católica. Data: fevereiro/2012. Autor: Maralvestos. Derivada da obra de Angelus. Licença CC BY-SA.

No início do século IV, em 313, o imperador romano Constantino apoiou o cristianismo, assinando o Edito de Milão. [43], [44]. No fim desse século, em 380, através do Edito de Tessalônica, o imperador Teodósio I fez do cristianismo a religião oficial do império. [45]. Esse grupo, que já era o mais forte, ficou ainda mais fortalecido com o apoio do Império Romano. Antes, vários imperadores tinham perseguido a igreja, mas agora ela tinha liberdade e mais do que isso: estava sendo apoiada. Nessa mesma época, foram criados os patriarcados de Constantinopla e de Jerusalém, enquanto o bispado de Roma se fortalecia, até virar a sede mundial do catolicismo. [46], [47], [48], [49], [50].

 

Uma organização religiosa não vive apenas de meras crenças espirituais intangíveis, mas também de crenças materiais, símbolos, dinheiro, patrimônios, hierarquias e muito mais. Tudo isso aconteceu com a Igreja Católica, agora entendida, não como uma expressão adjetiva, mas como um substantivo próprio. Então foram construídas as basílicas, que serviram de templos. Foi formada uma hierarquia incluindo diáconos, presbíteros, bispos, patriarcas e o papa. Esses passaram a receber salários. Desenvolveu-se uma liturgia carregada de formalidades, assim como acontecia na corte romana. Os líderes da Igreja passaram a ser vistos como sacerdotes e começaram a vestir roupas diferentes. Receberam títulos de honra e reverências semelhantes às reverências concedidas aos oficiais romanos. Para controlar toda essa máquina eclesiástica, leis inspiradas nos códigos romanos foram criadas pouco a pouco. (Esses detalhes serão vistos em outras mensagens, separadamente.)

 

Essa ala do cristianismo, chamada de Igreja Católica, apesar dos desvios, acabou se consolidando com o apoio do império e conseguiu evitar a proliferação das outras doutrinas diferentes das suas. Dessa forma, o verdadeiro evangelho de Jesus ficou ofuscado diante da esplendorosa e imperial Igreja Católica Romana que, com um autoritarismo que Cristo nunca aprovou, sempre alegou ser a única e legítima representante do Mestre na terra. Assim foi fundada a primeira instituição religiosa a usar o nome e Jesus Cristo como pano de fundo. Uma verdadeira contradição diante do evangelho original. Não era mais possível voltar ao evangelho puro, pois essa igreja organizada, totalmente consolidada, ao lado do Império Romano, tinha força e total liberdade para impedir o desenvolvimento de outras crenças e religiões. Vários grupos tentaram enfrentar a fúria romana, mas não tiveram muito êxito. Dentre eles, podemos citar:

 

·       Donatismo. No século IV, em Cartago, norte da África, o bispo Donato criou uma seita que ficou conhecida como donatismo. Eram rigorosos e diziam que os sacramentos administrados por certas pessoas não tinham nenhuma validade. Por causa disso, muitas pessoas deveriam ser rebatizadas. [51].

 

·       Priscilianismo.  No final do século IV, na Península Ibérica (Espanha) que na época era uma província romana, o bispo Prisciliano criou um movimento religioso com práticas e doutrinas diferentes. Ele não aceitava o dogma da Trindade e fora acusado de práticas religiosas estranhas, ascetismo rigoroso e doutrinas ligadas ao gnosticismo e ao maniqueísmo. A sua doutrina foi condenada no concílio de Saragoça, na Espanha, e ele recebeu a pena de morte, juntos com alguns de seus seguidores. [52].

 

·       Apolinarismo. O bispo Apolinário de Laodicéia, também no final do século IV, ensinava que Jesus tinha um corpo humano, mas uma mente exclusivamente divina, contrariando a crença católica que dizia que Jesus era totalmente homem e totalmente Deus. Provocaram um cisma, mas foi condenado em 381, no sínodo de Constantinopla. [53].

 

·       Nestorianismo. O bispo Nestório de Constantinopla dizia que em Cristo há duas naturezas: a divina e a humana. Afirmava que essas duas naturezas, embora presentes numa única pessoa, eram totalmente distintas. Dessa forma, Maria era apenas mãe da natureza humana de Jesus e não podia ser chamada de Mãe de Deus. Mas a maioria acreditava que Cristo tinha as duas naturezas juntas. Essa doutrina foi condenada no Concílio de Éfeso, em 431 e no II Concílio de Constantinopla, em 553. O papa Celestino excomungou e depôs Nestório. Assim surgiu o cisma que deu origem à igreja nestoriana. [54].

 

·       Igrejas não calcedonianas. O Concílio de Calcedônia decidiu depor e desterrar o patriarca de Alexandria, no Egito, que defendia o monofisismo, doutrina que dizia que Cristo possuía apenas a natureza divina. Não possuía a natureza humana e a divina juntas, segundo a crença da maioria. Dessa forma, houve outro cisma, e surgiram as igrejas não calcedonianas, aquelas que rejeitaram as decisões do Concílio de Calcedônia sobre as duas naturezas de Cristo. [55], [56].

 

Os três primeiros grupos foram eliminados, mas os dois últimos, embora sem muita força, prevaleceram como novas organizações religiosas dentro do cristianismo.

 

·       Igreja Ortodoxa. Em 1054, rivalidades entre o patriarca de Constantinopla e o papa em Roma acabaram provocando mais um cisma, fazendo surgir outra grande organização religiosa: a Igreja Ortodoxa, que não pôde ser vencida pela fúria romana. [57], [58], [59].

 

 

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Descrição: A igreja, o corpo de Cristo, foi dilacerada pelas doutrinas estranhas ao evangelho original. Data: Fevereiro/2013. Autor: Maralvestos. Licença CC BY-SA.

·       Igrejas ou organizações religiosas protestantes. No século XVI, aconteceu a Reforma, e muitos puderam se livrar do domínio de Roma. Surgiram a Igreja Luterana, a Igreja Anglicana, a Presbiteriana, os anabatistas dentre outras. [60], [61], [62], [63], [64]. Com a liberdade religiosa conquistada, nos séculos seguintes, muitas outras denominações foram fundadas, onde os adjetivos cristã, pentecostal, evangélica, apostólica são bastante utilizados. Surgiram milhares de igrejas jurídicas espalhadas pelo mundo, cada uma querendo ser a dona da verdade pura. Segundo o Boletim Internacional de Pesquisa Missionária, preparado por David Barrett, no século XIX, eram 1900 denominações cristãs e no século XX alcançou a marca de cerca de 35.500. [65]. (35 mil denominações cristãs. Será isso mesmo?!) Todos esses grupos, por causa do desvio do evangelho original, do acumulo de bens materiais, da arrecadação financeira e dos serviços litúrgicos, foram, por tudo isso, obrigados por lei, a se transformarem em organizações religiosas legalmente registradas com estatuto próprio. Apesar de tantas reformas, todas essas organizações cristãs formam um complexo sistema religioso bem distante do verdadeiro evangelho, fazendo o corpo de Cristo, a igreja, ser doente, dilacerado, sem o sabor da verdadeira graça, sem o remédio da verdade pura, longe da perfeita liberdade.

 

O cristianismo se tornou confuso entre as inúmeras igrejas que surgiram e surgem a cada dia, disputando espaço umas com as outras, como se fossem empresas prestadoras de serviços para o reino de Deus. Pastores, como se fossem executivos ou empresários, fazem proselitismo propagando suas logomarcas eclesiásticas, usam estratégias de marketing e se corrompem. Seminários, workshops, comerciais, vendas de produtos e serviços, compra de terrenos, construção de empresas, aquisição de fazendas, automóveis e aviões, tudo compõe uma igreja materialista, formando reinos religiosos mundanos, se esquecendo que o reino de Deus não é desse mundo.  Dessa forma, as pessoas acabam abraçando um evangelho diferente, onde muitas vezes se tornam escravas de sistemas religiosos e vivem dominadas por dogmas, leis, rituais, formalidades, crendices, misticismos, explorações, modismos e outras coisas.  Trocam o fardo pesado do mundo por outro fardo às vezes até mais pesado. E assim, muitos passam a ter nojo de Cristo, e alguns até viram ateus, decepcionados com o sistema religioso eclesiástico cada vez mais próspero, mas cada vez mais distante da simplicidade do Cristo da Galiléia.

 

Muitos pregadores têm anunciado um evangelho vinculado às suas organizações. Uns agem bem intencionados e usam as suas organizações para ajudarem as pessoas. Mas outros simplesmente são oportunistas e gananciosos e criam organizações para explorarem os outros. Muitos pastores dizem que o cristão não pode viver isoladamente, por isso precisa se filiar a uma igreja organizada. Uma igreja desse tipo reúne as pessoas, mas nem sempre as une. Tem igrejas abarrotadas de membros totalmente desligados uns dos outros. A união tem que brotar dentro de nós, independe de qualquer placa de igreja. É o amor que nos une. Não são as placas de igrejas.

 

As pessoas, no passado, eram ameaçadas psicológica e fisicamente para não deixarem o catolicismo. [66]. Ainda hoje, as pessoas são ameaçadas psicologicamente com a perdição eterna caso não sejam membros de uma instituição dita cristã. E aquele que tenta viver e pregar o evangelho sem vínculos com qualquer grupo organizado é tratado como herege, perseguidor da igreja, servo do diabo, desviado ou coisas parecidas. Torna-se vítima do preconceito eclesiástico simplesmente porque não quis ser membro de uma igreja institucionalizada. Pode produzir os melhores frutos, mas senão está dentro de uma igreja jurídica, é tratado como um pecador perdido no mundo. E o que está lá dentro, mesmo produzindo os piores frutos, é considerado uma pessoa de Deus, com direito de ser chamado de irmão e receber o abraço fraterno e a calorosa saudação: “a paz do Senhor”.

 

Não é proibido criar uma associação cristã e colocar nela este ou aquele nome. Ninguém deve ser impedido de criar uma organização religiosa, desde que seja uma organização que respeite os outros e o meio ambiente. Por outro lado, ninguém deve ser constrangido a participar de nenhum sistema religioso. O artigo XVIII da Declaração Universal dos Direitos Humanos diz: “Toda pessoa tem direito à liberdade de pensamento, consciência e religião; este direito inclui a liberdade de mudar de religião ou crença e a liberdade de manifestar essa religião ou crença, pelo ensino, pela prática, pelo culto e pela observância, isolada ou coletivamente, em público ou em particular.” [67], [68], [69].

 

Você é livre para formar ou fazer parte de qualquer organização religiosa. Mas precisa saber que para se aproximar de Deus não depende de nenhuma delas. Deus não é propriedade particular de ninguém. Ninguém tem propriedade exclusiva de nenhuma verdade cristã. Ninguém foi contratado para prestar serviços ao reino de Deus dessa forma. Por isso, fazendo ou não parte de um sistema religioso, você pode estar com Deus. Para ser cidadão inscrito no reino de Deus não é necessário estar com o nome registrado no cadastro de membros de alguma organização. A carteirinha de membro de alguma instituição religiosa não serve como passaporte para a vida eterna. A Igreja Católica e outras instituições podem continuar existindo. No entanto defendemos a liberdade de podermos ser cristãos sem a interferência de qualquer sistema religioso.

 

 

 

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Descrição: Precisamos voltar ao primeiro amor. Data: Fevereiro/2013. Autor: Maralvestos. Licença CC BY-SA.

 

 

Não podemos pregar um evangelho estranho que diz que para ser cristã a pessoa tem que se tornar membro de alguma igreja institucionalizada. Se uma pessoa não se adapta nessa ou naquela igreja, isso não quer dizer que ela não pode ser discípula de Jesus e que está perdida. Temos que parar com esse preconceito.

 

Uma igreja institucionalizada pode ajudar as pessoas ou pode atrapalhá-las. Não podemos julgar as pessoas pelo fato de estar ou não filiada a uma igreja dessa natureza. Todo indivíduo que segue os ensinos de Cristo é cristão, automaticamente faz parte da sua igreja, independente de ser ou não membro de uma igreja juridicamente formada. A verdadeira igreja é o organismo vivo de pessoas libertas por Cristo, independente de qualquer logomarca religiosa. O cristianismo tem que ser uma novidade de vida e não uma mera instituição.

 

Precisamos mostrar para todos que podemos ter Deus sem depender de qualquer sistema religioso. Todos precisam saber que para seguir o evangelho simples e original de Jesus não é necessário estar ligado a nenhuma placa religiosa. Mas precisamos fazer isso sem sectarismo, sem intolerância, sem preconceito, ódio, disputa... Não podemos desrespeitar religião alguma. Mas temos o direito de mostrar que o evangelho de Jesus independe de qualquer sistema religioso. Por isso, estou aqui, não como dono de um império eclesiástico, querendo dominar a sua vida. Estou apenas orientado as pessoas no caminho do bem, mostrando para todos a verdade que liberta. Podemos seguir o que Cristo ensinou independente de igreja jurídica, de templos, de equipamentos, de dinheiro, de liturgias barulhentas e de grandes grupos reunidos. O evangelho pode e deve ser vivido no dia a dia, independente de locais reservados. Não é uma espécie de clube religioso, fã-clube de Jesus ou torcida organizada de Deus. É um estilo de vida diário. Um relacionamento pessoal constante com Deus, onde ficamos ligados uns nos outros através do Espírito de Deus e não por meio de quatro paredes, logomarcas, pastor, denominação ou coisas parecidas. Não importa se cada um tem formas variadas de pensamento. Ninguém vai conseguir a façanha de criar um grupo totalmente unificado na doutrina. O que nos une é amor, a fé, a esperança... Pelo amor de Deus, voltemos ao primeiro amor.

 

Autor: Maralvestos Tovesmar. Este texto (não o site inteiro) está disponível nos termos da licença CC BY-NC-ND. Pode ser copiado e distribuído, informando o autor e o link seguinte, mas não pode ser modificado e nem comercializado. Data: 2013. Veja outras mensagens em http://livresdosfardosreligiosos.blogspot.com.br