Doutrinas religiosas (parte II)

Continuação do post anterior

 

Livres dos Fardos Religiosos

 

A humanidade precisa aprender uma coisa: não importa como será exatamente o caminho além das montanhas. O que importa é estarmos na trilha do bem e não do mal. Muitos, na ânsia de defender seus pontos doutrinários, se perdem nos labirintos das maldades e acabam plantando preconceitos, ódios, discriminaçõe, contendas, difamações... 

 

 

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Descrição: Doutrinas. Data: janeiro/2013. Autor: Maralvestos. Licença CC BY-SA.

Os livros doutrinários podem ser coloridos por fora, mas perigosos por dentro. Estão recheados de fé e esperança, de crendices e pessimismos, de amor e preconceitos. As crenças e crendices, na medida em que são alimentadas, podem se transformar em monstruosas feras perigosas, mas ainda serão apenas monstros populares. Mas a partir do momento que tudo é transformado em doutrinas oficiais de um grupo religioso, ai o monstro doutrinário pode realmente ser uma ameaça. Por isso, avisei, em outra mensagem, que precisamos aprender a filtrar tudo com bom senso. Não acredite plenamente nas religiões e igrejas: nem tudo que elas ensinam está errado, mas há muitas coisas perigosas. A palavra doutrina soa como coisa sagrada, mas pode ser um desastre para a sua vida. É ai que você poderá encontrar a solução e a verdade ou a derrota e o engano. A diversidade de doutrinas é muito grande. Cada tema, por mais simples que seja, possui inúmeros pontos de vista. Por isso, há muitas contendas doutrinárias. Não acredito que exista um corpo doutrinário cem por cento seguro, embora cada um pense que o seu seja o melhor. Mas eu digo: bom senso ­­–– essa é a vacina que pode ajudar a todos a caminhar com segurança após entrarem pelo portal doutrinário. 

 

As doutrinas surgem da seguinte forma:

 

·       Em primeiro lugar, aparecem as crenças, as crendices e as superstições;

·       Em segundo lugar, as crenças, as crendices e as superstições são transformadas em doutrinas oficiais de alguma religião ou igreja.

 

Por exemplo: no passado bem distante, nossos ancestrais, diante dos problemas e observando as forças da natureza, imaginaram que os deuses estavam zangados e procuraram meios para aplacá-los. Um dia, alguém pensou que sacrifícios sangrentos pudessem acalmá-los. As pessoas acreditaram nisso. Assim surgiu a prática de oferecer alimentos, animais e até seres humanos às divindades. Animais e pessoas foram mortos e queimados. O sangue dessas vítimas foi usado em rituais diversos. Essa crença se transformou em doutrina de muitas religiões e ainda está enraizado na mente de muitos.

 

Vendo a história da igreja, vemos que ensinos originais de Jesus foram desenvolvidos na Palestina, na região da Galiléia e Jerusalém. Mais tarde, ainda nos primeiros séculos, ele sofreu mudanças em Antioquia, Alexandria no Egito, Roma, Cartago, Lyon, Constantinopla, etc. No século XVI, com a Reforma Protestante, houve uma tentativa de resgatar o evangelho puro, mas não foi uma reforma plena. Isso aconteceu na Alemanha, Suíça, Inglaterra e Escócia. Mais tarde, principalmente a partir do século XVIII, novas doutrinas foram surgindo na tentativa de voltar ao primeiro amor, mas ainda ficaram embarcados em muitas tradições. Isso aconteceu principalmente no Reino Unido e nos Estados Unidos.

 

Os ensinos originais de Jesus foram moldados em vários lugares segundo o gosto de cada um, recebendo ingredientes filosóficos, populares e pagãos. O resultado de todo esse emaranhado doutrinário foi muitas contendas, ódio, preconceitos, excomunhões, divisões, perseguições, mortes, guerras... Um saldo negativo. Os frutos que as diversas doutrinas, ditas cristãs, produziram foram os piores da humanidade. Nações que seguem outras religiões orientais não viram tantos males como os que foram provocados pelas nações que se dizem cristãs, pelo menos na mesma proporção. Mas o problema não está nos ensinos de Jesus, mas na deturpação deles. Se tudo fosse feito como ele mandara, o mundo seria diferente, e as pessoas teriam um melhor conceito de Jesus. Muitos não ficariam enojados ao ouvir falar o seu nome. O que ele queria era simplesmente deixar as pessoas livres e preparadas para serem glorificadas e recompensadas após a morte. Jamais desejou ver a humanidade atolada em seus conceitos doutrinários e embaraçada em tantos rituais litúrgicos.

 

Existe uma arte tradicional japonesa chamada origami, que consiste em pegar uma folha de papel e dobrá-la, formando alguma figura. Parece simples para quem já fez aquele barquinho de papel. Mas quem é artista de verdade consegue montar centenas de figuras diferentes. O segredo é saber combinar as diversas dobras do papel. [1].

 

 

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Descrição: Origami. Data: Autor: Andreas Bauer. Fonte. Licença CC BY-SA.

Com textos religiosos é semelhante. Pegando textos da Bíblia, por exemplo, as pessoas conseguem montar doutrinas de tudo quanto é tipo. Basta manipular um texto aqui, um texto ali. Se ficar meio fora do contexto, basta dizer que o texto tem duplo sentido. Como cada um busca o seu segundo sentido, então, um único texto costuma ter diversas interpretações. Também há aquele jeitinho de dizer que um texto trás uma mensagem oculta nas entrelinhas, que somente é revelado para certas pessoas especiais. E não adianta você dizer que a doutrina é falsa, pois os apologistas, com os recursos da exegética, da hermenêutica, da apologética e da homilética, sabem como se livrar de qualquer crítica. Eles usam a arte de interpretar manipulando textos. Foi assim que a igreja se encheu de doutrinas de todos os tipos, que geram contradições, contendas, brigas, cismas e coisas parecidas. Enquanto a cristandade ficou dobrando páginas da Bíblia, cada um do seu jeito, o mundo se perde na escuridão do pecado. E a essência do evangelho, tão simples e fácil de compreender, foi deixada de lado, como um barquinho de papel jogado no lixo ou afundando nas águas calmas.

 

Os artistas doutrinários sempre existiram pra nos distrair. Para muitos, o espetáculo não pode parar. Quando as pessoas se cansam de uma doutrina, arrumam uma novidade, e o show recomeça. Afinal de contas, igreja sem a verdadeira visão do evangelho, carregada de rituais repetitivos, fica cansada, estagnada e precisa de novidades para “balançar”. Mas esse espetáculo precisa terminar, não com uso insensato da força, mas com a ferramenta da sensatez. Precisamos viver o evangelho de Jesus e parar com toda essa pantomima gospel, apresentada no púlpito-palco, para uma igreja-platéia, que aplaude cada idéia nova, até perceber que tudo não passava de um barquinho de papel, que foi molhando, molhando, perdendo a resistência, até se desintegrar.

 

O evangelho de Jesus não é arte, é verdade. Por isso, apesar das tempestades e das ondas doutrinárias, chacoalhadas por todos os ventos de doutrinas, ele está ai, firme, pra quem quiser navegar nos mananciais de água da vida, sem medo de afogar.

 

Como podemos ver, é inútil ficar discutindo doutrinas. Cada um faz o que quer, do jeito que acredita. Todos têm o direito de criar, escolher e divulgar as suas doutrinas. Mas ninguém deve impô-las aos outros à força. Não podemos discriminar e nem perseguir ninguém por causa de suas convicções doutrinárias. Todavia devemos combater aquelas que causam danos ambientais e sociais como aquelas que excitam crimes, que são preconceituosas, que exploram e que escravizam as pessoas. Também devemos deixar de lado aquelas doutrinas sem sentido lógico e obscuras. Precisamos ficar com aquelas que trazem benefícios claros.

 

Estamos aqui expondo nossas idéias. Não estamos impondo doutrinas. Cada um, com bom senso, deve decidir em que e em quem acreditar. Lembrando que Jesus, como muitos outros, ensinaram o caminho da sensatez, da sabedoria, da paz, do respeito, do amor. Não ensinaram a odiar, desprezar, dividir, matar, discriminar. Essas coisas foram provocadas pelos ismos “origâmicos” religiosos. Pronto! Criei mais uma palavra inofensiva, mas jamais quero criar doutrinas maldosas.

 

Autor: Maralvestos Tovesmar. Este texto (apenas o texto, não o site) está disponível nos termos da licença CC BY-NC-ND. Pode ser copiado e distribuído, informando o autor e o link seguinte, mas não pode ser modificado e nem comercializado. Data: 2013. Veja outras mensagens em http://livresdosfardosreligiosos.blogspot.com.br