Dogmas

Livres dos Fardos Religiosos

 

Um dia, surge uma crença. No outro, baseado naquela crença, uma doutrina. Depois, pra ninguém botar defeito, a doutrina vira dogma. E assim, aquela simples idéia mostra suas garras.

 

Antigamente, as pessoas usavam muito uma caixa de madeira, forrada de couro, com tampa e chave, onde guardavam roupas e apetrechos pessoais. [1]. Aquelas coisas secretas que ninguém podia ter acesso eram colocadas nesse baú, e ali ficavam trancadas. Pareciam tesouros escondidos. As crianças, curiosas, sempre queriam ver o que havia lá dentro. Mas era proibido mexer naquelas coisas. Por isso, ninguém, a não ser o dono do baú, sabia onde estava a chave.

 

 

clip_image002[4]

Desc.: Dogmas. Data: Agosto/2012. Autor: Maralvestos.  Licença CC BY-SA.  

Dogma é a imposição autoritária de uma crença religiosa para ser seguida sem nenhum questionamento. É um artigo de fé considerado fundamental, indiscutível, inquestionável, absoluto, infalível e que não pode ser mudado. [2], [3]. Ninguém pode crer de outra maneira e, portanto, não pode propor nenhuma mudança. É uma decisão ou decreto que não pode ser revogado. É uma caixa trancada, onde ninguém pode mexer. É uma doutrina que não pode ser tocada.

Um dia, Jesus falava ao povo. Aproximou-se uma mulher com alguns filhos procurando-o. Então o povo disse: “Olha, tua mãe, teus irmãos e irmãs estão lá fora à tua procura.” (Marcos 3.32, RA.) Outra vez, as pessoas viram Jesus falando ao povo e disseram: “Donde lhe vêm esta sabedoria e estes poderes miraculosos? Não é este o filho do carpinteiro? Não se chama sua mãe Maria, e seus irmãos, Tiago, José, Simão e Judas? Não vivem entre nós todas as suas irmãs? Donde lhe vem, pois, tudo isto?” (Mateus 13.54-56, RA.)

Observando essas e outras passagens bíblicas, concluímos, claramente, que Jesus teve pelos menos quatro irmãos e, no mínimo, duas irmãs. [4]. Epa! Pare! –– alguém pode dizer, lembrando que a Igreja decretou o dogma da virgindade de Maria, declarando que ela permanecera virgem antes, durante e depois do parto. Não é possível provar nada. É apenas uma questão de fé. Mas ninguém pode discordar e dizer qualquer coisa que contrarie essa verdade da fé, nem mesmo citando trechos da Bíblia. O dogma da virgindade foi decretado, e ponto final. Sobre os irmãos de Jesus, a Igreja, como sempre acontece com os dogmas eclesiásticos, tem as suas explicações exegéticas e hermenêuticas, tudo expressado com o auxilio da apologética e da homilética. E todo mundo que não quer entrar para a história com o “carinhoso” título de herege oferecido gratuitamente pela madre Igreja tem que aceitar tudo calado.

Para a humanidade, pouco importa se Maria perdeu ou não a sua virgindade tendo outros filhos com José, o seu legítimo marido. Mas a Igreja, com toda a sua “blablablética”, passando até mesmo por cima da ética, sempre defendeu essa doutrina. Virgem Maria! O dogma é uma droga que deixa a gente viciado.

Existem verdades inquestionáveis dentro do Universo. Mas a religião, muitas vezes, comete abusos e, sem nenhuma prova concreta, estabelece supostas verdades. Para os filósofos céticos, não existe nenhuma verdade que não possa ser questionada, por isso são contra qualquer dogma. [5].

Jesus não entrou em detalhes sobre os mistérios de Deus. Esse não era o seu objetivo principal. O seu desejo era ver as pessoas transformadas, deixando o pecado e abraçando uma nova vida, cheia de virtudes, no caminho do bem. Mas os pregadores da igreja, a partir do século II, preferiram orientar as pessoas sobre supostas verdades, usando as suas teses doutrinárias. A partir do século IV, nos braços fortes do Império Romano, eles resolveram impor suas doutrinas, decretando dogmas. Ainda hoje, com essa mesma atitude, muitos acham que são donos de supostas revelações e tentam impor aquilo que julgam ser a verdade. Esse erro muitos têm cometido. Veja alguns dogmas aprovados ao longo da história da Igreja e que ninguém pode tocar, criando novas interpretações.

·       No século IV, ano 325, aconteceu I Concílio de Nicéia. Nessa reunião com 318 bispos, convocada pelo imperador romano Constantino, foi proclamado o dogma da Santíssima Trindade, declarando a existência de um único Deus manifesto em três pessoas: Deus Pai, Deus Filho e Deus Espírito Santo. Nesse concílio, também foi condenada qualquer outra interpretação contrária sobre as três pessoas, como o subordinacionismo e o arianismo. [6]. A partir dai, qualquer doutrina diferente foi perseguida. O trinitarismo foi imposto como um dogma e não poderia mais ser contrariado ou rejeitado.

 

·       Nos primeiros séculos da Igreja, uma lista de livros do Novo Testamento, juntamente com a lista de livros do Velho Testamento, escrita por Atanásio, Bispo de Alexandria, em 367, foi aprovada por líderes cristãos, reunidos no Concílio de Roma em 382, no concílio de Hipona em 393 e no concílio de Cartago em 397. Assim ficou definido o dogma de que a Bíblia é a Palavra de Deus, enquanto os demais livros tornaram-se simplesmente palavras do homem. [7], [8], [9], [10]. Os livros da Bíblia viraram escritos extremamente divinos, sendo considerados como a Palavra de Deus infalível, de Gênesis a Apocalipse. Veremos esse assunto em outra mensagem.

·       O século V, no ano 431, no Concílio de Éfeso, foi decretado o dogma da maternidade divina. Maria foi declarada a “Mãe de Deus”. Para os líderes da Igreja, que antes decretaram a divindade das três pessoas da trindade, se Cristo é Deus, então Maria é mãe de Deus.[11], [12]. Quem não concordara, como o patriarca Nestório de Constantinopla, foi chamado de herege e castigado pela “mater ecclesia”, levando “palmadas”. Esse, por exemplo, pra servir de exemplo, foi excomungado e enviado para um mosteiro num oásis do deserto egípcio. Obra do “zeloso” Teodósio II, que mandava no império e na igreja romanizada. [13], [14]. Às vezes, os mosteiros funcionavam como uma espécie de presídio de segurança máxima para enclausurar quem andava mexendo nos baús dogmáticos. Era umas das formas para reprimir quem ousava pensar diferente. E foi assim que o Deus Criador de todas as coisas, que não teve princípio, conseguiu arrumar uma genitora. Muito complicado, essas coisas.

·       No século VI, no ano 553, no II Concílio de Constantinopla, foi decretado o dogma da virgindade perpétua de Maria.  O cânone 6 diz: “Se alguém aplicar à gloriosa e sempre virgem Maria o título de ‘genitora de Deus’ (theotókos) num sentido irreal e não verdadeiro, como se um simples homem tivesse nascido dela e não o Deus Verbo feito carne e dela nascido, enquanto o nascimento só deve ser ‘relacionado’ com Deus o Verbo, como dizem, porquanto ele estava com o homem que foi nascido...” (Grifo meu.) [15], [16]. No século seguinte, em 649, o Concílio de Latrão declarou: "Seja condenado quem não professar, de acordo com os santos Padres, que Maria, mãe de Deus em sentido próprio e verdadeiro, permaneceu sempre santa, virgem e imaculada quando, em sentido próprio e verdadeiro, concebeu do Espírito Santo, sem o concurso do sêmen de homem, e deu à luz Aquele que é gerado por Deus Pai antes de todos os séculos, o Verbo de Deus, permanecendo inviolada a sua virgindade também depois do parto." (Grifo meu.) [17]. Esse dogma afirma que ela sempre foi virgem: antes, durante e depois do parto.

·       No século XIII, ano 1215, no IV Concílio de Latrão, foi instituído o dogma da transubstanciação, afirmando a crença antiga que, na Eucaristia, o pão se transforma no corpo, e o vinho, no sangue de Jesus. Esse dogma foi confirmado também pelo Concílio de Trento.[18], [19], [20].

·       No século XIX, em 1854, O papa Pio IX proclamou o dogma da Imaculada Conceição de Maria, declarando que ela foi concebida sem pecado. [21], [22].

·       No mesmo século, em 1870, no Concílio Vaticano I, foi decretado o dogma da infalibilidade papal. Esse dogma considera o papa livre de erros e em condições de estabelecer doutrinas que não podem ser contestadas.[23], [24]. Com esse dogma ela passou a ser considerado um autêntico produtor de crenças dogmáticas.

·       No século XX, em 1950, o papa Pio XII declarou o dogma da Assunção de Maria, dizendo que ela foi elevada ao céu em corpo e alma. [25].

As idéias ou doutrinas de alguns teólogos e bispos que não receberam a aprovação dos patriarcas e dos concílios, principalmente aquelas que afetaram os seus dogmas, foram consideradas como heresias e foram condenadas. Por exemplo:

·        O monarquianismo dinâmico de Teódoto de Bizâncio, um erudito da cultura grega, no final do século II. Foi excomungado no ano 190 pelo bispo romano Vitor I. Pregava a unidade absoluta de Deus, discordando da doutrina da trindade que já começava se manifestar. [26], [27]. 

·        O sabelianismo ou modalismo do teólogo Sabélio, no início do século III. Esse teólogo nasceu na Líbia, no norte da África e foi para Roma, onde o bispo Calisto I o excomungou. Para ele, o Pai, o Filho e o Espírito Santo não eram três pessoas, mas três modos da manifestação de Deus. [28]. 

·        O arianismo de Ário, entre o fim do século III e início do século IV. Esse foi diácono e presbítero de Alexandria, mas na época quem mandava por lá era o patriarca Alexandre I, que o condenou. Depois foi novamente condenado no I Concílio de Nicéia, em 325. Considerava Cristo como uma divindade menor de natureza intermediária entre o Pai e a humanidade. Para ele, Cristo estava subordinado ao Pai. [29], [30]. 

·        O adocionismo de Paulo de Samósata, bispo de Antioquia, no século III. Foi deposto pelo Concílio de Antioquia em 268. Pregava uma espécie de monarquianismo, afirmando que Jesus tinha nascido como um ser humano e que tinha sido adotado por Deus depois do seu batismo. [31], [32].

·        O priscilianismo do bispo hispano-romano Prisciliano, que não aceitava o dogma da Trindade, no final do século IV. A sua doutrina foi condenada no concílio de Saragoça, na Espanha e ele recebeu a pena de morte. [33], [34], [35]. 

·        O apolinarismo do bispo Apolinário de Laodicéia, no final do século IV. Condenado em 381, no sínodo de Constantinopla. Esse pregava que Jesus tinha um corpo humano, mas uma mente exclusivamente divina. Para os seus condenadores, Jesus era totalmente homem e totalmente Deus. [36], [37]. 

·        O pelagianismo do teólogo britânico Pelágio no início do século V. Foi condenado pelo bispo de Roma em 417, pelo Concílio de Cartago em 418 e pelo Concílio de Éfeso em 431. Ele acreditava que o ser humano não herda o pecado de Adão. Era contra a doutrina do pecado original, sustentada pelo bispo Agostinho de Hipona. Para ele, a pessoa é responsável pelos seus atos. Também sustentava que a conversão depende da decisão da pessoa, não é uma operação realizada pelo Espírito Santo, como acreditam alguns. [38]. 

·        O nestorianismo do patriarca Nestório de Constantinopla, no início do século V. Nestório conseguiu ocupar o patriarcado por intermédio do imperador bizantino Teodósio II. Mas, como já vimos, a sua divergência doutrinária em relação ao dogma sobre Maria como mãe de Deus, que já estava consagrado entre os patriarcados, acabou fazendo com que ele fosse condenado no Concilio de Éfeso em 431. O imperador Teodósio II o exilou e mandou queimar os seus escritos. Para Nestório, Maria era simplesmente a mãe de Jesus. Não era a mãe de Deus como alguns estavam dizendo. Para ele, as naturezas humana e divina de Cristo eram separadas. [39], [40]. 

·        O monofisismo do monge Eutiques no século V. Foi condenado no Concílio de Calcedônia, em 451 e no sínodo de Constantinopla em 448. Para ele, Jesus tinha apenas uma única natureza divina. Não tinha natureza humana. [41], [42]. 

·        O monotelismo do 61º patriarca Sérgio I de Constantinopla. Pregava que Cristo possuía duas naturezas: uma humana e a outra divina, mas com uma só vontade. Foi condenada no III Concílio de Constantinopla, em 681. [43], [44].

 

 

clip_image004[4]

Descrição: Cordeiro emudecido. Data: fevereiro/2013.  Autor: Maralvestos. Licença CC BY-SA.

Algumas igrejas consideram as decisões do I Concílio de Nicéia como pontos fundamentais irrevogáveis. Algumas levam em conta as decisões de outros concílios. O catolicismo segue o que ficou decidido em mais de vinte concílios. [45]. Por isso, mesmo com a Reforma do século XVI, as diversas igrejas novas ainda estão embaraçadas em dogmas, passando por cima do verdadeiro evangelho. Arbitrariedades dos palácios de Roma ainda rondam nossos currais. E em pleno século XXI, às vezes temos que andar como cordeiros mudos, porque os donos dos baús não querem ouvir nossas opiniões.

 

Com todo respeito à graciosa e virtuosa mãe de Jesus e às demais crenças das igrejas; sem entrar em detalhes sobre essas ou aquelas doutrinas e sem querer defendê-las ou refutá-las, será que foi justa a condenação dessas pessoas ou foram condenações preconceituosas? Será que as decisões dos concílios expressaram a verdade e demonstraram as mentiras? Se a resposta for sim, então como explicar a existência de tantas heresias na Igreja? Na verdade, a Igreja atravessou séculos defendendo doutrinas misteriosas apenas por causa da fé e se esqueceu de viver o evangelho. Deviam ter seguido o evangelho de verdade, fugindo do pecado e abraçando as virtudes. Poderiam muito bem ter suportado, com amor, as idéias diferentes de cada pessoa. Afinal, ninguém possui uma resposta clara e definitiva sobre as profundezas dos mistérios divinos. Apenas os tolos acham que sabem de tudo. Não estou querendo defender ou condenar nenhuma crença ou doutrina. Estou, sim, criticando o autoritarismo doutrinário.

 

Jesus não se preocupou em explicar essas coisas. Então a única coisa que podemos fazer sobre isso é conjecturar, respeitando o ponto de vista de cada um, sem jogar fora o evangelho do amor e da paz. Quem não for obcecado por doutrina, perceberá que cada um tem um pouco de razão. Cada idéia possui textos bíblicos que servem para justificál-la, principalmente usando os recursos da teologia. Todavia, ninguém possui uma resposta definitiva. Sendo assim, somos obrigados a admitir que estamos diante de uma questão divina incompreensível. É um campo divino difícil de ser explorado. O que temos são meras doutrinas consagradas pela fé de cada um. Como a fé nem sempre aponta para a realidade, então nos resta respeitar a crença de cada um, sem contendas e sem condenações. A igreja não pode mais perder tempo com brigas doutrinárias. O saldo de tudo isso foi e poderá ser: ódio, preconceito, divisão, brigas, discriminações...

 

Todo mundo é livre para imaginar e criar suas doutrinas. Mas não podemos tentar ser os donos da verdade, impondo dogmas e impedindo que as pessoas pensem livremente. Somos livres para concordar ou discordar das idéias dos outros. Mas temos que discordar com respeito, evitando perseguições, gestos e palavras injuriosas. Podemos criticar e contradizer as doutrinas dos outros. Mas precisamos aprender a fazer isso sem ofensas, sem zombarias, humilhações e insultos. É ridículo ver alguns defendendo suas idéias e chamando os outros de filhos do diabo, servos de Satanás, burros, tapados, idiotas, bobões e coisas parecidas. Ninguém está livre de cometer enganos. Por isso, ninguém deve decretar verdades definitivas, pensando que sabe tudo sobre certas matérias. Por esse motivo, não estamos impondo nenhum dogma para as pessoas. Qualquer um tem o direito de discordar das nossas idéias. Buscamos as verdades sempre, mas não somos donos delas.

 

Vamos pensar um pouco: será que a bondosa mãe de Jesus ficaria mesmo contente com tudo que os líderes da Igreja decretaram?

 

Você pode ser o dono de seus baús, mas não é dono das verdades. Então, por favor,nada de ficar trancando doutrinas a sete chaves.

 

Autor: Maralvestos Tovesmar. Este texto (apenas o texto, não o site) está disponível nos termos da licença CC BY-NC-ND. Pode ser copiado e distribuído, informando o autor e o link seguinte, mas não pode ser modificado e nem comercializado. Data: 2013. Veja outras mensagens em http://livresdosfardosreligiosos.blogspot.com.br