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Credo

Livres dos Fardos Religiosos

 

Credo! Que figura arrepiante!

 

No Brasil, quando algumas pessoas se assustam com alguma coisa, elas dizem: “Creio em deus pai!” [1]. Os baianos e mineiros dizem: “crendeuspai!” ou “crendeospai!” [2], [3]. Essas interjeições lembram o principal credo religioso do mundo ocidental, popularmente conhecido como “Creio em Deus Pai”.

 

 

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Desc.: Brown bear. Data: 29/05/2011. Autor: Luizpuodzius. Fonte. Licença CC BY-SA. 

Credo é um resumo das principais crenças ou doutrinas adotadas por uma organização religiosa. É uma coleção de artigos de fé. É uma declaração ou confissão pública das crenças de uma religião. [4]. Também pode ser chamado de fórmula doutrinária ou profissão de fé ou declaração de fé. Quando uma pessoa reza o credo, ela, na verdade, está declarando quais são as suas crenças.

 

Muitas pessoas desejam andar com Deus, vivendo uma vida correta de acordo com o que Jesus Cristo ensinou. Mas quando entram para uma igreja do sistema religioso, deparam com um conjunto de crenças e doutrinas pronto para ser “digerido” e que, nem sempre, são as coisas que Cristo ensinou. Cada um é tratado como se fosse uma criança na fé. E quem não “comer” tudo que a madre igreja preparou, às vezes é ameaçado, intimidado, constrangido... E a criança na fé acaba comendo tudo, mesmo sem ter muita vontade, pois teme o “bicho papão” do inferno.

 

O credo religioso é o cardápio da fé. Não adianta pensar de outra maneira. É proibido crer de alguma forma variada. É aquilo, e ponto final. Se não “engolir” tudo à risca, então, você será tratado como alguém que está nas mãos do “bicho”, mesmo estando carregado de bons frutos. Agora, se seguir o cardápio doutrinário direitinho, então, os fariseus hipócritas aceitam você como um homem de Deus, mesmo estando carregado de maus frutos.

 

Muitas crenças estão baseadas nos ensinos de Jesus e dos apóstolos. Isso está muito claro nos artigos de fé. Mas encontramos, por ai, muitas coisas juntas, que foram impostas ao povo e que tiveram que ser aceitas diante das ameaças do monstro da Inquisição. A fera está adormecida, mas o povo ainda tem medo.

 

Vamos ver como de desenvolveu os credos religiosos das igrejas.

 

·       Credo Romano Antigo. Nos primeiros séculos, surgiu uma declaração de fé batismal. [5]. Segundo Hipólito, em sua obra Tradição Apostólica do ano 215, aquele que batizava perguntava ao catecúmeno se ele cria no Pai, no Filho e no Espírito Santo, além de outros detalhes relacionados com Jesus.

 

 

“Ao chegar à água, aquele que será batizado, aquele que batiza lhe dirá, impondo-lhe as mãos sobre ele: ‘Crês em Deus Pai todo-poderoso?’ E aquele que é batizado responda: ‘Creio’. Imediatamente, com a mão pousada sobre a sua cabeça, batize-o uma vez, dizendo a seguir: ‘Crês em Jesus Cristo, Filho de Deus, nascido do Espírito Santo e da Virgem Maria, que foi crucificado sob Pôncio Pilatos, morrendo e sendo sepultado e, vivo, ressurgiu dos mortos no terceiro dia, subindo aos céus e sentando-se à direita do Pai, donde julgará os vivos e os mortos?’. Quando responder: ‘Creio’, será batizado pela segunda vez. E dirá mais uma vez: ‘Crês no Espírito Santo, na Santa Igreja e na ressurreição da carne?’. Responderá o que está sendo batizado: ‘Creio’, e será batizado pela terceira vez.” [6].

 

 

·       Credo dos Apóstolos. Na Idade Média, por volta do século VI, surgiu uma lenda dizendo que os doze apóstolos, no dia de Pentecostes, compuserem aquilo que eles chamavam de Credo Apostólico. Cada um teria criado um dos artigos. [7]. Mas, na verdade, o que vemos, no Novo Testamento, como I Coríntios 15, são expressões da fé dos apóstolos e não um conjunto de crenças para ser recitado e imposto com ameaças. [8]. O credo Apostólico foi, na realidade, modificações gradativas do Credo Romano Antigo. Veja, a seguir, o suposto credo dos apóstolos.

 

Creio em Deus, Pai todo-poderoso, criador do céu e da terra.

 

Creio em Jesus Cristo, seu único Filho, nosso Senhor, o qual foi concebido pelo poder do Espírito Santo, e nasceu da Virgem Maria. Padeceu sob o poder de Pôncio Pilatos; foi crucificado, morto e sepultado; desceu ao lugar dos mortos; ressuscitou ao terceiro dia; subiu aos céus; e está sentado à direita do Pai. Voltará para julgar os vivos e os mortos.

 

Creio no Espírito Santo, na santa Igreja Católica, na comunhão dos santos, na remissão dos pecados, na ressurreição do corpo, e na vida eterna. Amem. [9].

 

Esse credo é muito usado pelas igrejas Católica, Luterana, Anglicana e Presbiteriana. [10]. Observe que ele está bem sintonizado com as crenças dos apóstolos. Todavia, não quer dizer que realmente foi escrito por eles. O último artigo cita a Igreja Católica, não sei se estava lembrando que a igreja de Cristo não tem fronteiras ou se já estava defendendo um grupo denominado de católico.  

 

·       Credo de Nicéia. No século IV, no ano 325, na cidade de Nicéia (atual cidade de Iznik), na Turquia, o imperador Constantino de Roma convocou um concílio, onde se reuniram aproximadamente 318 bispos. Nessa reunião, foi estabelecido o Credo de Nicéia, contendo um resumo das crenças cristãs aceitas por muitas igrejas. Nele foi escrito aquilo que eles consideravam ser as verdades espirituais. Era o artigo de fé da parcela do cristianismo apoiada pelo imperador romano. [11], [12]. Veja o texto a seguir:

 

 

Creio em um só Deus, Pai todo-poderoso, Criador do céu e da terra, de todas as coisas visíveis e invisíveis.

 

Creio em um só Senhor, Jesus Cristo, Filho Unigênito de Deus, nascido do Pai antes de todos os séculos: Deus de Deus, luz da luz, Deus verdadeiro de Deus verdadeiro, gerado não criado, consubstancial ao Pai. Por Ele todas as coisas foram feitas. E, por nós, homens, e para a nossa salvação, desceu dos céus: e encarnou pelo Espírito Santo, no seio da Virgem Maria, e se fez homem. Também por nós foi crucificado sob Pôncio Pilatos; padeceu e foi sepultado. Ressuscitou ao terceiro dia, conforme as escrituras; E subiu aos céus, onde está sentado à direita do Pai. E de novo há de vir, em sua glória, para julgar os vivos e os mortos; e o seu reino não terá fim.

 

Creio no Espírito Santo, Senhor que dá a vida, e procede do Pai; e com o Pai e o Filho é adorado e glorificado: Ele que falou pelos profetas.

 

Creio na Igreja una, santa, católica e apostólica. Professo um só batismo para remissão dos pecados. Espero a ressurreição dos mortos; E a vida do mundo que há de vir. Amém. [13].

 

 

Aqui a coisa já começa a sair dos trilhos com mais clareza. O dogma da Santíssima Trindade passa a ser defendido em detrimento de outras formas de pensamento. A Igreja Católica continua sendo citada. E o batismo passa a ser visto como necessário para a purificação dos pecados. Não quero aqui discutir a veracidade ou a falsidade dessas crenças. Todos têm o direito de crer dessa e daquela forma. Mas fazer das crenças um artigo de fé oficial para ser imposto ao povo não foi uma boa idéia.

 

·       Credo Niceno-Constantinopolitano. Em 381, no Primeiro Concílio de Constantinopla, foi feita uma revisão dos artigos do Credo de Nicéia, que passou a ser chamado Credo Niceno-Constantinopolitano. [14]. Se estava tudo certinho, então, por que tiveram que realizar reformas?

 

·       Credo de Atanásio. De acordo com a tradição, o bispo Atanásio de Alexandria teria escrito, no final do século IV, um o credo com quarenta artigos, que acabou levando o seu nome. Todavia, de acordo com alguns pesquisadores, não foi escrito por ele, mas por alguma outra pessoa desconhecida, pelo menos cem anos depois de Atanásio. [15], [16].

 

·       Credo de Toledo. Em 589, no III Concilio de Toledo, foi acrescentada ao Credo de Nicéia, no penúltimo artigo, a expressão filioque, que quer dizer “e do Filho”. Com a mudança, o artigo ficou assim: “Cremos no Espírito Santo, o Senhor, a fonte da vida que procede do Pai e do filho; com o Pai e o Filho é adorado e glorificado. Ele falou pelos profetas.” [17], [18].

 

·       Em 862, Fócio, patriarca de Constantinopla, não aceitou essa alteração no credo. Por causa disso foi deposto e excomungado pelo papa Nicolau I. [19]. Observe a atitude arbitrária e intolerante.

 

·       No século XI, Miguel Cerulário, então patriarca de Constantinopla, manteve as posições de Fócio e também foi excomungado pelo papa Leão IX. Excomungado, revidou fazendo o mesmo contra o papa. Essas excomunhões acabaram causando a separação da igreja ocidental, chamada Católica, da oriental, denominada Ortodoxa. [20].

 

A Igreja não hesitou em defender seu artigo de fé com “unhas e dentes”. Lamentavelmente, essa picuinha doutrinária conseguiu explodir o vulcão da contenda que já fumegava desde os tempos de Constantino, quando em 330, esse imperador reconstruiu a antiga cidade grega de Bizâncio, transformando-a na nova capital do império e chamando-a de Nova Roma. [21]. A igreja do Ocidente e a do Oriente viraram dois barris de pólvora. Bastou um palito de fósforo chamado filioque para mandar tudo pros ares. Por causa dessa tolice, o mundo pode ver um dos maiores cismas religiosos da história. E Constantinopla acabou sendo o palco de uma das piores guerras religiosas: a IV Cruzada, que parece esconder algo mais por baixo dos panos. [22].

 

Além desses credos, existem várias outras versões. Cada denominação cristã tem os seus artigos de fé. Algumas igrejas adotaram uma dessas primeiras versões. Outras elaboraram novos credos de acordo com as suas doutrinas.

 

Muitos estão achando que os credos religiosos, do jeito que são, foram preparados por Jesus e pelos piedosos apóstolos. Lá você encontra as bases. Mas nem tudo é como eles ensinaram. Alguns ingredientes foram acrescentados. Cada igreja institucionalizada tem seu cardápio adaptado, apesar de conservar alguns pontos em comum com os ensinos de Jesus e dos apóstolos.

 

Outras religiões não cristãs também costumam ter os seus artigos de fé. Por exemplo, para uma pessoa ingressar no islã, ela deve declarar que “Não há outro Deus senão Alá, e Maomé (Muhammad) é seu profeta".

 

Não podemos nos limitar a um credo religioso. Não estamos aqui para fazer julgamento de nenhuma fórmula doutrinária. Mas queremos dizer que o ser humano faz novas descobertas a cada dia. Um pensamento religioso não pode se transformar num artigo de fé. Podemos cometer enganos e depois ter que fazer alterações. E é exatamente isso que muitas denominações cristãs têm feito. Muitas alterações têm sido realizadas nos artigos de fé das religiões. Hoje, uma pessoa tem que fazer uma profissão de fé para ingressar numa denominação cristã. Outro dia tem que aceitar certas alterações. Essas declarações de fé têm causado muitas confusões e divisões no cristianismo.

 

O evangelho original de Cristo é arrependimento e conversão dos pecados a Deus. É mudança de vida, onde as pessoas devem se tornar amorosas, solidárias, perdoadoras, pacientes, pacíficas, confiantes em Deus, humildes, não ganancioso, etc. Não se trata de aceitar, com rigor, um conjunto de crenças proposto por um líder religioso. Os mistérios sobre Deus não podem ser definidos à risca numa coleção de artigos. Não podemos tentar ser o dono da verdade e exigir que as pessoas sigam aquilo que decretamos. A Igreja Católica tinha total liberdade para acreditar que o Espírito Santo procede do Pai e do Filho. Por outro lado, a Igreja Oriental também tinha total liberdade para acreditar que ele procede apenas do Pai. Precisava haver excomunhões mútuas por causa de um pequeno detalhe sobre um mistério que ninguém, na verdade, tem uma posição absolutamente correta? O que é mais importante? A amizade, o entendimento, o respeito entre duas pessoas ou grupos ou um simples ponto de um artigo de fé?

 

As brigas, as discussões, as rivalidades, o preconceito, o desprezo, por causa de questões de fé fizeram e fazem muito mal ao mundo. Mas quando alguém crê em Deus com alguns pontos diferentes relacionados com os seus mistérios profundos, isso não faz mal a ninguém. Todos nós somos livres para ouvir um e outro, estudar e meditar sobre Deus e assim estabelecer as nossas crenças. Por isso não temos nenhuma profissão de fé para ser exigida das pessoas. Para nós, cada pessoa é livre para crer segundo o seu entendimento. Temos uma série de mensagens para serem analisadas por todos. Ninguém é obrigado a aceitar o que elas ensinam. Cabe a cada um, livremente, investigar tudo e decidir se aceita ou não. Ninguém será obrigado a fazer nenhuma profissão de fé para nós. É para Deus que as pessoas têm que prestar contas.

 

Credo! Chega de tanta confusão doutrinária criando divisões que destroem o verdadeiro evangelho.

 

Autor: Maralvestos Tovesmar. Este texto (não o site inteiro) está disponível nos termos da licença CC BY-NC-ND. Pode ser copiado e distribuído, informando o autor e o link seguinte, mas não pode ser modificado e nem comercializado. Data: 2013. Veja outras mensagens em http://livresdosfardosreligiosos.blogspot.com.br