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O Todo-poderoso

 Livres dos Fardos Religiosos

 

Os planetas do nosso sistema solar têm o nome dos deuses da mitologia romana: Mercúrio, Vênus, Marte, Júpiter, Saturno, Urano, Netuno e Plutão. [1], [2]. O nosso planeta azul, verde e branco, agora meio cinzento por causa de tanta poluição, não ficou de fora e foi denominado de Terra, lembrando tellus, a deusa mãe da terra. [3].

 

 

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Desc.: As Tempestades Violentas de Júpiter. Data: 29 de fevereiro de 2012. Crédito: Nasa. Fonte. Licença DP.

 

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Desc.: Galáxia Maffei 2. Data: 23 dezembro de 2010. Crédito: NASA/JPL-Caltech/J. Turner (UCLA). Fonte.  Licença DP.

 

 

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Desc.: Amanhecer visto do mirante do parque Mãe Bonifácia. Data: 05/06/2011. Autor: Nelio Oliveira. Fonte. Licença CC BY-SA.

 

Na antiga religião romana, Júpiter era considerado o deus do céu e rei do firmamento. Também era a divindade da chuva, do raio e do trovão. Os romanos acreditavam que ele tinha poder de lançar raios, agitar as nuvens e fazer cair a chuva. [4], [5]. Coicidentemente, o planeta que tem o seu nome revela uma imensa tempestade cheia de mistérios que já dura há séculos. [6]. Mas essa força jupiteriana não é do Júpiter romano, mas Daquele que tem todo poder.

 

Não apenas o planeta Júpiter, mas todo o Universo revela a existência de um poder maior acima de tudo. Olhamos ao nosso redor e vemos plantas, flores, frutos, semente, animais, rochas, água e mais uma infinidade de coisas. Pegamos um microscópio e vemos muito mais coisas a se perderem de vista no universo microscópico. Olhamos para cima e vemos o espaço com trilhões de astros semeados no infinito. Observamos num telescópio e captamos bilhares de corpos celestes a trilhões de anos-luz.  Podemos perceber todas as coisas, microscópicas e macroscópicas, encaixadas dentro duma perfeita ordem e sentimos que tudo isso tem um controlador. Por isso Paulo escreveu: “Porque as suas coisas invisíveis, desde a criação do mundo, tanto o seu eterno poder, como a sua divindade, se entendem, e claramente se vêem pelas coisas que estão criadas...” [7].

 

O indo-europeu é a língua pré-histórica que deu origem às diversas línguas ocidentais (grego, latim, germânico, etc.) e algumas orientais (sânscrito, indo-ariano, iraniano, etc.). [8]. Etimologicamente falando, a palavra deus vem do latim deus ou divo, que veio do indo-europeu dyeu, lembrando o sol e a luz, dando também origem à palavra dia. Dessa mesma raiz, surgiu Theós e Zeus, o deus superior dos gregos, identificado com o Júpiter romano. A divindade Dyaus, encontrada no primeiro livro sagrado do hinduísmo, o Rigveda, também demonstra ter essa origem. Esse livro foi escrito na língua sânscrita, uma das línguas orientais da família de línguas conhecida como indo-europeu. Nas outras línguas latinas, encontramos: dios no espanhol, dieu no francês e Dio no italiano. [9], [10], [11], [12].

 

Deus então tornou-se a palavra  genérica, utilizada para indicar todos os seres considerados como superiores à natureza e com poderes extraordinários dentro das diversas religiões. Feminino da palavra deus: deusa, diva, divindade e deidade. Divindade e deidade, apesar de serem palavras femininas, podem também ser usadas como sinônimos de deus, palavra masculina. Pode também ser chamado de nume. [13], [14].

 

É bom lembrar que nem todas as culturas adotaram o vocábulo deus para designarem os seres sobrenaturais. No xintoísmo, por exemplo, a palavra usada é kami. [15], [16]. No hinduísmo, deva. [17]. Na África, para os bantos seria inquice. [18]. Para os iorubás o termo é orixá. [19].

 

Sempre houve a crença em deuses de vários tipos. Uns visíveis e outros invisíveis. Alguns com aparência e comportamentos humanos; outros com aspecto de animais; uns vitoriosos e outros derrotados; uns bons e outros maus e assim por diante.

 

Todos os povos têm relatos para provarem ou tentarem provar a existência de uma ou mais divindades. Alguns relatos são fantásticos demais e acabam gerando dúvidas. Outros costumam ser mais coerentes e conseguem conquistar muitos adeptos. Mas algumas pessoas preferem duvidar de tudo. Assim temos dois tipos de pessoas: os teístas, que crêem em uma ou mais divindades, e os ateístas, que não crêem em divindade alguma. [20], [21].

 

Como observamos, a palavra deus tem uma ligação muito profunda com o Sol e com o dia. Era muito comun, na Antiguidade, as pessoas cultuarem divindades solares. É grande a lista de deuses mitológicos relacionados com esse astro. [22]. Por isso, o domingo, na língua inglesa, é dia do Sol (sunday). Sun = Sol e day = dia. [23].

 

Mas não era só o domingo, que era considerado um dia divino. Na Babilônia e na antiga Roma, os dias da semana tinham ligação com os deuses. O calendário germânico e o inglês também seguiram essa tradição. [24], [25]. Observe o quadro.

 

Dias

Nome

Calendário romano

Calendário germânico

Nome em Inglês

Domingo

Dia do Sol

Dia do Sol (Sun)

Sunday   

Segunda-feira

Dia da Lua

Dia da Lua (Moon)

Monday   

Terça-feira

Dia de Marte

Dia de Tiwaz ou Tyr

Tuesday   

Quarta-feira

Dia de Mercúrio

Dia de Wotan ou Odin

Wednesday   

Quinta-feira

Dia de Júpter

Dia de Thor

Thursday   

Sexta-feira

Dia de Vênus

Dia de Frigg ou Freya

Friday   

Sábado

Dia de Saturno

Dia de Saturno

Saturday

 

Dessa forma, não apenas um, mas vários deuses tiveram certa ligação com os dias. No quadro, vemos os deuses romanos e os escandinavo-germânicos sendo homenageados ao longo da semana.

 

Mas em alguns lugares, religiosos e filósofos acabaram criando a crença num ser superior a todos as coisas, acima de todos os outros seres, infinito, eterno, imutável, supremo, onipotente, onipresente, onisciente, perfeito, bom, criador do Universo, causa primeira, existente por si, a personificação do bem. Essa crença acabou anulando a popularidade dos deuses limitados e irracionais das antigas religiões, trasnformando-os em meros seres mitológicos. Assim, ao longo da história, muitas pessoas, até mesmo alguns classificados como ateus acreditaram ou acreditam num poder superior a todas as coisas. Cada um deu o nome que achou melhor. Veja alguns exemplos:

 

·       O Ser uno, eterno, não-gerado e imutável, segundo o filósofo Parmênides. [26], [27].

 

·       Logos, que é regulador e mobilizador de todas as coisas, na visão do filósofo Heráclito. [28], [29].

 

·       Nous (inteligência), que é o princípio ordenador e controlador do mundo, de acordo com o filósofo Anaxágoras. [30].

 

·       Demiurgo, que criou o Universo, conforme Platão, uns dos mais conhecidos filósofos. [31].

 

·       O motor imóvel, que move tudo, segundo Aristóteles, outro grande filósofo. [32], [33].

 

·       Uno infinito, perfeito e incognoscível, na visão de Plotino, o filósofo fundador do neoplatonismo. [34].

 

·       Absoluto para a metafísica. [35].

 

·       Design inteligente para muitos daqueles que contestam a teoria da evolução. [36]

 

·       Ahura Mazda ou Ormuzd para Zoroastro, o fundador da religião persa conhecida como zoroastrismo. [37], [38].

 

·       Brâman ou Brahman (não confundir com Brahma) é o absoluto, o supremo, segundo o hinduísmo. [39].

 

·       Shang Di, para o confucionismo, é a força suprema. [40].

 

·       Tao ou Dao é o princípio supremo que rege o Universo, conforme Lao-tsé, fundador do taoísmo. [41]. Significa o Caminho do Infinito, um caminho que nunca termina. Algo que não pode ser descrito porque está muito além da linguagem. [42].

 

·       Indescritível. O budismo não nega a existência de Deus. O que ele faz é não traçar nenhuma doutrina ou ensinamento sobre a divindade, pois entende que falar sobre aquilo que não vemos é pura especulação. Não é propósito dessa filosofia ou religião provar ou negar a existência de Deus. Um assunto profundo e misterioso como esse não pode ser explicado com meras palavras. É algo indescritível. Como o Tao do taoísmo, não pode ser explicado com palavras. [43], [44], [45], [46].

 

·       Cao Daí, para os adeptos do caldaísmo no Vietnã, é o Todo-poderoso. [47].

 

·       Olorum, segundo a crença do povo africano ioruba, é o ser imaterial, invisível, eterno, que criou e dirige todas as coisas. [48].

 

·       Mawu é o nome de Olorum na crença dos jejes. [49].

 

·       Zambi é identificação do Todo-poderoso para os angolanos, equivalente ao Olorum. [50].

 

·       YHVH, YHVH, Javé, Iavé, Jeová. Segundo o livro do Êxodo, Moisés se encontrou com um ser supremo no monte Sinai. Depois de receber ordens para retirar o seu povo do cativeiro do Egito, Moisés perguntou qual era o seu nome. Então ele respondeu dizendo: “EU SOU O QUE SOU.” Disse para Moisés falar com os hebreus: ”EU SOU me enviou a vós.” Falou também que esse seria o seu nome de geração em geração. [51]. Essa expressão, no hebraico, foi escrito na forma do tetragrama YHVH ou YHWH, transcrito no latim como JHVH. Foi usado pelos judeus para identificar o único Senhor Todo-poderoso no céu e na terra. Não se sabe qual seria a pronúncia correta. Algumas pronúncias: YaHVeH (Javé ou Iavé no português), ou YeHoVaH (Jeová no português) foram adotadas nas diversas traduções da Bíblia, gerando muitas divergências. [52], [53].

 

·       Adonai, Senhor. Segundo alguns estudiosos, mais tarde, depois do século V a.C., os judeus passaram a usar o nome Adonai, para evitar a pronúncia do verdadeiro nome santo de Deus em vão. Esse nome foi traduzido como Senhor em muitas traduções da Bíblia. [54], [55], [56].

 

·       Pai que está nos céus. Essa foi a expressão usada por Jesus para indicar o que está no comando de todas as coisas. [57]. Pai também é uma palavra genérica, por isso Jesus usou a expressão restritiva: que está no céu, mostrando que não se trata de qualquer pai, mas aquele que está acima de tudo.

 

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Desc.: Pai. Data: Julho/2012. Autor: Maralvestos. Licença CC BY-SA.

 

 

 

·       Deus Pai. Jesus e, principalmente os apóstolos, também o chamaram de Deus Pai. [58].

 

·       Pai das luzes. Tiago também o chamou de Pai das luzes. [59].

 

·       Alá, para os seguidores do islã, é o Senhor absoluto, a mesma divindade YHVH dos judeus, porém com esse nome diferente. É único Deus que se revelou por meio dos seus profetas. Declara que Deus (Alá) tem o controle de todas as coisas. [60].

 

·       Waheguru, para os adeptos do sikismo, é o ser supremo. [61].

 

·       Deus-Parens (também conhecido como Oyagamisama ou Tenri-Ô-no-Mikoto) de acordo com a religião Tenrikyo, é o o Todo-poderoso. [62], [63], [64].

 

·       Grande Arquiteto do Universo (G.A.D.U.). Essa é a identificação do grande criador de todas as coisas para a maçonaria. [65].

 

·       Deus com D maiúsculo (capitular). No meio de toda essa confusão sobre o nome do poder supremo, em muitos lugares, adotou-se o costume de escrever Deus com “D” maiúsculo ou capitular para indicar que não se trata de um deus qualquer, mas o Todo-poderoso único e verdadeiro. [66].

 

Algumas pessoas discordam da idéia de identificar Deus apenas com letra maiúscula, dizendo que o Ser Supremo tem um nome próprio. Chamá-lo simplesmente de Deus é muito insignificante, pois é uma palavra  genérica, utilizada para indicar qualquer entidade sobrenatural. Por isso, até Satanás foi chamado de deus pelo apóstolo Paulo. [67]. Dessa forma, quando se diz deus, pode surgir a pergunta: qual deus? Se a pessoa lê, ela vê a diferença no meio da frase, mas no início, qualquer deus começa com letra maiúscula. Além disso, o cego não pode ver essa diferença. Textos falados também não podem mostrar isso. Entre os povos distantes das mitologias, é fácil entender que Deus se refere ao Ser Supremo. Mas não é a mesma coisa para quem acredita em outras entidades divinas, ligadas aos velhos mitos.

 

Essa forma de referir-se ao Poder Supremo é apenas mais uma referência à divindade dos judeus, jogando por terra, qualquer outra crença sobre o Poder Supremo do Universo. Dessa forma, crenças africanas e asiáticas são desprezadas, gerando conflitos religiosos, embora praticamente todos crêem que existe uma força maior.

 

Como podemos ver, em cada lugar ou época, surgiu uma designação diferente para se referir à Força Suprema. Apesar das divergências em cima dos diversos nomes, todos concordam que algo ou alguém, acima de tudo, com todo poder, está no controle de tudo. Todavia, a visão sobre esse Poder Supremo muitas vezes é corrompida, fraca, cheia de antropomorfismos. A visão do povo de Israel, por exemplo, muitas vezes, não tem lógica. Alguns textos históricos do Antigo Testamento demonstram um Deus descontrolado, limitado, frustrado, não onisciente, etc. Temos que tomar cuidado, pois alguns textos, escritos em nome do Todo-poderoso, carregado de antropomorfismo, acabam rebaixando-o. Veremos isso em outras mensagens.

 

Deus tem sido identificado com a luz, a claridade, a pureza, a brancura. Por outro lado, o mal, muitas vezes, é associado à falta de luz, à escuridão e à negrura. É uma idéia um tanto preconceituosa. Na verdade, Deus é criador e Senhor de todas as coisas: tanto da luz, como da escuridão; tanto do dia, como da noite. Ele é muito mais do que dia e noite. Tiago o chamou de Pai das luzes. [68]. Mas na verdade, ele é Pai de todas as coisas, inclusive da escuridão. O salmista escreveu: “Baixou ele os céus, e desceu, e teve sob os pés densa escuridão.” [69]. A escuridão, em muitos casos, é ou pode ser usada apenas no sentido figurado, lembrando a noite escura e tenebrosa, mas não tem ou não pode ter nada a ver com os demônios, pois tudo é divinamente bom.

 

Deixando de lado todas as crendices e todas as divergências, podemos entender e sentir que há uma Força Maior, invisível e misteriosa dirigindo todas as coisas e mantendo a harmonia do Universo infinito. Queremos a proteção dessa Força Poderosa e perfeita que não vemos. Temos fome do infinito. Temos sede divinal. Temos desejos de coisas sobrenaturais. Queremos algo que esteja além de tudo o que vemos. Buscamos apoio na dimensão espiritual. Mas muitas vezes perdemos o controle e erramos. E os nossos erros nessa área não são poucos.

 

Não podemos acreditar em tantos relatos divinos espalhados pelo mundo afora. Mas também não podemos desistir Daquele que está acima de tudo. Precisamos aprender a buscá-lo com bom senso. Por isso, saia da escuridão e venha para a estrada iluminada pelas verdades que libertam. Vamos juntos falar dessa Força Maior sem crendices, sem mitos, se antropomorfismos, sem preconceitos, com bom senso e muito respeito a todas as religiões e culturas.

 

Autor: Maralvestos Tovesmar. Este texto está disponível nos termos da licença CC BY-NC-ND. Pode ser copiado e distribuído, informando o autor e o link seguinte, mas não pode ser modificado e nem comercializado. Data: 2013. Veja outras mensagens em http://livresdosfardosreligiosos.blogspot.com.br



[5] Encyclopaedia Britannica do Brasil Publicações Ltda.

[7] Romanos 1.20, RC. Ver New King James Version

[16] Kami. Encyclopaedia Britannica do Brasil Publicações Ltda.

[27] Deus. Encyclopaedia Britannica do Brasil Publicações Ltda.

[29] Deus. Encyclopaedia Britannica do Brasil Publicações Ltda.

[35] Absoluto. Encyclopaedia Britannica do Brasil Publicações Ltda

[69] 2 Samuel 22:10; Salmos 18:9, RA ou 17.10, Bíblia católica. Ver a Bíblia New King James Version