Fantasias religiosas

Livres dos Fardos Religiosos

 

Segundo a tradição, no século III da era cristã, viveu são Jorge. Ele teria sido um soldado romano da Capadócia (atual Turquia) na época do imperador Diocleciano. A partir do século VI, muitas histórias fantásticas surgiram sobre a sua vida. A mais conhecida é a que narra o episódio em que ele salvou uma donzela de um dragão em uma cidade da Líbia, no norte da África. Esse acontecimento fantástico foi representado por muitos artistas. [1], [2], [3]. Essa história poderia ter sido totalmente real se não houvesse a presença de um dragão, um monstro mitológico, criando um ambiente de fantasia.

 

 

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Descrição: Concept-art done for Sintel , 3rd open-movie of the Blender Foundation. Data: setembro/2009. Autor: David Revoy / Blender Foundation Fonte. Licença CC BY.

Fantasia é tudo aquilo que não corresponde à realidade. É simplesmente fruto da imaginação, como o dragão da história do soldado Jorge. [4]. 

 

Não quero, de forma alguma, desmoralizar esse santo, mas o dragão da sua história, claro que foi uma fantasia religiosa criada por pessoas da Idade Média. Apesar da sua popularidade e de ser padroeiro de lugares importantes como Inglaterra, Portugal, Geórgia, Lituânia, Moscou, dentre outros, e até do grande alvinegro Corínthias, ninguém pode negar que o dragão é pura obra da imaginação popular. Afinal, todos sabem que não existem serpentes gigantes que cospem fogo e possuem asas de morcego. [5], [6].

 

Engana-se quem acha que fantasia é coisa apenas de criança. Fantásticos não são apenas os contos de fadas. Todas as pessoas de qualquer idade podem dar asas à imaginação. A área religiosa, por exemplo, é um verdadeiro palco de coisas imaginárias de pessoas adultas. Não podemos ver o mundo espiritual, mas conseguimos imaginá-lo, por isso, nas religiões, há muitas coisas fantasiosas. Diversos seres bons e maus, lugares tenebrosos e maravilhosos, acontecimentos extraordinários e muito mais são puros mitos. Há, na mente das pessoas, animais fabulosos, monstros medonhos, heróis de grandes odisséias, fadas, gênios, deuses bons e maus, semideuses...

 

·       Diversas culturas imaginaram um animal como uma grande serpente ou como um lagarto enorme com asas de morcego, cauda serrilhada, pele cheia de escamas, com uma ou várias cabeças. Cada cabeça teria uma boca com capacidade de lançar chamas de fogo. É claro que esse animal não tem um nome científico, mas popularmente e mitologicamente, estamos falando do grande e terrível dragão, que ainda assusta algumas mentes carregadas de crendices, embora essas criaturas se encontram apenas em brasões e bandeiras. [7], [8].

 

·       Os povos mesopotâmicos antigos acreditavam que existiam grupos de demônios com diversas funções: uns espalhavam doenças contagiosas como lepra e malária; outros provocavam catástrofes naturais como vendavais e maremotos; outros atacavam os seres humanos provocando raiva, ódio, epilepsia, etc. O maior dos demônios era o que provocava a morte e era imaginado sob a forma de uma serpente. [9].

 

·       Os egípcios antigos acreditavam na existência de vários deuses, que eram representados com corpo humano e cabeça de algum animal. Hórus, deus do céu, da luz e da bondade, tinha cabeça de falcão. [10]. Anúbis, deus dos mortos, tinha cabeça de chacal. [11].  Bastet, deusa da fertilidade, era representada com cabeça de gata. [12].

 

·       Para os hebreus, segundo o livro de Gênesis, os homens se multiplicaram sobre a face da terra, e lhes nasceram filhas muito formosas. Então os filhos de Deus viram que elas eram muito bonitas e tiveram relações com elas. Desses relacionamentos nasceram homens gigantes. [13]. Segundo esse relato, os filhos (alguns acham que são anjos) se relacionaram sexualmente com as mulheres daquele tempo, e delas nasceram os gigantes (nefilins). [14], [15], [16].

 

·       Para os gregos antigos, no vulcão Etna, na ilha Sicília, estava o deus do fogo, Vulcano, juntamente com os Ciclopes, seres gigantes. Os tremores de terra causados pelo vulcão, para eles, era o gigante Tifão se movimentando abaixo do cone vulcânico. De acordo com a crença, esse gigante tinha alguns filhos monstruosos, dentre eles, Cérbero, um cão de três cabeças, com calda de dragão, que guardava a entrada do mundo subterrâneo do deus Hades.[17], [18], [19].

 

·       A Igreja imaginou um lugar para onde vão as almas das crianças que morrem sem o batismo, conhecido como Limbus infantium. [20].

 

 

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Descrição: Concept-art done for Sintel , 3rd open-movie of the Blender Foundation.  Data: setembro/2009.  Autor: David Revoy / Blender Foundation. Fonte. Licença CC BY.

São apenas alguns exemplos. Estudando as diversas religiões da Antiguidade, encontramos muitas fantasias. Você poderá ver muito mais em outras mensagens.

 

Muitos elementos religiosos são baseados em fantasias provocadas por delírios, êxtases, sonhos, medos e impressões. Mas não podemos dizer que tudo nas religiões é simplesmente fantástico. Porém, as nossas imaginações religiosas descontroladas podem nos levar para bem longe da realidade.

 

Acreditar numa força poderosa controlando todas as coisas a qual chamamos de Deus não é fantasia. É uma crença lógica exigida pela realidade extraordinária do Universo. Mas quando imaginamos que esse Deus está assentado num trono, vestido com uma túnica prateada, com uma coroa de ouro na cabeça e um cetro na mão, então, estamos mergulhados nas fantasias. Estas coisas podem ilustrar a soberania de Deus, mas nunca podem ser vistas como realidades espirituais divinas, pois Deus não é nenhum rei humano. Aliás, um rei humano é muito pouca coisa ao lado do incomparável, indescritível e soberano Deus.

 

E por falar em Deus, aquele homem velhinho de barbas brancas e rosto enrugado, por favor, é apenas arte do famoso Michelangelo. [21], [22]. Não tenho absolutamente nada contra os anciões, mas o verdadeiro Deus não envelhece e jamais poderá ser representado por artistas. Esses apenas imaginam e brincam com os pincéis. Aquele italiano foi talentoso, mas vacilou nessa.

 

Vivemos num mundo maravilhoso, mas nem sempre percebemos as maravilhas do Universo. Muitas vezes ficamos ofuscados pelas nossas fantasias espirituais e não enxergamos o nosso planeta maravilhoso. Sonhamos com um paraíso celestial, enquanto destruímos o nosso paraíso terreal. Queremos ir para um lugar onde todos são bons, mas não deixamos de ser maus. Sonhamos com coisas boas e plantamos coisas ruins.

 

Todos nós tivemos ou teremos alguma fantasia espiritual. Temos uma mente com capacidade para imaginar o possível e o impossível. Entretanto, temos que saber administrar nossas imaginações para que um dia não nos tornemos reféns delas. Também temos que ter cuidado com o que ouvimos, pois muitas coisas podem ser meros frutos da imaginação dos outros. Não somos Jorge, todavia podemos acabar com os mitos que nos assombram, é claro, respeitando as crenças dos outros. Nesse mundo de idéias onde tudo é possível, existe também a possibilidade de saber administrar tudo isso com sabedoria. Faça a sua parte. Outras realidades maravilhosas certamente existem. Mas ainda não podemos explorar outras dimensões.

 

Simplesmente imaginando... Foi assim que muitos elementos religiosos enevoados surgiram e ainda surgirão.

 

Autor: Maralvestos Tovesmar. Este texto está disponível nos termos da licença CC BY-NC-ND. Pode ser copiado e distribuído, informando o autor e o link seguinte, mas não pode ser modificado e nem comercializado. Data: 2013. Veja outras mensagens em http://livresdosfardosreligiosos.blogspot.com.br