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Êxtases religiosos

Livres dos Fardos Religiosos

 

Pare por um instante. Feche os olhos e esqueça tudo. Sinta o seu corpo se desligar do mundo. Não dê atenção a nenhum ruído. Se você conseguir fazer tudo isso, irá sentir alguma coisa estranha envolvendo o seu ser. Assim é o início de uma situação de êxtase.

 

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Descrição: O Êxtase de São Francisco. Data: 1296-1298.  Autor: Giotto di Bondone (und Werkstatt). Fonte: The Yorck Project: 10.000 Meisterwerke der Malerei. DVD-ROM, 2002. ISBN 3936122202. Licença DP.

Êxtase é o estado de arrebatamento causado por algum prazer intenso. Nessa condição, a pessoa se sente desligada do mundo material, alcançando um estado de deleite intenso, totalmente desprendida das coisas ao seu redor. De acordo com os místicos de certas religiões, o êxtase tira a pessoa dos limites humanos e a coloca em contato com o mundo espiritual. Parece que o espírito sai do corpo e viaja noutras dimensões. [1], [2], [3], [4], [5], [6], [7].

Quando vemos uma pessoa nesse estado, geralmente ela apresenta alguns dos seguintes sinais: alegria, imobilidade, transpiração (suor), arrepios, mudança de voz, estremecimento de todo o corpo, perda das forças físicas, choro, transe (estado de alteração da consciência).

O êxtase, de modo geral, pode ser conseguido através de vários meios como: músicas, danças, orações, meditações, exercícios de respiração, relação sexual e uso de drogas. [8].

 

Como podemos ver, os meios são variados. Alguns, como o uso de drogas, embora a pessoa possa achar interessante, é algo perigoso e escravizador, por isso, jamais deve ser praticado. Na religião, também nem tudo é conveniente. Algumas pessoas, nesse estado, são facilmente enganadas, criam fantasias e falsas crenças, criando um mundo de meras ilusões.

 

O ato de entrar em estado de êxtase é uma prática muita antiga.

·       Nas religiões primitivas, a técnica do êxtase sempre foi usada pelos xamãs para se comunicarem com supostos espíritos, obterem poderes sobrenaturais, fazerem predições e curarem enfermidades. [9].

 

·       Em muitas religiões, sempre foi comum o uso de plantas alucinógenas e de outras substâncias similares para entrarem em êxtase. [10]. Veremos isso com mais detalhes em outra mensagem.

 

·       Na filosofia mística indiana, temos a prática da ioga. O objetivo dessa prática e a libertação do mundo material através do fortalecimento do espírito em união com a divindade. [11].

 

·       Os gregos tinham o deus do êxtase chamado Dionísio, cultuado com muito vinho e, é claro, muito êxtase. [12], [13].

 

·       No neoplatonismo, o filósofo Plotino ensinava que o mundo material é o grau mais inferior da emanação divina. Nesse nível, a potência divina está mais enfraquecia fazendo com que a matéria sinta privação do Bem Supremo. Para se fortalecer, a alma precisa despir-se da ilusão do mundo material através do êxtase místico.[14], [15].

 

·       O profeta Balaão da Mesopotâmia falou de visões caindo em êxtase. [16].

 

·       Também está presente nas crenças, doutrinas e práticas do espiritismo. [17], [18], [19].

 

Entre os hebreus, isso também acontecia.

 

·       O rei Saul, por exemplo, esteve deitado no chão, nu, nessa situação, profetizando. [20].

 

·       O profeta Ezequiel também falou dessa experiência. [21].

 

·       O profeta Daniel teve visões nesse estado. [22].

 

No Novo Testamento, entre os primeiros cristãos, também encontramos alguns exemplos.

 

·       Lucas relatou que Jesus orou no Monte das Oliveiras em grande aflição a ponto de suar gotas de sangue. [23].

 

·       Pedro, orando num terraço, teve um arrebatamento de sentidos. [24].

 

·       Paulo fala de um arrebatamento de espírito. [25], [26].

 

·       Lendo alguns textos de Paulo, podemos perceber que, na igreja primitiva, aconteciam alguns momentos de euforias espirituais. Na igreja de Corinto, por exemplo, percebemos que havia muita confusão. Foi preciso Paulo dar alguns conselhos para que houvesse um pouco de ordem nesse sentido. [27].

 

·       No Apocalipse, João relata uma visão sobrenatural quando ele caiu como morto, demonstrando estar nessa condição. [28].

 

Como veremos, mais adiante, numa outra mensagem, com o tempo, os líderes da Igreja desenvolveram uma liturgia cheia de formalidades, e o cristianismo se afastou um pouco desses costumes; embora encontramos ainda relatos de muitos santos católicos envolvidos com essa prática, como Santa Clara, São Francisco de Assis, dentre outros, que foram retratados em telas. [29], [30], [31]

 

·       No início do século XX, por volta de 1906, surgiu o movimento pentecostal, que trouxe novidades para a liturgia do culto, incluindo músicas com mãos levantadas, danças, palmas, falar em línguas, interpretação de línguas, profecias e pregadores barulhentos, tentando sair das velhas formalidades. Essa idéia foi evoluindo, e outras coisas foram surgindo. As igrejas históricas como a Igreja Episcopal, Anglicana, Luterana, Metodista, Batista e Católica ficaram de fora. [32], [33]. Por isso, novas igrejas acabaram sendo criadas como: Igreja Assembléia de Deus, Igreja Deus é Amor, Igreja Cristã no Brasil, Igreja do Evangelho Quadrangular, Igreja Unida, Igreja de Nova Vida e muitas outras. [34]. O adjetivo pentecostal passou a fazer parte do nome de várias igrejas. A partir dessa época, cultos carregados de êxtases surgiram por todos os lados, principalmente nas reuniões de oração.

 

·       Ainda nesse século, na década de 60, as igrejas históricas acabaram adotando crenças e práticas semelhantes aos pentecostais. Essa nova tendência ficou conhecida como Movimento Carismático. [35].

 

·       No final do século XX, na década de 90, em Toronto, no Canadá, surgiu a onda da fanerose com crenças até então estranhas como: cair no espírito, unção do riso, unção do leão, e por ai afora, dando aos cultos uma agitação diferente, ofuscando um pouco a liturgia tradicional. Os adeptos dessa onda passaram a uivar, latir, grasnar, andar de quatro, rolar no chão, dar risadas, rodopiar e outras coisas semelhantes. [36], [37]. Essa prática, aparentemente espiritual, mas demonstrando fanatismo e irracionalidade, não demonstra uma volta aos encontros dos primeiros cristãos, uma vez que as virtudes cristãs ou os frutos do Espírito, nem sempre são encontrados nas pessoas que frequentam esses movimentos. Novos pregadores adeptos dessa idéia saem por ai, oferecendo ao povo esse tipo de liturgia para abrilhantarem as velhas e cansativas tradições litúrgicas que ainda embaraçam. E as coisas velhas, com essas novidades estranhas, deixam o povo longe do verdadeiro evangelho, fazendo meros espetáculos religiosos frenéticos que, na verdade, não tem trazido nenhuma edificação e amadurecimento para pessoas. Tem sido apenas shows de aparente espiritualidade. [38].

 

Como vimos, esse costume sempre foi muito comum nas diversas religiões, desde a Antiguidade. Todo mundo gosta de ficar extasiado. E isso não é nenhum problema em si. Mas como tudo que é feito sem controle, moderação e bom senso acaba se tornando ruim, com a prática do êxtase não foi diferente. Embaladas nesse gozo, muitas pessoas exageraram. Assim surgiram muitas fantasias, crendices, doutrinas, heresias e práticas religiosas sem sentido e nocivas. Religiões e igrejas se envolveram com um monte de coisas que, mesmo sendo carregado de euforia, não trazem benefícios verdadeiros. Muitas pessoas, embaladas por essa emoção, imaginam que falaram com Deus, que tiveram contatos com anjos ou espíritos, que tiveram revelações e visões e outras coisas mais. Por causa de tudo isso, vem surgindo um monte de coisas estranhas.

 

Não quero dizer que não existem pessoas que possam ter experiências sobrenaturais verdadeiras. Mas posso afirmar que muitas coisas que se vêem por ai não passam de modismos e espetáculos religiosos. Alguns estão mesmo é querendo aparecer, dando uma de gente especial, dotado do poder do alto. Nessas horas, muitos perdem a sua humildade. E é assim que surgem muitos enganos. Estou falando de coisas que já vi com meus próprios olhos.

 

Temos que ter muita cautela e bom senso diante dessas coisas. Não podemos julgar ninguém. Não podemos zombar das experiências que muitas pessoas tiveram nos momentos de êxtase. Jamais podemos dizer que estão sendo usadas por demônios ou coisas parecidas. Mas também não podemos acreditar em tudo. Uma experiência desse tipo não significa uma revelação divina verdadeira. Todo mundo tem o direito de se sentir extasiado, porém, ninguém deve impor elementos religiosos baseados nessa prática. Observando os frutos, descobriremos o que é falso e o que é verdadeiro. Vamos ficar de olhos abertos para não arrumarmos novos fardos religiosos.

 

Autor: Maralvestos Tovesmar. Este texto está disponível nos termos da licença CC BY-NC-ND. Pode ser copiado e distribuído, informando o autor e o link seguinte, mas não pode ser modificado e nem comercializado. Data: 2013. Veja outras mensagens em http://livresdosfardosreligiosos.blogspot.com.br



[15] Encyclopaedia Britannica do Brasil Publicações Ltda