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Delírios religiosos

Livres dos Fardos Religiosos

 

Um homem viciado em cachaça havia parado de beber por um tempo. Numa certa noite, ele ia por uma estrada estreita, num lugar deserto, montado em seu cavalo. Corujas crocitavam nos galhos sombrios. As folhas negras acenavam na brisa fria para o luar, que vinha, vagarosamente, galgando o céu. Curiangos gemiam por todos os lados. Grilos trilavam embaraçados entre a relva molhada de gotas geladas de orvalho. Não estava só. Mas essas criaturas noturnas ajudavam a criar um ambiente carregado de tenebrosidade.

 

 

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Descrição: Cavaleiro noturno. Data: Janeiro/2013. Autor: Maralvestos. Licença CC BY-SA.

De repente, um susto... No meio da mata escura, a voz arrepiante de outro homem que havia falecido há vários meses. O defunto queria rezas para a sua alma. O cavaleiro, com voz trêmula e engasgada, respondeu que atenderia o seu pedido. Logo em seguida, a voz sumiu no meio dos ramos sombrios. Abraçado pelo terror, seu cabelos pareciam eletrificados.

 

Delírio, também conhecido como alucinação, é a perturbação das faculdades mentais, que deixa a pessoa desorientada e confusa, fazendo com que ela sinta e/ou ouça e/ou veja coisas que não existem. Pode ser causado por alguns remédios, drogas diversas, doenças variadas, pancada na cabeça, etc. A pessoa viciada, aquela que deixa as drogas ou o álcool de forma súbita, também pode sofrer delírios. Foi o que aconteceu com aquele homem que teria ouvido a voz de um defunto.

 

Uma pessoa delirada pode achar que teve contatos com forças do além ou seres do outro mundo; pode achar que está sendo perseguida por criaturas irreais ou mesmo por pessoas comuns; pode se sentir poderosa, achando que tem o direito de dominar o mundo, que sua mente está sendo controlada por uma divindade ou por demônios e uma série de coisas mais, que somente um profissional da psicologia poderá explicar com todos os detalhes. [1], [2], [3].

 

O cenário também contribui. Um ambiente carregado de misticismo, mistérios e escuridão parece contribuir bastante para que uma pessoa tenha essa experiência.

 

O delírio religioso acontece quando, nesse caso, a pessoa ouve e/ou sente, e/ou vê coisas relacionadas com a religião. O homem da história tinha o hábito de rezar pelos mortos. Então o seu delírio foi relacionado com essa prática religiosa.

 

Muitos elementos religiosos (relatos, crenças, rituais, escritos, etc.) surgiram, muitas vezes, a partir de delírios que algumas pessoas sofreram. Muitas audições e visões registradas nos relatos religiosos não passam de histórias delirantes. É comum ver pessoas dizendo que ouviram vozes e que viram coisas assombrosas sem nenhuma lógica. Percebemos claramente indícios de delírios em muitos casos absurdos cheios de declarações sobrenaturais. 

O preconceito é um problema sério entre os delirantes e a massa religiosa. Aqueles que têm delírio de grandeza e os que sentem que estão sendo dirigidos por forças divinas geralmente são tratados como pessoas especiais e poderosas. Muitos até são considerado como um semideus. Por outro lado, alguns que sofrem delírio de perseguição, que sentem que estão sendo dominados por maus espíritos, que acham que viram coisas estranhas ou alguma outra coisa negativa, são tratados como pessoas possessas por maus espíritos. Cuidado, pois muitos proselitistas estão se aproveitando dessas coisas.

 

Temos que deixar esse preconceito de lado. Qualquer um pode ter essa experiência um dia. Como vimos, as causas são variadas. E ninguém está totalmente livre disso. Precisamos rever nossos elementos religiosos, deixando de lado muitas coisas sem sentido, irracionais, que não edificam, que não melhoram a vida humana ou que estimulam atos de grandeza, de perseguição, de discriminação, de violência ou de dominação. Com sensatez podemos perceber que muitas coisas surgiram a partir de meros delírios. Precisamos nos libertar de tudo que surgiu nas mentes religiosas delirantes.

 

Não estamos querendo denegrir ninguém e nenhuma religião ou igreja. Não estamos tentando dizer que tudo é fruto desse problema psicológico. Isso também seria um preconceito. Afinal, o mundo ainda carrega muitos outros mistérios. Mas desejamos que as pessoas amadureçam nesse sentido, deixando de acreditar e seguir qualquer coisa que vê e ouve precipitadamente. Nesse terreno, precisamos caminhar com cautela, com os olhos bem abertos, porque sempre, algum de nós estará delirando.

 

Autor: Maralvestos Tovesmar. Este texto está disponível nos termos da licença CC BY-NC-ND. Pode ser copiado e distribuído, informando o autor e o link seguinte, mas não pode ser modificado e nem comercializado. Data: 2013. Veja outras mensagens em http://livresdosfardosreligiosos.blogspot.com.br