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Zombarias religiosas

Livres dos Fardos Religiosos

 

Na área religiosa, qualquer um acaba cometendo algum deslize, alguma ingenuidade. Ninguém é bastante sábio capaz de nunca cometer algum engano. Por isso, devemos respeitar uns aos outros. Todavia, nem sempre, é o que acontece. Muitos adoram zombar da religiosidade dos outros.

 

A zombaria religiosa acontece quando alguém procura, por meio de risos, palavras e atitudes, ridicularizar uma pessoa ou alguma instituição religiosa. Pode também ser chamada de deboche, escárnio, sarcasmo ou chacota. [1]

 

 

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Descrição: Zombaria religiosa. Data: dezembro/2013. Autor: Maralvestos. Licença CC BY-SA.

Jesus, após dizer algumas palavras na casa de um chefe de sinagoga, pôde ver várias pessoas rindo dele. (Mateus 9:24.) [2]

 

Pedro escreveu: “Primeiro vocês precisam saber que nos últimos dias vão aparecer homens dominados pelas suas próprias paixões. Eles vão zombar de vocês.” (2 Pedro 3:3, NTLH.) [3] Os apóstolos de Jesus Cristo profetizaram: “Quando chegarem os últimos tempos, aparecerão pessoas que vão zombar de vocês, pessoas que não querem saber de Deus e seguem os seus próprios desejos.”  (Judas 1:18, NTLH.) [4] Isso tem acontecido com aqueles que procuram seguir o verdadeiro evangelho.

 

No final do século passado, aqui no Brasil, usando expressões chulas e irônicas, muitos riam daqueles que seguiam igrejas evangélicas. Isso acontecia nas salas de aula, nos locais de trabalho e até nas ruas. Por outro lado, muitos evangélicos têm zombado até mesmo de irmãos da sua própria igreja. Já vi pregadores famosos, tentando enriquecer seus sermões com gracejos em cima de doutrinas e costumes de outros crentes. Lamentavelmente, sem amor, fazem a platéia rir daqueles que têm comportamentos religiosos diferentes, não aprovados pelo cômico pregador. Às vezes, parece que estamos diante de um comediante, e não de um pregador que diz ser evangélico.

 

Hoje em dia, na Internet, nas redes sociais, é muito comum ver ateístas (aqueles que não acreditam em nenhuma divindade) escarnecendo dos teístas (os que confiam em alguma divindade). Também encontramos seguidores de igrejas protestantes e evangélicas fazendo chacotas de ateus, católicos e espíritas ou de outras igrejas e religiões. Da mesma forma, muitos católicos procuram ridicularizar outras igrejas e religiões ou os seus seguidores.

 

E aquelas charges tentando desmoralizar líderes ou instituições religiosas? Existem muitas por ai. Algumas, tentando denunciar certos atos maus, até podem ser interessantes. Mas muitas são meras zombarias inconvenientes.

 

Vimos, em outra mensagem, que o profeta Elias cometeu vilipêndio contra os profetas de Baal por meio de zombarias, quando eles buscavam uma manifestação desse deus. (I Reis 18.27, RC.) [5] É claro que Baal não passava de uma divindade mitológica. Mas será que Elias agiu certo zombando da crença deles? Podemos imitar Elias nesse sentido? Será que temos o direito de debochar da religião dos outros? Será que não é possível debater idéias com palavras civilizadas?  Será que temos abundante conhecimento e, com isso, conquistamos o direito de humilhar os outros? Muitos que deviam estar evangelizando e falando com bons modos estão, na verdade, simplesmente debochando dos outros. Até escrevem risadas sarcásticas de várias maneiras contra as crenças alheias, acompanhadas de palavras e expressões de baixo calão.

 

Precisamos melhorar nossos relacionamentos religiosos. Temos o direito de discordar dos outros, de defender nossas idéias e crenças. Mas tudo precisa ser feito com boas maneiras, sem esses sarcasmos inoportunos. Se não gostamos de ver os outros zombando de nós, então, não devemos escarnecer da fé de ninguém. Muitos realmente estão fazendo coisas esquisitas, mas nada é cômico e muitas coisas são trágicas. Então, precisamos deixar os gracejos de lado e levar o evangelho genuíno da graça a sério. As pessoas espiritualmente famintas não precisam do pão e do circo de Roma e nem de qualquer outro lugar. O povo precisa do pão da vida, o pão vivo que desceu do céu: não precisa de espetáculos circenses religiosos. [6], [7] Zombar e ser zombado, nada disso vai melhorar o mundo.

 

Autor: Maralvestos Tovesmar. Este texto (não o site inteiro) está disponível nos termos da licença CC BY-NC-ND. Pode ser copiado e distribuído, informando o autor e o link seguinte, mas não pode ser modificado e nem comercializado. Data: 2013. Veja outras mensagens em http://livresdosfardosreligiosos.blogspot.com.br

Injúrias religiosas

Livres dos Fardos Religiosos

 

Uma das atitudes comuns usadas por aqueles que gostam de vilipendiar outras crenças são as injúrias.

 

Alguém escreveu dizendo que os países protestantes são os mais equilibrados financeiramente, possuem governos estáveis e são bem alfabetizados, enquanto os países católicos vivem mergulhados em diversas crises. Dinamarca, Noruega, Inglaterra, Estados Unidos foram citados como exemplo de países prósperos com a maioria da população protestante. Países africanos e latino-americanos foram mencionados como países católicos que vivem em estado de pobreza. [1], [2]

 

 

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Descrição: Riqueza e pobreza. Data: Autor: Maralvestos. Licença CC BY-SA.

Essa pessoa, preconceituosamente, com palavras implícitas, acabou chamando os católicos de pobres e ignorantes. Sabemos que isso não é verdade. Há países prósperos e bem alfabetizados, onde o catolicismo predomina. A Itália, por exemplo, em 2003, mostrou o IDH (índice de desenvolvimento Humano) na marca de 0,934, portanto elevado. A Bélgica, na mesma data, apresentou o mesmo índice com 0,945; a França com 0,938 e a Espanha com 0,928. Por outro lado, o Japão, onde predomina o budismo e o xintoísmo, apresentou o IDH de 0,943. [3] Essa pessoa ignorou que os países católicos pobres das Américas e da África foram duramente explorados por nações católicas e protestantes. Portanto, a sua condição de vida não tem nada a ver com a religião. Dizer que países católicos são pobres e ignorantes é uma injúria. Além disso, essa pessoa, com o seu preconceito, não levou em consideração que a África, segundo a fontes do início do século XXI, possuía apenas 15 % de católicos e 18% de outras igrejas cristãs. [4], [5] Portanto, sua condição econômica não tem nenhuma relação com o catolicismo e nem com qualquer outra religião. Não sou católico, mas não posso aceitar uma injúria desse tipo contra os milhões de seres humanos vítimas da pobreza.

 

Injúrias religiosas são palavras ou atos dirigidos a algumas pessoas ou religiões com o objetivo de ofendê-las, insultá-las, maltratá-las, diminuí-las, ultrajá-las ou difamá-las. É mais uma maneira que as pessoas encontram para colocar para fora o ódio de grupos religiosos diferentes. O preconceito gera ódio, e o ódio gera vilipêndios carregado de ofensas.

 

Não podemos confundir a crítica construtiva ou a reprovação de alguma coisa errada com injúria. Por exemplo: quando criticamos a Inquisição católica, a corrupção da Igreja, a matança dos hebreus no judaísmo e outros males contra a humanidade, o nosso objetivo não é ofender essas religiões, mas mostrar os erros praticados, equivocadamente, em nome de Deus. Coisas que não podemos repetir.  Não queremos, jamais, que o judaísmo, o catolicismo ou qualquer outra religião ou igreja sejam eliminados da face da terra. O que mais desejamos é que os males que qualquer grupo religioso praticou nunca mais se repitam. Todavia, muitas pessoas realmente fazem de tudo para prejudicar e não para ajudar. Nas concorrências acirradas entre religiões e igrejas, as injúrias têm sido usadas para derrubar o grupo concorrente.

 

Sempre houve muitas injúrias no meio religioso. No tempo de Jesus, por exemplo, os habitantes da Galiléia, onde, no passado, pessoas estrangeiras haviam se misturado com judeus, eram tratadas com desprezo e palavras injuriosas. [6]

 

Um dia, Filipe disse algumas coisas sobre Jesus para Natanael. Mas esse respondeu: “Pode vir alguma coisa boa de Nazaré?” (João 1.45-46. Texto entre aspas da RC.) [7] Com essas palavras, Natanael acabou difamando, como era de costume, os habitantes da Galiléia. Segundo as suas palavras, daquele lugar só podia vir coisas ruins. O messias tão esperado não poderia vir de lá. Outro dia, de forma semelhante, os principais dos sacerdotes e fariseus disseram para Nicodemos: “Examina, e verás que da Galiléia nenhum profeta surgiu.” (João 7.52, RC.) [8]

 

Quando Jesus pregava o seu evangelho, alguns judeus disseram para ele: “Não dizemos nós bem que és samaritano, e que tens demônio?” (João 8.48, RC.) [9] Ora, eles não precisavam ser seguidores de Cristo. Porém não precisavam injuriá-lo dizendo essas coisas.

 

Certo pregador protestante dizia, com vários argumentos, que o papa é a besta do Apocalipse. Essa pessoa não tem o papa como o líder máximo do cristianismo. Eu também não tenho o papa como o meu líder religioso principal. Mas, como aquela pessoa, não me atrevo a dizer essas coisas.

 

Um protestante, falando sobre o celibato, ato de renunciar ao casamento, costume dos líderes da Igreja Católica, o chamou de “doutrina de demônios". Ora, essa pessoa tem todo direito de não concordar com esse costume religioso. Eu também acho que isso não é necessário. Mas não precisamos e não podemos ofender o clero católico por isso.

 

O preconceito contra os negros no Brasil pode ser visto em algumas igrejas evangélicas. Alguns pregadores dizem, ofensivamente, que as religiões afro-brasileiras são responsáveis por algumas ações demoníacas na vida das pessoas. É verdade que existem aqueles que realizam trabalhos sujos. Todavia, a má fama costume ser aplicada a todas. Se a Igreja tem o poder sobre os demônios, então porque não os expulsa sem fazer comentários ofensivos?

 

Um pastor lamentou que certa religião ensina que todas as outras religiões são obra do diabo. Mas o mesmo pastor contra-atacou dizendo que algumas religiões realmente são obra do diabo, inclusive aquela.

 

É um absurdo ver um pastor chamar o outro de “bundão”, “cachorro morto”, “pregador de meia-pataca”, idiota, mané, filho do diabo, filho do inferno, falso profeta e outras injúrias que vemos na mídia, principalmente na Internet. Ridículo foi ver um pregador, no seu programa de televisão, chamar os seus críticos de “comedô de angu cum taioba”, ainda por cima, usado o nome de Jesus. Isso me ofendeu, pois na minha cozinha sempre tem uma lata de fubá e, no meu quintal, taioba. Por acaso quem come angu com taioba é desprezível?

Pedro escreveu: “Não tornando mal por mal, ou injúria por injúria, antes, pelo contrário, bendizendo; sabendo que para isto fostes chamados, para que, por herança, alcanceis a bênção.” (I Pedro 3.9, RC.) [10] Ofensas pra cá e ofensas pra lá só vão piorar as coisas. Por isso, as pessoas precisam aprender a não rebater o mal com outro mal.

 

Outra coisa muito comum é ver pessoas inocentes dentro de uma determinada religião sendo injuriadas por causa dos erros de alguns adeptos da mesma religião no passado. Por exemplo: alguns judeus perseguiram Jesus no primeiro século. Por causa disso, muitos perseguiram os judeus na Idade Média e Moderna. Os judeus da Europa dos tempos medievais e modernos não poderiam ser ofendidos por causa dos erros de seus antepassados. Da mesma forma, não podemos tratar mal os católicos de hoje por causa das maldades que a Igreja cometeu em outras épocas.

 

Devemos denunciar os erros de qualquer religião. No entanto, devemos fazer isso com respeito e com críticas construtivas, evitando palavras injuriosas. Devemos fazer tudo isso com o objetivo de ajudarmos uns aos outro e não com a intenção de denegrir e eliminar a religião dos outros. Vamos condenar o pecado sem apedrejar o pecador.

 

Autor: Maralvestos Tovesmar. Este texto está disponível nos termos da licença CC BY-NC-ND. Pode ser copiado e distribuído, informando o autor e o link seguinte, mas não pode ser modificado e nem comercializado. Data: 2013. Veja outras mensagens em http://livresdosfardosreligiosos.blogspot.com.br

Vilipêndio religioso

Livres dos Fardos Religiosos

 

Você já foi humilhado por causa da sua religião, doutrinas, rituais ou crenças? Saiba que isso tem sido muito comum no meio religioso.

 

O rei Josias de Judá confiava no Deus dos hebreus e não acreditava em outros deuses. Ele defendeu a sua fé com um vilipêndio excessivo. Saiu pelo reino afora destruindo, quebrando, esmigalhando tudo que era de outra religião. “No oitavo ano do seu reinado, quando era ainda bem moço, Josias começou a adorar o Deus do seu antepassado Davi. E quatro anos mais tarde começou a purificar a terra de Judá e a cidade de Jerusalém, destruindo os lugares pagãos de adoração, os postes-ídolos e as outras imagens de pedra e de metal. Na presença dele, foram derrubados os altares do deus Baal, e ele mesmo quebrou os altares de incenso que estavam em cima deles. Quebrou também os postes-ídolos e as outras imagens de pedra e de metal, os esmigalhou até virarem pó e espalhou o pó em cima das sepulturas das pessoas que tinham oferecido sacrifícios a esses ídolos. Depois queimou os ossos dos sacerdotes pagãos nos altares onde eles haviam oferecido sacrifícios. Assim Josias purificou Judá e Jerusalém. Ele fez a mesma coisa nas cidades das tribos de Manassés, de Efraim, de Simeão e até de Naftali e nas ruínas ao redor daquelas cidades. Ele andou por todo o país de Israel, derrubando os altares, os postes-ídolos e os outros ídolos, esmigalhando-os até virarem pó e quebrando todos os altares de incenso. Depois voltou para Jerusalém. (II Crônicas 34.3-7, RA.) [1]

 

Josias estava certo em defender a sua fé. Mas errou ao recusar a religião diferente com um desprezo excessivo, carregado de manifestações de ódio e intolerância. Será que podemos fazer o que ele fez? Não seria crime tudo que esse rei praticou contra outras crenças?

 

 

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Descrição: Jesus sendo tratado com desprezo. Data:1984. Autor: Jim Padgett. Fonte. Licença CC BY-SA.

Vilipêndio é o ato de tornar algo ou alguém desprezível, sem apreço, sem valor, inútil. [2] Vilipêndio religioso é o desprezo, a desconsideração, o tratamento desrespeitoso que uma pessoa sofre por causa dos seus elementos religiosos. Esse é mais um dos frutos do ódio religioso.

 

É natural uma pessoa deixar de lado uma religião, uma crença, uma doutrina. Mas ela deve fazer isso sem causar transtornos às outras pessoas que pensam e agem de forma diferente. Infelizmente nem sempre as pessoas agiram dessa forma.

 

Os soldados de Pilatos puseram uma coroa de espinhos na cabeça de Jesus, colocaram uma vara na sua mão direita e escarneceram dizendo: “Salve, Rei dos judeus!” Cuspiram nele e bateram na cabeça dele com a vara. (Mateus 27.29-30, RA, RC, TB.) [3] Eles tinham o direito de não crer em Jesus, mas não podiam jamais tratá-lo dessa forma.

 

Quando os profetas do deus Baal oravam em volta do altar, sem nenhuma resposta do seu deus, o profeta Elias, da religião dos hebreus, caçoou dizendo: “Clamai em altas vozes, porque ele é um deus; pode ser que esteja falando, ou que tenha alguma coisa que fazer, ou que intente alguma viagem; porventura, dorme e despertará.” (I Reis 18.27, RC.) [4] É claro que não podemos zombar de ninguém com palavras semelhantes a essas. Podemos rejeitar as crenças de certas pessoas, mas não com palavras depreciativas como fez Elias. Ele, apesar de ter sido um grande profeta, era também um ser humano pecador. E ele pecou ao agir dessa forma.

 

Diz um relato que, em 1717, no Brasil, no estado de São Paulo, no rio Paraíba do Sul, no porto de Itaguaçu, alguns homens estavam pescando com suas redes. Não estavam apanhando nada. Mas de repente, ao puxarem as redes, perceberam alguma coisa embaraçada. Era o tronco da imagem da Virgem Maria. Lançaram as redes novamente e pescaram a sua cabeça. Então, a partir desse instante, segundo relatos, houve uma pesca abundante.

 

Essa imagem recebeu o nome de Nossa Senhora Aparecida e tornou-se a padroeira do Brasil para os católicos. Muitos cultivam uma grande devoção por ela. Fazem romarias na cidade de Aparecida, realizam promessas, rezam e muitas outras coisas. Tem sido uma das maiores manifestações de religiosidade popular brasileira. [5].

 

As igrejas evangélicas e protestantes não seguem essa devoção. É o direito que elas têm. Ninguém é obrigado a cultivar as mesmas crenças e as mesmas práticas religiosas dos outros. Todavia, ninguém deve, com certas palavras e atitudes, menosprezar a religiosidade de ninguém. No entanto, certo bispo de uma determinada igreja evangélica chutou a imagem da Senhora de Aparecida. Ele tinha toda liberdade de não acreditar nela. Entretanto, jamais devia tratá-la desse jeito. Foi uma atitude desrespeitosa, que ninguém deve imitar.

 

Os católicos da Idade Média tinham todo direito de não seguir o judaísmo ou qualquer outra religião. Mas os seus líderes não podiam jamais fazer o que eles fizeram. Não podiam realizar nenhum auto de fé, levando as pessoas de outras crenças em procissões, vestidas de sambenito, proporcionando um espetáculo funesto e humilhante para o público. Nunca deviam ter zombado a ponto de permitir que o poder secular pendurasse essas pessoas nas estrapadas e que fossem queimadas vivas diante do público. Humilharam extremamente os defensores de outras crenças e doutrinas, cientistas, supostas bruxas e judeus. [6], [7], [8], [9]

 

Se uma pessoa não seguir, à risca, as tradicionais doutrinas do cristianismo, ela certamente entrará para o rol daqueles que são considerados desprezíveis e que são tratados com adjetivos vilipendiosos. Entre muitas igrejas evangélicas, ainda encontramos atitudes desdenhosas e inconvenientes. É comum ver um acusando o outro de ser carnal, servo do diabo, falso profeta e coisas parecidas. Certo pastor, se referindo sobre as mensagens divulgadas por uma religião oriental, disse: “Irmãos, fujam destas heresias demoníacas!” [10] Será que ele não podia defender suas crenças, evitando chamar aquelas mensagens de demoníacas.

 

Como podemos ver, a desconsideração excessiva da religiosidade alheia acaba causando ódio, injúrias e atos de intolerância entre os religiosos. Isso não é correto. Não somos obrigados a crer naquilo que os outros acreditam. Temos a liberdade de não querer praticar os rituais que os outros praticam. Somos livres para seguir a religião que quisermos; somos livres para expor o nosso ponto de vista e podemos tecer nossas críticas construtivas. Todavia, precisamos respeitar as diferenças religiosas dos outros. Não podemos defender a nossa religião vilipendiando as demais com certos atos e palavras. Podemos divulgar as nossas crenças sem escarnecer das outras.

 

Autor: Maralvestos Tovesmar. Este texto está disponível nos termos da licença CC BY-NC-ND. Pode ser copiado e distribuído, informando o autor e o link seguinte, mas não pode ser modificado e nem comercializado. Data: 2013. Veja outras mensagens em http://livresdosfardosreligiosos.blogspot.com.br

Laicismo

Livres dos Fardos Religiosos

 

O Estado precisa ser laico. Mas ainda vemos algumas religiões e igrejas sendo privilegiadas. Em 1962, o presidente João Goulart mandou 175 bispos para Roma a fim de participarem do Concílio Vaticano II, num avião fretado por ele. [1], [2] Ainda temos feriados religiosos não facultativos. Andamos por ruas, praças e cidades com nomes de entidades religiosas. Vemos, nas repartições públicas, Bíblias e crucifixos. Encontramos estátuas religiosas decorando locais públicos. Coisas desse tipo podem ser boas para a religião beneficiada, mas nada disso é bom para todos.

 

Laicismo é uma doutrina que defende a idéia de que a religião não deve interferir nos assuntos do Estado, e vice-versa. [3], [4] Estado e igreja ou qualquer outra organização religiosa devem ser instituições independentes.

 

 

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Descrição: Primeira Missa no Brasil. Data: 1860. Autor: Victor Meirelles (1832–1903). Fonte/Fotógrafo: Tetraktys. Fonte e licença domínio público.

Privilegiar uma religião com a máquina pública é algo do fundo do baú.

 

Os navios (caravelas) de Cabral possuíam flâmulas com uma cruz para representar a Ordem de Cristo, uma ordem militar religiosa, fundada pelo rei D. Dinis em 1318 e que patrocinou as expedições marítimas portuguesas. [5] Naquela frota do reino de Portugal, estavam um grupo de franciscanos sob a direção do frei Henrique de Coimbra. [6], [7] Eles chegaram por aqui e, no dia 26 de abril, enquanto as velas com cruzes vermelhas descansavam no litoral da Bahia, o frei, ao pé de uma cruz, celebrava a primeira missa na Terra de Santa Cruz, ainda denominada de Ilha de Vera Cruz. Tudo isso aconteceu porque o reino português era católico. Não era uma nação laica.

 

Algumas nações possuem, em suas bandeiras, símbolos religiosos. [8] Umas têm uma cruz, símbolo do cristianismo, como Suíça e Tonga. [9], [10] Outras possuem uma lua crescente lembrando o islã, como a Tunísia, a Mauritânia e a Turquia [11], [12], [13] A bandeira de Israel contem a estrela de Davi, um símbolo do judaísmo. [14] Coisas desse tipo, em muitos lugares, podem ser resíduos da falta de laicismo ou mesmo a total ausência dele.

 

Nas nações teocráticas e nos países que possuíam uma religião oficial, era comum haver a interferência de autoridades religiosas nos assuntos do Estado e autoridades estatais lidando com assuntos religiosos.

 

No século XI a.C., o profeta Samuel, seguidor da religião de Moisés, ungiu Saul para ser o primeiro rei dos hebreus. (I Samuel 10.1.) [15] Pouco tempo depois, o mesmo profeta ungiu Davi para ocupar o lugar de Saul. (I Samuel 16.1-13.) [16] No século X a.C., depois que Davi tornou-se rei dos hebreus, ele buscou a Arca da Aliança, o principal símbolo religioso desse povo, e a levou para Jerusalém. (II Samuel 6.) [17] Esse rei procurou recolher materiais para construir um templo religioso. (I Crônicas 29.) [18] Depois que Salomão tornou-se rei, após a morte do seu pai Davi, ele construiu o primeiro templo de Jerusalém, onde a Arca da Aliança foi colocada. (II Crônicas, capítulos 2; 3; 4; 5; 6 e 7.) [19] Os reis de Israel sempre estavam ligados aos assuntos religiosos do judaísmo porque a terra de Israel não era uma nação laica.

 

Quando Jesus andou pregando o seu evangelho, ele demonstrou que a religião não tem nenhuma ligação com o Estado. Ele foi preso, sendo acusado de estar fazendo subversão entre o povo, dizendo para não pagar impostos ao imperador romano e de ser ele um rei.  (Lucas 23.1-2.) [20] Mas foram meras acusações. Em outra ocasião, ele disse, se referindo aos impostos: “Dai, pois, a César o que é de César, e a Deus o que é de Deus.” (Lucas 20.25, RC, RA.) [21] Jesus não queria interferir nos assuntos de Roma. Ele não quis ser um rei terreno. Quando Pilatos perguntou se ele era o rei dos judeus, ele respondeu: “O meu reino não é deste mundo. Se o meu reino fosse deste mundo, os meus ministros se empenhariam por mim, para que não fosse eu entregue aos judeus; mas agora o meu reino não é daqui.” (João 18.33-36, RA.) [22] Com essas palavras, ele disse que o seu evangelho não tem qualquer vínculo com nenhum país do mundo. Mas a Igreja não seguiu essa idéia.

 

·         No século IV, quando o imperador romano Constantino apoiou o cristianismo, e Teodósio o transformou na religião oficial do império, a maioria dos líderes cristãos transformou o evangelho do reino de Deus em evangelho do Império Romano. A Igreja e o império se misturaram e, por isso, ela até ganhou o adjetivo romana no seu nome. [23], [24].

 

·         No século IV, no ano 325, na cidade de Nicéia (atual cidade de Iznik), na Turquia, o imperador Constantino de Roma convocou um concílio, onde se reuniram 318 bispos. Nessa reunião, foi estabelecido o Credo de Nicéia, contendo um resumo das crenças cristãs aceitas por muitas igrejas e aprovadas pelo Império Romano. Era o início das interferências do rei nos assuntos da Igreja [25], [26].

 

·         No mesmo século, Constantino ordenou construir, num bairro nobre de Roma, conhecido como Vaticanus, um templo, onde mais tarde, sobre os mesmos alicerces, foi construída a basílica de São Pedro. Também, influenciado pela sua mãe, a imperatriz Helena, mandou edificar a Basílica do Santo Sepulcro em Jerusalém e a Igreja da Natividade em Belém. [27], [28], [29]. Constantino também deu o Palácio de Latrão de presente ao papa Melquíades, que foi transformado na Igreja de São João de Latrão. [30]

 

·         A partir do início século VI, Clóvis I, o rei dos francos, protegeu a Igreja e até convocou I Primeiro Concílio de Orléans, promovendo uma estreita ligação entre Igreja e Estado. [31], [32] 

 

·         Em 754, o papa Estevão II coroou Pepino, o Breve, como rei dos francos. [33]

 

·         Em 785, na Europa, Carlos Magno, o rei dos francos, através de um decreto, instituiu o dízimo como uma lei civil para o sustento da Igreja Católica. [34], [35] O dízimo das igrejas modernas, na verdade, não é igual ao dízimo da Bíblia, em forma de produtos agropecuários, que está na lei de Moisés, mas um dízimo em forma de dinheiro, criado por esse reino carolíngio não laico. [36]

 

·         No ano 800, o papa Leão III coroou Carlos Magno, confirmando-o como o imperador do grande reino dos francos. [37]

 

·         Em 804, esse imperador, através das armas, forçou a conversão dos saxões ao catolicismo. [38], [39], [40]

 

·         No século X, o papa coroou Oto I como o imperador do Sacro Império Romano-Germânico. [41]

 

·         No mesmo século, Oto I retirou o papa João XII do trono e colocou Leão VIII no seu lugar. [42], [43]

 

·         Entre os séculos XI e XII, aconteceu a questão das investiduras, durante mais de cinquenta anos. Nessa época, os imperadores e os senhores feudais nomeavam padres e bispos para ocuparem os cargos eclesiásticos dentro dos feudos do Sacro Império Romano-Germânico, mas o papa queria que esse direito fosse dele. O conflito iniciou-se em 1075 entre o Papa Gregório VII e Henrique IV, imperador do Sacro Império Romano, provocando uma guerra civil. [44], [45]

 

·         A partir do século XIII, até meados do século XVIII, os tribunais da Inquisição, criados pela Igreja Católica, condenaram muitas pessoas a pena de morte na fogueira. A Igreja julgava as pessoas, e o Estado as condenava. As execuções eram realizadas pelas autoridades civis, mas tinham o apoio da Igreja. O Estado promovia a execução de pessoas que a Igreja julgava como hereges. [46], [47] Muitos se defendem dizendo que não foi a Igreja que queimou bruxas e hereges e sim o braço secular. Todavia, naquele tempo, na Europa, sem princípios laicos, Estados e Igreja estavam de mãos dadas.

 

·         No século XVIII, surgiu, pela Europa, a onda do regalismo (intervenção dos reis em questões religiosas). Eles queriam fazer da igreja uma espécie de serviço público controlado pela administração do reino. [48], [49] Luiz XIV fez isso na França e ficou conhecido como galicismo. Na região da Alemanha, houve o febronianismo de Febrônio, apelido do bispo João Nicolau, que era auxiliar do bispo eleitor Tréveris e que defendia essa idéia. [50] Na Áustria, surgiu o josefismo. [51] O imperador Pedro, o Grande, na Rússia também fez o mesmo. Dessa forma, os cargos religiosos ficaram nas mãos dos poderes imperiais e viraram alvo de disputa das aristocracias. [52]

 

·         No século XV, Portugal e Espanha invadiram os mares descobrindo novos continentes e ilhas. [53] Em 1481, o papa Sisto IV, através de uma bula, garantiu a Portugal todas as terras descobertas e a serem descobertas ao sul das Ilhas Canárias, na África. Em 1493, o papa Alexandre VI publicou as bulas alexandrinas, dividindo as novas terras descobertas do mundo entre Portugal e Espanha. No ano seguinte, essas bulas deram origem ao Tratado de Tordesilhas, dando a Portugal e a Espanha as novas terras descobertas. O mundo foi dividido com uma linha imaginária. O lado Oeste ficou para Espanha, e o Leste para Portugal. [54]

 

Por causa da interferência religiosa nos assuntos internos das nações, surgiram movimentos anticlericais em vários lugares, inclusive na Itália, sede da Igreja Romana. Mas ainda podemos ver o Estado e a religião sofrendo interferências um do outro. Em diversos países, incluindo o Brasil, por exemplo, as escolas ensinavam a religião, geralmente voltada para o catolicismo. Em muitas instituições do Estado, é comum ver Bíblias, crucifixos e outros elementos religiosos, demonstrando certa preferência religiosa.

 

Em muitos países, ainda temos religiões oficiais recebendo tratamento especial dos governos. Isso fere a liberdade religiosa dos povos. Ninguém deve usar os poderes políticos de uma nação para impor uma crença religiosa. Nenhum país deve dar tratamento especial para nenhum grupo religioso. Toda religião tem o direito de criticar os erros do Estado. Mas não pode interferir na sua administração. Da mesma forma, o Estado não pode se meter nos assuntos religiosos. A justiça deve punir as religiões que venham causar danos aos outros e ao meio ambiente. Mas nenhuma autoridade laica pode se meter nas doutrinas religiosas, como fez o imperador Constantino. O serviço público não pode beneficiar nenhuma religião em detrimento das outras. Nenhum grupo religioso pode ter privilégios exclusivos e nenhum pode ser colocado em segundo plano. Por outro lado, nenhum religioso deve exigir que uma nação seja conduzida de acordo com as suas crenças e doutrinas. Nenhuma unidade política deve ser anti-religiosa, mas nenhuma deve estar intimamente ligada a um grupo religioso. Não precisamos ser contra a cruz, entretanto, não somos mais a Terra de Santa Cruz, mas Brasil, um país de inúmeras crenças. Vamos defender uma nação realmente laica para que haja uma verdadeira liberdade religiosa para todos.

 

Autor: Maralvestos Tovesmar. Este texto está disponível nos termos da licença CC BY-NC-ND. Pode ser copiado e distribuído, informando o autor e o link seguinte, mas não pode ser modificado e nem comercializado. Data: 2013. Veja outras mensagens em http://livresdosfardosreligiosos.blogspot.com.br